quarta-feira, 30 de março de 2011

EIS A PRIMAVERA: UMA CARTA

Caro Miguel,

            Após alguns anos sem acompanhar seus lançamentos – mil razões: nenhuma razoável −, soube da polêmica em torno do Chá das cinco..., que me despertou, confesso, sentimentos contraditórios, entre a atração e a rejeição.  Acabou vencendo o primeiro grupo, para minha felicidade.
            Lendo, reencontrei a escrita que me cativara em Hóspede Secreto, num romance sobre literatura e amizade, sobre crescimento e desilusão, e também sobre Curitiba. Quanto a esta última, que conheci recentemente, confesso também que me coube a carapuça (ou barrete) do turco Akel − já que não conheço nem a capital do Uruguai e me deslumbrei com parques, largo da Ordem, Alto da XV etc. Meu olhar de turista, contudo, tem seu lado triste: por aqui, em Salvador, quiséramos nós que houvesse um terço da “maquiagem” daí, nós que estamos mais para a mulher preta que se derrete – nesta cidade que já foi bela e convivial e que não existe mais.
            Voltando ao livro, minha terceira confissão é que desisti de julgar o autor, com quem mantive alguma correspondência afetuosa, e que estará sempre num cantinho curitibano, ajardinado e agradável, de minha memória. E, além do mais, que posso saber do ethos de um meio literário tão distante? Nem do de Salvador eu entendo... Assim passei ao livro, um romance que me devolveu, grande surpresa, o contista Miguel Sanches Neto.
            Ora, para o meu mundo, que continua precisando do conto, eis a primavera. Trevisan − o grande, o mínimo −, que me perdoe: os capítulos de Chá das cinco..., do jeito que foram escritos, são uma grande homenagem ao gênero a que ele tanto se dedicou e do qual é mestre. E não me refiro aqui aos contos de Beto, intercalados na narrativa: falo dos capítulos mesmos. Enquanto eu lia o romance, minha esposa, leitora esporádica mas exigente, comentou o seguinte: “Esse livro que você está lendo, eu pego às vezes, leio um capítulo fora de ordem, é ótimo!” E então eu percebi que ela estava tendo a mesma impressão que eu, que seguia a sequência: não exatamente pelo mosaico temporal, mas pela própria unidade de cada capítulo, mais ou menos fechada e com certa independência, o romance joga com a estrutura do conto − assim como há livros de contos que jogam com a estrutura clássica do romance. Eis a primavera.
            E tanta coisa mais, muito forte. As passagens sobre crítica literária e o personagem Valter Marcondes, que seria (será?) Wilson Martins me parecem especialmente significativos, porque representam literariamente o último bastião de um modo de fazer crítica; nesse sentido, a saída de Beto do jornal me soa alegórica. E o grande fazedor de imagens que você continua sendo, quando compara certo aroma líquido ao de grama recém-cortada. Há, também, aquela cena de excitação em que se deduz, após um “Safado!” dito pela amante,  a alteração de seu companheiro. E olha que estamos num tempo em que as imagens (assim dizem!) dominam... Mas não para Beto, avesso a cinemas e teatros.
            O trio de mãe doceira, pai alcoólatra e tia intelectual-de-província é muito bem resolvido. O retorno, ao final, a Peabiru, é um retorno temático: o retorno de Miguel Sanches Neto ao tema do retorno, que já vinha lá no Hóspede. Nuvens de poeira e andar na direção contrária – belo desfecho.
Enfim, uma última confissão: às vezes me assalta a desconfiança de que Dalton não esteja tão aborrecido assim. De que seria algo como um blefe a mais, do contista e do romancista – do romancista-contista e do contista-romancista, poderia dizer. E que os moldes de Beto e Trentini ainda tomem seu chá por aí.
            Tomara.
            Grande abraço,

            Wladimir Saldanha.

segunda-feira, 28 de março de 2011

DOIS PRISIONEIROS

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 27 de março de 2011.


Do ponto de vista do estilo e da concepção de mundo, o romance O drama da Fazenda Fortaleza (1941), do historiador paranaense Davi Carneiro (1904-1990) pertence ao romantismo tardio. Se não bastassem a linguagem convencional e as descrições das grandezas da nossa terra para provar esta filiação, ela poderia ser percebida nas inúmeras citações de autores românticos, com recorrência maior do português Alexandre Herculano (1810-1877).

Tal desatualização não é, no entanto, um problema individualizado. O Paraná ainda não entrara na modernidade, apesar de algumas erupções modernistas mais para efeitos de escândalo social. Só começaríamos a pertencer ao tempo presente com a geração da revista Joaquim (1946-1948), responsável pela reinvenção da arte local. Até então, o estado como um todo era bastante antiquado.

Com isso, não se tenta amenizar as limitações deste folhetim de Davi Carneiro, e sim situá-lo. Apesar do ranço romântico, adequado à história que se quer narrar, é um dos livros locais mais importantes, e causa espanto o fato de nunca ter sido reeditado.

É verdade que o autor não tinha, pelo que confessa na introdução, a pretensão de ser romancista. Traduzindo os relatos de Saint Hilaire (Viagem ao interior do Brasil em 1820), ele descobre o caso do Tenente-Coronel José Félix da Silva, temido e opulento proprietário rural, dono da fazenda mais afundada no sertão paranaense, o que o obrigava a viver em contínuo conflito com os índios. Misto de fazenda e posto militar, a sede da Fortaleza era cercada por muros e seus escravos e funcionários faziam as vezes de soldados. A importância de José Félix para a colonização da região de Tibagi é muito grande, principalmente por ter afastado os índios, permitindo a ocupação territorial. Mas não é este seu lado bandeirante que sobressai no romance e sim um dilema doméstico. A Fortaleza não funcionava como uma construção erguida apenas para defender os moradores dos índios e dos aventureiros, mas também como prisão.

Casado com uma moça pobre e de gênio violento, o tenente-coronel, acostumado aos combates, entra em atrito feroz com a esposa. Onistarda, eis o seu nome, tenta por isso matar o marido com a ajuda de alguns empregados. José Félix resiste, perde parte de uma mão, recebendo outros ferimentos, mas escapa da emboscada e move um processo contra a esposa, rapidamente condenada à prisão.

Para tê-la ao seu dispor, o marido usa sua influência política, retirando-a dos domínios do poder público, e a faz prisioneira na própria fazenda. Por muitos anos, até a morte do algoz, ela fica trancafiada num quarto com grades.

O professor Davi Carneiro oferecera esta história ao escritor Paulo Setúbal. Este logo morre, retornando ao historiador a tarefa de romanceá-la. Não sendo um ficcionista, Davi Carneiro escreve uma narrativa compartimentada. Maneja seu conhecimento histórico para representar os Campos Gerais nos anos de 1820, indicando com notas as passagens factuais e transcrevendo documentos da época, num nítido esforço pedagógico. Paralelamente, recolhe as lendas sobre o caso, imaginando uma história de ódios levados ao extremo. O romance é narrado a partir da figura do padre Antonio Pompeu, da então vila de Castro, que recolhe as duas versões, observa os comportamentos, e não toma partido, apesar da visão preconceituosa da mulher – própria da época e da sua formação.

