domingo, 2 de outubro de 2011
UMA LACUNA A MENOS
Em 1986, fiz uma viagem etílica e literária a Curitiba.
O pretexto era participar de um congresso de estudantes, fiquei por isso hospedado na sede da UNE, nas imediações do Centro Histórico.
Política, álcool e livros.
Estive várias vezes no sebo da Emiliano Perneta, comprando livros que me interessavam. Era um prazer muito grande, maior do que o do álcool e o da política, ficar perdido entre as estantes.
Lembro-me de alguns livros decisivos na minha vida, comprados nesta época. Entre eles, Moise e o mundo da razão, retrato de “um ilustre escritor fracassado”, de Tennessee Williams, obra que nunca mais reli e nem sequer tiro da estante – estou fazendo isso agora.
Minha biblioteca sempre me foi inconstante, declaradamente infiel. Muitos amigos ficaram com livros, dei inúmeras obras de presente, dizendo que iria repor, mas acabava me esquecendo, aceitando viver com essas lacunas. Viver com lacunas, sei, é uma redundância.
Recebo agora e-mail de Josepha Perez, irmã de minha querida e falecida professora Cida Zanatta Perez, dizendo que conseguiu arrumar a biblioteca da irmã, hoje uma biblioteca comunitária, em Mandaguari (Norte do Paraná), e que encontrou um pacote de livros endereçado a mim. Antes de se mudar para Campinas, e bem antes de falecer, Cida Perez pretendia me devolver uns livros que eu lhe emprestara. Eram três obras de José J. Veiga, que eu havia comprado na tal viagem a Curitiba e, depois de ler, indicara para minha professora. Queremos que as pessoas que admiramos leiam os livros que admiramos. Não sei se a Cida os leu, mas agora, 25 anos depois, eles voltarão para casa. Josepha vai me mandar os exemplares e eu vou relê-los. Comprarei outros, novos, para doar à biblioteca comunitária que já recebeu uma caixa de livros saídos aqui de minhas estantes; mas estes velhos quero-os comigo.
Uma biblioteca, por mais que a dispersemos, acaba sempre voltando a seus donos, mesmo que invariavelmente ilegítimos.
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Sendo J. J. Veiga ainda...
ResponderExcluirLindo, Miguel. Por falar nisso, há tempo quero perguntar: por acaso o título do blog refere-se a uma possível herança da biblioteca de sua tia?
ResponderExcluirTambém já tive costume de ir à sebos, inclusive este da Emeliano Perneta. Atualmente continuo lendo mais livros técnicos e felizmente meu filho (11 anos) lê bastante e gosta de livrarias. Quase todas as manhãs, leio pequenas histórias para minha menina de 3 anos. Sempre que alguém me pede livros emprestados, não nego e na verdade, nem mesmo espero que eles retornem, assim como citado na sua postagem.
ResponderExcluiradorei, sempre fiquei fascinada andando em estantes de sebos. e achar um pacotinho e relembrar histórias do passado, é sempre emocionante. eu achava q eu erroneamente desejava q os outros lessem o q eu tinha lido. por sorte com minha irmã realizo esse desejo, nós intercambiamos livros. mas com outras pessoas tenho ficado no silêncio e na frustração. beijos, peddrita
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