segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LEVEZA

Conheci pessoalmente Moacyr Scliar em 9 de dezembro de 1986. Havia concluído o curso de Letras e tentava me estabelecer em Porto Alegre, onde vivi perto de um mês. Fascinado com a cidade, percorria os sebos, comprando obras longamente desejadas. Quando soube que Scliar estaria lançando o volume de contos O Olhar Enigmático (Guanabara, 1986) em uma livraria próxima, corri até lá para pegar o autógrafo.
Havia pouca gente e pude conversar com o autor, que escreveu duas dedicatórias exageradas – comprara também a quarta edição de O Carnaval dos Animais. Eu descobriria depois que, generoso, Scliar elogiava todo mundo, jamais frustrando quem o procurava. Ele sempre atendia aos pedidos mais irrelevantes, cedia textos já publicados, escrevia outros sob encomenda, respondia rigorosamente os e-mails – e tudo com grande rapidez.
Naquele primeiro encontro, eu era ainda o leitor tímido fascinado com um de seus autores prediletos. Em Scliar, cultuávamos um uso do realismo mágico que transcendia a questão política tão opressiva na ditadura militar por meio de recursos fantásticos derivados de sua formação judaica. Havia, portanto, um viés político e outro étnico na sua produção, o que lhe dava um lugar único nos anos 70 e 80. Também era forte a presença da cidade de Porto Alegre, que ganhara em seus livros uma latitude mítica e ao mesmo tempo muito real.
Além da tendência para o humor, para a ironia, duas características textuais estariam presentes em seus textos – uma leveza e certa rapidez narrativa. Isso faz com que eles, em alguns momentos, soem superficiais. Não vejo tal opção como defeito, antes como qualidade. Scliar nunca quis escrever “O Grande Romance”, daí o tom agradável de seus livros e também de suas falas públicas, que tendiam para parábolas. Ele jamais cansava a plateia.
Ficará, por isso, como um dos grandes mestres contemporâneos que ajudou a tirar o peso de nosso idioma literário.

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 28 de fevereiro de 2011.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

LEMBRANÇA

Scliar, eu e Cíntia Moscovich na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