Se a intenção do autor, como me confessou em uma conversa em 1989, era usar a ficção para dar a conhecer a História do Paraná, hoje o que mais chama a atenção no livro é a força simbólica da eterna guerra conjugal.

Serviço:
O drama da Fazenda Fortaleza, de Davi Carneiro. Curitiba: Edição do Dr. Dicesar Plaisant, com ilustrações de Teodoro de Bona, 1941 – esgotado.

domingo, 27 de março de 2011

AMOR, OFÍCIO E MORTE


Por Vinicius Jatobá, Sabático, O Estado de S. Paulo, 26 de março de 2011.

Escritor de impressionante versatilidade de gêneros, o paranaense Miguel Sanches Neto é o autor mais discreto de sua geração. Provavelmente é o melhor escritor que os leitores jamais ouviram falar: é um autor sério num mundo cuja literatura é marcada por uma distopia crescente. Seus livros trazem uma energia anacrônica: personagens bem construídas, um evidente gosto pela trama, uma preocupação em fazer com que as ações da narrativa não sejam gratuitas. Causa espanto que não seja mais conhecido.

Em menos de uma década, Sanches Neto lançou três romances sólidos e bem estruturados. A saga de imigrantes Um Amor Anarquista parece talhada da melhor tradição realista; e A Primeira Mulher é uma engenhosa tentativa de lidar com os bastidores da política. O divertido Chá das Cinco Com o Vampiro, uma deliciosa sátira ao meio literário, é uma leitura ágil e curiosa. Seu livro mais emotivo é o falso romance Chove na Minha Infância, o primeiro que publicou, no qual explora todos os temas que desenvolveria mais tarde.

Sanches Neto chega agora às livraria com um novo livro, uma coletânea de contos intitulada Então Você Quer Ser Escritor? Como é comum no Brasil, trata-se da reunião de textos dispersos, muitos publicados em outros suportes, o que explica a desigualdade entre as histórias - não apenas em qualidade, o que seria esperado, mas em intenções e desejos. é visível que os contos representam uma espécie de desenvolvimento de preocupações do escritor Sanches Neto ao longo da década, uma vez que alguns se aproximam bastante em tom de Chove na Minha Infância, enquanto outros passam por questões de reconstituição histórica e alguns são mais frios, como a prosa de A Primeira Mulher.

Os temas dos romances estão aqui. O conflito entre o amor idealizado e o amor real; a luta da cultura da província diante de uma cultura da metrópole; a relação entre mestre e aprendiz, que perpassa desde o trabalho da fazenda até algo mais alusivo como o ofício literário; a herança, e o que fazer com a responsabilidade da herança; a dor do luto, e como ocupar a ausência daqueles que partiram. Há três contos brilhantes: O Tamanho do Mundo, O último Abraço e Jogar Com os Mortos, que lidam com o universo do luto, cada um de forma distinta. Animal Nojento talvez seja um dos contos mais tensos da literatura brasileira. A história que dá título ao livro é uma curiosa exploração entre literatura e sexo, e um raro conto bem realizado que explora o erotismo numa literatura demasiada carochinha como a brasileira.

quinta-feira, 24 de março de 2011

AUTO-RETRATO

Adaptado de Manuel Bandeira


Provinciano que nunca soube
Escolher um bom prato;
Paranaense que se exibe
Com a timidez do paranaense;
Poeta péssimo que na prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou um cronista de ontem;
Advogado falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Uma guitarra desafinada
Que se fez sua voz); sem grupo,
Religião ou filosofia;
Mas tendo ainda o escrúpulo
Que vem do vexame público,
E em matéria de profissão
Um impostor profissional.

MIM POR EU MESMO (uma nanobiografia)

1.
Tive pai até os quatro anos, e logo depois ganhei um padrasto, com quem hoje até que me entendo.
2.
Mãe eu venho tendo desde julho de 1965, e espero que por muitos anos ainda.
3.
Fiz alguns estudos, mas esqueci quase tudo.
4.
Do que não me esqueço é da infância – não onde nasci, Bela Vista do Paraíso, mas onde o desejo nasceu em mim – a perdida Peabiru.
5.
(Desejo e cidade que espero não morram enquanto eu não me recolher, sob protesto, a um incerto túmulo.)
6.
E por falar em moradia, paguei financiamento de um apartamento em Curitiba (nunca quitado) e aluguel em Florianópolis e Campinas.
7.
Mas foi Ponta Grossa que me deu casa própria, embora com esta cidade eu tenha sido tão impróprio.
8.
Não gosto de festas; sou mais é de boteco.
9.
E, em matéria de sexo, casado desde 1987 com aquela que era quase uma menina e hoje é senhora de mim.
10.
Temos parceria em dois filhos – de idades tão desencontradas porque frutos das próprias vontades.
11.
Minha formação literária foi na base da errata. Errei tanto que o equívoco acabou virando estilo.
12.
É verdade que sempre pensei torto, e talvez isso também tenha contribuído.
13.
Ou você escreve ou você acumula créditos.
14.
Meu padrasto vendia tomate na feira; com aqueles meio podres, ele fazia um molho que, no dia seguinte, passava pra frente.
15.
Literatura é o molho que faço com esses dias morrentes.



Natureza morta com cavalas, limões e tomates - Van Gogh

segunda-feira, 21 de março de 2011

A VELHICE SEGUNDO BORGES



Agora, quando chegou a velhice,
não esperemos nada, Elsa disse.

Borges tomava um café diferente,
uma mistura saborosa de leite,

e pensou, sem ousar lhe dizer:
por pior que a velhice venha,

ainda permitirá certos prazeres,
como ouvir um belo poema,

pois nesta minha sina de cego
só em sonho eu voltarei a ler.

E tomou aquele café com leite
com os lábios de primeira vez.

domingo, 20 de março de 2011

HÓSPEDES

Publicado no "Caderno G", da Gazeta do Povo, de 20 de março de 2011.

Raros são os ensaios que aliam reflexão erudita e prazer estético, caso de A Dádiva – como o espírito criador transforma o mundo, do poeta norte-americano Lewis Hyde. A sua hipótese inicial era de que, na origem de toda arte, existe uma energia transformadora que vem do passado, por meio dos livros e do contato com a comunidade, e que só pode ser cultivada em doações sucessivas. É assim que ele entende o dom: ponto de confluência do coletivo com o individual, numa circulação incessante. Com o triunfo do capitalismo, no entanto, a obra de arte se fez mercadoria, provocando um impasse: como não perder os dons artísticos em relações marcadamente mercadológicas? Seria o fim da arte?


Na primeira parte do livro, o autor recupera em documentos antropológicos, lendas e contos populares várias manifestações das dádivas. Hyde reconhece o caráter erótico deste processo avesso ao lucro, em que a generosidade é fator de desenvolvimento comunitário. Ele diferencia o trabalho capitalista (lucrativo) e o labor (criativo). O labor faz com que as dádivas se movam, gerando relações afetivas entre os que o praticam.



O problema é que as dádivas funcionam muito bem em pequenas comunidades, onde os seres envolvidos não são anônimos e onde não há espaço para a usura. Em um capítulo central, ele trata da proibição bíblica da usura, e como isso vai sendo reelaborado a partir da separação, que acontece com o calvinismo, entre a lei moral e a lei civil. Nesta, o lucro passa a ser permitido.


