sexta-feira, 8 de abril de 2011

AMANHECENDO


Todos me aconselharam a ficar na praia de Boa Viagem nesta primeira visita à cidade do Recife.
Recusei-me.
Queria os atrativos do arruado da ribeira do mar dos arrecifes dos navios.
E me hospedei no poema do ex-menino Manuel Bandeira, num hotel às margens do Rio das Capivaras – Capibaribe.
E é o sol que me acorda pontualmente às cinco horas, invadindo meu quarto na Rua da Aurora.
E quando cruzo as pontes, de manhã ou à tarde, vejo, movendo-se nas águas verdes, cardumes de copos de plástico ou de marmitas de alumínio, reluzentes.
As casas velhas se aglomeraram e um povo ruidoso come nas ruas, marmitas nas mãos, pois o antigo fausto se foi.
Melhor dizendo, mudou de endereço. O trânsito intenso no sentido dos bairros a cada fim de expediente.
Ontem, um amigo me convidou para ver o pôr do sol da sacada de seu prédio. Era longe; cheguei anoitecendo.
Penso: estamos sempre anoitecendo agora.
Não para quem vive, mesmo que de forma provisória, na Rua da Aurora.
São três horas da madrugada. O que em mim escreve aguarda.

1 comentários:

  1. Seus textos estão profundamente intimistas, Miguel; eu gosto muito. Eles revelam o efeito das leituras feitas ao longo da vida e nos levam nessa viagem sem hora marcada com as palavras compartilhadas.

    Que as alegrias da viagem sejam maiores que os naturais desencantos com a realidade.

    Receba o meu abraço.

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