LITERATURA DA EXCEÇÃO

Depois da leitura prazerosa dos contos de Moacyr Scliar, agrupados por ordem temática (Contos Reunidos. Cia das Letras, 1995), percebemos com clareza a extensão de sua importância. O contista, apresentado agora de corpo inteiro, é uma das mais consistentes vocações para a história curta na língua portuguesa. Ao contrário do que se pensa, Scliar não pode ser lido como um escritor prioritariamente do fantástico, ou seja, como um técnico que faz do maravilhoso uma receita narrativa. A sua grandeza não está na natureza sobrenatural de algumas de suas histórias. O fantástico aparece como um expediente necessário para expressar uma visão de mundo contundente e desencantada. O humor amargo, que extravasa da anedota judaica, é um recurso que chama a atenção para a ausência de sentido da ilusões humanas assim como o insólito serve para retratar seres que cruzam a linha da normalidade. Mas, em última instância, o que temos é um escritor que busca colocar o leitor diante da tragédia que é a vida. Revelador, nesse sentido, é o desfecho do conto “Entre Sábios”(p.246): o menino que responde as perguntas dos sábios, sem errar nada, mostrando que domina o conhecimento humano, cala-se diante da pergunta crucial que nenhum erudito poderá responder:
Empurrando os outros, um velho passou à frente e encarou o menino:
- Qual o sentido da vida?
A sua é uma literatura inconformada com o vazio da aventura humana. Não encontraremos, portanto, uma imaginação totalmente livre, desapegada do real e nem uma exposição alegórica das relações sociais - tão ao gosto dos escritores brasileiros que produziram durante o período da ditadura militar. Scliar, que faz parte dessa geração, lega para a posteridade uma obra que ultrapassa o momento histórico de seu surgimento justamente por ser portadora de uma visão mais abrangente da problemática humana. Suas histórias visam antes pôr em questão o próprio significado da vida humana do que este ou aquele regime político e social.
Indo com naturalidade do cotidiano mais sem transcendência até os fatos insólitos, tratados de forma absolutamente não-enfática, o que leva o leitor a aceitá-los sem exigir nenhuma tipo de verossimilhança, Scliar opera a passagem do sonho para a realidade, do cotidiano para o fictício, criando vias de comunicação entre estas esferas. Sua maestria reside na suspensão de fronteiras entre o artificial e o real, entre a imaginação e a observação, pólos antagônicos que são tratados, em seus contos, como territórios confinantes. Entre o elemento fantástico e o real há uma condição intermediária representada pela obsessão que transforma a vida dos personagens em uma idéia fixa que, levada ao extremo, rompe com a normalidade. A obsessão pode ser ilustrada por diversas histórias. Em “Os Contistas”, os escritores vivem atormentados pelo desejo da obra perfeita e reveladora num mundo impermeável à literatura. Já no conto “O Sindicato do Calígrafos”, tais profissionais fazem de sua arte obsoleta uma forma de resistência vazia a um mundo onde eles perderam o sentido. Ou ainda em “Os Necrologistas”, conto em que estes tentam assumir um papel de relevância numa sociedade marcada por um horror à morte; os necrologistas mais íntegros se dilaceram pela necessidade, inerente à própria função, de elogiar os falecidos para que os feitos deles sirvam como um estímulo aos que alimentam projetos de sucesso mundano, sendo obrigados a omitir, no necrológio, a vacância que carateriza a vida na sociedade burguesa. Estas profissões em vias de extinção aglutinam seres que têm uma existência excêntrica e que, por isso, se opõem às ilusões reinantes.
A linguagem de Scliar é de uma clareza excepcional, o que cria o contraste com histórias que muitas vezes não se deixam revelar. Este encontro entre linguagem transparente e sentido oculto, ou ausência de, faz com que o leitor fique entre dois territórios. O humor entra como um recurso estóico: rir de nossa condição finita e sofredora é uma maneira de aceitá-la olhando-a de frente.
Longe de contribuir para uma literatura “sorriso da sociedade”, o autor povoou o seu universo ficcional com indivíduos em atrito com o meio: o louco, a criança, o profeta, os doentes, o judeu, os pequenos empregados, os aposentados, os profissionais cujas ocupações estão em desuso etc. Eles representam uma camada de desajustados sociais que acaba sendo portadora de uma imagem não idealizante da sociedade. Muito mais do que literatura judaica ou fantástica, temos em Scliar uma literatura da exceção, ou seja, que busca refletir trajetórias humanas que sideram fora do eixo solar da vida moderna burguesa.
Seguindo a divisão temática dos contos, encontramos os elementos aglutinadores desta visão de mundo. As histórias que fogem do ordinário, por apresentarem elementos estranhos, fantásticos ou meramente obsessivos, representam o maior filão desta obra: 37 contos, divididos da seguinte maneira:
- “Estranhas Criaturas” (4), grupo formado por histórias que retratam seres marcados pela diferença;
- “Cenas Insólitas, Cenas Penosas” (23), narrativas em que os personagens experimentam o sofrimento gerado pelas características excepcionais que os distinguem das pessoas comuns;
- “Enfermos” (10), em que a diferença geradora de atritos é produzida por um problema de saúde.
As relações de poder, em suas várias esferas, constituem o segundo grande grupo de contos (30), ajuntados sob os títulos de:
- “Os Jogos do Poder e da Fortuna” (23), série em que o autor dá a conhecer os mecanismos de opressão na sociedade capitalista;
- “O Rei e Seus Súditos” (4), aqui o poder aparece dentro das estruturas milenares do imaginário popular;
- “Bestiário”(3), módulo em que o poder é exercido contra ou por um animal.
Outro grupo é o das narrativas que promovem uma releitura de passagens históricas (11):
- “A Bíblia Revisitada” (6), adapatação das passagens bíblicas a uma realidade nova;
- “A Ficção da História” (3), momento em que Scliar promove a revisão livre de alguns fatos históricos;
- “Os Heróis” (2), seção que trata das agruras de personagens míticos.
Os outros três temas são:
- as experiências das crianças, em que a justiça e a perversidade são as faces de uma mesma medalha (“A Maldade da Infância” - 10 contos);
- as esdrúxulas e/ou ultrapassadas ocupações que definem uma espécie de exílio do presente (“As Profissões”- 9 contos);
- e as impossibilidades de entendimento entre as pessoas, apesar de todos os recursos técnicos de comunicação (“Meios de Comunicação”- 6 contos).
(É claro que a presente divisão não é rigorosa e apresenta variantes, mas é uma tentativa de sintetizar as principais linhas destes contos numa espécie de fotografia aérea compatível com a extensão do artigo).
Em todas estas histórias, deparamo-nos com elementos ou comportamentos atípicos que desencadeiam reações de estranhamento. Esta parece ser a grande característica da obra em questão: solapar, a partir de um amálgama do normal e do anormal, os alicerces do leitor.
Se, como já ficou dito, as histórias de Scliar se distinguem das produzidas sob o rótulo de realismo fantástico no Brasil do período militar, elas também se diferenciam desta mesma literatura produzida pelos hispano-americanos. Nestes, o que impera é uma visão exótica de um continente conhecido pitorescamente pela tradição mística, de raízes indígenas. O realismo maravilhoso entra nessas histórias latino-americanas como um elemento de cor local que, mesmo sendo altamente crítico, acaba correspondendo a uma idéia estereotipada de nossa realidade. Tal literatura acabou fazendo sucesso mundial não por propor uma nova interpretação deste canto da América, mas por confirmar a imagem que o resto do mundo fazia dela. Por isso, o realismo mágico praticado, para dar apenas um exemplo, por um Garcia Márquez é uma faca de dois gume em que revolta e contemporização aparecem geminadas.
Scliar não pode ser pensado dentro destes padrões. O fantástico em sua obra funciona antes como uma maldição, como uma desgraça que faz com que o sujeito entre em choque com o mundo circundante, enquanto a literatura maravilhosa mais adocicada e menos problemática se limita, muitas vezes, a fornecer uma definição de um meio outro em que a magia reina. As histórias de Scliar não se querem definidoras de uma realidade local. Em seus contos, quem aparece é o homem da Porto Alegre atual, mas é também o homem bíblico e o homem moderno de qualquer lugar do planeta.
A obra do contista é, com certeza, a mais importante de nossa literatura dentro da temática que a caracteriza. Scliar figura como um dos nossos grandes contistas vivos, ao lado de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Escrevendo com fluência, de forma sintética e arrebatadora, ele construiu um universo próprio em que a condição de judeu enriquece sua produção sem conduzi-lo para o território da ficção essencialmente judaica, que restringiria, a meu ver, a sua visão. Estamos diante de um dos mais ricos retratos do homem moderno em sua vivência do relativo.
Gazeta do Povo, 30 de janeiro de 1996.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

HAICAI 12.

