Publicado na Gazeta do Povo, 20 de novembro de 2011.
Escrito como se fossem ruínas de outros livros, Alvo Noturno, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras, 2011), renuncia aos recursos fundadores do romance policial. A maquinaria narrativa a funcionar com perfeição, marca deste gênero, é que joga a leitura para frente, prendendo o leitor. O livro de Piglia antes se arrasta, prejudicado pela sucessão de episódios soltos, de linhas que seguem para um lado e depois desaparecem, sem a menor relevância para o todo, a não ser para conduzir o leitor a espaços vazios da trama.
Atendendo a um desejo experimental, Piglia escreve uma obra aberta, que não renova esta gramática e sim a inviabiliza. Há um contrato de leitura estabelecido entre o leitor de policiais e o narrador que pressupõe um fechamento mínimo, recusado programaticamente pelo escritor argentino, um intelectual mais interessado em teorias do que na criação literária. Tudo neste livro é marcado por uma energia centrífuga. Há pedaços de histórias que não se sustentam, diálogos opacos absolutamente dispensáveis, longas descrições decorativas, confissões de personagens que não servem para nada; enfim, a impressão que o romance deixa é de que ele foi feito com pedaços de outros livros, justapostos de maneira aleatória.
Isto dá a Alvo Noturno uma flacidez que o compromete não apenas como romance policial, mas como grande ficção. A gratuidade de cenas, diálogos e reflexões é o seu principal defeito. Em nenhum momento, o leitor se sente diante de um mundo verossímil. O povoado onde se passa a ação é apresentado ora como um fim de mundo, minúsculo e retrógrado, ora como um lugar progressista. Uma das teses da morte de um estrangeiro (sim, há o mistério de um morto, pois o DNA da obra se mantém policial) leva a uma questão de especulação imobiliária – um grande shopping center seria construído no meio do nada, onde já funciona uma antiga fábrica, referência de uma modernidade periférica. Mesmo o personagem principal, o comissário Croce, não consegue ser mais do que uma versão incompleta do inspetor Maigret, de Simenon. Ele está sempre rondando os suspeitos e não consegue tirar a menor conclusão do que o atinge. Em determinado momento, enlouquece e se interna num hospício, de onde manda cartas anônimas que não têm sentido dentro da obra. Daí em diante, quem conduz a investigação é um jornalista de Buenos Aires, que passa longo tempo no campo, gentilmente liberado de seu trabalho.
Há um clarão misterioso que se manifesta à noite e que também não existe além da sua condição de pista mística, que explicaria a manifestação do mal. O livro traz ainda inúmeras notas de rodapé que introduzem informações supérfluas ou redundantes. E mesmo o episódio central para o crime, a entrada de um dinheiro sem fisco, para pagar as dívidas do filho do poderoso estancieiro, não convence. O pai poderia levantar muito mais dinheiro sem precisar “importar” aquele valor (para ele pequeno) de uma de suas contas no exterior.
Tudo soa falso no livro, embora a sua tese seja extremamente interessante: é impossível clarear o que está por trás de um assassinato. “Lutamos para descobrir as causas e deduzir os efeitos, mas nunca conseguimos conhecer a rede complexa de intrigas [...]. Quanto mais perto do centro você está, mais se emaranha numa teia sem fim” (p.242). Nem o comissário nem o jornalista desenredam o crime, que permanecerá na escuridão. Sabe-se apenas que foi condenado um inocente – um homossexual. Mas para se obter este efeito de emaranhamento e obscuridade, Ricardo Piglia usa uma coleção de lugares comuns, como se reciclasse uma tradição comercial de literatura. Alvo Noturno só tem sentido como crítica às limitações de um gênero. O seu valor está neste fim metalinguístico e não na transcendência literária.
Serviço:
Alvo Noturno, de Ricardo Piglia. Tradução de Heloisa Jahn. Companhia das Letras, 256 págs., Preço médio: R$ 38,90. Romance.

Muito interessante. Vou inclui-lo na minha dissertação sobre o romance policial brasileiro.
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