domingo, 7 de agosto de 2011

ESCREVER É TIRAR UM OSSO DA GARGANTA

Guilherme Sobota e Yasmin Taketani, em Cândido n.1, agosto de 2011.


Miguel Sanches Neto ganhou notoriedade como romancista e crítico literário, escrevendo para algumas das principais publicações nacionais. Mas o escritor paranaense é daqueles escritores que jogam nas onze – vai do ensaio à crônica. Sua última empreitada é um passeio pelo conto, gênero que Miguel Sanches exercita com regularidade na imprensa. Várias histórias que compõe Então você quer ser escritor?, seu novo livro, foram publicadas originalmente em jornais e revistas.


A nova coletânea de contos é a reafirmação em um gênero que, para muitos críticos, vive uma espécie de crise, agravada por um suposto descaso do mercado editorial. “Escrever contos deve ser, antes de mais nada, uma necessidade. Se há este imperativo interior, devemos escrever contos, independentemente de questões de mercado ou de crítica”, diz o escritor, que esteve na Biblioteca Pública do Paraná, em maio, para ministrar uma oficina de contos.

Em Então você quer ser escritor?, Miguel Sanches lega ao leitor aquele efeito singular, misto de desconforto e êxtase, que Tchécov elencava como o grande atributo do conto. Em dezesseis textos, o autor despe o ser humano e o deixa à mercê de suas próprias incertezas. Algo como os escritores Raymond Carver e Julio Cortázar, dois dos contistas que descansam no altar literário de Miguel Sanches, fizeram como poucos.

Escritor com larga trajetória, Miguel Sanches revela por que, apesar de tantos obstáculos, o ser humano ainda persegue a escrita. “Porque há algo que nos coloca um osso na garganta. Escrever é tirar este osso. Então escrevo porque tenho muita facilidade para me engasgar com ossos”.

Apesar de sua convicção no conto, o grande livro que Miguel Sanches ambiciona escrever, aquele em que todas as facetas do escritor – contista, poeta, cronista, ensaísta – vão se revelar em um mesmo texto, é um romance. “Continuou escrevendo porque ainda persigo uma voz que seja minha, um texto que possa ser o resumo de todos, e ao mesmo tempo uma coisa maior do que todos juntos – como é o caso de Fogo morto, de José Lins do Rego, livro-síntese de sua obra. Este desejo de chegar a um grande livro me leva mais para o romance. Vejo o romance como uma confluência de todos os gêneros”.

Alguns editores aconselham novos autores a não publicar um livro de contos como primeira obra por não haver público para o gênero, e escritores sugerem que ele sirva como um “treino” para a profissão. O senhor concorda com estas indicações? Há, de fato, pouco espaço para o conto?

Escrever contos deve ser, antes de mais nada, uma necessidade. Se há este imperativo interior devemos escrever contos, independentemente de questões de mercado ou de crítica. Agora, de fato, o mercado é muito mais duro com o conto, a não ser com as antologias temáticas que têm espaço garantido. Parece que o leitor da era da internet se dispersa num volume com histórias muito variadas. Ele pode ler e gostar de um conto, mas não se concentra em uma seqüência de contos tão distintos. Para quem está começando a escrever, o conto funciona como exercício, agora é preciso saber se este exercício funciona como conto. Se funcionar, haverá sempre um lucro para o escritor e para a literatura.


Quais os contistas que o senhor considera fundamentais?

Toda lista é sempre injusta e mal consegue refletir um gosto pessoal. Mas se eu tivesse que escolher apenas três contistas que eu gostaria de ter no criado-mudo de meu quarto, eu escolheria: Isaac Bashevis Singer; Julio Cortázar e Raymond Carver. A minha estante de contista, no entanto, é imensa, e eu preciso desesperadamente de todos eles. Sou um leitor devoto dos contistas.

Qual o momento em que o senhor define quais contos devem compor uma obra? Eles precisam estar, de alguma forma, relacionados entre si?

Na maior parte das vezes, o volume de contos reflete a passagem do tempo. Depois de alguns anos sem publicar uma coletânea, mas produzindo um ou dois contos por ano, o escritor avalia o material disponível, elimina alguns e escolhe aqueles que funcionam num livro. No meu caso, eu gosto que os contos tenham temas, estruturas e linguagens variadas ou ao menos alternadas, para criar um ritmo de leitura não-monocórdio.

