segunda-feira, 14 de março de 2011

PRIMEIRO LEITOR, DEPOIS ESCRITOR

Por Danilo Kossoski, in "Caderno Urbe", Jornal da Manhã, 13 de março de 2011.

"Diante do computador em que normalmente trabalha, o escritor Miguel Sanches Neto falou a respeito de seu novo livro de contos. Então você quer ser escritor?, lançado pela Editora Record (2011), reúne textos escritos nos últimos oito anos. Na biblioteca de janelas altas que fica nos fundos de sua casa, o autor tratou do conto “Árvores Submersas”, do desenvolvimento da atividade de escritor e do processo de criação."

Jornal da Manhã: Oito anos até a publicação deste seu novo livro. Isso é muito ou é pouco tempo para um escritor?

Miguel Sanches Neto: É meio difícil falar com precisão sobre a média de tempo para se produzir um livro de contos. “Árvores Submersas”, o conto mais longo do volume, foi escrito em três dias de viagem. Outros eu escrevi numa tarde.

JM: Você leva um notebook para escrever nas viagens?

Sanches Neto: Levo cadernos [retira cadernos da gaveta, exibe os manuscritos]. Esse aqui é o conto “Árvores Submersas”... Eu fui escrevendo no caderno. Quando não estou em viagem, escrevo direto no computador. O manuscrito tem uma grande vantagem em relação à escrita digital: você, ao passar a limpo, modifica totalmente o texto. Escrevendo direto no computador, há uma tendência de modificar menos. Quando você trabalha com manuscrito, você corta páginas inteiras, muda frases, altera a história. O trabalho de revisão acaba sendo muito mais intenso.

JM: De que forma você prepara o material nessas ‘coletâneas’?

Sanches Neto: O que acontece com contos é que há uma demanda por parte das editoras. Por exemplo, a Editora Record fez um livro em homenagem aos 100 anos de morte de Machado de Assis e me encomendou um texto que dialogasse com um conto do autor chamado “Umas Férias”. Então escrevi sob encomenda “O tamanho do mundo”. Iguais a este caso, há muitos outros. Com isso, os contos vão se acumulando na gaveta, até o momento em que percebo que há um livro ali. Pego então esse conjunto, faço uma seleção rigorosa e tento dar uma unidade ao material.

JM: Você transita bastante entre realidade e ficção. De que forma isso acontece em seus textos?

Sanches Neto: O escritor é um ser atento a tudo, que sempre observa algo na realidade que o marca. No “Árvores Submersas”, por exemplo, eu  tinha ido a uma cidade ao lado de Marechal Cândido Rondon, chamada Pato Bragado. Lá eu vi um artista que trabalhava com restos de árvores do lago de Itaipu. Foi uma experiência muito forte. A pessoa anda sob as esculturas que compõem ruínas de um mundo depois do apocalipse, como se aquelas árvores secas dispostas com os galhos para baixo fossem restos ou ossos de animais pré-históricos. E não tinha intenção de escrever nada sobre isso. Mas aí estou criando um conto e vejo que esta experiência pode ser usada na narrativa. É dessa forma, como locação, que aproveito situações vividas, mas o conto é sempre o império da imaginação. Algumas [histórias] se passam em Curitiba ou Peabiru [onde o autor viveu boa parte de sua infância], ou em lugares não definidos que podem ser Ponta Grossa ou outro local. Mas não há uma preocupação sobre os lugares reais que vão aparecer nos livros nem sobre as situações. Isso vai se acumulando também. “Árvores Submersas” é uma mistura de muitos espaços. É sobre um poeta que resolve viver isolado em um quarto sem luz, e um escritor que vai visitá-lo. A história se passa em Marechal Cândido Rondon. Mas não existe esse poeta lá, nunca existiu. É totalmente ficcional.

JM: Como escolher o que ler, em um mundo com tanta coisa para ser lida?

Sanches Neto: É um problema sério, principalmente para mim.  Recebo livro com as procedências mais variadas. Desde o livro do teu amigo que você é obrigado a dar um retorno, lançamentos importantes que não se pode ignorar, ou diretamente da editora e ou ainda do jornal onde resenho livros. Com a globalização, nós nos tornamos leitores da produção contemporânea do mundo, pois há uma imensidade de livros traduzidos. O que me toma mais tempo hoje não é escrever, é ler. E acho isso muito bom. A gente tem que ser primeiro leitor, depois escritor.

JM: O que mudou entre o Miguel Sanches Neto de hoje e o de dez anos atrás?

Sanches Neto: Mudou principalmente o domínio técnico sobre a escrita. De 2000 (quando foi escrito Chove Sobre Minha Infância) até agora foram mais três romances, um livro contos, dois de crônicas, obras infanto-juvenis. E, a cada livro, pressupõe-se que o autor esteja um pouquinho melhor. Você foca mais as suas opções. No começo de minha produção eu me vejo mais dispersivo. Hoje se definiu bem que minha preocupação é o descompasso entre passado e presente, entre cidades pequenas com o mundo globalizado. Quase todos os personagens têm esse conflito. Querem pertencer a um espaço, a uma história, e não conseguem se encontrar. Isso ficou bem claro nos últimos anos.

JM: A internet é algo bom para a literatura, ou algo que prejudica?

