In revista D'pontaponta, n. 191, setembro de 2011.
Quando comecei a aprender alguma coisa na escola, em uma época em que nem televisão tínhamos, surgiram os conflitos linguísticos. Os livros nos ensinavam a falar de um jeito diferente daquele praticado em casa. Embora nunca tenha dominado nem o espanhol ancestral, comecei a falar dois idiomas: o da família de agricultores e o dos mestres – este é um caso de biliguismo típico de países em que a cultura popular é muito forte.
O que exigia uma inteligência social, para que soubéssemos qual idioma acessar em cada um dos momentos. Chegava um tio em casa e falava que já tinha “prantado a sorja”. E eu respondia: “um trabaião, hein”.
Já nas matinês, quando eu tentava conquistar alguma das meninas por quem me apaixonara naquela semana, tinha de usar palavras que me enobrecessem diante delas: “por vós, tenho pranteados os olhos”, dizia um dos meus poemas da época.
A linguagem podia ser uma roupa nova usada aos domingos ou as peças rasgadas do dia a dia. Ao falar, nós nos vestimos adequadamente para determinadas ocasiões.
Talvez por isso meus parentes nunca acreditassem que eu tirava proveito dos estudos.
– Esse menino parece que num aprende nada na escola.
Para mim foi sempre difícil demonstrar que, sim, alguma coisa sempre se aprende, mas ninguém precisa ficar sabendo disso. Minha fala (ou escrita) não é uma vitrine de loja e sim um guarda-roupa versátil. Há peças para todos os gostos.
Fui me afastando do universo popular que me amamentou. Fiz-me herdeiro de grandes escritores, transitando por tradições literárias impossíveis de serem imaginadas pelo menino que frequentava escolas públicas e periféricas. Consigo esconder razoavelmente minhas origens roceiras. E os mais desavisados até me imaginam com alguma erudição.
Mas, por saudosismo, acabei desenvolvendo o hábito de colecionar expressões populares, descobrindo a inventividade de um povo monolíngue, que transforma todo o desconhecimento em força poética. A nossa é uma gente que customiza o idioma, descolonizando-o.
Algumas expressões são dignas de um escritor de vanguarda. Não sabendo pronunciar termos em inglês e sem imaginar o significado deles, os populares corrompem expressões consagradas. Não falam, por exemplo, restaurante self-service. Atentos ao fato de que as pessoas, nestes locais de repasto, se servem várias vezes, dizem:
– Hoje vou almoçar no serve-serve.
Existe melhor tradução do que esta para self-service?
Outra variação criativa se encontra num procedimento central da modernidade. Todos hoje se preocupam muito com a questão estética. E muitas pessoas se submetem a processos clínicos de emagrecimento, descarregando 40/50 quilos de uma vez. Para o povo, esta pessoa perdeu tanto peso que só criando um verbo novo é possível expressar isso.
– Você viu como fulano desmagreceu?
Desmagrecer, no caso, é emagrecer muito e de forma súbita.
Os esnobes zombam dessa faixa de falantes, dizendo que eles pronunciam de quatro formas diferentes a palavra problema (pobrema, probrema, plobrema, ploblema), não acertando em nenhuma das vezes. Acham que isso é um sinal de ignorância – na língua do povo: enguinorância –, mas tenho aqui comigo que estamos apenas ampliando a língua portuguesa, fazendo dela um território com a mesma medida de um país de grande extensão social.
Talvez nossos filhos precisem fazer intercâmbio com o Brasil profundo, para que dominem também este outro idioma.

Quanta sensibilidade professor! Eu acredito que a variedade linguística e a simplicidade são nossas maiores riquezas.
ResponderExcluirÉ isso mesmo Miguel! E a Linguistica está aí para nos absolver e levar para a Academia as mais diversas falas. Para os esnobes, não carece explicações.
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