sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ESCRITOR PARANAENSE NÃO PASSA NO VESTIBULAR

Crônica publicada na Gazeta do Povo de 27 de outubro de 2003


De quem é a responsabilidade de promover os autores paranaenses? Esta pergunta pressupõe outras: é preciso promover o autor paranaense? Não seria isso um provincianismo, uma vez que a literatura não deve estar vinculada a domicílios estaduais e nem mesmo a nacionais? Mas caberia ainda uma outra pergunta, anterior a esta: para que incentivar a leitura do texto literário num momento de alta produção do pensamento, muito mais importante para a formação do indivíduo crítico? Talvez devêssemos questionar mais profundamente e saber se a leitura ainda é algo relevante numa sociedade da imagem, essa grande formadora do homem contemporâneo?

E já estamos enredados no universo em espiral das discussões acadêmicas, em que uma questão simples leva a sondagens cada vez mais complexas, distanciando-nos do problema inicial, de natureza prática e de solução não muito difícil. Temendo parecer comezinha, a universidade tornou-se uma espécie de oráculo a propor enigmas, sempre em linguagem codificada.

É preciso voltar à pergunta inicial: de quem é a responsabilidade de promover os autores paranaenses?

Como vivemos em uma sociedade de matriz oficialesca, espera-se apenas do governo de plantão uma política cultural. Não se nega que é atribuição do governo criar mecanismos de promoção de seus BONS autores, mas política cultural não pode coincidir com o plano de ação de uma gestão, por mais bem intencionada que ela seja. Política cultural tem que ser entendida como conjunto de aspirações de uma comunidade, que não se altera com o resultado das urnas. Mudem-se os dirigentes, ela permanece inalterada por ser produto de um desejo coletivo.

Grandes artistas promovem mais sua cidade e seu estado do que dispendiosas campanhas publicitárias, mesmo quando estes vendem imagens críticas. Um Dalton Trevisan, por exemplo, com toda a sua acidez, fez mais por Curitiba do que os discursos veiculados por marqueteiros marcados pelo imediatismo. Uma comunidade não entra no imaginário da nação ou do mundo sem seus produtores artísticos.

Logo, cabe ao Município e ao Estado a popularização do autor paranaense, embora, no campo político, seja muito mais difícil distinguir o bom texto do lixo literário, dada a natureza reinvidicante de todos que se julgam escritores. Para não correr o risco de ser discriminatório, o projeto governamental tende a ser pouco seletivo, pois não podemos ignorar a lógica do democratismo que comanda as ações em qualquer área pública. As leis de incentivo à cultura funcionam nesse sentido – são mecanismos de financiamento abertos, sem claros critérios de qualidade, para que o processo de seleção não produza efeitos eleitorais negativos.

Mas o que um escritor que não é político (alguns chegam a ter brotoejas a tudo que é oficial) pode esperar da sociedade em que vive e que ele reflete em sua obra? Não participará do disputado banquete das leis de incentivo, não freqüentará as ante-salas dos organismos culturais e nem usará de seu prestígio para pressionar dirigentes a criar consumo de literatura.

O ficcionista mineiro Luiz Vilela tem insistido numa questão que João Cabral de Melo Neto e outros autores não menos relevantes já trataram: a universidade brasileira não tem dado público aos escritores. E chegamos aí ao ponto mais dramático da relação autor/universidade.

É sim responsabilidade do governo e dos meios de comunicação promover o escritor paranaense, mas a universidade, que nunca antes teve uma cobertura territorial tão homogênea, não pode deixar de ser a principal agente de nossa literatura, adotando uma postura mais voltada para os escritores locais. Até o momento, a literatura paranaense tem entrado na universidade, quando entra, como pretexto para teses e dissertações acadêmicas ou por conta do esforço isolado de uns poucos professores que acompanham nossa produção.

