sexta-feira, 29 de abril de 2011

CARTA SOBRE INÉDITO DE JAMIL SNEGE

Prezado professor Aroldo Murá


Sobre a pergunta do Ernani Buchmann quanto ao paradeiro dos originais de O Grande Mar Redondo, do Jamil Snege, tenho o seguinte a informar:

O Jamil havia abandonado a escrita deste romance, cujas partes incompletas restavam apenas datilografadas. Todos os amigos insistiam para que ele continuasse, mas ele nunca se animou, embora deixasse no ar que um dia voltaria ao livro.

Como romance, o livro não funciona, mas pode muito bem ser publicado como uma coleção borgeana de ficções, pois tem a alta qualidade própria de todo e qualquer texto do velho turco. São 226 mil caracteres, em 23 capítulos, alguns muito curtos.

Meses antes da morte do Jamil, numa visita que lhe fiz, ele aceitou a proposta de que tentasse fechar o livro. Como estavam datilografados, mandei digitar os originais e entreguei a ele os arquivos e o texto em um envelope. Pelo que sei, ele nunca nem abriu o envelope. Logo depois morreria.

Os arquivos digitais estão comigo e mandei-os novamente para o Jean-Marcel Snege, na esperança de que o livro venha a ser publicado quando a família puder fazê-lo.

Atenciosamente

Miguel Sanches Neto

quarta-feira, 27 de abril de 2011

MINHA CASA DE CAMPO

Trabalhar em casa (numa casa com adolescente, criança, cachorro, vizinhos com cachorros, e mais o ruído natural do bairro) é um desafio para a concentração de qualquer um.
Para quem escreve ficção acho ainda mais difícil, pois o barulho nos tira do mundo que está sendo imaginado, chamando-nos para um tempo presente cheio de atrativos impostos. Por isso, prefiro sempre as madrugadas para a escrita de ficção. Foi durante as minhas matinadas que escrevi quase todos os romances.
Mas este ano tirei uma licença sabática e queria me dedicar em tempo integral a um livro, coisa que nunca pude fazer. Então, tenho tentado escrever durante o dia doméstico; e vinha até conseguindo.
Daí começamos uma reforma aqui em casa.
Convivo hoje com pedreiros, pintores, marceneiros, todos com suas ferramentas ruidosas trabalhando ao mesmo tempo.
Foi o que me levou a tomar uma velha decisão: comprar um protetor auditivo tipo concha. É com ele que escrevo esta nota, enquanto os carpinteiros trocam o telhado da biblioteca logo acima da minha cabeça. Ainda ouço o barulho de furadeiras, de martelos, mas é como se viesse de longe.
Conquistei assim o silêncio das madrugadas no campo, com a vantagem de não ouvir nem o cantar dos galos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

PEQUENO TRATADO SOBRE BOTÕES

Crônica publicada na Revista D'Pontaponta, n. 186, abril de 2011.


– Essas máquinas deixam as pontas dos fios soltos – ela diz assim que compro alguma camisa.

E, então, vai até o armário, pega sua caixinha de costura e retira carretéis de linhas, escolhendo a mais aproximada, agulhas e uma ferramenta que parece um tridente pequeno, mas com dois dentes, um mais curto que o outro, e começa a tirar os botões. Nos primeiros anos de casamento, ela apenas arrumava um ou outro botão em que a costura estivesse solta. Agora, arranca todos eles, até mesmo os das golas, e os prega de novo, com um cuidado e uma atenção que me incomodam. É como se estivesse fazendo uma coisa muito importante, como se ela fosse a costureira responsável pelas roupas de alguma celebridade.

Quando vou vestir a camisa nova, fica até difícil abotoar. Ela apertou tanto o botão que não há espaço suficiente para passá-lo pela casa.

Na parte interna da camisa, sinto o volume de linha e os nós bem dados. Reclamei que isso irrita minha pele, mas ela nem ouviu.

– Nenhum desses botões cairá.

Então ela me beija e pergunta onde vai ser a reunião, com que almoçarei ou jantarei, a que horas pode me ligar e mais não sei quantas coisas. Eu vou para a porta do apartamento, ela me acompanha; saio pelo corredor, ela ainda diz que esta gravata ficou bonita com a camisa nova; chamo o elevador, ela endireita o nó da gravata, e me beija de novo, dizendo que me ama.

Na hora de deixar a garagem do prédio, não olho para a janela do apartamento, mas tenho certeza de que ela está lá.

