sábado, 22 de outubro de 2011

ECONOMIZANDO LINHAS

Aluno de escola pública em Peabiru, eu sofria o patrulhamento de meu padrasto. Ele numerava as folhas de nossos cadernos, para que não as gastássemos com coisas fúteis. Quando um professor pedia para escrever algo e entregar para ele, eu entrava em pânico. Pedia para o colega do lado uma folha emprestada, sempre recebendo junto um olhar de desprezo. Por que não tirava de meu próprio caderno? É que ele não me era tão próprio assim.

Além de numerar as folhas, meu padrasto fiscalizava os cadernos para ver se estávamos preenchendo bem as linhas, pois não admitia desperdício.

Assim eram os pais; assim era a vida dos pobres na minha infância; assim eram esses seres errados que um dia fomos.

Meus irmãos não sofreram com a redução das margens de nossos cadernos. Mas eu já me sonhava escritor. E queria escrever meus poemas. Então me sentia censurado.

Quando me tornei economicamente independente, comecei a comprar cadernos. Sempre tenho vários comigo. Pois pode haver coisa mais reconfortante para um escriturário da literatura do que saber que temos ali várias páginas em branco, um estoque de linhas nos solicitando?

Testei vários cadernos. Dos mais sofisticados – os moleskines – a cadernetas de feirantes. E elegi o meu caderno oficial: o Opus capa dura, costurado, nas cores: azul, verde, vermelho, preto ou bege. Tamanho 190mm por 248 mm, com 100 folhas. As linhas são generosas, adequadas para quem gosta de escrever com letra grande, o visual é sóbrio, o formato lembra um pouco os antigos cadernos de contabilidade. E eles podem ser guardados na estante como se fossem livros.

Nesses cadernos mantenho, desde o dia 25 de março de 2007, um diário íntimo (Diários Indignos), velho projeto que só consegui consolidar quando encontrei um suporte ideal. Havia tentado várias vezes antes, mas sem sucesso.

O Opus me oferecia margens amplas, formato manuseável, uma sensação de seriedade. A última compra que fiz, 5 cadernos, foi numa livraria em Brasília. Distribuí alguns para amigos, e agora estou no final do último caderno – faltam apenas 4 páginas para ele acabar. Adio as anotações no diário, pois não quero ter a sensação de que me tiraram o caderno, que me proibiram de continuar escrevendo.

Tudo porque a Tilibra parou de produzir o Opus. Pelo menos, tiraram o caderno do site, deixando apenas uma versão chamada Organizer, que é daqueles em que se destacam as folhas. O meu velho Opus sumiu também das livrarias e papelarias. Não consigo mais encontrá-los.

Acionei amigos para rastrearem velhos estoques. Vou comprar uma boa quantidade deles. Pela internet, já conseguimos encomendar 10 exemplares de uma papelaria do Rio. Minha amiga Naira Nascimento localizou uma livraria no Ahú (Curitiba) em que há ainda alguns.

Quando eu voltar a conviver com este animal em extinção, pretendo numerar as folhas e não gastá-las com anotações irrelevantes.

6 comentários:

  1. eu tinha vários diários em cadernos, individuais e coletivos com algumas amigas. eu economizo a leitura de um livro q estou amando, fico lendo bem pouquinho cada vez com pena de q vai acabar. beijos, pedrita

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  2. Com o desaparecimento do Opus também vem uma economia de sentimentos que só nele poderiam ser revelados. Me resta meio Opus ...Wânia

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  3. Acabei de ganhar de Naira Nascimento um caderno Opus vermelho. Estou salvo. Ela também conseguiu a nova versão do Opus, um Organizer costurado, com 80 folhas. É uma opção mais cafona do sóbrio Opus, mas tem o mesmo formato, as mesmas páginas, o que permite que eu continue escrevendo meus diários, sem descontinuidade de formato, apenas de aparência.
    Continuarei procurando os Opus tradicionais. Julio Pimentel Pinto me avisa que conseguiu alguns em São Paulo. Vai me mandar.
    Gratidão a todos

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  4. Oi Miguel,
    Adorei seu texto. Interessante, pois, justamente ontem estávamos eu e Marden conversando com a Liana Leão e ela perguntou ao Marden se ele escreve suas críticas de filmes primeiro no papel e depois que ele passa para o Blog. E ele disse que é direto no computador. Correndo o risco de uma queda de luz apagar tudo...
    Também costumava usar cadernos diários. E hoje tudo que quero falar vou direto no post do blog. Sem rascunhos. E com direito a vários erros, que tento saná-los depois. E pergunto, mexer no texto já publicado é errado?? Beijokas.

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  5. Oi, Marilia

    A vantagem da escrita on line é a possibilidade de ter uma visão externa de seu texto, você a lê publicada, e poder justamente mexer nele com um excedente de visão.
    abraço

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  6. Miguel, sou gratíssima pelo compartilhamento de seus ensinamentos. Tudo de bom. Beijos.

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