domingo, 2 de outubro de 2011

DORES MALDITAS DE AMOR

Publicado no caderno Pensar, do Estado de Minas, 1 de outubro de 2011.

Já com uma carreira consagrada como desenhista que optou pelo preto e pelo branco (herança de seu trabalho em gravura), Poty Lazzarotto (1924-1998) começou a usar cores, retomando assim a identidade inicial de pintor. Seus desenhos ganharam um colorido forte. Guardadas as distâncias, os novos contos de Dalton Trevisan – O anão e a ninfeta (Record, 2011) – também apresentam uma suavização. Nos livros mais recentes, preponderava a obsessão por marginais, com sua linguagem crua e sua vida perversa. Estes personagens ainda são vistos no novo livro – nos contos “Uma rosa para João” e “O coração” –, mas eles não dominam mais a cena. O contista se concentrou num movimento que se compara às cores em Poty – as relações amorosas.

Desde os anos 70, o sexo é um dos alicerces desta obra. Então, não se pode pensar em uma mudança de foco. Mas, agora, mais do que o sexo o que sobressai é o amor. Não que não haja desejos e tensões sexuais neste sentimento, mas parece que o amor ganha uma centralidade inesperada nestes contos da maturidade.

Espião da vida alheia, o contista flagra uma discussão de duas lésbicas em “No café”. O drama sentimental acontece em um lugar público, mostrando as conquistas de igualdade entre os apaixonados. O narrador tudo observa, fingindo ler o jornal, e conclui, pacificado com esta inovação dos comportamentos sociais: “É isso. O velho amor. Não escolhe hora nem lugar. Muito menos pessoa” (p.136). A manifestação do amor traz uma energia repetitiva: mudam os atores e as formas, mas os dramas são os mesmos.

A maior parte dos contos vai tratar deste velho e novo amor. O conto que dá título ao livro é a história de um anão que, mesmo se sentindo rejeitado, não para de tentar conquistar mocinhas, por quem se apaixona perdidamente, tendo que se contentar, no entanto, com programas pagos. Se este “Don Juanito” é um dos heróis nanicos de Trevisan, um tipo risível, ele também traz inscrito em sua obsessão amorosa um poder de comoção. Diante do amor, elevado às alturas impossíveis, somos sempre anões.

Outro lírico incorrigível é o falso bibliófilo que aparece numa série de três contos – “O colecionador”, “A caixeira” e “Rute, meu bem”. Este recurso de soldar histórias independentes é muito comum em Trevisan, e atende a um projeto de pensar os contos como peças de uma novela. Ele alonga uma obra que só na aparência é composta por brevidades narrativas.

O colecionador destes contos é Tito, um senhor de idade que corteja as funcionárias dos sebos. Ele conquista corações adquirindo livros raros e caros, premiando assim as vendedoras com porcentagens generosas por essas vendas. Ele compra livros velhos não para ler, ou para reviver um passado cultural, mas para viver o amor neste presente tão precário. O contraste entre a juventude das caixeiras e a velhice dos livros dá o tom compungido destas histórias, que são também repletas de humor. Tito oscila entre a ridicularia destas paixões extemporâneas, disfarçadas de mania bibliófila, e o lirismo de um amor que não aceita as limitações de tempo. Entre um pólo e outro, rimos e nos solidarizamos com o personagem.

Pertence a este mesmo campo – o do amor na velhice – o conto “A ninfeta e a matrona”, permitindo um contraponto perfeito para as histórias do homem que comprava livros que não iria ler. Aqui, o amor de um senhor viúvo – de 74 anos – não tem como objeto o corpo pipilante de uma ninfeta, que faz a paisagem toda cantar. Ele está apaixonado por uma senhora de 68 anos, que foi o seu amor da juventude. Além do humor que o conto explora, há também a beleza desta paixão madura, que desafia de maneira mais insana esse vilão chamado tempo. No final, depois de ironizar este amor, o interlocutor – o conto é apenas o diálogo entre dois homens – termina de maneira inesperadamente solidária, numa adesão ao outro tão rara na obra irônica de Dalton Trevisan: “Seja feliz, amigão” (p.83).