Contei isso para meus amigos e eles dizem que nosso casamento é assim tão intenso porque não tivemos filhos. Ela exerce a força maternal sobre a única pessoa que tem para cuidar. Reclamo que cansa ser amado dessa forma, como uma criança que sai sozinha pela primeira vez e tem que cruzar uma rodovia movimentada. Alguém me aconselha a dar um animal para ela. Um gato. Talvez um aquário com peixes.

Um de meus amigos, hipocondríaco profissional, fala que pode ser algum transtorno. E indica médicos e me receita controladores de ansiedade.

Com ela não comento nada.

Acostumei-se com as camisas e seus botões bem pregados. É verdade que machuco os dedos na hora de me vestir, ficando com a sensação de habitar uma camisa de forças.

Fora isso, minha mulher e eu vivemos em paz. Não me lembro de nenhuma briga. Ela fala pouco do seu passado, também não pergunta sobre o meu, mas acompanha o meu dia como se fosse a minha secretária.

Ontem, os amigos iam a uma festa de trabalho e acabei seduzido. Pensei em dizer para ela que chegaria tarde, mas resolvi desligar o celular. Jantamos, bebemos e dançamos. Em uma virada brusca, uma colega estava me ensinando uns passos de tango, o último botão de minha camisa enroscou no cinto dela e se soltou. Eu o vi rolando no chão, mas não tive coragem de me abaixar e pegar.

Quando cheguei em casa, minha mulher estava vendo tevê no quarto, as luzes acesas e os olhos fixos na tela. Tirei o paletó, soltei a gravata.

– Onde está o botão?

Ela se aproximou num salto e estudou a camisa. Havia um rasgado no lugar da linha. E a casa estava rompida.

Ela começou a chorar.

Hoje de manhã, procurei na caixa de costura dela um botão do mesmo modelo, mas não achei. Prometi passar em algum armarinho e comprar outro exatamente igual. Melhor: compraria um estoque de botões – de todas as cores e modelos. Ia aderir à mania de minha mulher.

Só que me esqueci disso durante um dia cheio de trabalho, voltando na hora de sempre. Assim que entrei em casa, ela falou:

– Antes de nos abandonar, meu pai começou a chegar das noitadas com a camisa sem um botão ou com botões frouxos.

Eu me sentei no sofá ao lado dela e apertei um beijo contra seus lábios inertes.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

UM HOMEM BOM

Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 24 de abril de 2011.

