domingo, 16 de outubro de 2011
QUEM PAGA A CERVEJA
Recebi pelo correio o aviso de que havia ganhado o prêmio nacional de poesia Luiz Delfino de 1989. Não tinha telefone, então fiquei sabendo assim, por carta. Morava na baía sul, em Florianópolis, e cursava mestrado.
De minha temporada curitibana, guardava um blazer de lã, importado, que foi o primeiro paletó que usei na vida. Sobre uma calça desbotada e uma camisa social de colarinho puído, o blazer me transformava numa versão errada de intelectual. Fazia calor na noite em que fui até a sede da Associação Atlética Banco do Brasil, no Continente, em meu Fusca ano 80. Ninguém me conhecia. Sentei-me com minha mulher, uma amiga, Inês Mafra, e o marido, e esperamos a solenidade. Fui chamado para receber o prêmio, algo perto de mil dólares. Depois, um secretário de governo passou na minha mesa e me cumprimentou. Foi tudo que me aconteceu naquela noite, e não me lembro se o jantar era bom. Provavelmente não era.
No dia seguinte, já tendo descontado o cheque, fui com Juliana ao Box 32, no Mercado Municipal, e bebemos pela primeira vez uma cerveja Xingu – era outro o Box 32 e outra, bem melhor, a Xingu, ainda produzida em pequena escala. Foi ali que eu achei que podia ser escritor de verdade. A literatura estava pagando a cerveja.
Era o ano de 1990. E esperei longamente pela edição do meu livro, a outra parte do prêmio. Passei uma vez na Fundação Catarinense de Cultura e o responsável (que não me conhecia, mas depois se tornaria meu amigo), o contista Flávio José Cardozo, mal me respondeu sobre a publicação.
Só em final de 1991 o livrinho foi publicado. Quando eu soube que isso iria enfim acontecer, tratei de atualizar a coisa toda, e fiz muitas mudanças. O original que ganhou o prêmio, datilografado na minha Lettera 35, e que guardo até hoje, é bem diferente do livro que foi impresso. Aí, já era outro o responsável pela Fundação, o poeta Joca Wolff, que levou os meus exemplares numa viagem a Curitiba, para onde eu tinha voltado.
Nós nos encontramos num bar no Largo da Ordem, ele me passou uma caixa com 100 exemplares do livro, bebemos umas cervejas, mas agora quem pagava a conta era o professor e não o escritor.
Distribuí os volumes e não houve repercussão nenhuma.
Nesta época, eu colaborava no jornal Nicolau e ia sempre à redação na Secretária de Estado de Cultura do Paraná. Tinha entregue em mãos um exemplar para Wilson Bueno, e sempre via o voluminho num canto da sua sala, entre outros livros cobertos de poeira. Um dia, o meu já não estava mais lá. Descobri assim que ele tinha fechado o seu ciclo.
Continuei bebendo cerveja, publiquei outros livros, aprendi a não esperar nada de ninguém, mas só depois da “enfiada das decepções que nos ultrajam”, para dizer como o Raul Pompéia, em O Ateneu.
Passados 20 anos, sairá a nova edição de Inscrições a giz, que agora integra a coletânea Poesia reunida e inéditos, que a editora Ficções pretende lançar este ano. Avaliando tudo que me ocorreu, posso garantir que a cerveja nacional tem piorado muito nos últimos anos.
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História registrada, querido Miguel.
ResponderExcluirNão recebi prêmio algum pelo que escrevo, mas com o primeiro dinheiro que recebi de direito autoral, sabes o que fiz? Comprei um notebock, paguei as contas pendentes e saí para bem almoçar sem temer a hora de pagar a conta. Guardei uma boa lembrança. A tua é memorável; as observações acima, sem dúvida, coadjuvantes apreciadíssimas pelos teus inúmeros leitores. Que venham mais prêmios e muitas alegrias, inclusive com as cervejas! Tim-Tim!!
Realmente as cervejas nacionais estão cada vez piores...Ainda bem que temos seus textos, que premiados ou não, sempre nos proporcionam prazer e encantamento.
ResponderExcluirAs cervejas, boas ou ruins, passam. Os prêmios, grandes ou pequenos, vão. Os bons textos ficam.
ResponderExcluirGosto muito de ler esses depoimentos. Aproximam escritor e leitores. Talvez, por fazer esboroar o que ainda resta em nossas cabeças (na minha, de leitor) de imagem encantada do meio artístico e literário...