Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 12 de junho de 2011.
Ao final da leitura de um livro de ficção, sempre nos perguntamos quais as intenções do autor e da obra? Quanto mais inusitados os episódios e a linguagem, mais nos questionamos sobre os sentidos de uma narrativa. Esse é o caso do romance O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa, que, a começar pelo título enigmático, desloca o leitor.
Recriando o Rio de Janeiro de 1913, Mussa inventa um ambiente em que as novas tecnologias e os comportamentos sexuais inovadores ganhavam espaço – é o alvorecer do mundo moderno nos trópicos. Há um médico polonês contemporâneo de Freud que estuda a sexualidade, e também técnicas recentes de investigação policial, como a análise das digitais. Com a ajuda da ciência, os policiais tentam resolver um crime: a morte de um político durante uma aventura amorosa.
Mussa simboliza todo este avanço na Casa das Trocas. Na antiga residência da Marquesa de Santos, cheia de mistérios e com um passado devasso, pois a dona fora amante de dom Pedro I, o médico Miroslav Zmuda mantém um consultório que esconde uma casa de encontros destinada à elite carioca. Enquanto mulheres e homens progressistas experimentam suas fantasias, o médico toma nota para desenvolver suas teorias sexuais.
Esse Brasil em modernização convive, no entanto, com um passado profundo, que vem das práticas mágicas do período pré-descoberta, reforçadas pela presença africana. É um mundo ambíguo. E essa ambiguidade (moderno/primitivo) está representada no personagem que faz as vezes de detetive no enredo policial: o perito Sebastião Baeta. Fruto de um caso entre um engenheiro de família tradicional de Minas e uma lavadeira negra, ele se torna funcionário da polícia, com especialização na Europa. Casado com uma mulher avançada, Guiomar, Baeta freqüenta a Casa das Trocas com ela, e também coleciona casos amorosos nos morros, pondo-se entre dois mundos sociais.
Durante suas investigações, ele começa a sentir a pressão desse pertencimento à cultura local. Duas figuras o levam de volta às suas origens: o mulato Aniceto e o macumbeiro Rufino. No contato com o universo esquerdo desses personagens, Baeta sofre uma contracolonização, rumo aos trópicos, às forças míticas. E o que era apenas um trabalho (descobrir o criminoso) se torna uma questão pessoal. Baeta e Aniceto entram em uma concorrência erótica para ser o maior conquistador da cidade. Nesta disputa, Aniceto leva vantagem porque tem um conhecimento a mais. Descobrir esse seu poder será resolver o crime. Aqui, o relato deixa de ser uma sequência lógica para entrar no domínio do místico.
Valendo-se da gramática do romance policial e do romance histórico, Alberto Mussa constrói uma narrativa sobre o mito. Enquanto narra peripécias detetivescas ou amorosas, pois se trata também de um romance erótico, ele insere verbetes sobre o Rio de Janeiro. Esses pequenos ensaios funcionam para suspender a narrativa, criando uma tensão erótica: o leitor tem de esperar pelo próximo episódio enquanto recebe informações sobre a cidade do Rio de Janeiro.
Escrito com uma minúcia matemática e uma abertura para as simbolizações, num diálogo entre o presente e o passado, O Senhor do Lado Esquerdo é uma síntese do Rio de Janeiro, espaço urbano e selvagem ao mesmo tempo, em que o sexo, a magia e o crime são manifestações de uma identidade que se soma ao progresso para modificá-lo.
Com este livro, Alberto Mussa atinge a estatura de um Mário de Andrade de Macunaíma.
Serviço
O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Record, 288 páginas,

Olá, Miguel! Vi a entrevista do Mussa ao Jô. Não li o livro. Não alcanço muito bem o sentido da ficção ‘fictícia por demais’. Não critico. Apenas não me dou muito a este gênero (tenho um déficit literário do tamanho de uma vida para correr atrás, só posso ir ao que me interessa mais).
ResponderExcluirO apelo ao erotismo está em alta na cena literária atual. Creio que jamais esteve em baixa, no entanto havia um puritanismo vigilante que hoje já não consegue censurar quem produza, ou mesmo consuma este material.
O autor conseguir mesclar uma narrativa policial a uma histórica, e ainda oferecer tantos elementos de grande complexidade, bem como informações sobre o Rio, é algo muito atraente. [sorrio]
Dizer que Alberto Mussa, com este livro, atingiu a estatura de um Mário de Andrade de Macunaíma é um ato de ousadia e coragem de sua parte, que certamente desperta muita atenção para esta obra.