Depois de ter perdido, em 1990, as eleições presidenciais para Alberto Fujimori, o escritor Mario Vargas Llosa tinha um conhecimento bem mais profundo do país. Ele o percorrera na condição de candidato, passando pelas áreas dominadas pelos terroristas do Sendero Luminoso. Felizmente, a resposta que Vargas Llosa deu a essas experiências foi de ordem literária, num de seus romances mais bem realizados – Lituma nos Andes, publicado originalmente em 1993.
Um cabo e um soldado são designados para um posto avançado na região de risco, a vilazinha de Naccos, onde se constrói uma estrada. Acampados naquele fim de mundo, eles se deparam com a solidão e também com a devassidão de uma comunidade essencialmente masculina. Num ambiente de cumplicidades, desaparecem três homens. Eles poderiam ter sido mortos pelos terroristas ou sacrificados aos senhores da montanha, deuses andinos que exigem sangue humano para não destruir as comunidades.
O romance todo é o relato de uma espera. Lituma, o cabo vindo de Piura, e que odeia os Andes, espera a morte a qualquer momento. O jovem Tomás aguarda o retorno da amada, uma prostituta que ele tratou como uma grande dama. Os devassos Dionísio e Adriana, donos da cantina, esperam ganhar dinheiro para deixar a vila.
O romance se estrutura a partir dessa expectativa tensa, que toma conta de todos. Enquanto a vida transcorre em Naccos, ficamos sabendo das execuções feitas pelos terroristas, da devoção de intelectuais estrangeiros ao Peru e das trajetórias dos desaparecidos, que em algum momento cruzaram com o Sendero Luminoso.
Nesse emaranhado de narrativas em ziguezague, uma babel de tempos e vozes muito bem urdida, um dos relatos é central: o do jovem Tomasito que, naquele exílio, aguça o desejo do cabo com as histórias de seu amor imenso por Mercedes. O cabo quer ouvir as sacanagens clássicas, mas o soldado narra a renúncia diante da mulher amada: “Eu sempre esperando coisinhas gostosas, carícias, bolinação, trepadas para me distrair do jejum forçado, e você sempre indo para o lado romântico” (p.141). Tomasito está ali porque matou um homem para proteger a prostituta. Ele é o espírito bom, o rapaz até então virgem que se rende à mulher errada, mas também é o amigo num meio hostil.
Com índole inversa à dele, Dionísio encarna Baco, despertando os instintos mais selvagens das pessoas, convidando-as para que visitem o seu animal interior. Vendedor de um vinho local (o pisco), ele incentiva a orgia em clima apocalíptico e usa sua mulher para despertar as crendices populares mais perversas.
Posto entre estes dois modelos, o do amor romântico e o da devassidão, elo cabo chega a passar por um batismo. Surpreendido por um terremoto que destruiu Naccos, Lituma sobrevive e se integra à região: “Estava tranquilo e feliz. Como se tivesse passado num exame, pensou, como se essas montanhas de merda, essa cordilheira de merda, finalmente o tivessem aceitado” (p. 181). Só depois desse episódio ele pode conhecer a alma andina, as suas crenças obscuras. E o que ele descobre, os motivos da morte dos três homens, é algo que o marcará para sempre como símbolo dos delírios coletivos.
Assim, a barbárie tem duas faces no romance: a dos terroristas frios e materialistas, que querem fazer justiça contra todos que não sejam “do povo”; e a das forças dionisíacas, que atualizam práticas de expiação do Peru incaico. Para Vargas Llosa, os dois impulsos se equivalem, revelando um país em que a violência, historicamente represada, está sempre pronta para aflorar.
Neste mundo impiedoso, sobressai o canto de amor de Tomasito por Mercedes, com direito a um final romântico. Ele é um contraponto a essa pátria de assassinos ideológicos ou ritualísticos. Mais do que uma obra política, Lituma nos Andes é um romance amoroso, que coloca a bondade do indivíduo acima de todas as crenças.

Serviço
Lituma nos Andes, de Mario Vargas Llosa. Tradução Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, 270 páginas.

domingo, 24 de abril de 2011

OFICINA DE CONTO NA BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ

A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) recebe em maio o escritor paranaense Miguel Sanches Neto para a segunda edição da Oficina BPP de Criação Literária. Também professor e crítico literário, Sanches Neto dará uma oficina de conto nos dias 7, 14 e 21 de maio. A participação é gratuita e as vagas são limitadas.

Sanches Neto é autor de diversos livros, como “Chá das cinco com o vampiro”, “Herdando uma biblioteca” e “Hóspede secreto”, além do recém-lançado volume de contos “Então você quer ser escritor?”. Em sua bibliografia constam romances, poemas, contos e obras infantojuvenis. Ele ainda é colaborador de revistas e jornais e possui um blog com textos críticos, ensaios e comentários de leitura (www.herdandoumabiblioteca.blogspot.com).

Os interessados em participar da oficina devem enviar à BPP um conto de própria autoria, com até seis mil caracteres, além de um breve currículo. O material, que será avaliado pelo próprio autor, deve ser mandado via e-mail para oficina@bpp.pr.gov.br até o dia 2 de maio.

As oficinas de criação literária oferecidas pela Biblioteca Pública do Paraná ocorrem mensalmente e têm como convidados escritores, jornalistas e críticos literários. Aliando teoria e prática à experiência dos convidados, as oficinas oferecem ao público o contato com diversos gêneros.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

SAUDADES DO INFINITO

Marcos Losnak, Caderno 2, Folha de Londrina, 19 de abril de 2011.



Chega uma hora em que o homem precisa olhar para baixo. Olhar para aquilo que existe sob seus pés. Olhar para suas raízes, sejam elas claras ou difusas.

Em algumas situações contemporâneas o sujeito olha para baixo e não encontra nada. Nada que faça a ligação entre os pés e a terra. Nada de raízes.

Em seu novo livro de contos, ''Então Você Quer Ser Escritor?'', o romancista Miguel Sanches Neto apresenta uma galeria de personagens sem nada sob os pés. Figuras desenraizadas que buscam algum ponto de ligação com o mundo. Algum fiapo de raízes. E nada encontram.

Lançado pela editora Record, a obra reúne 16 contos. Alguns inéditos e outros publicados originalmente em coletâneas e revistas literárias. Mesmo abordando temas variados, é possível identificar elementos de confluência em algumas das narrativas.

