sábado, 4 de junho de 2011

DONOS DAS PALAVRAS

Publicado na Revista D'Pontaponta, maio de 2011.

Palavras circulam pela língua ao longo de gerações até que algum escritor se aproprie delas. A partir daquele momento, embora todos possam continuar usando-a (a lei de direitos autorais ainda não prevê essas sutilezas), ela pertence a um determinado escritor. Por exemplo, a palavra catatau pertence definitivamente ao Paulo Leminski, que a fixou no idioma por meio do título de um de seus livros.
Palavras que existiam apenas oralmente acabam ganhando status literário por meio deste processo. Foi o que fez Fernando Pessoa, sob a máscara de Álvaro de Campos, no “Poema em linha reta”, com a palavra porrada: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Por causa deste poema, dei o nome de Porrada a um personagem de meu romance A primeira mulher. Ele abre o seu programa policial (é um radialista) citando Álvaro de Campos, para evitar acusações de plágio.
Pois eu acreditava que a primeira entrada literária deste termo tivesse se dado neste poema que deve ser do fim da década de 1910 ou do começo da de 1920 – está no final da coletânea que reúne os textos de Álvaro de Campos de 1914-1922. Mas encontrei a palavra em Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Este livro de estréia de Lima Barreto, escrito em 1905, e só publicado em 1909, é um marco na mudança do uso da língua portuguesa no Brasil, que se manifesta ali em toda a sua espontaneidade, na riqueza da fala cotidiana. No Capítulo IX, em que o narrador revela as práticas jornalísticas, ele diz: “e se não saíra a ‘porrada’...”. Tratada como gíria, ela aparece ainda entre aspas, isolada do resto do idioma. É, portanto, Fernando Pessoa quem demarca literariamente esta palavra, descoberta para a literatura por Lima Barreto.
O processo acontece de forma idêntica com uma das palavras mais emblemáticas de Guimarães Rosa: nonada. É com ela que se inicia o único romance do autor. Uma palavra forte, que eu, ingenuamente, acreditava tratar-se de mera invenção. Para mim, ela significava uma junção da frase: não-foi-nada. “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” É uma abertura muito forte. A palavra inusitada com gosto de nonsense, o ponto final e a sintaxe torta da frase seguinte. O leitor sofre um estranhamento neste contato brusco com um termo para ele impenetrável.
Mas o termo não é novo. Rosa apenas o tirou da escuridão literária.
Nos últimos meses, trombei com duas manifestações desta palavra em leituras bem diversas. Em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862-1863), de Joaquim Manuel de Macedo, no primeiro parágrafo de “A capela e o recolhimento de Nossa Senhora do Parto”, ela faz uma aparição: “Ou César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que com esta injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome de João Fernandes um sinônimo de nonada”. Ou seja, de coisa sem crédito, sem valor.
A mesma palavra aparece no plural já no primeiro capítulo de O drama da Fazenda Fortaleza (1941), do historiador paranaense Davi Carneiro, um livro que retrata os Campos Gerais de Curitiba na década de 1820: “...só ninharias atrapalhavam o fio do raciocínio mais alto, como se por nonadas somente, a imaginação devesse deixar a atenção desviar-se”.
Sim, a palavra já estava fertilizando nossa literatura, ligada ao povo, quando Guimarães Rosa se apossou dela. Hoje, não há como usá-la sem pagar tributo ao autor. Será sempre uma citação, uma referência explícita a Grande sertão: veredas.
É pelas grandes obras que as palavras ganham sobrenome.

3 comentários:

  1. eu assisti dzi croquettes e hj muitas palavras q são usadas eles que criaram ou espalharam mais.

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  2. O que eu gosto de ouvir, também, é o nosso "dialeto" caipira. Um dia estava num banco, no centro de Colombo e um rapaz falou ao vigilante: "a porta ia travar, né? mod'a'chave". Não sei nem como escrever. Mas já vi várias pessoas usarem esse termo e outro, dentro dos mesmos contexto, o que para mim é uma característica de dialeto.

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  3. Interessante esse processo... Se não fossem as obras que ficam no tempo, talvez muitas palavras se extinguissem com seus falantes.

    Fiquei curioso e vi que nonada existe também em espanhol (nonada, coisa de valor insignificante) e até o italiano tem uma "nonulla" (= "bagattella", coisa de nenhuma importância).

    A referência a "mod'a" no comentário do colega me remeteu à palavra "prumodi", ou promode, mas esta, imagino, ainda não promovida à casa dos lordes.

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