terça-feira, 8 de março de 2011

A QUE MUNDO PERTENCEMOS?


Entrevista a Evângelo Gasos
sobre o volume de contos ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR? (Record, 2011)


Você abre esse livro com uma citação de Nietzsche que diz “Para haver arte, para haver alguma contemplação estética, é indispensável uma precondição fisiológica: a embriaguez”. Qual é o motor e que tipo de embriaguez te move para o processo de criação da sua obra?

É a embriaguez da percepção. Escrevo apenas em uma temperatura acima do normal, tentando compreender as coisas pelo corpo, pelo sensorial. Não faço uma literatura racional, embora pense muito no que esteja sentindo, como diz Fernando Pessoa no poema Inconsciência: “o que em mim sente está pensando”.

Dos 16 contos do livro, alguns já foram publicados em outros meios, o que significa que você possui uma produção constante deste gênero literário, além de ser autor de diversos romances, poemas e críticas literárias. Qual a sua relação com a produção de contos comparada a essas outras modalidades? Por que o conto é necessário pra você?

Cada forma literária permite intervenções próprias. Sou um escritor multitarefa – não acho que isso seja nem uma qualidade nem um defeito, apenas uma forma de ser. Para mim, o conto funciona como um espaço de intensidade dentro da prosa. A crônica, gênero que também pratico, apresenta a vantagem de dizer as coisas sem que o autor se leve muito a sério. O romance é um estudo em amplitude de um determinado universo. Já o conto é o mundo visto numa situação de tensão. Sem isso não há conto. O romance tem momentos de tensão, mas ele é, como formato, distensão. A crônica é cavalgar com a rédea solta. Então, ao escrever um conto, tentamos captar a vida num momento emblemático. Num conto, tudo flui para aquele instante-chave. Ao intensificar ainda mais a escrita chegamos ao poema.

Apesar de algumas histórias possuírem aproximações quanto ao tema da escrita, nem todos os contos desse livro falam diretamente sobre esse assunto, entretanto é possível enxergar alguns elementos constantes, como a relação com a memória, a morte e a materia. Existe um sentimento que une todos os contos? Que grande marca possuem os personagens desses contos?

Acho que talvez seja a crise da noção de pertencimento. Os personagens querem pertencer a algo, mas não conseguem. Este querer lhes dá uma força. Esta impossibilidade faz com que eles sofram uma paralisia. A que mundo pertencemos? Talvez esta seja a grande pergunta que eles se façam. Ao passado, pela memória? Mas a memória é um espelho mentiroso. Ao agora, pela matéria? Mas a matéria é tão inconstante. Meus personagens caminham para a morte sem saber lidar com o lugar que eles ocupam. São seres desenraizados. Mas que sonham com raízes.

No conto homônimo ao livro “Então você quer ser escritor?” podemos compartilhar uma visão muito específica de um pensamento crítico acerca da produção literária atual, através do personagem que leciona numa oficina literária. O Miguel Sanches Neto é o protagonista dessa história? Como você caracteriza a presença da autobiografia e da ficcionalização dos acontecimentos na sua escrita?

Tudo é ficção quando o autor propõe um pacto ficcional, um contrato de leitura em que ele quer ser lido como ficção. O narrador do conto-título é um homem sozinho, incapaz de amar. Esta sua incapacidade para o amor se estende para a sua incapacidade de admirar a literatura de seus contemporâneos. Ele confunde tudo. É um equivocado. Pensa amar uma mulher apenas depois de tê-la rejeitado vergonhosamente. Mas ele não sabe o que ama. É um personagem dolorosamente cínico. Não gostaria de encarnar neste personagem.  

No conto “Árvores submersas”, existe uma oposição interessante entre  dois personagens: Marlus - que vive um eterno desejo de iniciar a escrita de um romance – e Último – poeta que escreve compulsivamente a ponto de não mais conseguir escoar sua produção. Ele vive para produzir, em busca do poema definitivo. O que você considera uma busca legítima para um escritor e quais são as dificuldades encontradas para tornar possível uma realização através da escrita?

Marlus precisa acreditar na literatura como dádiva. Vai em busca de um poeta que renunciou a tudo para ser quem ele era – um cultor da linguagem. Mas Marlus é fraco e se apaixona pela jovem mulher do poeta recluso. Há um contraste, neste conto, que é o meu preferido, entre ser cerne e não se deixar apodrecer, mesmo nas condições mais insalubres, e ser esta matéria frágil de que somos feitos. Eu gostaria de ser o poeta Último, trancado num quarto escuro, conversando solitariamente com as sombras. Escrever é, em boa medida, ter esta vida secreta, esta existência de fantasma.

A presença das crianças e do olhar a partir de seus pontos de vista também fazem parte dessa obra em contos como “O tamanho do mundo” e “Manga verde com sal”, demonstrando uma profunda sensibilidade sua em relação a esta idade. Seu primeiro romance chama-se “Chove sobre minha infância” (ed. Record). Como foi a sua experiência com o mundo quando você era criança e qual o seu interesse em retomar temas que tratem desta etapa da vida?