O primeiro ponto de confluência seria a história de figuras desenraizadas em busca de alguma coisa chamada terra. Personagens que, caminhando a esmo, procuram algo que não possuem, algo que precisa ser criado, algo bem próximo do impossível.

Um dos melhores exemplos está no conto ''Não Comerás Carne'', que narra o reencontro entre dois irmãos após anos de distanciamento. Filhos de um açougueiro durão, passaram a infância fugindo do pai e se protegendo na barra da saia da mãe. Alheios ao destino, ambos envelhecem na solidão, na esquisitice do desamparo. Nesse contexto criam um mundo próprio onde podem experimentar a sensação de alguma coisa sob os pés.

A infância também é tema de algumas histórias de Miguel Sanches Neto. Não propriamente a infância romântica, mas a infância que inaugura o sentimento de dor e a sensação de inadaptação ao mundo. O assunto é bem resolvido em ''O Tamanho do Mundo'', ''Manga Verde Com Sal'' e ''Jogar Com os Mortos'', contos que revelam o instante em que a infância se rompe. O momento em que o elo é rompido com a dilatação do tempo. Como um raio que despenca do céu e, além de luz, traz o impacto e o choque.

Outro tema presente no livro é o universo da escritura. O conto ''Árvores Submersas'' aponta para a idéia de que o objetivo último do poeta seria a elevação da linguagem, a síntese. A busca da criação do poema definitivo, a máxima do verbo. Em ''Então Você Quer Ser Escritor?'' sugere a embriaguez como elemento crucial para a arte, um conceito oriundo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900). A embriaguez como estado de percepção. Um estado onde as coisas se revelam sem os filtros da racionalidade.

Em ''Então Você Quer Ser Escritor?'', terceiro livro de contos de Miguel Sanches Neto, é possível encontrar uma das características de sua literatura: a transição da vida rural para a vida urbana ocorrida no Paraná das últimas décadas. Não a transição geográfica ou física, mas a transição subjetiva. Algo semelhante ao que o escritor londrinense Domingos Pellegrini também traz em sua literatura. Essa transição não é encarada como conflito ou como ruptura, mas como uma busca afetiva de confluências. Como uma espécie de saudade do infinito.

Nascido em Bela Vista do Paraíso em 1965, Sanches Neto passou a infância em Peabiru e, em seguida, se transferiu para Curitiba. Atualmente reside em Ponta Grossa, onde atua como professor universitário. É autor dos romances ''Chove em Minha Infância'' (Record, 2002), ''Um Amor Anarquista'' (Record, 2005), ''A Primeira Mulher'' (Record, 2008) e ''Um Chá das Cinco Com o Vampiro'' (Objetiva, 2010).

ANTÔNIO FRANCISCO LÊ ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?

Publicado em 10 de abril de 2011, em http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-angustia-em-miguel-sanches-neto

A mãe manuseia a faca. No outro quarto, o filho bebê chora. A mãe vai com a faca para o quintal. Pensa que o choro vai diminuir, mas não. Fura o chão com a faca. O bebê continua no choro. Ela relembra as agruras da cesariana. E de antes, que não queria ter filhos. Aquele, em verdade, foi de distração. E a faca sendo enterrada a golpes no chão, enquanto lembra. E o bebê chorando lá no quarto. Ninguém em casa.

Glup!

Então você quer ser escritor?

É o título de um livro de contos que achei de arrepiar, de Miguel Sanches Neto. Do mesmo jeito que me acontecia quando estive lendo Todos os Nomes de Saramago, tem horas que a alternativa ou é fechar o livro ou sair correndo, porque a angústia (o medo, o sufoco, sei lá) baixa feroz. À semelhança de Saramago, Miguel também não obedece certos parâmetros da escrita, como marcar a fala de cada um com travessões, ficando neste caso ao encargo do leitor sacar na hora quem é que está falando, no momento mesmo da leitura.


Se você ficou curioso, saiba que Miguel Sanches Neto é Doutor em Teoria Literária pela Unicamp, mas só depois de muito antes atuar no meio rural no Paraná, onde morou em Peabiru, conforme uma biografia dele que pode ser lida em

http://www.verdestrigos.org/wordpress/?p=3068

TARCÍSIO MANZAN DE MELLO LÊ ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?

