terça-feira, 26 de abril de 2011

PEQUENO TRATADO SOBRE BOTÕES

Crônica publicada na Revista D'Pontaponta, n. 186, abril de 2011.


– Essas máquinas deixam as pontas dos fios soltos – ela diz assim que compro alguma camisa.

E, então, vai até o armário, pega sua caixinha de costura e retira carretéis de linhas, escolhendo a mais aproximada, agulhas e uma ferramenta que parece um tridente pequeno, mas com dois dentes, um mais curto que o outro, e começa a tirar os botões. Nos primeiros anos de casamento, ela apenas arrumava um ou outro botão em que a costura estivesse solta. Agora, arranca todos eles, até mesmo os das golas, e os prega de novo, com um cuidado e uma atenção que me incomodam. É como se estivesse fazendo uma coisa muito importante, como se ela fosse a costureira responsável pelas roupas de alguma celebridade.

Quando vou vestir a camisa nova, fica até difícil abotoar. Ela apertou tanto o botão que não há espaço suficiente para passá-lo pela casa.

Na parte interna da camisa, sinto o volume de linha e os nós bem dados. Reclamei que isso irrita minha pele, mas ela nem ouviu.

– Nenhum desses botões cairá.

Então ela me beija e pergunta onde vai ser a reunião, com que almoçarei ou jantarei, a que horas pode me ligar e mais não sei quantas coisas. Eu vou para a porta do apartamento, ela me acompanha; saio pelo corredor, ela ainda diz que esta gravata ficou bonita com a camisa nova; chamo o elevador, ela endireita o nó da gravata, e me beija de novo, dizendo que me ama.

Na hora de deixar a garagem do prédio, não olho para a janela do apartamento, mas tenho certeza de que ela está lá.

Contei isso para meus amigos e eles dizem que nosso casamento é assim tão intenso porque não tivemos filhos. Ela exerce a força maternal sobre a única pessoa que tem para cuidar. Reclamo que cansa ser amado dessa forma, como uma criança que sai sozinha pela primeira vez e tem que cruzar uma rodovia movimentada. Alguém me aconselha a dar um animal para ela. Um gato. Talvez um aquário com peixes.

Um de meus amigos, hipocondríaco profissional, fala que pode ser algum transtorno. E indica médicos e me receita controladores de ansiedade.

Com ela não comento nada.

Acostumei-se com as camisas e seus botões bem pregados. É verdade que machuco os dedos na hora de me vestir, ficando com a sensação de habitar uma camisa de forças.

Fora isso, minha mulher e eu vivemos em paz. Não me lembro de nenhuma briga. Ela fala pouco do seu passado, também não pergunta sobre o meu, mas acompanha o meu dia como se fosse a minha secretária.

Ontem, os amigos iam a uma festa de trabalho e acabei seduzido. Pensei em dizer para ela que chegaria tarde, mas resolvi desligar o celular. Jantamos, bebemos e dançamos. Em uma virada brusca, uma colega estava me ensinando uns passos de tango, o último botão de minha camisa enroscou no cinto dela e se soltou. Eu o vi rolando no chão, mas não tive coragem de me abaixar e pegar.

Quando cheguei em casa, minha mulher estava vendo tevê no quarto, as luzes acesas e os olhos fixos na tela. Tirei o paletó, soltei a gravata.

– Onde está o botão?

Ela se aproximou num salto e estudou a camisa. Havia um rasgado no lugar da linha. E a casa estava rompida.

Ela começou a chorar.

Hoje de manhã, procurei na caixa de costura dela um botão do mesmo modelo, mas não achei. Prometi passar em algum armarinho e comprar outro exatamente igual. Melhor: compraria um estoque de botões – de todas as cores e modelos. Ia aderir à mania de minha mulher.

Só que me esqueci disso durante um dia cheio de trabalho, voltando na hora de sempre. Assim que entrei em casa, ela falou:

– Antes de nos abandonar, meu pai começou a chegar das noitadas com a camisa sem um botão ou com botões frouxos.

Eu me sentei no sofá ao lado dela e apertei um beijo contra seus lábios inertes.

3 comentários:

  1. Os botões como sintetizadores metonímicos da relação do casal. Esta personagem Feminina, como tenho esbarrado com ela por aí... Mas não é isso que faz a boa crônica...Traz para o texto pessoas ainda vivas...?

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  2. Os botões...nunca entendi bem o porquê mas pregá-los na camisa do homem amado tem de fato conotação bem maior do que uma simples tarefa doméstica: é um afago, um chamego. Só que, como toda mulher, fico mais no encalço do colarinho. Nunca pensei nos botões. Eita que agora vem você e dá a ideia...
    Beijos, Vanessa.

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