Publicado na Gazeta do Povo, em 25 de dezembro de 2011.
Como uma pessoa pode se colocar fora do tempo?
Este parece ser o centro do romance Ponto ômega, de Don Dellilo. Na cena inicial, um acadêmico e um jovem documentarista são mostrados por um olhar anônimo durante a projeção de 24 hour Psycho, instalação de Douglas Gordon, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Este vídeo exibe em ritmo de pesadelo, extremamente lento, o filme Psicose, de Alfred Hitchcock, fazendo com que os expectadores entrem em outra experiência cronológica, avessa à movimentação contínua da grande metrópole.
Esta instalação aparece no início e no fim do romance – sob o título de Anonimato. Conhecer minuciosamente os movimentos dos personagens ajudaria a compreender melhor as pulsões obscuras do ser humano? Eis o outro enigma proposto.
A partir do segundo capítulo, participamos da vida dos dois homens que visitam a instalação. Jim Finley, o documentarista, quer fazer um filme com o acadêmico Richard Elster, que foi conselheiro do Pentágono na Guerra do Iraque. Humanista, leitor dos poetas mais nobres, Elster usou o seu poder intelectual para sustentar como linguagem a guerra: “Era para isso que eu estava lá, para dar a ele palavras e significados” (p. 29), pois “o Estado precisa mentir” (p.28) . O jovem quer que ele se confesse para a câmera, purgando assim seus tormentos interiores.
Embora negaceando, ele convida o jovem para passar uma temporada no deserto de Sonora, onde possui uma casa rústica. É nesta anticidade que transcorrem os capítulos centrais. O deserto, entre outras coisas, promove a suspensão do tempo. Aos poucos, Finley vai perdendo a noção dos dias, entrando num mundo de essencialidades, de comunhão com a ferocidade da paisagem: “As cidades foram construídas para medir o tempo, para retirar o tempo da natureza” (p.41). Há ali um desejo de anulação da história para se atingir o ponto ômega, uma espécie de comunhão com a matéria, sem consciência nem dor, “um salto para fora da biologia”, uma volta para “a matéria inorgânica”, para ser “como pedras no campo” (p.48).
Matar a consciência humana é ao mesmo tempo esquecer a participação a distância do grande ritual de morte que foi a guerra. Nesta parte do romance, há uma teorização sobre este afastamento. Elster é afetivamente falido – separado, tem problemas com os filhos do primeiro casamento (apelidados de Desastre e Ruína) e com uma filha em dificuldades. Esta também segue para o deserto, alguns dias depois, fugindo de um namorado perigoso e incógnito para os pais. Ela imediatamente gera uma energia erótica, atraindo o visitante e fugindo dele. Tudo é enigma neste romance, que culmina com o desaparecimento da moça, provavelmente assassinada.
Este fato faz com que o tempo seja novamente mensurado: “eu voltara a contar os dias, tal como fazia no começo” (p.76). Logo em seguida, Finley diz: “À noite, os cômodos eram relógios” (p.77), numa percepção de que não há um lugar onde o tempo possa ser cego, refratário à cidade. O provável crime coloca Nova York dentro do deserto, anexando-o à sua temporalidade, e o acadêmico que tentava neutralizar ali a sua culpa pela morte de inocentes é obrigado a reviver tudo a partir desta perda pessoal.
O projeto do filme que iria mostrar um rosto como se fosse alma, que daria respostas às desrazões da guerra, perde completamente o sentido. Finley conclui que “a história estava acontecendo ali, não no Iraque nem em Washington” (p.87), e que não há repostas, não há verdades, por mais que tentemos retardar o tempo para tentar compreender os episódios. Nova York não para nunca, conclui o narrador deste ótimo romance que é pura poesia.
Serviço
Ponto ômega, de Don Dellilo – trad. Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 2011. 104 páginas. Romance.

anotado, fiquei curiosa. eu emprestei um amor anarquista pra minha irmã. nós nos emprestamos livros regularmente. ela igualmente amou. ficou surpresa que existiu essa comunidade. beijos, pedrita
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