Publicado no dia 11 de abril de 2011, em http://pessoailtda.blogspot.com/

Sou um apreciador de contos já há algum tempo. Talvez porque eu sonhe algum dia poder publicar os meus. Mas enquanto isso não acontece, os leio com dois objetivos: me divertir e aprender - plenamente atendidos nessa obra do paranaense Miguel Sanches Neto, bem conceituado no meio literário como crítico e autor.

Em uma resenha que fiz sobre um livro de contos de Tchecov, afirmei que os contos (em especial aqueles mais curtos) devem oferecer ao leitor um final que cause alguma surpresa, algo inesperado, que o faça pensar "eu realmente não tinha pensado nesse desfecho". Mas a literatura não define métodos, regras. É uma arte e, como tal, dá liberdade ao artista para fazer o que quiser. Se vai ficar bom, é outra história. Tchecov é um exemplo: seus contos tem finais melancólicos. São contos ruins? Claro que não, são ótimos. Mas continuo preferindo aqueles que me surpreendem. Sanches Neto consegue isso em vários dos contos deste livro, em especial nos excelentes "Sangue", "Animal nojento", "Redentor" e "Na minha idade", além do último, que dá nome ao livro, deliciosamente ousado e admirável.

Se existe um conselho que eu daria às pessoas que não curtem muito literatura mas que sentem-se culpadas por isso é começar lendo contos. São curtos, geralmente de leitura leve e agradável. Devem manter um bom livro de contos sempre à mão, para ler no banheiro, na cama antes de dormir, ou mesmo em uma viagem ou sala de espera de algum consultório médico. Mas tem que ser um livro bom, como este agradabilíssimo "Então você quer ser escritor?".

domingo, 17 de abril de 2011

LEGENDAR O MUNDO


Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 17 de abril de 2011.

Em um romance com estrutura de ensaio (A Louca da Casa, Ediouro, 2004), a es­­critora espanhola Rosa Montero identifica o que desencadeia o desejo de escrever: “fui descobrindo, pela leitura das biografias e em conversas com outros autores, que um grande número de romancistas teve alguma experiência bem precoce com a decadência” (p.10). A escrita seria uma luta contra a morte. Uma luta que poucas vezes foi tratada tão intensamente como na narrativa Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós.

Mais conhecido pelos livros infantojuvenis e pelo trabalho na formação de leitores, Bartolomeu é também autor de uma série de pequenos relatos autobiográficos. Seu grande tema são as descobertas formadoras que se dão na infância, as mitologias que criamos para superar as carências. Por isso, conquanto altamente autobiográfica, a sua literatura vem sempre sob o signo da imaginação: “Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa” (p.7).

Essa linguagem avessa ao realismo e aberta a construções requintadas se fez a marca do autor. Ele não quer descrever com minúcias os fatos vividos no passado, mas encontrar o seu centro simbólico e construir percepções de linguagem. Antes de tudo, são as palavras em estado de proliferação poética que conduzem o texto – palavras com alta voltagem lírica, concentradas em frases perfeitas (verdadeiros aforismos) e em parágrafos curtos que funcionam como capítulos. Os seus livros devem, por isso, ser lidos com paradas reflexivas a cada ponto final.

Vermelho Amargo é o relato de um amor total pela mãe, que morre muito cedo de câncer, formando a sensibilidade do filho num momento dramático. Como tinha dores insuportáveis, ela cantava para não chorar, enchendo a casa com sua voz terna. O autor confessará em uma entrevista: “Quando a dor é muita eu escrevo”. É da dor, principalmente da dor da perda, que vem a força pacificadora de sua literatura.

No lugar da mãe, a sua pátria mais profunda, entra uma madrasta, que lhe impõe um período de exílio mesmo dentro do lar. O menino começa a sofrer com a sua obsessão em cortar fatias transparentes de tomate para as muitas bocas. Ele enxerga neste ritual a mesquinhez, o ódio e a morte, tudo representado no fruto maduro: “O tomate não exalava nenhum cheiro. É da índole do tomate manifestar-se apenas em cor e cólera” (p.25). Daí o amargor do vermelho: “desde sempre imaginei a raiva vestida de vermelho, empunhando uma faca” (p.27).

