terça-feira, 25 de outubro de 2011

ESPERA


Chegaram.

São três.

Eles têm um aspecto de velhice vermelha. Sempre identifiquei a velhice à cor vermelha, pois é esta tonalidade que predomina na região de onde venho, o Norte do Paraná, a famosa terra roxa, com seu barro grudento na chuva e sua poeira alada na seca. Tudo que vive ou viveu lá conhece esta cor na pele.

Eles chegaram com pretensões de beleza. Vieram com capas de papel de presente. Ficaram 25 anos me esperando. A pessoa que os havia retido se mudou para Campinas, depois morreu e eles, pacientemente, me aguardaram.

Estão aqui na minha mesa. Os três livros de José J. Veiga que emprestei em 1996 para minha professora Cida Perez. A hora dos ruminantes; Torvelinho dia e noite; e Sombras de reis barbudos.

Naquela época, para evitar a poeira, eu encapava os livros, reciclando papéis de presente, sem usar cola, apenas com dobras perfeitas. E assinava as capas. A minha assinatura mudou muito. O planeta deu seus milhares de rodopios. Mas os livros mantiveram-se inalterados.

É esta a natureza dos livros, que são avessos aos rios correntes da vida e da internet. Eles esperam o tempo que for preciso.

4 comentários:

  1. Todo livro tem o seu tempo certo, assim como os momentos importantes da vida que sempre tendem ao amadurecimento. Todo livro é uma vida. Sempre haverá alguma história a ser contada.
    Eu nunca vim aqui, mas te sigo pelo twitter (@cronistaamadora, prazer), voltarei mais vezes, Miguel. Porque tudo o que não é literatura nos irrita (eu, você e o Kafka).
    Abraços.

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  2. É isso professor! Esse encantamento do livro impresso, quase imortal... Que nós, que amamos a literatura, lutamos para preservar.

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  3. Prezado Professor,
    Não pude participar do evento que o senhor abriu na PUCPR na última semana. Mas fiquei com muita vontade de ouvir o que o senhor pensa a respeito do ofício do professor de literatura. Gostaria, se possível, de ler a respeito - se o senhor puder publicar um post sobre o assunto, agradeço imensamente.

    Um abraço,
    Henrique

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  4. Parabéns pela belíssima homenagem a "grande" Cida Peres.
    Ela diz em outras palavras, assim: "vocês vão sentir saudades de quem exigiu mais esforços...". Ah! as análises literárias de Fernando Pessoa numa época tão difícil da minha vida (eu consegui 8,5 sem ajuda de ninguém, mas que ecoou 10,0 pelo resultado positivo).
    Olha, ela nos jogou a semente,e nós, cada qual a sua maneira, regamos dia a dia suas intenções e nos tornamos presença marcante na sociedade.
    Portanto, fazemos a diferença na Educação como reflexo de seus ensinamentos.
    Abraços!Geisa

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