FLOR DE LARANJEIRA

A flor da laranjeira
é a preferida dos enxames
(rende mel e cera).



FLOR DE TORONJA


De los enjambres es
predilecta la flor de la toronja
(huele a cera y a miel).

HAICAI 11.

                  | dos Andes voam velozes,
As nuvens  | de montanha em montanha,
                  | nas asas dos condores.




                 | de los Andes van veloces,
Las nubes  | de montaña en montaña,
                 | en alas de los cóndores.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

HAICAI 10.

O PAVÃO

Todo pompa, o pavão
pelo galinheiro democrata
passa como uma procissão...


EL PAVO REAL

Pavo real, largo fulgor,
por el gallinero democrata
pasas como una procesión...

HAICAI 9.

LIBÉLULA

Libelulazinha:
prego de vidro
com asas de acrílico.



EL CABALLO DEL DIABLO

Caballo del diablo:
clavo de vidrio
con alas de talco.

HAICAI 8.

O BAMBU

Foguete de vara alongada,
assim que sobe o bambu se verga
em chuva de mínimas esmeraldas.



EL BAMBÚ

Cohete de larga vara
el bambú apenas sube se doblega
en lluvia de menudas esmeraldas.

HAICAI 7.

OS GANSOS

Os gansos por nada
fazem soar o alarme
em suas trombetas de barro.



LOS GANSOS

Por nada los gansos
tocan alarma
en sus trompetas de barro.

HAICAI 6.

O INSETO


O inseto segue pelo caminho,
as asas presas às costas
como mochila de andarilho.



EL INSECTO


Breve insecto, vas de camino
plegadas las alas a cuestas,
como alforja de peregrino...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

HAICAI 5

O CHERIMÓLIA


Um galho da árvore
se retorce e fala:
Casal de papagaios.



EL CHIRIMOYO


La rama del chirimoyo
se retuerce y habla:
pareja de loros. 

HAICAI 4

O SALGUEIRO


Salgueiro que seduz.
Quase ouro, quase âmbar,
quase luz...



EL SAÚZ


Tierno saúz
casi oro, casi ámbar
casi luz...

HAICAI 3

AS ABELHAS


Goteja e goteja
mel da colméia;
cada gota é uma abelha...



LAS ABEJAS


Sin cesar gotea 
miel el colmenar; 
cada gota es una abeja...

HAICAI 2

OS GAVIÕES


A noite foi só chuva.
Ao sol, os gaviões não param
de pentear suas plumas.



LOS ZOPILOTES 


Llovió toda la noche 
y no acaban de peinar sus plumas 
al sol, los zopilotes.

HAICAI 1.

O VIVEIRO


Tantas aves em tropel;
o viveiro musical
é uma torre de Babel.



LA PAJARERA


Distintos cantos a la vez; 
la pajarera musical 
es una torre de Babel.

UM DIA (poemas sintéticos) JOSÉ JUAN TABLADA

PRÓLOGO


Com seu alfinete brilhante
a arte quis espetar no papel
as mariposas do instante;

em breve verso fazer luzir,
como na gota de orvalho,
todas as rosas do jardim;

e guardar nestas páginas
a árvore e a planta
como flores de herbário.

Mágico grão de almíscar
que no teatro de teus odores
o passado de amor reavivas,

pequeno caracol do mar,
invisível na areia da praia
e vibrando imensidades!



[PRÓLOGO]


Arte, con tu áureo alfiler
las mariposas del instante
quise clavar en el papel;

en breve verso hacer lucir,
como en la gota de rocío,
todas las rosas del jardín;

a la planta y el árbol
guardar en estas páginas
como las flores del herbario.

Taumaturgo grano de almizcle
que en el teatro de tu aroma
el pasado de amor revives,

parvo caracol del mar,
invisible sobre la playa
y sonoro de inmensidad!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

INCONSCIENTE NAZISTA

in Caderno G, Gazeta do Povo. Curitiba, 20 de fev. de 2011.