Já a mãe é lembrada empunhado um regador, no gesto vivificante de aguar as flores como quem as benze, mas ela se manifestava também no alimento carinhosamente preparado, que dava uma sustância física e principalmente anímica. Assim, o escritor vai se fazer a partir de uma educação pela ausência. Com a morte da mãe, ele aprende a ver além da realidade, descobrindo este poder que a palavra tem de preencher vazios. Privado do objeto de seu imenso afeto infantil, ele guarda consigo um amor secretamente soletrado, o que o obrigará a legendar o mundo para suportá-lo, para exorcizar a dor, tal como a mãe fazia usando a música.

Sem divisões de capítulos, Vermelho amargo tem como única marcação a diminuição do número de integrantes da família, em uma contagem regressiva. Começa com oito pessoas e termina com duas – deslocadas na distância, pois o narrador já tinha deixado a casa paterna para poder olhá-la através da névoa da memória.

Serviço: Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós. Cosac Naify, 72 páginas, R$ 39.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

LEANDRO WIRZ LÊ ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?

Por Leandro Wirz, http://mardecoisa.blogspot.com

Há um par de semanas, me deparei com um livro inevitável: “Então você quer ser escritor?”, contos do paranaense Miguel Sanchez Neto. O título é desafiador, provocativo e, em uma rápida folheada, me certifico que não se trata de volume de dicas e fórmulas inúteis para quem quer brincar de ser escritor.

Sim, eu quero ser escritor. Respondo ao chamado do mundo. Ou do meu mundo. Todo escritor tem mais vida interior do que vida real. Eu quis ser cantor de rock, mas cresci e envelheci, sem a dignidade e a capacidade de continuar a ser ridículo. Eu quis ser ator, mas tive receio e preguiça. Bailarino era a quarta escolha, porque não há uso mais belo e consciente do corpo, mas nunca tive o menor talento para a dança. Sim, eu quero ser escritor, opção terceira em meu rol da infância. (Se é que é opção, visto que para muitos é maldição, um embrenhar-se na solidão).

Li, certa vez, em crônica de Arthur Dapieve, que todo homem de caráter tem suas obsessões. Sobre o caráter podem pairar dúvidas, mas entre minhas obsessões inequívocas estão árvores desfolhadas, galhos secos. Como se fosse sempre inverno ou estivesse no cerrado. Não bastasse o título, então, a capa do livro também era igualmente irrecusável, com a imagem de árvores que parecem emergir (ou estão semi-afogadas) em águas paradas. Peças mortas de resistência vã.

Aproveitei viagens a trabalho durante esta semana para ler no avião que, em alguns trechos, sacudiu não mais que um carro sobre o asfalto vergonhosamente esburacado do Rio.

O livro é de fatias da vida. Personagens sem nobreza, sem grandiosidade em recortes que tangenciam o banal, mas ocultam profundidade, como, talvez, as raízes das árvores da capa. Na maioria das vezes, sem grand finale.

Mas ao final do último conto, que dá título à coletânea, parecia que tinha levado um soco. Um soco bom, se é que isso é possível. Faltou ar e a primeira palavra que me ocorreu foi: estupendo.

Durante a leitura deste conto, pensei muito em um escritor, paranaense como o autor, que tem sido, há década e meia, uma referência para mim. Um homem que me ensinou muito sobre literatura e sobre a vida. Um grande amigo, um irmão mais velho, uma espécie de pai (no bom sentido da palavra). Valeu, Bwana!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

UM LIVRO DE DUPLOS

Por Júlio Pimentel Pinto, in Paisagens da crítica, 07 de abril de 2011.




Então você quer ser escritor? é um livro de duplos.

Em primeiro lugar, porque reúne contos. A forma breve, por definição, traz pelo menos duas histórias: a que segue visível na superfície e outra, subterrânea, discreta, iminente.

Segundo, e principal: esses dezesseis relatos de Miguel Sanches Neto mostram impasses, conflitos, dessemelhanças.

“Sangue” nos fala do banal e do visceral; “Árvores submersas”, de grandeza e ridículo; “Animal nojento”, de afeto e angústia; “O tamanho do mundo”, de esperança e desconsolo; “Não comerás carne”, de redenção e angústia.

“Duas palavras” é épico e patético, combina ficção e história. “Manga verde com sal” sugere os tempos da vida: dois, muitos. “Redentor” mostra o dentro e o fora de cada um; “O último abraço”, bandeiriano, trata da vida que podia ter sido e da que foi.

“Na minha idade” contrasta realidade e irrealidade e “Seios de menino”, por meio da ambiguidade sexual, confunde passado e presente. “Jogar com os mortos” combina a iminência do sexo e os contrastes sociais. “Andar de bicicleta” é o jogo da visão contra cegueira, dos vivos e dos mortos.