Eu me interesso muito pelo olhar da criança porque ele é desarmado. E nela estão todas as dores humanas. Achamos que as crianças não sofrem, que elas vivem uma realidade à parte, que são a realização da felicidade terrena. Tudo isso é uma projeção psicológica de adultos frustrados. As crianças olham o mundo com dor. E a dor é imensa porque eles fazem uma descoberta súbita dela. Interessa-me este instante de desvelamento da crueldade do mundo. Uma crueldade ainda não compreendida, mas sentida profundamente.

Em “Na minha idade”, o personagem culpa a esposa por sua indisposição para a escrita. Ele diz: “Existem escritores incapazes de produzir um simples artigo. Eu pertencia a este grupo para quem as ideias são tantas que não há como escolher uma delas”. Existe uma situação ideal para escrever?

Não, a situação ideal seria não escrever. Mas não suportamos não escrever. Então, todos nos cobramos uma obra, um livro, ao menos um artigo. O insuportável é esta cobrança interior, que faz com que criemos culpados – tal como diz Sartre em Entre quatro paredes, “o inferno são os outros”. Este narrador culpa o outro, mas na verdade ele não tinha vivido nada intenso para poder escrever. Só ao sofrer um estranhamento ele se faz escritor de um primeiro conto. Vamos ver como ele vai se sair daí para frente.

“Uma cidade que valoriza mais o cemitério do que as casas ou a praça é um lugar que está mesmo desaparecendo”. Estas são algumas palavras do conto “O ultimo abraço”, que apresenta Neuza, uma “mãe que já chorou centenas de mortes dos três filhos, por isso vive com a casa em luto”. O interesse por aquilo que se perdeu seria assumidamente uma constante no seu trabalho? Por que?

Porque é com o que vamos perdendo que podemos construir uma imagem precária de quem somos. Eu não sou este corpo que se faz presente hoje. Eu sou na verdade a soma de tudo o que perdi. Sou apenas um vazio, um cemitério carregando meus mortos – alguns que ainda nem morreram.

“Não existe maior liberdade do que a do historiador”. Há presente nesse livro um conto que se chama “Duas palavras” e que se trata de notas de um soldado que vai a combate para lutar na Guerra do Paraguai. Qual a sua relação com o romance histórico?

Tudo é construção narrativa. O historiador, por trabalhar pretensamente com o factual, tem muito mais liberdade do que o ficcionista, que trabalha com os possíveis históricos. Assim, o romance histórico, desvalorizado nesta corrida de 100 metros que é modernidade, é uma chance para que o ficcionista se aproxime do factual para ordená-lo de forma diferente. No romance histórico, a mentira literária tem um valor de verdade. É um travestimento, apenas isso. Toda a literatura pertence ao tempo em que foi escrita. 

Você é adepto dos novos meios de comunicação na rede, possuindo uma grande frequencia de “postagens” no Twitter, que se caracteriza basicamente pelo envio de mensagens breves.  Em seu blog (www.herdandoumabiblioteca.blogspot.com), há um poema cujo título é ESCREVER CONTOS e que, num determinado trecho, diz: “Não escreva contos/com palavras eruditas./Conto é linguagem viva,/a mesma usada no bar,/na hora do namoro,/no balcão da padaria./Palavras do dia-a-dia”. Como essas novas ferramentas da comunicação vêm transformando a relação do escritor com a sua obra e, ainda, com os seus leitores?

Pelas redes sociais, o escritor é leitor de seus leitores. Isso é fascinante. Eu poder ler quem me lê, conversar com ele, saber que achou isso ou aquilo de meu livro, mas também tentar acompanhar a produção deste outro. O blog fez com que houvesse uma indistinção entre autor e leitor. Todos são escritores. Todos são leitores. Eu tento me comunicar com quem tem algo para dizer e tenho encontrado leitores extremamente criativos e que são melhores do que muitos que se julgam autores propriamente ditos. A relação escrita-leitura adquiriu a proximidade de uma conversa num balcão de padaria.

Este ano você é o escritor homenageado no Concurso Nacional de Contos que acontece no município de Ponta Grossa, no Paraná. Que conselhos e incentivos você daria para novos contistas?

Não escreva para agradar ninguém. Principalmente não escreva para agradar a si próprio.

Quais são seus projetos futuros no campo da literatura? Alguma nova publicação em vista?

Estou trabalhando num romance contemporâneo que se passa nas décadas de 1860/70, mas que será classificado (ai de mim!) como um romance histórico.

3 comentários:

  1. gostei do tema do romance q está trabalhando. beijos, pedrita

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  2. Essa possibilidade da aproximação trazida pelo blog nos permite sentir o escritor como um ser real, próximo, quase tangível. Talvez por isso mesmo, nos leva (a mim, pelo menos) a sentir sua obra de uma forma absolutamente inédita, mais intensa, nunca antes experimentada, especialmente considerando que, infelizmente, nas padarias que frequentei na vida nunca encontrei escritores de quem pudesse ouvir algo.

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  3. Oi, Alex

    O blog é o nosso balcão de padaria, nossa mesa de bar. Este diálogo é fundamental para quem vivo no toca, como é o meu caso.
    Grato pela conversa.
    msn

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