Mantido inédito por um autor que, nos últimos anos de vida, trabalhou em ritmo industrial, O Terceiro Reich, romance que Roberto Bolaño (1953-2003) concluiu em 1989, não traz ainda a tendência narrativa para a dispersão multifocal que marcaria o seu estilo cultuado a partir do sucesso de Os Detetives Selvagens (1998). Publicado apenas em 2010, ele está mais próximo, tanto pela localização espacial (um balneário ao lado de Barcelona) quanto pela preocupação de construir uma história melhor arrematada, de A Pista de Gelo (1993) do que das últimas obras. Em ambos os livros, sobressai uma velocidade textual que toma conta do leitor, quase que o hipnotizando.
O enredo tinha tudo para ser monótono. Um jovem alemão (Udo Berger) vai passar as férias com a bela namorada, Ingeborg, no litoral da Catalunha, escolhendo o mesmo hotel onde, na infância, gastava os verões na companhia dos pais. O retorno não é acidental, ele quer rever a bela dona do estabelecimento, Frau Else, por quem nutriu um amor secreto. Especialista em jogos de guerra, Udo tem dois projetos para as férias: escrever um artigo técnico sobre o seu passatempo e preparar-se para produzir um romance. Resolve então se dedicar a um diário – que é o livro em questão.
Os dias iniciais se perdem na monotonia própria da praia. Banhos de sol (dos quais ele foge), amizades novas e perigosas (entre elas, um casal de conterrâneos), saídas para casas de show, bebedeiras etc. Enquanto isso, Berger arma o seu jogo em uma mesa no quarto e começa a teorizar sobre ele. Há, assim, um contraste entre a vida exterior (descompromissada) e a interior (tensa por conta de sua dedicação aos jogos – ele é campeão nacional desta modalidade de esporte). Aos poucos, a vida interior vai se sobrepondo à outra, e tudo assume um ritmo alucinante. O amigo alemão (Charly) morre depois de ter espancado a namorada; Ingeborg se assusta com a vila marítima e vai embora; Berger é atraído por um homem musculoso e todo deformado (o Queimado), que mora na areia da praia, vivendo de alugar pedalinhos.
Sozinho no hotel, sem sair e acordando tarde, ele convida este conhecido para disputar o jogo, reencenando a Segunda Guerra Mundial: com Queimado no papel dos aliados e Berger no dos alemães. É um jogo longo, que avança durante várias noites. O campeão ensina as regras ao inimigo e, aos poucos, começa a ter dificuldades para batê-lo.
Paralelamente, Udo tenta seduzir Frau Else, que espera a morte do marido muito doente. As suas férias acabam suspensas e se acirram as rivalidades amorosas e nacionais. Com a partida tomando conta do hotel (o dono ajuda Queimado) e da própria cidade, o turista alemão passa a ser visto como um perigoso nazista: não volta para o seu país, perde o emprego, fica sem dinheiro, é abandonado pela namorada, mas está resistindo bravamente aos avanços dos exércitos opositores. A diversão inocente toma lugar da realidade e Berger vê todo mundo como inimigo, tendo que seguir sozinho nesta guerra de espectros: “éramos como fantasmas que pertenciam a um Estado-maior fantasma exercitando continuamente em tabuleiros de wargames” (p.335).
Apesar da aparência lúdica e inofensiva, essas distrações adultas funcionam como um inconsciente nazista, que pode aflorar paranoicamente a qualquer momento. A confusão entre jogo e realidade vivida pelo personagem denuncia que os conflitos bélicos do passado continuam ativos, como uma velha ogiva subterrânea, prestes a explodir.

Serviço: O Terceiro Reich. Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão. Cia. das Letras, 344 págs., R$ 45.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CONSTRUTORES DE RUÍNAS

Quando ele abriu a mala preta de rodinha, eu esperava ver roupas imundas e outros pertences menos agradáveis. A aparência dele não prometia coisa diferente. Cabelos ralos grudados na cabeça, calças lustrosas de sujeira acumulada no mínimo há semanas, uma camiseta branca encardida, com marcas de suor nas axilas.
Fui buscá-lo na rodoviária, atendendo a solicitação de um amigo em comum:
– O fotógrafo WB quer fazer um mapeamento de sua cidade, e precisa de um cicerone.
Eu imaginava um desses fotógrafos com parafernálias eletrônicas, caixas e caixas de equipamentos, assessor, veículo próprio, e a obrigação de gastar o máximo para corresponder às previsões orçamentárias de algum projeto de lei de incentivo.
Então foi uma surpresa saber que WB viria de ônibus. Mais surpreso fiquei quando ele se apresentou com a mala estropiada. Enquanto íamos para o meu carro, ele a abriu e mostrou uma confusão de máquinas fotográficas antigas, anteriores às digitais. Eram máquinas comuns, das quais eu quase já não tinha lembrança.
Ele escolheu uma das mais ordinárias, colocou o filme, e disse:
– Podemos ir.
Recusou o carro quando eu o apontei no estacionamento.
– Tenho pouco tempo, gostaria de começar a fotografar a cidade agora.
E seguimos, no sol da manhã, a pé pelo centro. Eu arrastava a mala para ele em alguns momentos.
WB não é de tirar muitas fotos.
– Não desperdiçar os olhares – ele falou, sem que eu o questionasse.
Parava nos prédios, nos muros mais estragados, e ficava longamente estudando as rachaduras. Quando identificava uma com um desenho interessante, fazia a foto. Apenas uma foto.
– Na arte, só temos uma chance.
Gastamos a manhã inteira vagando pelas ruas. Comemos um sanduíche num boteco, e saímos em busca de mais imagens. Eu estava feliz, sempre gostei de andar pelo centro e de olhar os prédios, estudando os aspectos artísticos que o tempo vai desenhando nas paredes. Diante de uma parede com muitas estrias, eu disse para WB:
– São raízes de futuras ruínas.
Ele gostou da frase, tirou uma caderneta suja do bolso da calça e tomou nota.
– É uma boa definição. O tempo transforma tudo em ruínas, em alguns lugares mais rapidamente do que em outros.
– Você vai fazer uma exposição?
– Não, não fotografo pra isso. Alimento um arquivo. Só registro cidades com prédios precários.
E continuamos tarde adentro neste trabalho. Mesmo com um olhar parcimonioso, WB gastou 2 filmes em duas máquinas diferentes, reclamando ao guardar o equipamento.
– Está cada vez mais difícil achar filmes.
– Por que você usa esses modelos?
– Comecei a fotografar com eles; não quero que o meu olhar se modifique. Da primeira à última imagem de meu arquivo, haverá sempre o mesmo recurso técnico.
– Então é por uma questão de coerência?
– Melhor seria dizer que é por uma questão de fidelidade a mim mesmo.
No final do dia, tomamos cerveja num bar perto da rodoviária. Ele pediu uma Original, e não tive coragem de dizer que esta cerveja não era mais feita aqui.
Quando o despachei no ônibus, ele pediu meu endereço postal, mandaria as fotos de nossas raízes.
E se despediu, misteriosamente:
– Se acontecer alguma catástrofe, não me culpem.
As fotos ainda não chegaram, talvez ele as revele em casa, e este processo artesanal demora muito. Mas, desde aquele dia, não deixo de estudar atentamente as rachaduras dos prédios que frequento.