Sanches Neto: Sou usuário militante da internet e um defensor dela. Sempre tive blog e agora mantenho uma página ativa no Twitter. Hoje, com cada vez menos espaço para divulgar livros na mídia, passamos por uma ditadura do entretenimento. O espaço da cultura é dominado, principalmente, pela música e pelo cinema norte-americanos e seus produtos periféricos. Neste contexto padronizador, o Twitter e o blog têm sido um espaço de divulgação da cultura de resistência, de livros que passam ao largo do noticiário cultural. Leitores fazem crítica no Twitter e no blog. A cada livro lançado aumentam as críticas na internet e diminuem nos jornais. Para o autor nacional, a situação é ainda mais grave, pois aumentou o número de escritores – pelas facilidades de publicação –, e isso é uma coisa culturalmente boa, e estes livros ainda têm que desputar espaço com uma publicação monstruosa de traduções. Então, a internet pode dar vazão a comentários sobre estas obras que não entram no grande circuito. Além disso, ela é um espaço de diálogo com novos talentos – tenho contato com leitores que escrevem muito bem. O Twitter criou ainda uma ecologia digital, você opta se quer ou não acompanhar uma pessoa, criando assim um pequeno ecossistema cultural.

JM: Qual foi seu texto mais polêmico até hoje?

Sanches Neto: O Chá das cinco com o vampiro deu mais polêmica. Eu sabia que ia dar. Ele ficou guardado durante oito anos e chegou a um ponto em que já tinha gerado tanta polêmica antes de eu o ter publicado que resolvi soltar o livro e tocar a vida pra frente. Não tenho intenção de fazer nenhum outro livro tão polêmico, pois a polêmica gera leituras erradas. Ele foi lido como briga entre dois escritores e, na verdade, é uma ficção que não quer ser biografia nem julgar ninguém. Só contar a história de um jovem que sai do interior e se relaciona com o meio literário e tem destruídas as suas ilusões. Por conta deste livro, fui xingado, e tratado de oportunista. Mas eu sabia deste risco desde o início. Ele pertence a um momento da minha vida. Eu o escrevi entre 2001 e 2002, quando comecei a circular no meio literário. Vindo do interior, você idealiza a vida literária, acha que é um lugar de pessoas especiais, preocupadas com a cultura. Quando você vê que, na verdade, há todo um jogo de poder e destruição do outro, sofre um abalo. Escrevi Chá das cinco com o vampiro sob o impacto desta descoberta.

JM: Você é bastante influenciado pela opinião dos outros?

Sanches Neto: Tento não ser, mas é difícil. Quando você lê uma matéria dizendo que você é oportunista e que está publicando um livro pra ganhar dinheiro, bem, e este é um julgamento que você não merece, e que acaba sendo a opinião geral das pessoas, há uma injustiça que afeta profundamente qualquer um. O momento da publicação do livro foi um período muito ruim de minha vida. Nos três meses após o lançamento do vampiro, assim que tocava o telefone de casa o meu coração disparava.

JM: De que forma você encara os prêmios que conquista?

Sanches Neto: Os prêmios são importantes para o livro, para que tenha vida editorial mais longa. Eu não sou pessoa que busca nem que nega prêmios. O prêmio cria um fato noticioso que dá sobrevida àquela obra e uma obra sem um mínimo de mídia hoje está fadada a desaparecer. Mas prêmios não podem criar presunção no autor. A pessoa tem que saber que todo livro é o primeiro. Não é porque escreveu 20 livros que alguém domina todas as técnicas. O meu prêmio mais importante, o Cruz e Souza, foi bom para minha auto-estima, pois o júri era bastante conceituado (Ítalo Moriconi, Flora Süssekind, Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony e Luiz Vilela) e o dinheiro graúdo. Esta biblioteca, por exemplo, eu construí com o dinheiro do prêmio.

JM: Como você avaliou o fato de o Concurso Nacional de Contos, em Ponta Grossa, levar seu nome neste ano?

Sanches Neto: Fiquei surpreso. Soube que foi sugestão de alguns escritores da cidade. Pra mim, é uma honra. É uma espécie de cidadania cultural que recebo da comunidade onde escolhi viver. Vi a modificação do perfil da cidade de Ponta Grossa nos últimos 17 anos. Novos cursos da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), a criação da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e das universidades e faculdades particulares, a abertura de clínicas médicas etc. Tudo isso traz para cá gente de outros lugares que passam a divulgar a cidade. Temos pesquisadores renomados que, quando vão para a Europa, dão projeção a ela. Eu me incluo entre as pessoas que, mesmo não sendo daqui, ajudam a divulgar Ponta Grossa. Ter meu nome ligado ao concurso é um reconhecimento disso.


Raio-X
Miguel Sanches Neto é professor de Literatura Brasileira, doutor em Teoria Literária, escritor e crítico literário. Nascido em Bela Vista do Paraíso (PR) e vive em Ponta Grossa há 17 anos, tempo em que mantém uma coluna no jornal Gazeta do Povo. Levanta todos os dias às cinco da manhã e ocupa a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Quase não vê televisão, não acompanha jogos de futebol, nada sabe sobre o recente Carnaval. É um defensor da internet e um amante da literatura.

2 comentários:

  1. Alex Martini Brasil14 de março de 2011 15:14

    O respeito com que Miguel trata seus leitores confirma o homem simples, profundo e sensível que está sempre presente em suas obras.

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  2. Oi, Alex. Assumir o blog é assumir este diálogo, criando pistas de mão dupla. Não é fácil, mas tento.
    Abraço do
    msn

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