Marcos Losnak, Caderno 2, Folha de Londrina, 19 de abril de 2011.
Chega uma hora em que o homem precisa olhar para baixo. Olhar para aquilo que existe sob seus pés. Olhar para suas raízes, sejam elas claras ou difusas.
Em algumas situações contemporâneas o sujeito olha para baixo e não encontra nada. Nada que faça a ligação entre os pés e a terra. Nada de raízes.
Em seu novo livro de contos, ''Então Você Quer Ser Escritor?'', o romancista Miguel Sanches Neto apresenta uma galeria de personagens sem nada sob os pés. Figuras desenraizadas que buscam algum ponto de ligação com o mundo. Algum fiapo de raízes. E nada encontram.
Lançado pela editora Record, a obra reúne 16 contos. Alguns inéditos e outros publicados originalmente em coletâneas e revistas literárias. Mesmo abordando temas variados, é possível identificar elementos de confluência em algumas das narrativas.
O primeiro ponto de confluência seria a história de figuras desenraizadas em busca de alguma coisa chamada terra. Personagens que, caminhando a esmo, procuram algo que não possuem, algo que precisa ser criado, algo bem próximo do impossível.
Um dos melhores exemplos está no conto ''Não Comerás Carne'', que narra o reencontro entre dois irmãos após anos de distanciamento. Filhos de um açougueiro durão, passaram a infância fugindo do pai e se protegendo na barra da saia da mãe. Alheios ao destino, ambos envelhecem na solidão, na esquisitice do desamparo. Nesse contexto criam um mundo próprio onde podem experimentar a sensação de alguma coisa sob os pés.
A infância também é tema de algumas histórias de Miguel Sanches Neto. Não propriamente a infância romântica, mas a infância que inaugura o sentimento de dor e a sensação de inadaptação ao mundo. O assunto é bem resolvido em ''O Tamanho do Mundo'', ''Manga Verde Com Sal'' e ''Jogar Com os Mortos'', contos que revelam o instante em que a infância se rompe. O momento em que o elo é rompido com a dilatação do tempo. Como um raio que despenca do céu e, além de luz, traz o impacto e o choque.
Outro tema presente no livro é o universo da escritura. O conto ''Árvores Submersas'' aponta para a idéia de que o objetivo último do poeta seria a elevação da linguagem, a síntese. A busca da criação do poema definitivo, a máxima do verbo. Em ''Então Você Quer Ser Escritor?'' sugere a embriaguez como elemento crucial para a arte, um conceito oriundo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900). A embriaguez como estado de percepção. Um estado onde as coisas se revelam sem os filtros da racionalidade.
Em ''Então Você Quer Ser Escritor?'', terceiro livro de contos de Miguel Sanches Neto, é possível encontrar uma das características de sua literatura: a transição da vida rural para a vida urbana ocorrida no Paraná das últimas décadas. Não a transição geográfica ou física, mas a transição subjetiva. Algo semelhante ao que o escritor londrinense Domingos Pellegrini também traz em sua literatura. Essa transição não é encarada como conflito ou como ruptura, mas como uma busca afetiva de confluências. Como uma espécie de saudade do infinito.
Nascido em Bela Vista do Paraíso em 1965, Sanches Neto passou a infância em Peabiru e, em seguida, se transferiu para Curitiba. Atualmente reside em Ponta Grossa, onde atua como professor universitário. É autor dos romances ''Chove em Minha Infância'' (Record, 2002), ''Um Amor Anarquista'' (Record, 2005), ''A Primeira Mulher'' (Record, 2008) e ''Um Chá das Cinco Com o Vampiro'' (Objetiva, 2010).

Li o seu 'Amor Anarquista'
ResponderExcluirBoa história.
Esse seu novo tem um nome atraente
Quem sabe eu me interesse em lê-lo.
Mas a história dos anarquistas é boa, bem.
Legal descobrir que tens um blog e twitter, voltarei a passar por aqui.
Parabéns pelo Amor.
Prezado L. Augusto
ResponderExcluirBom que tenha gostado de Um amor anarquista.
Obrigado pelos comentários.
Abraço
msn