D’pontaponta, janeiro/fevereiro de 2011, n. 184.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O CINISMO DOS EMERGENTES

A Índia entrou no imaginário ocidental como espaço da iluminação interior, dos homens santos e dos rituais de purificação. Mas é outra a Índia revelada pelo primoroso romance de estréia de Aravind Adiga – O tigre branco (Nova Fronteira, 2008, tradução Maria Helena Rouanet), ganhador do Man Booker Prize 2008. Segundo mais jovem autor laureado pelo prêmio, Adiga, que nasceu em 1974 na Índia, escancara a existência de duas pátrias, a da Escuridão e a da Luz.
A Índia das trevas é a banhada pelas águas do rio Ganges, onde vivem os homens invisíveis, presos às suas castas e a uma falsa democracia. A outra é aquela próxima do mar, onde houve algum desenvolvimento econômico. Quem narra o romance é um empresário vindo do país profundo, que desmonta cinicamente o mecanismo de ascensão social.
Nascido sem nome, é chamado apenas de Munna (menino), ele acaba batizado pelo professor como Balram Halwai. Seu pai, um puxador de riquixá, morrerá de tuberculose por falta de atendimento médico. O menino se destaca na escola precária de sua aldeia, recebendo o apelido de Tigre Branco, assumindo o papel do animal poderoso que vive aprisionado. Mais um batismo. Mas logo tem que abandonar tudo para trabalhar numa casa de chá. Depois de muito ardil, consegue se tornar motorista particular em Delhi. E logo um empresário em Bangalore, o centro de tecnologia que presta serviços aos Estados Unidos.
Ele apresenta sua trajetória como se estivesse escrevendo um livro de empreendedorismo, que poderia se chamar “Como se tornar um empresário em sete dias, com toda a facilidade!”. Por ser um homem meio cru, sem uma educação formal, Balram faz uma leitura ingênua de tudo. O romance se organiza em sete longos e-mails que ele escreve ao primeiro-ministro da China, tida como uma nação amante da liberdade, em um dos vários momentos irônicos da narrativa. Sem pudor, Balram vai relatando como todos os de sua classe vivem pacificamente numa gaiola social. Na condição de animal raro, ele resolve romper com isso. Trabalhando para manda-chuvas corruptos, faz chantagem, mente, abandona a família à miséria, recusa-se a assumir os hábitos ancestrais, compra proteção e comete outros crimes, sempre com a sua idéia fixa. E nunca se sente um monstro, alegando que, na civilização, onde vive agora, “alguém pode ser bom, se quiser. Em Laxmangardh (sua aldeia), ele não teria sequer escolha. Eis a grande diferença entre esta Índia e a outra: a escolha”.
Dirigindo o carro do patrão, convive com a classe dominante e vai aprendendo a ser um homem. É pelo espelho retrovisor que ele se vê ao ver os patrões. Começa a beber uísque, desejar mulheres loiras e vestir-se como ocidental. Mas o momento de mudança se dá quando ele se encontra com um tigre branco no jardim zoológico. Acontece uma feroz iluminação. Ele descobre a própria identidade predadora. Mata e rouba o patrão, começando sua carreira de sucesso.
É assim que ele se faz um pilar do desenvolvimento indiano, assumindo um nome falso (o último batismo), Ashok Sharma, igual ao do seu patrão. Aravind Adiga constrói um personagem sem caráter, que se torna símbolo extremo de um impulso selvagem de liberdade. Um alerta para os que vivem na luz. E tudo isso acontece à sombra da imagem sorridente de Mahatma Gandhi.

(Crítica publicada originalmente na revista Veja, edição 2086, de 12 de novembro de 2008. )

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CORRIDA DE RATOS


Coluna Intervalo de Leitura, in Gazeta do Povo, 13 de fevereiro de 2011.


