Patrícia Moreira, Caderno2Mais, A Tarde (Salvador), 11 de junho de 2011.
A leitura começa com uma provocação: Então você quer ser escritor? Diante do livro, a indagação da capa fica ali, instigando o tempo todo, à medida que as páginas vão passando. Dos 16 contos da obra de Miguel Sanches Neto, o que carrega do título do livro é o último. Entre as primeiras e as últimas páginas, desfila uma galeria de personagens, cada um mais tocante do que o outro, até mesmo quando mergulhamos num mutismo e estranhamento diante do mundo. Mas o chamado da capa vai alinhavando a leitura e a cada conto se vai buscando a resposta: o livro prende do início ao fim.
Então você quer ser escritor? é o mais recente trabalho de Miguel Sanches Neto que acaba de ser lançado pela Record. Autor de obras como Chove Sobre Minha Infância (seu livro de estréia, de 2000), Um Amor Anarquista e ainda do polêmico Chá Das Cinco Com o Vampiro (Objetiva), Sanches Neto tem especial apreço pelo conto, gênero presente em outras coletâneas, a exemplo de Hóspede Secreto, que deu a ele o Prêmio Nacional Cruz e Sousa, em 2002.
Um dos melhores escritores de sua geração, o escritor paranaense de 45 anos, nascido na cidade de Bela Vista do Paraíso, ganhou as páginas da imprensa cultural no passado ao se envolver em uma polêmica, tendo como personagem central o escritor Dalton Trevisan.
A desavença girou em torno do livro Chá das Cinco com o Vampiro, seu quarto romance, no qual o protagonista, que quer ser ficcionista, aproxima-se de um mestre, retratado em detalhes e situações nada lisonjeiras. Trevisan reagiu com ataques ao jovem escritor, que tratou de se defender, criando um blog e justificando que sua obra precisava ser lida por uma outra ótica, e não como um romance construído a partir de uma história real.
A imprensa está repleta de personagens que ganham projeção ao se envolver em polêmicas. Mas, no caso dele, o entrevero com Trevisan foi apenas uma tempestade que passou. Sanches Neto, com pleno domínio da palavra e da forma, aos se expressar em narrativas tocantes, permanece.
MAESTRIA
Nos 16 contos da coletânea, o autor mostra que a convivência com Trevisan, um dos maiores contistas brasileiros, foi muito profícua. Com maestria, ele nos toma pela mão e nos insere no universo dos seus personagens, tornando-nos cúmplices deles desde o primeiro contato.
E aceitamos o pacto ao nos reconhecer nas situações ali descritas, coisas de gente simples, com vida simples e sentimentos conturbados, complexos, tais quais os que vamos experimentar ao longo da vida.
“O tamanho do mundo”, história do menino que vivencia, incrédulo, a experiência da morte do pai, é um drama doloroso. Em “Animal nojento”, o autor nos brinda com um conto de terror, reproduzindo uma tensão de tirar o fôlego, para em seguida nos surpreender com um final inusitado.
As experiências e memórias da infância, a solidão, as buscas e conflitos interiores, um mal-estar diante do mundo ou das pessoas fazem parte do leque de situações a que nos expõe Miguel Sanches Neto à medida que avançamos na leitura.
Os personagens de Sanches Neto são seres expatriados que se sentem desconfortáveis na própria pele ou diante do mundo. Mas estão longe de despertar pena ou algum sentimento do gênero. Em algum momento encontram a redenção, ou apenas seguem adiante mergulhados em suas dúvidas ou em busca de si próprios.
Eles estão sempre partindo, fugindo, ou voltando, como acontece em “Não comerás carne”, no qual dois irmãos se reencontram; ou em “Árvores submersas”, que relata o encontro inusitado entre um homem e uma mulher e a sua fuga de uma vida sem sentido. A partida e o encontro também se faz presente em “Vestindo meu avô”. Em “Então você quer ser escritor?” o autor nos confronta com as frustrações, os desejo reprimidos.
Em todos os contos nos reconhecemos. Somos cúmplices de histórias que bem poderiam ser nossas. Ao final de cada relato, ficamos comovidos.
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