“Para o seu bem” revela a vida na margem — espaço híbrido de pertença e desconexão. A regularidade e a mudança, ficar e partir, o miúdo e o universal compõem “Vestindo meu avô”. Finalmente, o conto que intitula o livro traça com ironia a crueza do trabalho ficcional, duplo por princípio, artístico ou ridículo, verdade e engano.

Mais do que o conteúdo cognitivo e conjuntural de cada conto, a duplicidade é estratégia narrativa. Miguel Sanches Neto investe na variedade de registros, linguagens e estruturas, desenha as histórias e revisita, aqui e ali, temáticas e preocupações estéticas de livros anteriores. Assegura assim a organicidade da obra e, ao mesmo tempo, afirma sua tensão interna.

Além disso, contar contos já sugere, no Brasil de hoje, uma posição algo assincrônica: por algum motivo, a maioria dos autores nacionais chegou à conclusão de que o país precisa de romances, abandonou a forma breve e passou a nos brindar com enxurradas de literatura prolixa, medíocre e diluída.

No conto, ao contrário, tudo visa à precisão, ao detalhamento. É assim que o prosaico se torna significativo, que ganhos e perdas jamais são despidos de complexidade. É assim que os duplos revelam aquilo que de fato são: uma percepção do outro e outra percepção de si.

Certo historiador torinês falou, anos atrás, que essa é a contribuição decisiva da ficção, seu impacto capaz de ultrapassar a fronteira (obviamente porosa) do literário: ela dá a distância, o prumo, a referência de um olhar que não se contenta com a própria perspectiva e precisa encontrar outras, confrontar(-se), desconfortar.

Os leitores que percorrem os relatos de Então você quer ser escritor? ressurgem assim da leitura: sabem que passearam pelos meandros da construção ficcional e sabem, também, que interpretaram um pouco mais, e melhor, outra ficção: a da vida.

Miguel Sanches Neto. Então você quer ser escritor? Rio de Janeiro: Record, 2011

domingo, 10 de abril de 2011

CIRCULARIDADES NARRATIVAS

Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, 10 de abril de 2011.


O que mais impressiona em Dalton Trevisan é sua capacidade de desentranhar novos textos da própria obra, em uma constante intertextualidade interna. Quando seus contos que já eram curtos começaram a encolher ainda mais – a partir principalmente de Ah, É? (1994) –, ele se especializou em reaproveitar episódios, trechos ou mesmo frases de outras histórias. Assim deslocado, o fragmento ganhava uma autonomia ao mesmo tempo em que remetia o leitor a um outro período de sua literatura.

É verdade que, desde que seu estilo se estabilizou, o autor vem usando expressões-chave que ressurgem em seus livros para representar personagens historicamente paralisados. O progresso altera o exterior da sua cidade mítica, trazendo novos hábitos, sem que isso modifique as tragédias, as alegrias e os desejos dessa população ficcional. Há uma repetição de destino que determina o eterno retorno de situações e de linguagens.

A sua é uma obra que se desdobra pelo fragmento e também pela justaposição de trechos – tal como pode ser visto na novela Nem Te Conto, João, montada a partir da seleção de textos de diversos livros de Trevisan. Em outros momentos, como em O Vampiro de Curitiba (1965) e em Meu Querido Assassino (1983), alguns contos funcionavam como série. É em Meu Querido Assassino que está a base de Nem Te Conto, João, que herdou inclusive o título de um dos relatos da coletânea. Como um todo, a sua obra tem esta dupla energia: textos maiores se estilhaçam; e estilhaços textuais se reagrupam. É esse segundo movimento que faz do conjunto de seus livros um romance em progresso sobre a província.

Em nenhum momento anterior, no entanto, o autor se valeu tão deliberadamente deste método de justaposição para obter um livro. Nem Te Conto, João funciona como narrativa independente e também como antologia. É claro que, ao optar por este processo, o autor não pretende apresentar nenhuma história nova, mas alongar um tipo de conto muito recorrente em sua obra: o da mocinha que se diz ingênua enquanto se deixa seduzir.