Durante sua trajetória literária, o senhor praticou vários gêneros (poesia, conto, romance, crônica, ensaio, crítica). O senhor pensa que encontrou a sua voz em todos eles? E, imaginando que todos se completam, e apesar disso, qual deles te proporciona o maior prazer, ou ainda, a maior realização da sua literatura?

Todo texto é sempre uma tentativa. Escrever em vários gêneros, são várias formas de tentar dizer algo. Continuo escrevendo porque ainda persigo uma voz que seja minha, um texto que possa ser o resumo de todos, e ao mesmo tempo uma coisa maior de que todos juntos – como é o caso de Fogo Morto, de José Lins do Rego, livro-síntese de sua obra. Este desejo de chegar a um grande livro me leva mais para o romance, mas um romance em que entrem os recursos da poesia, da crônica, do conto, do ensaio, dos diários etc. Vejo o romance como uma confluência de todos os gêneros.

Por parte da crítica, das editoras e do público, muitas vezes há uma cobrança para que, a cada livro, o escritor “melhore”. O senhor se faz essa cobrança? Errar, experimentar ou até mesmo escrever um livro ruim são aspectos importantes? Há espaço para o fracasso?

Na verdade, todo livro é um fracasso. Alguns são grandes fracassos. Do ponto de vista do escritor, o livro escrito está sempre aquém do livro imaginado. Então, quando vêm as críticas negativas, embora machuquem, elas são afagos perto das críticas interiores que fazemos. O escritor é um ser fadado a essa insatisfação crônica, que o leva a experimentar-se sempre. Aliás, todo bom livro é um livro experimental, na medida em que tentamos dizer algo pela primeira vez.

A sua formação acadêmica influenciou de maneira fundamental a sua literatura, ou o senhor pensa que é possível separar a academia da produção artística? Ao mesmo tempo, o senhor também é crítico literário: de que forma esta prática determinou o escritor que Miguel Sanches Neto é?

A formação universitária é importante desde que você não se deixe deformar por ela. Ela prepara melhor o seu olhar, ela clareia algumas questões, mas a arte precisa de um grau de obscuridade, de inconsciência, e o escritor nunca pode escrever como especialista em literatura. Tem que escrever com especialista em suas obsessões. A crítica literária militante me tira muito tempo, e isso é ruim, mas me coloca em contato com a produção contemporânea, e isso é muito bom. Sei mais ou menos para onde está indo, ou de onde está voltando, a literatura feita agora.

Recentemente, o crítico literário Alcir Pécora disse que a literatura brasileira de ficção passa por uma crise e que perdeu sua relevância. Um dos motivos, segundo Pécora, seria a “expansão das narrativas no cerne da própria existência”. Como o senhor vê esse pessimismo de parte da crítica?

Toda narrativa vem do cerne da própria existência. Não há outra maneira de fazer a coisa. E isso em si não é nem um defeito nem uma qualidade. O que conta é como você consegue transpor isso para a linguagem. É neste salto que está a grandeza ou a pequenez de um livro, seja explicitamente autoficcional ou estrategicamente distante do eu. Qualquer avaliação do conjunto da produção contemporânea é muito difícil. Jorge Luis Borges dizia que saberemos o que é a literatura de hoje daqui a 50 anos. E todo o período da modernidade é um período de crise. Se estamos em crise é um bom sinal. Parece-me que a literatura do século XIX não está em crise.

Duas de suas obras foram traduzidas para a língua espanhola. Qual foi a sua participação como autor, e o que o senhor achou do resultado? Nas traduções, de modo geral, perde-se, digamos, essência das obras?

Não tive nenhuma participação e não posso dizer nada dessas traduções. O que posso dizer é que hoje a literatura produzida no Brasil quer ser traduzida, quer se ver em outras línguas, e que isso traz um ganho de universalidade para as obras.

Na Oficina de Criação Literária da BPP, o senhor disse que “ninguém nos pede para escrever”. De onde parte, então, essa vontade (talvez incontrolável) de escrever? E mais além, para quem o senhor escreve?

Sim, ninguém nos pede para escrever um livro de ficção, e, ainda por cima, muitos nos pedem para parar – desde familiares até críticos. E por que continuamos? Porque há aquele imperativo interior. Algo que nos coloca um osso na garganta. Escrever é tirar este osso. Muitas vezes expelindo-o sobre a mesa posta para o jantar de confraternização, também conhecido como vida literária. Escrevo porque tenho muita facilidade para me engasgar com ossos.

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