Como acredito em soluções simples, que dispensam sábias e infindáveis discussões, vejo uma ameaça de mudança se as universidades adotarem todo ano, nas leituras obrigatórias para o vestibular, um autor paranaense diferente, incluindo os falecidos mas não se esquecendo dos vivos, pois como diz um clássico de Nelson Gonçalves, “quem quiser fazer por mim, que faça AGORA”. E que seja também um agora digno. Não esperemos que nossos autores estejam na fase terminal de um câncer para prestar-lhes homenagens, que neste momento soarão extremamente hipócritas.

O livro do ano, a ser adotado em todos os concursos vestibulares do Estado, seria indicado por um júri sempre renovado. Este sim poderia ser um trabalho da Secretaria de Estado de Cultura, que ficaria responsável pela constituição de uma equipe de jurados de fora do estado – precisamos acabar com o espírito de corpo de nossos conselhinhos editoriais caseiros! – e pela recomendação do livro eleito a todos os departamentos de Letras paranaenses.

Um movimento desta natureza faria com que o escritor local de qualidade – e não os apadrinhados por nosso assistencialismo cultural – tivesse uma maior presença na comunidade.

Comum nos Estados Unidos, a leitura de textos pelos próprios autores é algo pouco praticado no Brasil. E esta é outra ação que as universidades podem desenvolver. Geralmente, espera-se do autor que ele tenha uma teoria engenhosa sobre algum assunto e que ele vá a eventos acadêmicos para dissertar como detentor de senhas.

Ao argentino Ricardo Piglia foi perguntado para que serve um escritor. E sua resposta foi de uma precisão que invejo: “Para dizer bem” (O laboratório do escritor – trad. Josely Vianna Baptista. Iluminuras, 1994, p. 57). Se o nosso papel é dizer bem, o melhor que podemos fazer dentro da universidade é levar o exemplo de nosso texto. A leitura de um conto (poema, capítulo de romance etc.) pelo próprio autor promove uma união de voz e texto que guarda um grande poder de expressão e de cooptação.

Existe melhor conteúdo, em uma universidade que cada dia escrever pior, do que o contato com uma escrita viva?

3 comentários:

  1. eu acho q há necessidade de promover autores recentes. há pouco alguns autores vivos entraram na lista de alguns vestibulares. mas são raros. em geral ficam no mais óbvio mesmo. portanto não acho provinciano promover aquilo q tem mais acesso e mais próximo. o importante é promover, divulgar e ampliar o olhar para autores recentes. eu recentemente e através do júlio pimentel vi q lia pouco de autores recentes independente do país, mas inclusive brasileiros. um fator é q compro mais em sebos e autores novos são difíceis de achar em sebos. mas eu peguei as listas do júlio e passei a colocar em listas de livrarias e acompanhar promoções. tenho me sentido menos em débito com autores recentes. beijos, pedrita

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  2. Suas observações sobre a lista são soberanamente pertinentes, Miguel; uma pauta jornalística ou um estudo acadêmico poderia explicar as razões do(des)prestígio aos autores locais pelas bancas que selecionam indicações das leituras obrigatórias nos vestibulares públicos.

    Graças, também, à republicação da sua crônica acima, fiz uma pequena observação sobre o tema, lá no NaMiradoLeitor, uma vez que a UFPA, incluiu um contista local na lista das leituras para o vestibular2012.

    Farei uma busca pessoal para reunir dados que façam oposição à injusta "reprovação" dos autores locais nos vestibulares públicos.

    Receba o meu abraço, prezado escritor.Quem sabe o triste panorama seja alterado nos próximos anos?

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  3. Olá, Miguel! Li o texto esperando que fosse contar o caso de um escritor que não havia passado em um vestibular; tive esperança até a última linha, mesmo percebendo que a abordagem era bem mais séria e ampla do que o aspecto abrangido por minha curiosidade. Ser escritor ou não ser, eis a questão. Seja ele paranaense ou amazonense, o fato é que se houvesse uma maneira de favorecer alguém este alguém não abriria mão do seu quinhão. E isso não é literatura. Abraço, amigo!

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