terça-feira, 6 de setembro de 2011

MINHA VIDA DE MULHER

Crônica publicada na revista D'pontaponta, n. 190, agosto de 2011.



Nunca acreditei nesse negócio do lado feminino de todo homem, que me parecia mais uma das faces do politicamente correto. Sei que agora ser mulher está na moda, embora elas nunca tenham reivindicado um lado masculino, o que teria sido tão desastroso quanto a idéia estapafúrdia do Dia do Orgulho Heterossexual.

Nesta nova fase da civilização, é de bom tom compor chapa com mulheres, escolher algumas para ocupar cargos públicos, dar-lhes prêmios etc. Aproveitando a onda, minha filha já pediu um aumento da mesada. Perguntei com base no quê? E ela:

– Na lei da oferta e da procura. Aumentou muito a demanda por mulheres no mercado. Filhas valem mais do que filhos.

Tem toda a razão. O mercado para as mulheres está mais aquecido do que as próprias em período da menopausa. E assim chegamos ao assunto desta crônica.

Nós, homens (com o perdão da palavra), não temos propriamente uma parte e sim uma fase feminina. E estou aprendendo a conviver com ela.

É que a velhice nos torna mais frágeis.

A primeira metamorfose é muscular. Perdemos boa parte dos músculos, que sempre foram a razão de nosso poder. Por mais que façamos musculação, eles insistem em continuar atrofiando.

Passamos a usar cremes e mais cremes, besuntando todas as partes do corpo na esperança de melhorar o aspecto geral. Isso antes era coisa de mulher, mas, no apagar da juventude, torna-se uma atividade de sobrevivência social.

Outros procedimentos também se fazem necessários. Como, por exemplo, tirar a sobrancelha. Não que eu faça isso com o mesmo objetivo das fêmeas; apenas elimino os pêlos mais revoltosos que querem denunciar o lobisomem em mim. Tirar os fios imensos da sobrancelha, do nariz, das orelhas e das costas – que até então eram lisas – se tornou uma coisa rotineira.

Trocamos o regime de carnes (de carnes vermelhas e gordurosas, como deve ser o repasto desse primata chamado homem) por frutas, saladas e iogurte de ameixa – prisão de ventre é um problema mais feminino.

Alguns, ainda não estou entre eles, pintam os cabelos brancos, não para mostrar uma jovialidade que não voltará, apenas porque pintar os cabelos é conquistar os mesmos direitos estéticos da mulher. Quem usava barba, começa a andar com a cara limpa e lisa assim que os fios embranquecem. Alguns até se arriscam com um pouco de botox. Por que não, se as esposas usam?

E aí compreendemos melhor as vantagens das mudanças. O casamento de décadas atinge o estágio ideal. Marido e mulher não são mais seres estranhos, em disputas entre si; são agora dois amigos. Aliás, duas amigas.

E os dois podem ser vistos juntos, andando lentamente pela rua, olhando vitrines, nunca antes tão próximos. Até parece que é a mulher que escora e protege o maridinho – ele enfim passa a ser tratado no diminutivo.

A idade também apresenta ao homem uma espécie de experiência ginecológica. Ele começa a ir ao urologista, para o exame de próstata. Minha vida de mulher me reserva, pelo jeito, grandes surpresas, como a que me aconteceu este mês.

Por usar um tipo de medicamento, sou um forte candidato a osteoporose. Fiz então meu primeiro exame de densitometria óssea, mais comumente recomendado às senhoras.

A moça que me atendeu pediu para que eu erguesse as pernas sobre um pufe posto na cama e, enquanto a máquina registrava meus ossos, fez o questionário padrão:

– O senhor fuma?

– Não.

– O senhor quebrou algum osso?

– Não.

– Tem caso de osteoporose na família?

– Minha mãe.

– O senhor já retirou o útero e o ovário?

– Não, mas a senhora acha que vai ser preciso?

Imediatamente, ela me acalmou, dizendo que não, não era o caso.

Esta, afinal de contas, é uma preocupação boba. Uma mulher da minha idade não pensa mais em ter filhos.

3 comentários:

  1. Dia desses fui fazer meus exames de rotina e dentre eles a incômoda e desagradável mamografia. Nela a jovem operadora da máquina é uma mistura de sadismo e misericódia. Ela vai apertando cada vez mais e ainda tem a desfaçatez de perguntar se está tudo bem. Acho que quando Milionário e José Rico compuseram Estrada da Vida, no trecho “minhas vistas se escureceram”, certamente estavam falando de uma mulher fazendo mamografia, coisa que faz deles mais entendores do sentimento feminino do que Chico Buarque. Pois bem, mais tarde já em casa meu marido questionou se a coisa era tããão ruim assim. Após um longo suspiro de “muita calma nesta hora”, respondi: imagine suas “partes baixas” sendo fortemente pressionadas por todos os lados. Ele imediatamente achou melhor esquecer o assunto. Miguel, acho que homens sempre tiveram suas fragilidades, apenas estão menos expostos e indiscutivelmente o avanço da idade os obriga a encará-las de frente (em alguns casos de costas). E é nesta hora que nós mulheres erguemos os queixinhos e dizemos: ah, deixa de frescuras que isso não é nada!!!
    Beijos, Vanessa.

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  2. Me alegra muito encontrar seu blog,
    Abraços.

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