Apresentado como ro­­mance, Entre Assassinatos, de Aravind Adiga (nascido em Madras, 1974), é um vigoroso volume de contos sobre uma pequena cidade da Índia, Kittur, no período de 1984 a 1991, anos dos assassinatos, respectivamente, de Indira e Rajiv Gandhi, e que podem ser vistos como o fim de toda uma era. Não há uma relação de continuidade entre essas histórias, mas elas funcionam como um painel infernal (à la Dante) do momento de integração da Índia ao moderno mundo do consumo, sem que o país tivesse ainda se libertado da exploração dos subalternos.
Se em O Tigre Branco (2008), romance de estreia de Adiga, a história era apresentada em primeira pessoa, definindo assim o tom cínico do livro, pois é um emergente ingênuo e deslumbrado que escancara os expedientes criminosos usados para subir na vida, há nesta nova obra uma multiplicação de vozes que amplia o registro simbólico que o autor faz daquela realidade.
Como quer mapear Kittur, ele intercala aos contos pequenas descrições urbanas – do comércio central aos lugares sagrados, da região dos pobres aos bairros ricos. Em cada um desses pontos, há personagens atormentados por suas circunstâncias.
O dono de uma fábrica de camisas que explora as costureiras poderia ser o típico empresário vilão num país pobre, mas padece de um dilema interior: como é sistematicamente visitado por fiscais ávidos por propinas, tem que escolher entre aceitar a corrupção, com pequenos atos de rebeldia (suja com as próprias fezes o uísque que serve aos fiscais), ou enfrentá-los e ser perseguido.
Escolhendo um conjunto bastante amplo de personagens, dos brâmanes, saudosos da época em que dominavam a Índia, aos agricultores pobres que pertencem à casta mais baixa, os hoykas, e representantes de outros grupos raciais ou religiosos, Aravind incorpora à literatura contemporânea uma babel social, marcada pela corrupção que se alastrou cancerigenamente por todos os setores: “Milhares, sentados em casas de chá e universidades e lugares de trabalho, a cada dia e cada noite, amaldiçoavam a corrupção. Ainda assim nenhuma só pessoa havia encontrado um modo de matar o demônio sem abrir mão de sua parte na pilhagem” (p.43).
Neste universo, ser honesto ou solidário é pôr em risco o pouco que se tem. É isso que acontece com o vendedor que falsificava remédios para doenças sexuais. Ele também vendia um livro sobre a corrida dos ratos, obra de autoajuda destinada a quem quer vencer a qualquer custo. O próprio vendedor estava nesta disputa, trabalhando duro para arranjar o dote e casar suas três filhas. Mas descobre que o pretendente da primeira delas está com uma doença sexual terrível. Embora não consinta o casamento, comove-se com a situação do jovem. Ele deixa o seu trabalho para ajudar o ex-quase-genro mais por uma questão de consciência, por se sentir um charlatão, do que por piedade, podendo com isso arruinar a vida de todos os familiares.
O último conto apresenta um processo inverso. O brâmane rico e bem formado, que se tornara comunista para ajudar os subalternos, apaixona-se por uma órfã pobre. O que era interesse social, marcado pelo idealismo herdado de Gandhi, se faz lascívia. Ele então se vale de sua casta para prejudicar a moça que o desprezara sexualmente.
Avesso à onda de cosmopolitismo turístico, Aravind constrói um livro intenso e impecável, em que a cidade de Kittur se transforma no modelo reduzido da Índia e a própria Índia em uma metáfora sofrida dos países periféricos, onde todos são transformados em seres corruptos e corruptores.
Serviço:
Entre Assassinatos, de Aravind Adiga. Tradução Diego Alfaro. Nova Fronteira, 340 páginas. R$ 39,90.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

UMA CARICATURA




Achei ótimo o blog http://picinezblog.blogspot.com/, com caricaturas de gente das letras. Aqui uma leitura do escriba de Peabiru.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ÁRVORES ALTAS

Escrito em 1905 e publicado em 1909, Recordações do escrivão Isaías Caminha (Penguin & Cia. das Letras, 2010) talvez seja a obra-prima de Lima Barreto (1881-1922). O romance acompanha o drama de ser mulato em uma sociedade convicta da superioridade ariana e que tentava esconder a mestiçagem que sempre nos caracterizou como país. É uma história vivida na pele pelo jovem escritor (tinha 24 anos) que não encontrava um lugar social condizente à sua genialidade.
Caminha, seu alter ego, é um moço talentoso, filho da relação arrependida entre um padre e sua empregada, que se destaca na escola da província e ousa querer continuar os estudos. Cheio de sonhos de realização pessoal, parte para o Rio de Janeiro com pouco dinheiro e uma carta de apresentação a um deputado. Da janela do trem, ele observa as árvores altas, sabendo-se igual a elas. Talvez, por isso, tenta ignorar o conselho quase calado de sua mãe: “Vai, meu filho – disse-me ela afinal! – Adeus!... E não te mostres muito, porque nós...” (p.78).
A sua pretensão de ser doutor despertará o desprezo de todos: do dono do hotel em que inicialmente fica hospedado, e que acusará o único mulato de um furto, ao delegado que o toma por malandro; do deputado que se irrita com essa mania [das classes subalternas] de estudo aos amigos jornalistas com quem convive na condição de contínuo. Sempre cospem na sua cara a palavra “mulatinho”.
Sem conseguir se matricular em nenhum curso superior, Caminha compreende a mecânica social do país, movida pelos títulos de doutor, pelo prestígio dos sobrenomes, pelos interesses econômicos e pelo exibicionismo de uma cultura de fachada. Trabalhando no jornal mais popular do Rio, ele conhece os bastidores das nomeadas, produzidas publicitariamente sem o menor pudor.
Lima Barreto desmascara assim os figurões do momento, fazendo a caricatura de Coelho Neto, João do Rio e outros. Mais do que um desejo de vingança, estes retratos defendem um conceito de língua e de cultura. Avesso aos preciosismos e aos penduricalhos, ele nega a linguagem de figurino ao zombar de seus cultores mais boçais. Como antídoto, Lima Barreto escreve um romance em uma língua viva, próxima do povo, iniciando a modernização de nosso idioma literário.
No romance, Caminha se torna acidentalmente repórter, fazendo-se íntimo da alta boemia. Mas, num passeio rural com o chefe e uma meretriz italiana, esta observa que a paisagem local é feia porque carente de grandes árvores. Caminha, que se identifica a este mato rasteiro por não ter conseguido forças para erguer-se contra o meio, ultrapassando a condição marginal de sua mãe, decide voltar para a roça como escrivão: “A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado” (p.301).
Seu último ato de orgulho é narrar a própria vida, negando a tese determinista de que negros e mulatos não se destacam por vícios próprios da raça. É a má vontade geral e a excomunhão que os destroem.
Silenciado quando de sua publicação, este romance de estréia antevia o destino do próprio autor. Obrigado a deixar a faculdade para sustentar a família, Lima Barreto passa a viver da colaboração de jornais e de um pequeno emprego público. Rende-se ao alcoolismo, tendo ido parar três vezes no hospício. Sua candidatura à Academia Brasileira de Letras é sistematicamente recusada. E ele morre, solteiro e órfão de afetos, aos 41 anos, justamente em 1922, quando começaria uma valorização de nossa pátria mestiça, da qual ele é hoje o maior ícone.

