quarta-feira, 16 de novembro de 2011
FUNDOS FALSOS
Virou moda, na ficção, o uso de notas de rodapé com função narrativa. É um reaproveitamento, com fins irônicos ou pelo que há de inusitado, de um recurso usado de forma nauseante nos textos acadêmicos. Na ficção ou na poesia, a nota de rodapé não é algo externo ao texto, criando antes uma tensão. É uma espécie de fundo falso, onde o leitor encontra algo a mais sobre os episódios.
Alguns autores se valem deste expediente para criar um efeito de estranhamento. Ricardo Piglia o usa recorrentemente em Blanco Nocturno (2010). Antes dele, e de forma um pouco diferente, mas com idêntica intenção, J. M. Coetzee utilizou a mesma ferramenta em Diário de um ano ruim (2007). As notas, aqui, criam um universo narrativo subterrâneo.
Nesta onda de confundir o aparato ficcional com o acadêmico, em romances que se aproximam de estudos teóricos, Paulo Scott cria capítulos inteiros que são réplicas de notas de rodapé em seu Habitante irreal (Alfaguara, 2011).
Identifico o início deste uso na poesia de Manoel de Barros, que fazia poemas paralelos em rodapés em um de seus livros mais importantes, Gramática expositiva do chão (1966). O poeta pantaneiro zombava assim da função explicativa das notas, mostrando que em poesia tudo é enigma. Parece-me que ainda é esta a compreensão dos romancistas hoje, que as notas não explicam nada, antes aumentam as dúvidas.
Ao mesmo tempo, elas mostram a força de um imaginário linguístico universitário, que mesmo criticado não deixa de ser uma sombra devoradora.
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eu ainda não deparei com livros assim. ah, q curiosidade. beijos, pedrita
ResponderExcluirMiguel,
ResponderExcluirtambém não me deparei com esse tipo de intervenção. Até porque não li, ainda, nenhum dos citados.
Teriam essas notas semelhanças com aquelas aparente explicações que Machado incluíoa no meio do texto, em Dom Casmurro, tentando tirar-nos do livro? Dando uma aparência de realidade, como se estivesse sendo escrito mesmo pelo próprio Bentinho?
Oi, Alex
ResponderExcluirEm certo sentido, tem esta função do narrador se intrometendo, mas nem sempre. Em Manoel de Barros a nota é uma extensão do poema.
Abraço