sábado, 5 de novembro de 2011
LEITURA EXPERIMENTAL
Alguns bons livros emperram? Isto é que me pergunto num momento em que acabo sempre parando de ler obras que me agradam. Tenho aqui na mesa vários livros começados. Ao invés de terminar alguns cuja leitura está bem avançada, começo outro livro.
Tento me justificar.
– Há tempo mais de começar a ler os livros do que de concluí-los.
Mas a verdade talvez seja outra.
Estou tão contaminado pela dispersão da internet que perdi o fôlego para cruzar correndo um romanção de 400 páginas. No meio da leitura, deixo a poltrona para ver e-mails, para acompanhar o rio-corrente do twitter, e acabo fisgado por um belo artigo de Enrique Vila-Matas em El pais ou por qualquer outro texto.
Semanas atrás, convivi uns dias com uma pessoa totalmente conectada, e fiquei meio assustado. Ela postava coisas no blog e no twitter, conversando na mesa do café, e roendo a unha sem parar. Era tanta ansiedade para saber o que estava passando na internet que ela não conseguia acompanhar as conversas.
O lado bom de tudo isso é que hoje toda obra literária, por mais convencional que seja, na hora da leitura se faz experimental. Uma leitura como colcha de retalhos narrativos (de vários autores e gêneros), composta ao longo de semanas, mais fragmentária e polifônica do que a obra do mais inovador dos ficcionistas.
Não lemos mais o livro, mas um conjunto sucessivo de pedaços de textos, dentro da mesma lógica que percebemos a realidade.
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eu neuroticamente bem disciplinada. começo um livro e quero ir até o fim, não abro outro pra começar sem terminar aquele nem por decreto. isso promove umas emperrações tb. pq se eu não me identifico com o livro, mas neuroticamente quero terminar, a leitura se arrasta. beijos, pedrita
ResponderExcluirPois é, Pedrita.
ResponderExcluirEstou aprendendo a desligar o computador. É o que vou fazer agora.
abraço
Eu, ao mesmo tempo que acho intressante, fico um pouco assustado com essa "atenção parcial constante". A questão não é falta de foco, já que estamos focados totalmente durante a atividade, só que em um curto espaço de tempo.
ResponderExcluirCom muito esforço procuro hoje focar nas leituras e atividades contínuas. Mas confesso que ainda não consegui totalmente. E nem sei se devo, pra falar a verdade.
Antes de ler o post e comentar aqui, estava lendo um livro...
Isso não me apavora, ainda consigo resistir a sedução da internet. Só troco um bom livro por outro... Como acabo de fazer, estava lendo Balzac quando li sua crítica: "A vida não pode ser bonita". Movida pelo súbito interesse em ler Nêmesis, abandonei (temporariamente) História dos Treze. Um abraço!
ResponderExcluir"Não lemos mais o livro, mas um conjunto sucessivo de pedaços de textos, dentro da mesma lógica que percebemos a realidade."
ResponderExcluirTalvez você tenha razão. As novas gerações, especialmente, têm uma forma diferente de apreender informações e com a leitura. Mas acho que com o tempo, o amadurecimento, e o próprio desencanto que o excesso de contatos e informações trazidos pela Internet acaba nos levando a um recolhimento e a uma dedicação mais atenta e demorara sobre determinados assuntos. Isso se refletirá, então, na leitura como antigamente.
Ou não. Comigo acontece isso. Com os mais novos, não sei.
A Internet é um pouco como uma relação. Muitos se aproximam, poucos ficam, liberando-nos, com o tempo, o tempo de que precisamos para nós mesmos.