Caro Miguel,
Após alguns anos sem acompanhar seus lançamentos – mil razões: nenhuma razoável −, soube da polêmica em torno do Chá das cinco..., que me despertou, confesso, sentimentos contraditórios, entre a atração e a rejeição. Acabou vencendo o primeiro grupo, para minha felicidade.
Lendo, reencontrei a escrita que me cativara em Hóspede Secreto, num romance sobre literatura e amizade, sobre crescimento e desilusão, e também sobre Curitiba. Quanto a esta última, que conheci recentemente, confesso também que me coube a carapuça (ou barrete) do turco Akel − já que não conheço nem a capital do Uruguai e me deslumbrei com parques, largo da Ordem, Alto da XV etc. Meu olhar de turista, contudo, tem seu lado triste: por aqui, em Salvador, quiséramos nós que houvesse um terço da “maquiagem” daí, nós que estamos mais para a mulher preta que se derrete – nesta cidade que já foi bela e convivial e que não existe mais.
Voltando ao livro, minha terceira confissão é que desisti de julgar o autor, com quem mantive alguma correspondência afetuosa, e que estará sempre num cantinho curitibano, ajardinado e agradável, de minha memória. E, além do mais, que posso saber do ethos de um meio literário tão distante? Nem do de Salvador eu entendo... Assim passei ao livro, um romance que me devolveu, grande surpresa, o contista Miguel Sanches Neto.
Ora, para o meu mundo, que continua precisando do conto, eis a primavera. Trevisan − o grande, o mínimo −, que me perdoe: os capítulos de Chá das cinco..., do jeito que foram escritos, são uma grande homenagem ao gênero a que ele tanto se dedicou e do qual é mestre. E não me refiro aqui aos contos de Beto, intercalados na narrativa: falo dos capítulos mesmos. Enquanto eu lia o romance, minha esposa, leitora esporádica mas exigente, comentou o seguinte: “Esse livro que você está lendo, eu pego às vezes, leio um capítulo fora de ordem, é ótimo!” E então eu percebi que ela estava tendo a mesma impressão que eu, que seguia a sequência: não exatamente pelo mosaico temporal, mas pela própria unidade de cada capítulo, mais ou menos fechada e com certa independência, o romance joga com a estrutura do conto − assim como há livros de contos que jogam com a estrutura clássica do romance. Eis a primavera.
E tanta coisa mais, muito forte. As passagens sobre crítica literária e o personagem Valter Marcondes, que seria (será?) Wilson Martins me parecem especialmente significativos, porque representam literariamente o último bastião de um modo de fazer crítica; nesse sentido, a saída de Beto do jornal me soa alegórica. E o grande fazedor de imagens que você continua sendo, quando compara certo aroma líquido ao de grama recém-cortada. Há, também, aquela cena de excitação em que se deduz, após um “Safado!” dito pela amante, a alteração de seu companheiro. E olha que estamos num tempo em que as imagens (assim dizem!) dominam... Mas não para Beto, avesso a cinemas e teatros.
O trio de mãe doceira, pai alcoólatra e tia intelectual-de-província é muito bem resolvido. O retorno, ao final, a Peabiru, é um retorno temático: o retorno de Miguel Sanches Neto ao tema do retorno, que já vinha lá no Hóspede. Nuvens de poeira e andar na direção contrária – belo desfecho.
Enfim, uma última confissão: às vezes me assalta a desconfiança de que Dalton não esteja tão aborrecido assim. De que seria algo como um blefe a mais, do contista e do romancista – do romancista-contista e do contista-romancista, poderia dizer. E que os moldes de Beto e Trentini ainda tomem seu chá por aí.
Tomara.
Grande abraço,
Wladimir Saldanha.
0 comentários:
Postar um comentário