quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PÁTRIA MINHA

Crônica publicada no livro Um camponês na capital (Aymará, 2009)


Antes, os discursos sobre o amor à pátria, fanfarra ensaiando durante um mês, depois marchar pelo centro da cidade, cantar o Hino Nacional em frente à Prefeitura e, na volta à Escola Olavo Bilac, comer o lanche preparado para os alunos que participavam do Sete de Setembro. Todos agora correndo pelo pátio, alegres e sem nenhum princípio de ordem, relaxando das semanas de marcha e alinhamento. O cardápio era pão francês com carne moída e uma garrafa de sodinha – refeição com gosto especial para gente acostumada com carne de porco e de galinha. Aquele pão muitas vezes meio murcho, a carne com cebola, o molho de tomate e uma pitada de pimenta guardavam um sabor que ficaria codificado em minha memória como o gosto da farra depois de tanta ordem e fanfarra.

Para o Sete de Setembro, a mãe costurava uma calça de tergal azul-marinho e camisa branca de algodão. Nós, como último requinte, engraxávamos velhos sapatos, renovados com meias-solas. Roupas simples e malfeitas que serviriam de uniforme para o ano seguinte, tributo de famílias humildes a um grande dia. Nas comemorações na escola, as roupas ficavam sujas e perdiam sua virgindade, mas aquele pão com carne moída pagava todo nosso esforço e, ao voltar para casa, éramos parte de um grupo que cantava o hino, vestia roupas iguais e comia do mesmo pão.

Se tudo naquele período do ano era preparação para a festa, depois do desfile havia algo incômodo. Já no fim do primário, inquietava-me o sentido da palavra pátria, que não entrava em minha cabeça. No começo, pensei que pudesse ser a marcha unida, mas eu me sentia melhor quando estávamos dispersos. Se pátria fosse o desfile, ela era algo de que eu, no fundo, não gostava. Depois comecei a imaginar que pátria pudesse ser uma espécie de amada, mas se fosse a namorada com que todos os meninos sonhavam, por que falar em morte e luta, em filhos dela? Deveríamos é cantar sua sensualidade, seus olhos, a penugem de seus braços. Não, pátria não podia ser isso. Então, talvez fosse apenas uma palavra.

Palavra que, com os anos, esqueci. Ela não mais me inquietava. Depois aprendi o seu sentido e não dei muita importância. Ela se tornou letra morta, que eu pronunciava como quem fala o Papa visitou a Croácia. Eu não conheço a Croácia, por isso, a Croácia não me atinge, sou imune a ela.

Movido pela saudade, voltei, décadas depois, a comer pão com carne moída, descobrindo por fim que pátria significa justamente isso. Os professores que discursavam tanto sobre ela foram incapazes de me dizer que se tratava de algo tão simples. Pátria é pão com carne moída, compartilhado alegremente com os amigos.

3 comentários:

  1. "Pátria é pão com carne moída, compartilhado alegremente com os amigos."
    Essa sua frase diz tudo!

    Na época da ditadura, desfilar, pra mim -- mais ou menos nos mesmos termos em que descreve seus desfiles, mas sem o lanche coletivo, que nunca tivemos -- era uma verdadeira tortura, isso sim!
    Se amor à pátria era aquilo, eu me sentia um desnaturado.
    Felizmente, a gente cresce e aprende, lá adiante, que desnaturados eram aqueles que nos obrigavam a orações, hinos e ações sem sentido, deixando-nos muito longe do verdadeiro significado de tudo!
    Até porque não interessava, nunca interessa, ao poder, que a senzala tenha qualquer consciência do que seja mesmo pertencer à pátria!
    A verdadeira pátria: a humanidade!
    Pão para todos, com os iguais, sentindo-se parte do todo! Perfeito!

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  2. Hey, Miguel, se puderes me mandar teu e-mail, tenho de te enviar lápis, erva-mate e meu livro. abraços, roberto medina, porto alegre.
    prof.medina@gmail.com

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