Hyde usa estas parábolas para compreender o papel do escritor no século 19 (o século da usura) e no século 20 (o do triunfo do capitalismo), respectivamente nas trajetórias dos poetas Walt Whitman e Ezra Pound.


O primeiro, grande defensor da diversidade, renuncia a uma carreira, à acumulação de bens, para se dedicar eroticamente ao outro, às classes mais rústicas, num contato corporal com pessoas, objetos e a natureza. É dessa forma que ele mantém ativos os seus dons, cultivando orgulhosamente a compaixão. Whitman desrespeita todas as convenções e hierarquias para instaurar outra identidade: “ele queria substituir o sistema capitalista vigente pelo ‘amor entre camaradas’” (p.301). Nesse projeto de uma democracia fundada na arte, ele deu voz a uma população de iletrados, com quem se unira visceralmente.


Pound quer também uma pátria artística e se revolta contra o caráter mercantil de seu tempo, buscando a tradição das grandes mentes e sonhando, enlouquecido, com um mundo perfeito. Nessa ilusão, adere ao fascismo (que prometia o homem novo) e luta contra uma imagem estereotipada dos judeus, a quem se reputavam todos os males econômicos.


Depois de uma vida de pobreza e de humilhações – foi preso e exposto em uma jaula com a vitória dos Aliados –, Pound emudece. É justamente quando o poeta judeu Allen Ginsberg o procura. O jovem diz que a poesia de Pound, conquanto antissemítica, cumpriu uma função transformadora para ele. Diante deste perdão, Pound confessa o próprio erro (o inimigo não era o judeu, mas avareza de todo ser humano) e há uma comunhão beatificadora entre os dois poetas.


Tanto em Whitman quanto em Pound, a ação desinteressada deu origem a obras que herdam e alimentam outras vozes, em oposição ao materialismo moderno e seu desejo de individualismo.


Finalizando, Hyde aponta um erro em sua hipótese inicial. Ele via como excludentes os conceitos de arte e commodities, sem perceber que esta oposição é contraproducente. No estágio em que nos encontramos, “pouco vale um ataque radical ao mercado” (p.405). O artista moderno deve buscar formas de independência, mantendo-se como um polo erótico que equilibra minimamente a economia racional. Ou seja, ele dever ser um hóspede dos dons, e zelar por eles.

Serviço
A Dádiva: como o Espírito Criador Transforma o Mundo, de Lewis Hyde. Trad. Maria Alice Máximo. Civilização Brasileira, 480 páginas.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O QUE A POBREZA ENSINA


Revista D'pontaponta, n. 185, março de 2011 - http://www.revistadp.com.br/

Ter sido pobre tem lá as suas vantagens. Sei que isso soa como heresia, mas é assim que vejo a coisa toda – aliás, não aconselho ninguém a ver a coisa toda. Um ex-pobre, por exemplo, valoriza as conquistas mínimas. Se conseguiu pagar mais uma prestação do carro popular, ele se sente um vencedor. Enquanto, na infância, tinha que ir a pé para a escola, agora pode levar os filhos de carro, ao som do último lançamento de uma dupla sertaneja qualquer – lógico, nem tudo é perfeito.
Pobre se contenta mesmo com pouco. Quer ver? Uma moça muito bonita fisgou um velhote endinheirado e agora desfila a tiracolo de uma cabeleira branca, sentindo-se a mais realizada das mulheres.
Um desses Cabeleiras Brancas um dia filosofou:
– Quem gosta de homem bonito é estilista. Mulher gosta é de conforto. E isso eu posso dar.
Ele entendeu a natureza profunda da miséria e tirou o máximo de proveito.
Pois esta é a grande verdade sobre a pobreza: nós nos contentamos com coisas básicas. Podemos ser felizes apenas por ter dinheiro para comprar, no mercado, a lingüiça e a cerveja. E fazer um churrasquinho em plena quarta-feira, convidando todos os amigos. Pobre acha que tem muitos amigos. E tem mesmo. Todo mundo ajuda quem está na pior. Mas apenas o Governo ajuda os banqueiros e empresários falidos que passam os feriados em Punta del Leste.
Um dos maiores ensinamentos da pobreza está relacionado à comida. Na minha infância, minha mãe fritava apenas um bife – minúsculo – para cada filho. Mas havia, em abundância, outros alimentos igualmente saborosos: arroz, feijão, abobrinha, jiló, farinha e couve. Estávamos em fase de crescimento, e comíamos muito. Hoje, é nossa barriga que está em fase de crescimento, apesar de comermos pouco. Naquela quadra de nossa biografia, comida era artigo de primeira necessidade. Hoje, as primeiras necessidades ficaram muito mais complexas – e até livro está entre elas.
Então enchíamos um prato com o que era abundante – no bom sentido da palavra abundante – e reservávamos num canto, para poder ficar salivando, o bife tão esperado. Comíamos a comida de olho na mistura.
Explicação aos jovens: carne ou similares eram conhecidos como mistura. Nem sempre tínhamos mistura, embora não nos faltasse comida. E a deixávamos sempre para o final. Ah, lambuzar o bife no caldo do feijão era uma verdadeira orgia gastronômica. E avançávamos lentamente para retardar o momento em que atacaríamos, armas em riste, o bife suculento, não obstante pequeno.
Pobre gosta de bife. De preferência bife a cavalo, porque ovo e carne formam um dueto insuperável.
Por falar em ovos – com o devido respeito às senhoritas que estão na sala –, lembro-me que um dos nossos pratos de resistência era a gemada. Nada a ver com o que vocês conheçam como gemada.
Batíamos duas ou três claras num prato fundo até que o garfo parasse em pé na gosma que se formava. Depois, acrescentávamos farinha de mandioca torrada – a melhor do mundo, da marca Pinduca, outrora feita em Araruna, cidade ao lado de Peabiru – e mexíamos. Em seguida, um pouco de açúcar. E, por fim, as gemas. Era para comer de colher.
A pobreza ensina a criar novos pratos. E eu, que já não sou formalmente pobre, ainda guardo esta preferência pelo improviso e sempre deixo o melhor quinhão para o final.
Quem já foi pobre há de se alembrar.

terça-feira, 15 de março de 2011

ENTREVISTA

Matéria no "Paraná TV - Primeira Edição" sobre o livro de contos ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?
RPCTV, entrevista com Vanessa Rumor, 11 de março de 2011.

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1457178-7823-NOVO+LIVRO+DE+MIGUEL+SANCHES+NETO,00.html

VEJA RECOMENDA

Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto.

"Em uma viagem de ônibus, uma mulher vê um acidente terrível – uma experiência que ela associa com o cheiro dos açougues e com sua incapacidade de ter filhos. Um radialista com pretensões literárias vive um caso misterioso com uma jovem de hábitos absurdamente antiquados. Um escritor veterano sente-se abalado ao ler as historietas eróticas de uma antiga aluna e amante. Nos dezesseis contos desta coletânea, o paranaense Miguel Sanches Neto – um dos mais expressivos autores da literatura brasileira atual – equilibra situações a princípio banais sobre um abismo de estranheza. São textos em que muito é dito – e com inteligência –, mas ainda mais é sugerido."

