Publicado na revista D'Pontaponta, n. 194, dezembro de 2011
Antônio e eu, em foto de Cristovão Tezza
A relação das crianças com o tempo está mudando. Algumas delas são mais sensíveis às experiências vividas, apresentando uma capacidade de entender esse processo por meio de metáforas espontâneas.
Quando Antônio completou 4 anos, ele me disse:
– Pai, agora eu cresci, não é?
Soou estranha esta conclusão de meu filho.
Crescer para ele é ter alcançado a idade avançada de 48 meses.
Na hora, apenas rimos deste raciocínio inusitado.
Esta semana, ele queria reclamar que o deixávamos meio de lado.
– Faz anos que vocês não me levam para andar de bicicleta – ele disse, soltando um suspiro.
Confesso que me diverti com esta forma de se expressar. Meu filho talvez tenha ouvido tal construção de mim ou de outro adulto. Uma criança na sua idade não pode ter uma percepção do transcurso de anos. Ele parecia um velho falando de algo que cessara em sua vida.
Ainda não levamos Antônio a um local em que possa andar de bicicleta, mas passei a refletir sobre sua maneira de perceber o tempo.
As pesquisas mostram que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Isso vem aumentando a população idosa, o que, a médio prazo, vai comprometer todo o sistema social. Teremos mais doentes, as aposentadorias se estenderão, a produtividade cairá etc.
Esta é, no entanto, apenas uma parte do problema. Em verdade, estamos envelhecendo muito desde o nascimento. Não se trata de um envelhecimento físico, pois conseguimos prolongar bastante a juventude. As mulheres de 50 anos na minha infância, por exemplo, eram velhas. As mulheres de 50 anos hoje são verdadeiras balzaquianas, muito ativas no mercado da sedução.
A sensação de passagem de tempo é que se intensificou; e a causa talvez seja o nosso relacionamento com o mundo dos objetos.
Vejam a diferença. Ganhei uma máquina de escrever Olivetti ‘Lettera 35’ em 1979. Eu havia concluído o Curso Bandeirante de Datilografia e queria treinar para arrumar colocação em algum escritório. Nada deu certo e acabei no Colégio Agrícola, como interno, mudando-me para lá com a máquina.
Ela me acompanhou durante o ensino médio, a faculdade, os meus primeiros anos de trabalho, a minha especialização e o início de meu mestrado. Comprei o primeiro computador em 1992, e daí em diante a quinquilharia eletrônica começou a se suceder num ritmo acelerado.
Os objetos mudam com tanta freqüência que nem nos lembramos mais deles. Tente listar todos os aparelhos de celular que você já teve. Esta obsolescência dos objetos funciona como um cronômetro enlouquecido. Como trocamos muito as coisas, descartando rapidamente as velhas, imaginamos ter vivido muito mais do que o que foi registrado pelos calendários.
Crianças de 4 anos já passaram por tantos brinquedos e produtos eletrônicos que sofrem uma sensação de perda e são tomadas por uma nostalgia que não condiz com a idade biológica delas.
No próximo aniversário do Antônio, não sei quantos anos ele terá.

Olá, Miguel.
ResponderExcluirUm exemplo relatado por uma colega professora. Ela chegava até a biblioteca do colégio em que leciona e ouviu o seguinte diálogo:
Aluno 1: O que é mesmo um fóssil?
Aluno 2: Ah, algo muito velho, cara. Algo com tipo uns trinta anos ou mais...
Pois é, o tempo, mais do que nunca, é relativo para esta nova geração. A noção de perspectiva histórica se perdeu completamente e um envelhecimento precoce tomou o seu lugar.
Abraços.
¿Què hi tinc jo a veure, digueu-me homes,
ResponderExcluiramb les espases i les batalles?
L'única estrella que prenc per guia
és la del gaudi i de la música.
Feliç any 2012!!
É verdade Miguel.
ResponderExcluirNo meu novo livro "O tempo não tem idade" eu escrevo sobre a velocidade do tempo cuja subjetividade só compreende o que já se foi e o que ainda não é. O nosso tempo é único, é o agora. a única coisa que passa somos nós, através do processo de envelhecer. Estamos entrando na era do tempo sem tempo. Um abraço.