quarta-feira, 5 de outubro de 2011

LATIFÚNDIOS

Na minha infância em Peabiru, havia um louco que sempre parava em nossa máquina de arroz. Acho que se chamava Bernardo, mas o nome pode ser apenas uma memória falseada pela leitura dos poemas de Manoel de Barros (a bença, meu mestre!), onde aparece um tal Bernardo.

O meu Bernardo possuía dois objetos valiosíssimos: uma carriola velha e um cachimbo rançoso. Parava a carriola no pátio da máquina de arroz – vivia de limpar terrenos e fazer outros serviços manuais – e acendia seu cachimbo. Logo começava a narrar as notícias.

O fazendeiro tal oferecera uma das fazendas por aquele cachimbo, mas o que ele ia fazer com uma fazenda? O cachimbo era muito mais útil, permitia estes momentos de prazer e de distração.

– Fazenda dá é muito trabalho.

E alguém então perguntava da carriola.

– Esta eu não vendo por nada – ele respondia -. É ela que me sustenta.

E então contava que já tinham proposto um caminhão novo em troca dela.

– Mas caminhão vive só encrencando.

Depois de mais algumas de suas mentiras tão verdadeiras, ele seguia empurrando a carriola pela rua sem asfalto, cachimbo pendente nos beiços e um olhar tão altivo.

Era um homem realizado. Ninguém nunca o humilhava. Possuía latifúndios de fumaça.

Mesmo sem fumar, aos poucos fui me tornando um Bernardo.

4 comentários:

  1. Em uma das fazendas que cresci, lá em Nova Cantu, tinha um gato (nome dado a uma pessoa que cuidava dos bóia frias). Este homem, de estatura baixa e cintura avantajada, quase sempre com calças e camisas de cores amareladas, usando seu gasto chapeu de palha, também tinha esta rotina. Além de fumar cachimbo e contar histórias tinha o hábito de mascar fumo, o que era perceptivel tanto pelo cheiro quanto nos seus dentes negros! Belo conto Miguel!

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  2. É bem isso mesmo, Miguel; que lição de vida! Também estou aprendendo a me tornar um.

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  3. Que causo bom! Vou engatar outro: um dia desses eu no estacionamento dum mercado, me deparo com um homem alto, uns 60 anos, cabelão a la Roberto Carlos, camisa florida, colete, botas e cinturão de peão, nos trinques mesmo. Abria a porta do seu automóvel, um Del Rey caindo aos pedaços mas cheio de parangolés, feito o dono. Não pude conter meu olhar curioso, foi quando o sujeito me disse: "se eu quisesse eu teria uma BMW, mas o que eu quero mesmo é ter este Del Rey podre, pois é dentro dele que eu me sinto feliz."

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  4. Belissimo conto! Amei! O meu louco da infancia se chamava Polaco:) sábado viajamos durante o dia para o PR. Passando em Peabiru, um tempo para chuva, vento e muita terra vermelha no ar! Foi mto legal vivenciar o que lemos! Aí, só falamos de MSN. Eu nao esqueci o que estou te devendo, mas meu pc pifou, internet só no cel. Abraços! Alzira.

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