Veja, 16 de março de 2011.

segunda-feira, 14 de março de 2011

PRIMEIRO LEITOR, DEPOIS ESCRITOR

Por Danilo Kossoski, in "Caderno Urbe", Jornal da Manhã, 13 de março de 2011.

"Diante do computador em que normalmente trabalha, o escritor Miguel Sanches Neto falou a respeito de seu novo livro de contos. Então você quer ser escritor?, lançado pela Editora Record (2011), reúne textos escritos nos últimos oito anos. Na biblioteca de janelas altas que fica nos fundos de sua casa, o autor tratou do conto “Árvores Submersas”, do desenvolvimento da atividade de escritor e do processo de criação."

Jornal da Manhã: Oito anos até a publicação deste seu novo livro. Isso é muito ou é pouco tempo para um escritor?

Miguel Sanches Neto: É meio difícil falar com precisão sobre a média de tempo para se produzir um livro de contos. “Árvores Submersas”, o conto mais longo do volume, foi escrito em três dias de viagem. Outros eu escrevi numa tarde.

JM: Você leva um notebook para escrever nas viagens?

Sanches Neto: Levo cadernos [retira cadernos da gaveta, exibe os manuscritos]. Esse aqui é o conto “Árvores Submersas”... Eu fui escrevendo no caderno. Quando não estou em viagem, escrevo direto no computador. O manuscrito tem uma grande vantagem em relação à escrita digital: você, ao passar a limpo, modifica totalmente o texto. Escrevendo direto no computador, há uma tendência de modificar menos. Quando você trabalha com manuscrito, você corta páginas inteiras, muda frases, altera a história. O trabalho de revisão acaba sendo muito mais intenso.

JM: De que forma você prepara o material nessas ‘coletâneas’?

Sanches Neto: O que acontece com contos é que há uma demanda por parte das editoras. Por exemplo, a Editora Record fez um livro em homenagem aos 100 anos de morte de Machado de Assis e me encomendou um texto que dialogasse com um conto do autor chamado “Umas Férias”. Então escrevi sob encomenda “O tamanho do mundo”. Iguais a este caso, há muitos outros. Com isso, os contos vão se acumulando na gaveta, até o momento em que percebo que há um livro ali. Pego então esse conjunto, faço uma seleção rigorosa e tento dar uma unidade ao material.

JM: Você transita bastante entre realidade e ficção. De que forma isso acontece em seus textos?

Sanches Neto: O escritor é um ser atento a tudo, que sempre observa algo na realidade que o marca. No “Árvores Submersas”, por exemplo, eu  tinha ido a uma cidade ao lado de Marechal Cândido Rondon, chamada Pato Bragado. Lá eu vi um artista que trabalhava com restos de árvores do lago de Itaipu. Foi uma experiência muito forte. A pessoa anda sob as esculturas que compõem ruínas de um mundo depois do apocalipse, como se aquelas árvores secas dispostas com os galhos para baixo fossem restos ou ossos de animais pré-históricos. E não tinha intenção de escrever nada sobre isso. Mas aí estou criando um conto e vejo que esta experiência pode ser usada na narrativa. É dessa forma, como locação, que aproveito situações vividas, mas o conto é sempre o império da imaginação. Algumas [histórias] se passam em Curitiba ou Peabiru [onde o autor viveu boa parte de sua infância], ou em lugares não definidos que podem ser Ponta Grossa ou outro local. Mas não há uma preocupação sobre os lugares reais que vão aparecer nos livros nem sobre as situações. Isso vai se acumulando também. “Árvores Submersas” é uma mistura de muitos espaços. É sobre um poeta que resolve viver isolado em um quarto sem luz, e um escritor que vai visitá-lo. A história se passa em Marechal Cândido Rondon. Mas não existe esse poeta lá, nunca existiu. É totalmente ficcional.

JM: Como escolher o que ler, em um mundo com tanta coisa para ser lida?

Sanches Neto: É um problema sério, principalmente para mim.  Recebo livro com as procedências mais variadas. Desde o livro do teu amigo que você é obrigado a dar um retorno, lançamentos importantes que não se pode ignorar, ou diretamente da editora e ou ainda do jornal onde resenho livros. Com a globalização, nós nos tornamos leitores da produção contemporânea do mundo, pois há uma imensidade de livros traduzidos. O que me toma mais tempo hoje não é escrever, é ler. E acho isso muito bom. A gente tem que ser primeiro leitor, depois escritor.

JM: O que mudou entre o Miguel Sanches Neto de hoje e o de dez anos atrás?

Sanches Neto: Mudou principalmente o domínio técnico sobre a escrita. De 2000 (quando foi escrito Chove Sobre Minha Infância) até agora foram mais três romances, um livro contos, dois de crônicas, obras infanto-juvenis. E, a cada livro, pressupõe-se que o autor esteja um pouquinho melhor. Você foca mais as suas opções. No começo de minha produção eu me vejo mais dispersivo. Hoje se definiu bem que minha preocupação é o descompasso entre passado e presente, entre cidades pequenas com o mundo globalizado. Quase todos os personagens têm esse conflito. Querem pertencer a um espaço, a uma história, e não conseguem se encontrar. Isso ficou bem claro nos últimos anos.

JM: A internet é algo bom para a literatura, ou algo que prejudica?

Sanches Neto: Sou usuário militante da internet e um defensor dela. Sempre tive blog e agora mantenho uma página ativa no Twitter. Hoje, com cada vez menos espaço para divulgar livros na mídia, passamos por uma ditadura do entretenimento. O espaço da cultura é dominado, principalmente, pela música e pelo cinema norte-americanos e seus produtos periféricos. Neste contexto padronizador, o Twitter e o blog têm sido um espaço de divulgação da cultura de resistência, de livros que passam ao largo do noticiário cultural. Leitores fazem crítica no Twitter e no blog. A cada livro lançado aumentam as críticas na internet e diminuem nos jornais. Para o autor nacional, a situação é ainda mais grave, pois aumentou o número de escritores – pelas facilidades de publicação –, e isso é uma coisa culturalmente boa, e estes livros ainda têm que desputar espaço com uma publicação monstruosa de traduções. Então, a internet pode dar vazão a comentários sobre estas obras que não entram no grande circuito. Além disso, ela é um espaço de diálogo com novos talentos – tenho contato com leitores que escrevem muito bem. O Twitter criou ainda uma ecologia digital, você opta se quer ou não acompanhar uma pessoa, criando assim um pequeno ecossistema cultural.

JM: Qual foi seu texto mais polêmico até hoje?

Sanches Neto: O Chá das cinco com o vampiro deu mais polêmica. Eu sabia que ia dar. Ele ficou guardado durante oito anos e chegou a um ponto em que já tinha gerado tanta polêmica antes de eu o ter publicado que resolvi soltar o livro e tocar a vida pra frente. Não tenho intenção de fazer nenhum outro livro tão polêmico, pois a polêmica gera leituras erradas. Ele foi lido como briga entre dois escritores e, na verdade, é uma ficção que não quer ser biografia nem julgar ninguém. Só contar a história de um jovem que sai do interior e se relaciona com o meio literário e tem destruídas as suas ilusões. Por conta deste livro, fui xingado, e tratado de oportunista. Mas eu sabia deste risco desde o início. Ele pertence a um momento da minha vida. Eu o escrevi entre 2001 e 2002, quando comecei a circular no meio literário. Vindo do interior, você idealiza a vida literária, acha que é um lugar de pessoas especiais, preocupadas com a cultura. Quando você vê que, na verdade, há todo um jogo de poder e destruição do outro, sofre um abalo. Escrevi Chá das cinco com o vampiro sob o impacto desta descoberta.

