sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O CRÍTICO QUE AMAMOS ODIAR


Versão integral da entrevista a Schneider Carpeggiani, publicada no Jornal do Comércio (Recife), 29/09/2011.

O título do seu novo livro soa como uma provocação, Então você quer ser um escritor. Qual a provocação que reside no fato de ser escritor?

Todos querem ser escritores, muitas vezes sem fazer o dever de casa, que é ler os autores de outras gerações, os clássicos e os contemporâneos. O grande escritor, para mim, é também um grande leitor, que sucede com conhecimento as gerações anteriores – a literatura sempre foi uma corrida de bastão. Agora, o imediatismo faz com que pessoas que não leram nada ou leram muito pouco tentem entrar em cena o mais rápido possível. Meu livro mostra a densidade de algumas trajetórias de escritores que se frustraram. A escrita é antes de tudo frustração. Nesse sentido, o livro é uma provocação. Quer destruir miragens. Cria um modelo sofrido de escritor. Escolha esta profissão quem acha que pode suportá-la.

A crítica literária é uma preocupação do seu trabalho. Em que medida você acha que um escritor deva também ser um crítico?

Como todo escritor deve ser um leitor, ele acaba, para uso íntimo, avaliando a produção do outro. Assim, todo escritor é um crítico, mesmo sem escrever resenhas para revistas e jornais. Este exercício crítico é fundamental para os profissionais da escrita criativa. Agora, há um segundo nível: o escritor tem que ser o primeiro crítico de seu trabalho. Saber se ele tem algum valor dentro de um mercado com tanta oferta. Não adianta apenas escrever e achar que é genial, tem que ter o espírito crítico, o olhar de fora, a capacidade de ver as qualidades e as limitações do seu trabalho. Sem isso, ele corre o risco de ser apenas ridículo. Mas há ainda um terceiro nível crítico, o de escrever sobre a produção contemporânea. Com o fim da figura dos mestres da crítica, aqueles homens de letras que liam tudo e comparavam a produção do período, o escritor também tem que se manifestar sobre o mercado editorial. Eu tenho estes três defeitos críticos.

Em seu trabalho você já lançou em alguns momentos uma espécie de alter ego seu. Quais os riscos de um escritor se misturar com sua obra de forma explícita?

Como diz Nietzsche, “falar muito de si é também um meio de se esconder”. O que vale em uma obra é o pacto estabelecido com o leitor. Eu quero que os meus romances sejam lidos como ficção. Então, o teor factual que há neles não interessa, o que interessa é a estrutura que eu soube ou não criar para que eles funcionem como narrativa. É isso que tem que ser cobrado do escritor. Tudo que escrevo é sempre uma forma de cifrar a existência em um código ficcional. Não quero ser lido como biógrafo nem como memorialista. Falo de entidades que são literárias. Mesmo quando falo de Miguel Sanches Neto (tal como acontece no romance Chove sobre minha infância), é para me esconder, nunca para me revelar.

Ano passado, houve toda polêmica em relação a Chá das Cinco com o vampiro. Como você lidou com toda a repercussão do livro?

Quando decidi publicar este livro escrito em 2002, eu tinha consciência de que ele seria polêmico e que poderia me causar problemas. Mas depois que escrevemos um romance só nos resta publicá-lo. Não há outra saída. Tomei esta decisão quando o próprio Dalton Trevisan começou a me hostilizar. Não havia mais razão para esconder meu livro. Meu livro não é sobre Trevisan, se ele se reconheceu nele é um problema dele, não de meu personagem. Tudo que eu quis foi escrever um livro sobre a vida literária, a partir das grandezas e misérias do meio literário que mais conheço, o de Curitiba. O resto é com o leitor. Leia o livro da forma que quiser.

O Dalton Trevisan continua fascinante para você?

Tenho um interesse inalterado pela obra de Dalton Trevisan – acabei de ler O anão e a ninfeta, e escrevi positivamente sobre o livro. É um autor que codifica coisas que me atingem, tanto como ser humano quanto como escritor. Então, continuarei lendo tudo dele, mesmo os textos em que ele acha que está me atacando. Agora, quanto ao homem Dalton Trevisan, não tenho o menor interesse por esta figura. Desde 2001, desliguei-me dela. Desejo apenas que viva o máximo possível para continuarmos lendo os seus novos livros.

1 comentários:

  1. Boas respostas, Miguel. Voltando ao assunto da tia e a porção ficcional de sua obra, ela realmente existiu e teve toda aquela influência em sua vida como futuro escritor?

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