Nesta área vale tudo. A mulher pode se deixar escravizar pelo galã bonitão (“O distinto”); o namorado suporta as crises de uma moça com problemas psicológicos (“Bipolar”); o homem bem casado e morando em outra cidade se submete a viagens constantes a Curitiba e aos desmandos da amante (“O jogo sujo do amor”); o noivo se torna subitamente atraído pela estranha salada de caquis que a mocinha lhe serve (“Os caquis”); o senhor abandonado não se cansa de lembrar da amada, vivendo e revivendo o velho amor (“O mesmo”); o bonitão aceita o filho de outro (“Anjo bastardo”); etc. Há uma frase deste último conto, oriundo de outros livros de Trevisan, que resume a condição indefinível, e portanto descontrolada, deste sentimento: “O amor, essa coisa, sabe como é” (p.72).

Embora o amor sexual seja preponderante, há ainda o amor materno, como em “Três gotas de sangue”, em que a mãe que tanto idolatra o filho vê que ele só ama de verdade a mocinha que cuida dele. Ou ainda o amor do filho pela mãe em “O caniço barbudo”. Aqui, o filho, assim que o pai morre, se deita no lugar deste, ao lado da camisola florida da mãe também morta. Ele assume uma misantropia total, ficando preso em casa, pois a casa é o mundo; e o mundo todo para ele é a mãe.

Mas, de todos os contos, o mais intenso é “O rosto perdido”. Verdadeira obra-prima autobiográfica, em que o narrador vive a sua solidão numa casa antiga, mexendo com seus papéis no escritório externo – a famosa cabana – e alimentando um amor desaparecido. O vazio da casa é preenchido pela sombra de um rosto feminino. O homem e o cachorro sentem a falta da amada. Este conto apresenta o escritor com uma humanidade imensa, despido de seu olhar crítico, totalmente entregue ao abandono. Quando recolhe, na madrugada de insônia, o cachorro também solitário, ele desmorona: “Não resisto, na calada as lágrimas fluem dóceis e quentes. Até que arrebento em soluços ferozes. Por ele e por mim” (p.143). A falta da amada, a casa silenciosa, o diálogo com o cãozinho, tudo isso deixa o narrador desprotegido diante do nada de um céu vazio.

Renunciando, neste livro, ao preto e branco das narrativas mais ácidas, mas sem perder a pegada de pugilista, Dalton Trevisan recorre a estas cores sentimentais, cores fortes, pois o autor só vê o lirismo misturado aos componentes corrosivos, negando-o, tal como o narrador de “Rute, meu bem”: “Ai, dores malditas de amor. Que assunto mais usado e repetido. Eterno cantiquinho monocórdio. / Nem sequer merece um conto” (p.96). Mesmo concluindo isso, por meio de um narrador, Dalton Trevisan escreve e reescreve seus contos de amor e de desamor.

2 comentários:

  1. O Trevisan foi o escritor que me trouxe para literatura, um pequeno trecho lido no fim de um livro didático. Pronto: aquilo foi o machado que quebrou o gelo. Morando no interior da amazônia, quis ir para Curitiba. E ia mesmo, aprovado no curso de direito, reserva na CEU. Mas na última hora, com 17 anos, desvaneci. Mas a obsessão por Trevisan continuou, isso me levou para Letras. Mas dos comentadores da obra de Trevisan a opinião mais aguardada é sempre a sua. Até mesmo pelo tom de recordação que escapa no isento comentário crítico, algo da rotina do Vampiro sempre pode ser vislumbrado. Também admiro a direção contrária que seu estilo tomou, acho que assim como Beckett diante de Joyce, a atitude mais corajosa é de tentar superar, ou mesmo estrear olhares que os pontos cegos de alguns estilos não alcançam.

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  2. Caro Gerciano

    Seu comentário/depoimento me comoveu. Espero que a literatura de Dalton Trevisan continue sendo uma estrada larga para Curitiba. Foi ela que me fez habitar a cidade.
    Abraço

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