JM: Você é bastante influenciado pela opinião dos outros?

Sanches Neto: Tento não ser, mas é difícil. Quando você lê uma matéria dizendo que você é oportunista e que está publicando um livro pra ganhar dinheiro, bem, e este é um julgamento que você não merece, e que acaba sendo a opinião geral das pessoas, há uma injustiça que afeta profundamente qualquer um. O momento da publicação do livro foi um período muito ruim de minha vida. Nos três meses após o lançamento do vampiro, assim que tocava o telefone de casa o meu coração disparava.

JM: De que forma você encara os prêmios que conquista?

Sanches Neto: Os prêmios são importantes para o livro, para que tenha vida editorial mais longa. Eu não sou pessoa que busca nem que nega prêmios. O prêmio cria um fato noticioso que dá sobrevida àquela obra e uma obra sem um mínimo de mídia hoje está fadada a desaparecer. Mas prêmios não podem criar presunção no autor. A pessoa tem que saber que todo livro é o primeiro. Não é porque escreveu 20 livros que alguém domina todas as técnicas. O meu prêmio mais importante, o Cruz e Souza, foi bom para minha auto-estima, pois o júri era bastante conceituado (Ítalo Moriconi, Flora Süssekind, Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony e Luiz Vilela) e o dinheiro graúdo. Esta biblioteca, por exemplo, eu construí com o dinheiro do prêmio.

JM: Como você avaliou o fato de o Concurso Nacional de Contos, em Ponta Grossa, levar seu nome neste ano?

Sanches Neto: Fiquei surpreso. Soube que foi sugestão de alguns escritores da cidade. Pra mim, é uma honra. É uma espécie de cidadania cultural que recebo da comunidade onde escolhi viver. Vi a modificação do perfil da cidade de Ponta Grossa nos últimos 17 anos. Novos cursos da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), a criação da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e das universidades e faculdades particulares, a abertura de clínicas médicas etc. Tudo isso traz para cá gente de outros lugares que passam a divulgar a cidade. Temos pesquisadores renomados que, quando vão para a Europa, dão projeção a ela. Eu me incluo entre as pessoas que, mesmo não sendo daqui, ajudam a divulgar Ponta Grossa. Ter meu nome ligado ao concurso é um reconhecimento disso.


Raio-X
Miguel Sanches Neto é professor de Literatura Brasileira, doutor em Teoria Literária, escritor e crítico literário. Nascido em Bela Vista do Paraíso (PR) e vive em Ponta Grossa há 17 anos, tempo em que mantém uma coluna no jornal Gazeta do Povo. Levanta todos os dias às cinco da manhã e ocupa a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Quase não vê televisão, não acompanha jogos de futebol, nada sabe sobre o recente Carnaval. É um defensor da internet e um amante da literatura.

domingo, 13 de março de 2011

PALAVRAS POÉTICAS

Por Ruy Espinheira Filho

Livros de poemas existem muitos, as livrarias estão cheias deles, assim como as bibliotecas, mas livro de poesia é coisa rara. O poema é uma construção, boa ou ruim (geralmente ruim), poucas vezes contendo poesia. Por isso não podemos deixar de comemorar quando sai um livro como Alugo palavras, que o poeta, crítico, contista e ensaísta Miguel Sanches Neto acaba de lançar pela editora Edelbra, do Rio Grande do Sul.
            Trata-se de um volume pequeno, 111 páginas, mas todo composto de textos altamente poéticos. Desde “Introdução” o leitor se vê respirando uma atmosfera de poesia que vem da infância ao homem maduro. Num estilo de extrema simplicidade (o que, paradoxalmente, significa complexidade, pois nada é mais difícil do que escrever com simplicidade), com delicadeza, mas grande força, o autor nos emociona. Como, no primeiro texto, após revelar que seu avô e seu pai tinham sido analfabetos, escreve: “Toda vez que assino meu nome, meu avô e meu pai assinam comigo.”
            Se o que esperamos de um livro de poemas é emoção poética, de nada sentimos falta em Alugo palavras. Após “Introdução”, poética e grave reflexão sobre livros, leitura e escrita (a que retorna em “As palavras”), Miguel Sanches Neto nos oferece composições exemplares, feitas de vida. Da vida com seus rumos e desnorteamentos, como vemos em “Caminho”: “Há um caminho por onde passo/ e outro que passa por mim. // Um anda por meus passos/ e não tem fim. // O outro é onde meus passos/ perderam-se de mim.”
            A iluminação poética ─ às vezes autênticas epifanias ─ está em todas as páginas. Especialmente marcante em (meu gosto pessoal), além do citado “Caminho”, “Família”, “Vendo uma foto antiga”, “De volta ao sono”, “Reclusão”, “Trapaça”, para só ficarmos nestes exemplos. Transcrevo “Vendo uma foto antiga”: “Nesta foto do tempo de criança/ o que mais me encanta/ não é nossa alegria de infantes/ mas a réstia de luz de uma manhã/ brilhando no chão da varanda// Ninguém apaga este sol/ que nos chega da infância.” Sol denso de calor humano, como a poesia de Miguel Sanches Neto.    

In A Tarde (Salvador), 10 de março de 2011.

sábado, 12 de março de 2011

ENTREVISTA A ÍTALO PUCCINI


o primeiro livro do miguel sanches neto com o qual me deparei foi o "herdando uma biblioteca". e foi um encanto que só! um livro sobre livros com sensíveis marcas leitoras de seu autor. isto foi em 2009. inclusive tem aqui no blog sobre o mesmo. depois disso, fiquei namorando um tempão o título "chove sobre a minha infância", o primeiro romance dele. até que em fevereiro deste ano o peguei finalmente e o li. e foi outro encanto. uma narrativa em primeira pessoa que conduz o leitor ao um tempo de vida do autor, que no caso de miguel sanches neto faz referência à infância no interior do paraná, às dificuldades de relacionamento com a família (leia-se família do padrasto), e as primeiras descobertas da adolescência, onde aí entram os livros, uma espécie de fuga da vida que era obrigado a viver aquele então adolescente. por sequência, tirei da minha estante "a primeira mulher", o terceiro romance de miguel, e ali encontrei outro personagem ligado à literatura, o professor universitário carlos eduardo com sua vida permeada por paixões, a mulheres e à literatura.
foi então que decidi, ao invés de resenhar estas leituras, entrevistar o autor destes livros, com quem passei a trocar twitts enquanto lia seus dois romances. convite feito, convite aceito, a entrevista que segue é a conversa que se estabeleceu via e-mail. um pouco do miguel sanches neto leitor e escritor, para quem já leu algum livro dele (que são muitos, de variados gêneros, como é possível conhecer aqui no blog dele), e para quem ainda não se deparou com este contar-se através dos livros tão bem apresentado pelo autor em suas obras.
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Como você apresentaria o Miguel Sanches Neto leitor?