Coluna Intervalo de Leitura, Gazeta do Povo, 06 de fevereiro de 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011

INTERVALO DE LEITURA

"O escritor paranaense Miguel Sanches Neto estreia amanhã, na edição dominical do Ca­­derno G, a coluna Intervalo de Leitura, espaço voltado a reflexões sobre literatura e à crítica de lançamentos do mercado editorial. Sanches Netto é professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e autor dos livros Chove sobre Minha Infância, Um Amor Anarquista e A Primeira Mulher, entre outros."


in Gazeta do Povo, 05 de fevereiro de 2011.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CONCURSO NACIONAL DE CONTOS “MIGUEL SANCHES NETO” – EDIÇÃO 2011

A Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, através da Secretaria de Cultura e Turismo e do Conselho Municipal de Cultura, com a finalidade de estimular a produção literária local, e o intercâmbio com escritores brasileiros institui o edital que regulamenta o Concurso Nacional de Contos para o ano de 2011, que nesta edição homenageia o escritor MIGUEL SANCHES NETO. atendendo às políticas culturais do Município aprovadas nas Conferências Municipais de Cultura

REGULAMENTO
1- Poderão participar escritores, maiores de 18 anos.
2- O tema será livre e deverá ser produzido em língua portuguesa.
3- Cada interessado poderá enviar até 3 (três) contos inéditos (entende-se por inédito o conto nunca premiado em concursos anteriores e não publicado em livros até a data do encerramento das inscrições deste concurso).

PREMIAÇÃO
4- Serão conferidos 06 (seis) prêmios de R$ 1.000,00 (mil reais) cada um.
5- Do conjunto de 06 (seis) prêmios, 03 (três) serão concedidos para escritores
residentes na cidade de Ponta Grossa.
6- Poderão ser conferidas Menções Honrosas, por iniciativa da comissão
julgadora.

INSCRIÇÕES
7- As inscrições estarão abertas de 1º a 31 de março de 2011, enviadas
exclusivamente via Correios.
8- O interessado deverá encaminhar os contos em envelope (tamanho folha A4) , com AR , sem identificação pessoal no verso (a identificação virá apenas no recibo AR) para o endereço:
CONCURSO NACIONAL DE CONTOS “MIGUEL SANCHES NETO” –
EDIÇÃO 2011
CATEGORIA LOCAL (para os residentes em Ponta Grossa) ou NACIONAL SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA E TURISMO RUA JULIA WANDERLEY, 936, CENTRO, CEP 84010-170 PONTA GROSSA - PR.
9- Os contos inscritos deverão ser encaminhados obedecendo aos seguintes critérios: 04 (quatro) vias digitadas em apenas uma face de papel tamanho A4; ESPAÇAMENTO 1,5 entre as linhas; FONTE: Times New Roman ou Arial, TAMANHO: 12; MARGEM superior: 3 cm, inferior: 2 cm, esquerda: 3 cm e
direita: 2 cm; constando apenas o título no início de cada lauda, com a numeração das mesmas, SEM PSEUDÔNIMO, não ultrapassando 02 (duas) laudas.
10- Em envelope menor, lacrado, anexar as seguintes informações: Na parte externa do envelope
a. nominação do concurso
b. título(s) inscrito(s)
c. CATEGORIA LOCAL (para os residentes em Ponta \Grossa) ou NACIONAL no interior do envelope
d. nome e endereço completos
e. telefones para contato
f. fotocópia de comprovante de residência em nome do inscrito
g. fotocópia da cédula de identidade e CPF
h. breve biografia pessoal de até 10 linhas (os documentos acima serão necessários para o processo de pagamento dos prêmios)
JULGAMENTO

11- Os contos serão julgados por uma comissão de alto nível literário, indicada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e Conselho Municipal de Cultura, cuja decisão será soberana, à qual não cabem recursos sobre o resultado do concurso.
12- Os vencedores serão conhecidos no segundo semestre de 2011.

PUBLICAÇÃO
13- Os contos premiados e as menções honrosas, serão publicados em antologia, numa edição especial dos concursos de Contos, Poesias e \Crônicas de 2011, com 1.500 (mil e quinhentos) exemplares, editada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo no 2º semestre de 2011, cabendo aos participantes as seguintes cotas, a título de direitos autorais desta edição:
- 30 (trinta) unidades para os seis primeiros colocados
- 15 (quinze) unidades para as menções honrosas
14- O restante dos 1.500 exemplares, será distribuído gratuitamente em bibliotecas, escolas, instituições e críticos literários.
DISPOSIÇÕES FINAIS

16- As inscrições fora das normas do concurso não serão aceitas.
17-Não poderão participar do concurso funcionários da Secretaria Municipal de
Cultura e Turismo e integrantes dos Conselhos Municipais de Cultura, Patrimônio
Cultural e Turismo de Ponta Grossa
18- O(s) conto(s) e os demais documentos entregues na inscrição não serão
devolvidos após o concurso.
19- - É de responsabilidade exclusiva do concorrente a observância e regularização de
toda e qualquer questão relativa a direitos autorais sobre a obra inscrita.
20- Este edital atende ao disposto na Lei Federal nº 9.610 de 12/02/1998 sobre direitos
autorais.
21 – Os autores das obras selecionadas automaticamente autorizam a publicação das
mesmas na edição da antologia do concurso.
22- Os premiados concordam e permitem a divulgação de seu nome e imagem para a
divulgação do concurso, sem qualquer ônus para os realizadores.
23- Os participantes declaram estar cientes e de acordo com este regulamento.
24- Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela Secretaria Municipal de
Cultura e Turismo.

