Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 21 de agosto de 2011.
Ninguém suporta discursos. Até os mais curtos ainda são excessivamente longos. Ouvimos por educação, pensando em coisas mais interessantes. Mesmo como modalidade literária, ela está fadada a ser proscrita, pois a modernidade não aceita o otimismo, chave dessas falações públicas. É esta recusa que Gabriel Garcia Márquez busca no título do volume em que recolhe sua pequena produção oratória: Eu Não Vim Fazer Um Discurso, frase que aparece numa saudação escolar de 1944, já denunciando um autor avesso aos formalismos: “sempre considerei os discursos como o mais terrorífico dos compromissos humanos” (p.33).
Na vida de um grande escritor, como é o seu caso, estas são no entanto situações inevitáveis. Garcia Márquez foge, porém, da linguagem e da temática grandiloquentes, procurando pensar como escritor. Mesmo quando fala de assuntos mais técnicos, como no imperdível “Jornalismo: A Melhor Profissão do Mundo”, é sempre do ponto de vista do artista, valorizando nesta profissão a criatividade e a prática, em detrimento das formações teóricas. Assim, o que há de importante nesses discursos (produzidos entre 1944 e 2007) é a própria negação de uma gramática, evitando com isso o embalsamento da linguagem.
Embora soe um tanto obsoleta a sua defesa de Cuba, é possível compreender que ele não valoriza isoladamente um regime, mas toda a América Latina e o Caribe. Estas são as coordenadas de suas percepções. Ele recorda a vida de poetas, escritores e políticos da América Latina, mas principalmente se coloca num papel de contracolonizador, que avalia tudo a partir de sua localização cultural, positivando o que é tido como desprezível na Europa e nos Estados Unidos.
A permanência numa temporalidade medieval, criticada pelos defensores do progresso, é para este Prêmio Nobel de Literatura a nossa força: “A reserva determinante da América Latina e do Caribe é uma energia capaz de mover o mundo: a perigosa memória de nossos povos” (p.36). É esta energia que habita os seus livros altamente memorialísticos, levando nossa latitude periférica a uma situação de protagonismo: o número total de leitores de Cem Anos de Solidão seria equivalente a um dos 20 países mais populosos do planeta, o que demonstra que García Márquez fez de Macondo uma potência mundial.
O outro componente fundador de nossa cultura é a criatividade. Em uma época corrompida pela repetição industrial de temas e linguagens, de maneiras de ser e de olhar, e ao mesmo tempo obcecada em renovar-se continuamente, a nossa capacidade inventiva também tem um sentido revolucionário: “Entramos, pois, na era da América Latina, primeiro produtor mundial de imaginação criadora, a matéria mais rica e necessária do novo mundo” (p.53). Já não é apenas a riqueza material da América Latina que conta, mas também a nossa cultura.
A imaginação é tão intensa aqui que não permite que sejamos apreendidos a partir de traços fixos. Teríamos uma identidade móvel, em metamorfose, como se vivêssemos um eterno de princípio do mundo, numa dimensão temporal mítica: “Talvez o seu [da América Latina] destino edípico seja continuar procurando para sempre a sua identidade, o que será um sinal criativo que nos faria diferente do resto do mundo” (p.81). Enfim, somos a heterogeneidade em processo.
Para além do artificialismo desse tipo de texto, os discursos de Gabriel Garcia Márquez, no geral muito breves, podem ser lidos como a explicação não apenas de uma obra, mas do poder inventivo que nunca se deixa cristalizar, nem mesmo quando vestido com as roupas formais deste gênero.
Serviço:
Eu Não Vim Fazer Um Discurso, de Gabriel García Márquez. Tradução de Eric Nepomuceno. Record, 128 págs., R$ 19,90. Discursos.

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