Como uma pessoa que se interessa por uma literatura que coloque no centro a vida, os dramas e as alegrias humanas, como alguém que só se interessa pela literatura em que vida e linguagem são indissociáveis. Não me interessa apenas a linguagem como experiência fria, nem apenas a vida como uma história flácida. A união destas duas esferas, a conjunção delas, faz a grande literatura para mim. Em uma época, li mais literatura brasileira do que as estrangeiras, mas, hoje, com a quantidade de grandes livros contemporâneos traduzidos, tenho lido obras de países cuja tradição literária eu desconhecia totalmente. Um exemplo – tenho lido autores japoneses contemporâneos.

Parece-me que sua escrita apresenta claramente marcas de você leitor, do seu movimento em busca dos livros e da sua relação com os livros. Foi-me notório isto nos livros “Chove sobre a minha infância” e “Herdando uma biblioteca”. O primeiro, um romance. O segundo, um livro sobre livros, podemos dizer isso. Conte um pouco de como foi seu envolvimento inicial com a escrita.

O tema da leitura, por ser para mim atividade cotidiana – eu vejo pouco cinema, ouço pouca música, enfim, meu lazer é a leitura – e também uma atividade profissional – sou professor de literatura - está muito presente em minha vida e, consequentemente, na minha escrita. Sou um homem entre livros, sou um homem-narrativa. Nestes dois livros, mas mesmo em outros, como em Chá das cinco com o vampiro, eu coloco personagens que se constroem a partir dos livros. Chove sobre minha infância é a história de um menino que dota a sua família analfabeta de uma tradição escrita. É um livro em que apresento as armas. Como é autobiográfico, ele dá as coordenadas sociais do surgimento do escritor em um meio improvável. O menino nega a família rural para poder ter linguagem e contar a história desta família. Um processo de negação e de afirmação, força centrífuga e força centrípeta. Assim, escrever, para mim, é e sempre foi mais do que uma carreira, e sim uma carência. Venho de uma família sem discurso. Tive que dar a ela esta vestimenta de palavras.

Recordando “Chove sobre a minha infância”, a leitura que fiz foi de que para você os livros foram, em sua infância e adolescência, uma fuga da realidade que lhe era imposta pela família. Você ia à busca deles sentindo isso mesmo? E hoje, o que representa para você cada livro lido?

O processo de leitura é sempre um apagamento da realidade imediata, do mundo circundante. Lemos como uma forma de nos ausentarmos do lugar que ocupamos. Lemos nos colocando dentro dos livros, mesmo dos livros de ensaios. Mas não é uma fuga alienante, e aí está a grandeza deste deslocamento. Nós saímos de nosso mundo para retornar a ele com uma visão externa. Esta visão externa nos permite ver melhor quem somos na sociedade em que vivemos. A ausência é necessária para reconhecer a nossa identidade. É como fazer uma viagem longa e voltar para ver a nossa terra com outros olhos.

Em termos de profissão, os caminhos que sua vida tomaram (professor em universidade, cronista de jornal, resenhador) possivelmente fizeram com que a leitura adquirisse outro significado em sua vida. Você vê dessa forma? Como você sente a sua prática de leitura hoje?

Há várias funções da leitura em minha vida. A profissional universitária, que vai dos clássicos da literatura brasileira a ensaios e teorias, e que me ajudam muito a compreender o fenômeno literário como um especialista, buscando questões mais densas. Para escrever uma resenha, eu me valho deste conhecimento, mas ele não é explicitado, fica mais pressuposto. Na resenha, o desafio é dizer por qual razão o livro é bom ou importante. Mas também há as leituras de formação, aquelas que faço para me fortalecer interiormente. São leituras muito livres, sem nenhum método. E ainda existem as leituras necessárias para a escrita de meus livros. No momento, como trabalho com um romance histórico, estou lendo muita coisa do século XIX para fundamentar a narrativa. Neste leque de leituras, uma ajuda a outra, mas elas cumprem funções muito distintas.

Após ter ingressado nesse meio acadêmico, como estudante, você não parou na graduação e fez doutorado em Teoria Literária pela Unicamp. De modo geral, podemos dizer que a escrita acadêmica e a escrita de romances, de contos e de crônicas não se assemelham muito. Como foi para você, ou ainda é, lidar com essas escritas com finalidades diferentes?

É um exercício de alteridade. Você tem que controlar, principalmente na hora de escrever ficção, os vícios de linguagem e de raciocínio da escrita acadêmica. E na escrita acadêmica é preciso adensar mais as discussões, é uma escrita mais preguiçosa esta dos ensaios, mais detalhada, mais referencial. Nestes deslocamentos de uma identidade para outra, você pode se perder. Mas pode também tirar proveito. O romancista que sou não escreve ingenuamente o romance, por mais que eu me entregue ao poder da escrita. Há sempre um nível de consciência.

Há uma fala do professor Carlos Eduardo – professor de Literatura em Universidade, personagem principal do seu romance “a primeira mulher” – que diz assim: “Em literatura a gente não admira. Quem admira tem uma relação superficial. Em literatura, a gente ama”. Cursar a faculdade de Letras foi também uma fuga e/ou um desejo muito grande de se aprofundar neste amor pela literatura?

Foi uma tentativa de me profissionalizar, de ter um salário que bancasse o vício da literatura. Eu sou tímido e sofro para dar aula, mas é a profissão mais próxima da literatura que eu poderia ter. Sou grato ao magistério superior: posso trabalhar com uma matéria que amo. Sei que muitos professores nem admiram a literatura, uns gostam da teoria, outros não gostam de nada, mas muitos são movidos por este amor incondicional. É uma coisa muito forte.

Ainda sobre “a primeira mulher”, a leitura deste romance reforçou minha ideia inicial de que sua escrita apresenta muito de você leitor. O personagem Carlos Eduardo é um poucomuito do Miguel Sanches Neto? Um professor de literatura que busca apresentar o texto literário pelo texto mesmo, e não por vozes de teóricos sobre aquilo que se está lendo?

Em boa medida ele traz as minhas obsessões, não poderia ser diferente num personagem que é professor de literatura. Mas não assino tudo que ele diz. Concordo com ele que há uma dosagem cavalar de teoria nas aulas de literatura, aplicada em alunos que ainda não são leitores literários. Este olhar técnico, mesmo em que se fez leitor, é nocivo porque tira o encanto primeiro pela obra. Advogo a necessidade de que professores e alunos construam teorias a partir das obras literárias lidas, e que não sejam meros reprodutores das teorias da moda. É muito mais difícil esta tarefa criativa no ensino universitário. Mas também é muito mais fascinante.


terça-feira, 8 de março de 2011

A QUE MUNDO PERTENCEMOS?


Entrevista a Evângelo Gasos
sobre o volume de contos ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR? (Record, 2011)


Você abre esse livro com uma citação de Nietzsche que diz “Para haver arte, para haver alguma contemplação estética, é indispensável uma precondição fisiológica: a embriaguez”. Qual é o motor e que tipo de embriaguez te move para o processo de criação da sua obra?