Elizabeth Silveira Schmidt
Secretária Municipal de Cultura e Turismo
Link para o edital: http://www.pontagrossa.pr.gov.br/files/smc/2011/edital_concurso_nacional_de_contos.pdf

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

ANTONIO CARLOS VILLAÇA


Nesta foto, com Carlos R. Carvalho, de 2002, Antonio Carlos Villaça (1928-2005) esperava o fim. Eu o visitei, na companhia de André Seffrin, talvez em 2003, e ele ainda habitava a cadeira da biblioteca do Pen Club - única instituição à qual pertenço, embora nunca tenha ido tomar posse. Havia uma mesa ao lado, entupida de livro. E, na frente, uma televisão. O memorialista, autor de um dos mais belos livros autobigráficos do país, O nariz do morto, se distraía naquele fim de vida assistindo a programas de tevê. Já não andava. Esta é a imagem que guardo dele. Debilitado mas muito entusiasmado contando histórias das grandes figuras que ele conheceu. Não eram histórias inocentes de um monge, mas de um menino com um interesse sujo pela vida.
Em 2006, escrevi a orelha do livro dele O pensamento católico no Brasil, que foi reeditado pela Civilização Brasileira.


Abaixo, a crônica que publiquei em um jornal de Ponta Grossa.



VISITA AO VILLAÇA

O táxi nos deixa na praia do Flamengo e subimos ao nono andar do prédio do Pen Club, onde está instalada a biblioteca desta entidade, com seus 17 mil volumes. Mas não estamos apenas na biblioteca, e sim na cela monástica de um de nossos mais importantes memorialistas, homem da mesma têmpera de Pedro Nava. Ao entrar na sala, encontramos Antonio Carlos Villaça, mestre Villaça para nós, seus leitores, sentado em uma poltrona marrom coberta por um lençol, trajando roupas que lembram vestimentas hospitalares, pernas descobertas sobre uma banqueta.
Ex-morador de hotéis, eterno celibatário, que já tentou a vida de monge, homem voltado para o plano espiritual, avesso às atividades práticas, Villaça ganhou, para morar, a ampla biblioteca do Pen Club. Está em seu ambiente, a poltrona rodeada de livros, entre eles o volume de cartas que Alceu Amoroso Lima escreveu à sua filha recolhida ao convento. Morar em uma biblioteca pode parecer algo insólito para as pessoas, mas quisera eu, em meus dias de velhice, receber tal dádiva. Iria gastá-los, e como os gastaria bem acompanhado, nesta solidão saudável dos livros.
Assumindo-se desde sempre como homem eterno, voltado para as coisas da alma e da palavra, o autor deste clássico chamado O Nariz do morto tem uma voz vívida e um grande entusiasmo para a conversa. Passamos, o crítico André Seffrin e eu, belos momentos a ouvir Villaça, que quase já não anda. Em certo momento, pede para eu ir à sacada do prédio e contemplar a vista. Mas a melhor paisagem, de natureza humana, é a que está ali dentro.
Lembra-se assustadoramente de todos os detalhes, do convívio com Manuel Bandeira e com Carlos Drummond de Andrade, do grupo católico ao qual pertenceu. E, olhos úmidos, vai falando de pessoas mortas, em cuja companhia o memorialista não deixa de estar. Não é um triste, repete com alegria casos pitorescos do convívio com grandes figuras, revelando-se narrador primoroso, sempre com voz firme, apesar da doença que o tirou do combate da vida literária.
Villaça interrompe suas histórias e começa a falar do Paraná, onde esteve durante larga temporada para trabalhar no programa de capacitação de professores de Faxinal do Céu. Entre estas reminiscências, diz que basta fechar os olhos para se lembrar nitidamente de Ponta Grossa, de seu centro montanhoso, do verde da região. Está comovido quando fala da cidade e me pede que visite o Mosteiro da Ressurreição, onde se encontra, segundo Villaça, um contista de qualidade, que deixou Brasília para assumir sua vocação monástica com o nome de Irmão Antão. Prometo fazer a visita e ficamos falando de Ponta Grossa, terra do grande poeta modernista Brasil Pinheiro Machado. Villaça se comove e nos comove com seu amor aos livros e aos homens de caráter.
Saímos da biblioteca do Pen Club com a alma límpida, quarada no sol da bondade e da inteligência.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

JAMIL SNEGE


Em 1960, no Clube Curitibano, à extrema direita da mesa, fumando, o então colunista social Jamil Snege.

UM POEMA DE SHELLEY



OZIMÂNDIAS

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:
duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
afundando na areia, um rosto já quebrado,
de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:
mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia
quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,
a mão que as imitava e ao peito que as nutria.
No pedestal estas palavras notareis:
"Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:
desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!"
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
da ruína colossal, a areia ilimitada
se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.


Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos