Por Ronaldo Cagiano, in Correio Braziliense, 21/05/2011.
No atual ambiente da literatura brasileira, a ficção parece cada vez mais (co) movida pelos interesses mercadológicos. A reboque disso, fluem obras que se movimentam para agradar a mídia e ao mercado e uma certa tendência no que diz respeito a uma linguagem pop, diluída ou contaminada pelos modismos ou subsidiária do lixo literário estrangeiro, que aqui chega com status de novidade e renovação.
Na contramão dessa corrente, e remando contra a maré de uma lógica editorial hegemônica e monopolista, encontramos raros autores preocupados com uma proposta literária ou um projeto ficcional definido, cuja obra seja capaz de estabelecer um diálogo estético e crítico,e também ético, com a realidade e não com as ondas do arrivismo literário.
Em Miguel Sanches Neto, premiado autor paranaense, alcançamos esse patamar em que a literatura é construída com paixão, aplicação e seriedade, sem firulas ou conveniências para agradar ao status quo ou às ditaduras intelectuais da academia ou dos cadernos culturais das imprensa monopolista e hegemônica. Começou uma trajetória segura e vitoriosa, ao vencer em 2003 o Prêmio Cruz e Sousa, do Governo de Santa Catarina, que o revelou para o mundo literário com os contos de “Hóspede Secreto”. É um livro de profunda sensibilidade poética, cujas histórias transmitem um olhar há muito perdido no momento atual de nossa ficção, que diz respeito ao resgate mítico do interior e dos pequenos dramas e acontecimentos domésticos, capturados com singeleza e sentimento de mundo, detido na carga de verdade e de violência que recolhemos em nossas experiências.
Em seu novo livro “Então você quer ser um escritor?” (Ed. Record, Rio, 2011, 224 pgs.), Sanches não se desvia dos temas que têm povoado sua obra, seja na poesia ou na prosa. Os dilemas humanos, as dores e conflitos amorosos, as perdas, a passagem do tempo, a morte, os questionamentos sociais e existenciais, os jogos de poder e sedução, as dúvidas e ambigüidades do sexo, a simbiose entre passado e presente, além de um olhar reflexivo e contundente sobre o mundo da criação – nada escapa ao seu observatório nos dezesseis contos que enfeixam a obra. O conto que dá título ao livro, paradigmático por excelência, é munido das preocupações do autor com o lugar do homem, da literatura e da arte nesse mundo de fetiches e estereótipos, etiquetado e banalizado. Na sombra desse nosso tempo repleto de desconforto, a prosa de Sanches, desde os primeiros livros, alimenta-se, com força vital, de um permanente embate com questões ligadas à nossa identidade, ao isolamento, à violência e ao confronto com situações e impasses desconcertantes, mercê da grandeza e desgraça de viver, algo que enriquece e contextualiza sua produção.
Autor, dentre outros, de “Chove sobre minha infância”, “A primeira mulher”, “Amor de menino” e “Um amor anarquista”, Miguel Sanches Neto reafirma nessa nova safra de histórias que nascem de uma interação entre a invenção e a memória, fruto de uma delicada observação do ser em seu quotidiano de grandezas, abjeções e misérias. Tudo confeccionado com uma sofisticação narrativa que deriva da habilidade e versatilidade em criar enredos, cenários, atmosferas e desfechos. Sua originalidade não se manifesta pela desconstrução do discurso tradicional, ainda que transite com grande facilidade por estruturas ou fronteiras narrativas distintas. Nos meandros de sua prosa, é nítido o apelo das raízes, da velha maneira de contar uma história, renovando-a na medida em que lança outras miradas, quando autor e personagem se reconhecem ao explorar a realidade histórica e humana. Nisto, resiste a palavra como cápsula de apreensão da consciência do mundo, onde há espaço para questionamentos, assombros, desilusões e é também a sua releitura a partir percepção das coisas; e também culmina deságua num realismo pungente, tanto pela força, densidade e psicologia dos personagens, quanto pelo universalismo dos temas, particularizadas por uma elegância de estilista, marcas que o colocam, sem favor algum e com inegável destaque, entre os melhores escritores de sua geração.
miguel, boa tarde, vou começar a ler um amor anarquista, a capa do livro já ilustra o meu blog no estou lendo. beijos, pedrita
ResponderExcluirOi, Pedrita
ResponderExcluiracho importante estas leituras em blogs, vou escrever um ensaio sobre isso que chamo de critica espontanea.
beijo
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