É a embriaguez da percepção. Escrevo apenas em uma temperatura acima do normal, tentando compreender as coisas pelo corpo, pelo sensorial. Não faço uma literatura racional, embora pense muito no que esteja sentindo, como diz Fernando Pessoa no poema Inconsciência: “o que em mim sente está pensando”.

Dos 16 contos do livro, alguns já foram publicados em outros meios, o que significa que você possui uma produção constante deste gênero literário, além de ser autor de diversos romances, poemas e críticas literárias. Qual a sua relação com a produção de contos comparada a essas outras modalidades? Por que o conto é necessário pra você?

Cada forma literária permite intervenções próprias. Sou um escritor multitarefa – não acho que isso seja nem uma qualidade nem um defeito, apenas uma forma de ser. Para mim, o conto funciona como um espaço de intensidade dentro da prosa. A crônica, gênero que também pratico, apresenta a vantagem de dizer as coisas sem que o autor se leve muito a sério. O romance é um estudo em amplitude de um determinado universo. Já o conto é o mundo visto numa situação de tensão. Sem isso não há conto. O romance tem momentos de tensão, mas ele é, como formato, distensão. A crônica é cavalgar com a rédea solta. Então, ao escrever um conto, tentamos captar a vida num momento emblemático. Num conto, tudo flui para aquele instante-chave. Ao intensificar ainda mais a escrita chegamos ao poema.

Apesar de algumas histórias possuírem aproximações quanto ao tema da escrita, nem todos os contos desse livro falam diretamente sobre esse assunto, entretanto é possível enxergar alguns elementos constantes, como a relação com a memória, a morte e a materia. Existe um sentimento que une todos os contos? Que grande marca possuem os personagens desses contos?

Acho que talvez seja a crise da noção de pertencimento. Os personagens querem pertencer a algo, mas não conseguem. Este querer lhes dá uma força. Esta impossibilidade faz com que eles sofram uma paralisia. A que mundo pertencemos? Talvez esta seja a grande pergunta que eles se façam. Ao passado, pela memória? Mas a memória é um espelho mentiroso. Ao agora, pela matéria? Mas a matéria é tão inconstante. Meus personagens caminham para a morte sem saber lidar com o lugar que eles ocupam. São seres desenraizados. Mas que sonham com raízes.

No conto homônimo ao livro “Então você quer ser escritor?” podemos compartilhar uma visão muito específica de um pensamento crítico acerca da produção literária atual, através do personagem que leciona numa oficina literária. O Miguel Sanches Neto é o protagonista dessa história? Como você caracteriza a presença da autobiografia e da ficcionalização dos acontecimentos na sua escrita?

Tudo é ficção quando o autor propõe um pacto ficcional, um contrato de leitura em que ele quer ser lido como ficção. O narrador do conto-título é um homem sozinho, incapaz de amar. Esta sua incapacidade para o amor se estende para a sua incapacidade de admirar a literatura de seus contemporâneos. Ele confunde tudo. É um equivocado. Pensa amar uma mulher apenas depois de tê-la rejeitado vergonhosamente. Mas ele não sabe o que ama. É um personagem dolorosamente cínico. Não gostaria de encarnar neste personagem.  

No conto “Árvores submersas”, existe uma oposição interessante entre  dois personagens: Marlus - que vive um eterno desejo de iniciar a escrita de um romance – e Último – poeta que escreve compulsivamente a ponto de não mais conseguir escoar sua produção. Ele vive para produzir, em busca do poema definitivo. O que você considera uma busca legítima para um escritor e quais são as dificuldades encontradas para tornar possível uma realização através da escrita?

Marlus precisa acreditar na literatura como dádiva. Vai em busca de um poeta que renunciou a tudo para ser quem ele era – um cultor da linguagem. Mas Marlus é fraco e se apaixona pela jovem mulher do poeta recluso. Há um contraste, neste conto, que é o meu preferido, entre ser cerne e não se deixar apodrecer, mesmo nas condições mais insalubres, e ser esta matéria frágil de que somos feitos. Eu gostaria de ser o poeta Último, trancado num quarto escuro, conversando solitariamente com as sombras. Escrever é, em boa medida, ter esta vida secreta, esta existência de fantasma.

A presença das crianças e do olhar a partir de seus pontos de vista também fazem parte dessa obra em contos como “O tamanho do mundo” e “Manga verde com sal”, demonstrando uma profunda sensibilidade sua em relação a esta idade. Seu primeiro romance chama-se “Chove sobre minha infância” (ed. Record). Como foi a sua experiência com o mundo quando você era criança e qual o seu interesse em retomar temas que tratem desta etapa da vida?

Eu me interesso muito pelo olhar da criança porque ele é desarmado. E nela estão todas as dores humanas. Achamos que as crianças não sofrem, que elas vivem uma realidade à parte, que são a realização da felicidade terrena. Tudo isso é uma projeção psicológica de adultos frustrados. As crianças olham o mundo com dor. E a dor é imensa porque eles fazem uma descoberta súbita dela. Interessa-me este instante de desvelamento da crueldade do mundo. Uma crueldade ainda não compreendida, mas sentida profundamente.

Em “Na minha idade”, o personagem culpa a esposa por sua indisposição para a escrita. Ele diz: “Existem escritores incapazes de produzir um simples artigo. Eu pertencia a este grupo para quem as ideias são tantas que não há como escolher uma delas”. Existe uma situação ideal para escrever?

Não, a situação ideal seria não escrever. Mas não suportamos não escrever. Então, todos nos cobramos uma obra, um livro, ao menos um artigo. O insuportável é esta cobrança interior, que faz com que criemos culpados – tal como diz Sartre em Entre quatro paredes, “o inferno são os outros”. Este narrador culpa o outro, mas na verdade ele não tinha vivido nada intenso para poder escrever. Só ao sofrer um estranhamento ele se faz escritor de um primeiro conto. Vamos ver como ele vai se sair daí para frente.

“Uma cidade que valoriza mais o cemitério do que as casas ou a praça é um lugar que está mesmo desaparecendo”. Estas são algumas palavras do conto “O ultimo abraço”, que apresenta Neuza, uma “mãe que já chorou centenas de mortes dos três filhos, por isso vive com a casa em luto”. O interesse por aquilo que se perdeu seria assumidamente uma constante no seu trabalho? Por que?

Porque é com o que vamos perdendo que podemos construir uma imagem precária de quem somos. Eu não sou este corpo que se faz presente hoje. Eu sou na verdade a soma de tudo o que perdi. Sou apenas um vazio, um cemitério carregando meus mortos – alguns que ainda nem morreram.

“Não existe maior liberdade do que a do historiador”. Há presente nesse livro um conto que se chama “Duas palavras” e que se trata de notas de um soldado que vai a combate para lutar na Guerra do Paraguai. Qual a sua relação com o romance histórico?

Tudo é construção narrativa. O historiador, por trabalhar pretensamente com o factual, tem muito mais liberdade do que o ficcionista, que trabalha com os possíveis históricos. Assim, o romance histórico, desvalorizado nesta corrida de 100 metros que é modernidade, é uma chance para que o ficcionista se aproxime do factual para ordená-lo de forma diferente. No romance histórico, a mentira literária tem um valor de verdade. É um travestimento, apenas isso. Toda a literatura pertence ao tempo em que foi escrita. 

Você é adepto dos novos meios de comunicação na rede, possuindo uma grande frequencia de “postagens” no Twitter, que se caracteriza basicamente pelo envio de mensagens breves.  Em seu blog (www.herdandoumabiblioteca.blogspot.com), há um poema cujo título é ESCREVER CONTOS e que, num determinado trecho, diz: “Não escreva contos/com palavras eruditas./Conto é linguagem viva,/a mesma usada no bar,/na hora do namoro,/no balcão da padaria./Palavras do dia-a-dia”. Como essas novas ferramentas da comunicação vêm transformando a relação do escritor com a sua obra e, ainda, com os seus leitores?

Pelas redes sociais, o escritor é leitor de seus leitores. Isso é fascinante. Eu poder ler quem me lê, conversar com ele, saber que achou isso ou aquilo de meu livro, mas também tentar acompanhar a produção deste outro. O blog fez com que houvesse uma indistinção entre autor e leitor. Todos são escritores. Todos são leitores. Eu tento me comunicar com quem tem algo para dizer e tenho encontrado leitores extremamente criativos e que são melhores do que muitos que se julgam autores propriamente ditos. A relação escrita-leitura adquiriu a proximidade de uma conversa num balcão de padaria.

Este ano você é o escritor homenageado no Concurso Nacional de Contos que acontece no município de Ponta Grossa, no Paraná. Que conselhos e incentivos você daria para novos contistas?

Não escreva para agradar ninguém. Principalmente não escreva para agradar a si próprio.

Quais são seus projetos futuros no campo da literatura? Alguma nova publicação em vista?

Estou trabalhando num romance contemporâneo que se passa nas décadas de 1860/70, mas que será classificado (ai de mim!) como um romance histórico.

NAS RUÍNAS DO ROMANCE

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo (Curitiba), 06 de março de 2011.


Muitos teóricos já pregaram a morte do romance e alguns escritores tentaram cometer este assassinato em grande estilo. Uma das tentativas mais mitificadas talvez tenha sido a do argentino Macedônio Fernández (1874-1952), com um livro publicado postumamente: Museu do Romance da Eterna, de 1967. É uma narrativa construída como uma pista cheia de obstáculos, instransponíveis para a grande maioria dos leitores: o autor gasta a metade do livro com os 59 prefácios que montam, de forma tumultuada, uma teoria estética. Não se quer a narrativa, mas a discussão metafísica da arte. Os prefácios se desdobram, ironicamente, e vão retardando a chegada da ficção.

Em uma de suas expressões célebres, o teórico italiano Umberto Eco definiu a literatura como “maquinação preguiçosa”. Ou seja, como um demorar-se sobre as coisas, contrapondo-se assim à ligeireza das experiências modernas. Nenhum livro ilustra melhor este conceito do que Museu do Romance da Eterna, que enreda o leitor em suas infindáveis discussões preliminares. O narrador, por isso, vai computando a debandada da platéia. No final do prólogo 58, ele constata que houve “sessenta e oito baixas de leitores”. Mais adiante, na página 201, em nota de rodapé, registra a desistência de mais uma leva: “não posso evitar verificar sessenta e três baixas de leitores”. Enfim, na página 226, completa-se a sua solidão: “daqui em diante o autor continua sozinho. Os últimos leitores dão baixa ao autor”. Macedônio renuncia a uma grande camada de leitores, buscando a companhia daqueles para quem a literatura é mais do que argumentos. Ele ainda zomba do que chama, com maiúsculas, “Leitor de Capa, Leitor de Porta, Leitor Mínimo ou Leitor Não Conseguido”. Este é um leitor externo à obra, tal como o narrador logo explica: “Calcula-se cem leitores de capa para um de livro”.

Não há uma recusa apenas do falso leitor ou do leitor de folhetim, e sim de toda a tradição do romance realista ou do que ele chama, pejorativamente, de literatura de contista, aquela que leva a vida para a escrita: “a verdade de vida, a cópia de vida, é o que abomino” (prólogo 17). Macedônio entende o romance como artifício, e quer escancarar, a cada linha, a sua natureza inventada. Avessa a qualquer forma de ordem, a sua escrita é louca, exigindo uma leitura igualmente descontinuada. Neste novo pacto, o leitor deve fazer uma leitura salteada, sem se preocupar com a coerência.

Vencida a etapa dos prólogos, começa a história propriamente dita, com personagens que não são pessoas, e sim arquétipos, e que habitam um cenário – uma estância chamada Romance. Neste lugar atemporal, as criaturas artificiais, que levam nomes esdrúxulos (Quiçagênio, Doce-Pessoa, Eterna etc.) vivem num plano da consciência e não impõem uma presença física, numa negação estratégica do eu, da individualidade e da própria historicidade. Os fatos são mínimos: uma cruzada folhetinesca contra Buenos Aires, o amor se insinuando mas de forma inviável, conversas soltas...

Ao recusar o realismo, Macedônio Fernández defende uma visão idealista do homem. Dotar os personagens de um passado, de uma história, de um nome ou colocá-los em situações de vida seria defender uma arte provisória, passageira, falível. É neste sentido que o romance cultua a Eterna.

Mais aventura do intelecto do que qualquer outra coisa, Museu do Romance da Eterna se vê, como está dito em um dos seus posfácios, como o “primeiro livro aberto na história da literatura” – antecipando assim um dos conceitos teóricos centrais de Umberto Eco – a obra aberta. Ao leitor afeito às lacunas cabe a tarefa de construir a narrativa a partir da teoria proposta.

Depois de ter sido levada a este beco sem saída, onde um único romance seria eternamente lido e recriado pelos leitores, a literatura voltou a valorizar os autores que sabem ressuscitar o romance realista.

Serviço: Museu do Romance da Eterna, de Macedônio Fernández. Tradução Gênese Andrade. Cosac Naify, 266 págs.

segunda-feira, 7 de março de 2011

CARRETEIRO CREMOSO

O bom arroz carreteiro é feito com restos de churrasco.
É um prato típico das segundas-feiras aqui no sul.
Assim que termina o churrasco de domingo, corto as sobras – geralmente de alcatra – em tiras minúsculas.
Se sobra linguiça, também corto. E guardo tudo na geladeira, numa vasilha de vidro bem fechada.
Na segunda-feira, é aquela festa.

COMPONENTES DA GOROROBA:

½ quilo de carne assada e fatiada minusculamente.
Dois gomos de lingüiça defumada desfiada.
Um copo de arroz branco agulhinha.
Um pote de requeijão cremoso.
Uma cebola.
Cheiro verde a gosto.
Pimenta rosa ou pimenta do reino.
Colorau.

MANEIRA DE MISTURAR

Lave e cozinhe o arroz com o dobro de água que você geralmente usa e bem pouco sal. O arroz deve ficar muito úmido e estar cozido quando a carne estiver pronta.
Numa outra panela, frite a lingüiça defumada e acrescente cebola bem picada e pimenta. Despeje um pouquinho de água e o resto de churrasco. Deixe fritar bem.
Daí coloque uma colher de chá de colorau.
Frite mais um pouco e adicione o pote de requeijão e o cheiro verde.
Despeje o arroz quase ensopado por cima da carne, mexa rapidamente e sirva em uma travessa.
Serve 4 pessoas.