quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MONSTRO

Raramente releio meus livros depois que são publicados. A escrita e a revisão dos originais me consomem tanto que, quando me livro deles, publicando-os, já não sou mais leitor para esse material. Algumas pessoas comentam passagens e eu fico em silêncio – não tenho convivência com estas histórias. Elas se fizeram autônomas.

A reedição de meus romances seria uma oportunidade de revê-los. Ali por volta de 2003, haveria uma grande compra da Secretaria de Estado de Educação do Paraná de Chove sobre minha infância, e a editora teria que tirar uma nova edição. A compra não saiu, fui acusado de ser “homem do ex-governador Jaime Lerner” por certa pessoinha da SEED com pretensões literárias, e meu livro foi retirado da lista. Era assim o governo Requião.

Por conta disso, reescrevi todo o meu romance de estreia. Eu estava pensando em ser um eterno reescritor. Como a compra não saiu, não vingou a segunda edição. E o livro foi publicado na Espanha a partir da primeira. Entendi então que este livro não poderia mais sofrer alterações. Ele tinha que ser o que ele era.

Agora, 11 anos depois, sai a nova edição, e resolvo não mexer em nenhuma linha. É o mesmo romance, apenas adaptado ao acordo ortográfico e com novo projeto gráfico. Acrescentei à capa frases de artigos sobre o livro. E não quis nem olhar o miolo.

Nos meus arquivos, há ainda a versão modificada do Chove. Não pretendo publicá-la. Não a reconheço como melhor do que a primeira.

Na poesia, o movimento é inverso. Estou agora reescrevendo cada um dos poemas para minha Poesia Reunida, pois o gênero exige um acabamento preciso. Já o romance, como diz A. Alvarez, é um monstro flácido. E não se melhora muito um monstro.

5 comentários:

  1. "Chove sobre minha infância", é um grande livro. (Não sei, nunca li a opinião de especialistas, mas é bem escrito, eu gostei, me identifiquei, basta.)
    Achei ousado. Será relido um dia. É grande, sobretudo, pela identidade que vai se formando entre o autor e o leitor, de modo muito especial para quem tem os pés e a alma na vermelhidão daqueles interiores do PR.

    Essa identidade das gentes com a literatura é fundamental na formação de um povo desenvolvido. E nós, paranaenses do interior temos tão poucas oportunidades... Pena os governantes deixarem assuntos assim tão sérios nas mãos de uns poucos que.. xapralá...

    Se fosse alterado, não seria mais o mesmo. E ele é tão bom!

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  2. Oi, Alex

    Este livro é uma espécie de certidão de nascimento para mim. Fico contente que tenha gostado.
    Abraço

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  3. É lamentável que a SEED não tenha adquirido os livros...talvez hoje eles estivessem ao alcance das mãos dos nossos alunos da rede pública através das bibliotecas escolares. Um grande prejuízo. Que será amenizado em breve... Assim que sair a nova edição eu vou comprar alguns exemplares e doar para a Biblioteca do colégio em que trabalho. Será minha pequena contribuição. Um abraço!

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  4. Oi, Miguel! Que bom que não alterou o Chove, ele é muito bom!
    Olha já passei tanta raiva em relação a essa questão de livros quando trabalhava como professora da rede...mas vou te confessar uma coisa: quase chorei um dia quando fui a Campo Mourão prestar uma prova e cheguei toda empolgada na biblioteca pedindo o Chove, quando a bibliotecária me disse que não havia esse livro, eu fiquei detestando todos os dirigentes da faculdade,chefe de departamento, coordenador de cursos, mesmo sem conhecê-los...mais do que em qualquer lugar, na minha cabeça, o Chove é uma obra básica para se ter nas bibliotecas daquela região. Abraços, Alzira.

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  5. Oi, Alzira

    O livro vai fazendo o seu percurso aos poucos. Não teve mídia quando saiu, embora tenha recebido boas críticas.
    Um dia chegará àquelas bibliotecas.
    abraço

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