Quase toda dialogada, a novela se reduz a um enredo circular. Maria fala de sua vida de moça pobre, da família que ficou em uma cidade pequena da região, das pensões onde mora em Curitiba, do trabalho e do estudo à noite, do rodízio de namorados que não a tiram desta condição precária; enfim, ela conta exaustivamente histórias, em seu papel de moça pura, de namorada fiel, enquanto se entrega por dinheiro a um homem mais velho. Esse descompasso entre o que ela diz e as suas atitudes produz um efeito de humor.

Por sua vez, João reclama que ela é fria, pedindo beijos sempre negados. Raramente ele dá atenção à ladainha de Maria, apenas nas passagens mais picantes, continuando surdo em sua exploração sexual. Tudo acontece no horário de expediente, no seu escritório de advocacia, com a presença de clientes na sala de espera, o que torna o encontro mais excitante: “quanto mais gente na sala, mais gostoso” (p.13).

Há, portanto, um falso diálogo entre eles (“agora não fale”, João repete), pois cada um só pensa em si. Maria quer o dinheiro do pequenino João e o usa como confessor. João, um senhor fraquinho e feio, recusado desde a adolescência pelas mulheres, quer aproveitar aqueles instantes de poder. Os dois se frustram nesta relação profissional. Nos últimos encontros, Maria já é estudante universitária, mas não conseguiu se casar e ainda procura o advogado para receber o dinheiro que a sustenta. A situação é idêntica à do início. Tempo e identidade são estáticos nesta obra que gira em torno de si mesma.

Serviço

Nem Te Conto, João, de Dalton Trevisan. L&PM Pocket, 144 páginas, R$ 14

sexta-feira, 8 de abril de 2011

AMANHECENDO


Todos me aconselharam a ficar na praia de Boa Viagem nesta primeira visita à cidade do Recife.
Recusei-me.
Queria os atrativos do arruado da ribeira do mar dos arrecifes dos navios.
E me hospedei no poema do ex-menino Manuel Bandeira, num hotel às margens do Rio das Capivaras – Capibaribe.
E é o sol que me acorda pontualmente às cinco horas, invadindo meu quarto na Rua da Aurora.
E quando cruzo as pontes, de manhã ou à tarde, vejo, movendo-se nas águas verdes, cardumes de copos de plástico ou de marmitas de alumínio, reluzentes.
As casas velhas se aglomeraram e um povo ruidoso come nas ruas, marmitas nas mãos, pois o antigo fausto se foi.
Melhor dizendo, mudou de endereço. O trânsito intenso no sentido dos bairros a cada fim de expediente.
Ontem, um amigo me convidou para ver o pôr do sol da sacada de seu prédio. Era longe; cheguei anoitecendo.
Penso: estamos sempre anoitecendo agora.
Não para quem vive, mesmo que de forma provisória, na Rua da Aurora.
São três horas da madrugada. O que em mim escreve aguarda.

terça-feira, 5 de abril de 2011

ERRO PREMONITÓRIO

Em meados dos anos 1990, a Prefeitura Municipal de Curitiba, sob a administração de Rafael Greca de Macedo, criou uma série de livros vinculada a uma rede de bibliotecas de bairro – era a coleção Farol do Saber. Na edição de O Paraná na Guerra do Paraguai, de David Carneiro (1995), saiu um comentário de Mario Vargas Llosa sobre essas bibliotecas, e o escritor foi erroneamente apresentado como Prêmio Nobel.
Corrigiu-se este equívoco nas outras edições, mas Vargas Llosa já estava definitivamente condenado a ser o ganhador do Nobel de Literatura em 2010.
Eis a demonstração do que pode um pequeno erro editorial.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

NOS DOMÍNIOS DA LITERATURA

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 3 de abril de 2011.

Numa época submetida alegremente à ditadura do entretenimento, o exercício da crítica ficará cada vez mais a cargo dos próprios escritores. Se este escritor que se dedica à produção alheia é um dos mais importantes do seu tempo, os seus artigos cumprem também uma função ordenadora, reunindo uma família espiritual. É este duplo valor, respeito à literatura e constituição de uma biblioteca perene, que encontramos em Mecanismos internos: ensaios sobre literatura (2000-2005), do sul-africano J.M. Coetzee.
Escritos principalmente para a New York Rewiew of Books, estes ensaios não se rendem à ligeireza de pensamento que tomou de assalto a cultura. Para falar de um livro, Coetzee passa por outros momentos do autor, analisa longamente os episódios, assinala acertos e erros, tudo numa linguagem altamente respeitosa, sem a menor pressa de se livrar da incumbência.
Se o título (Mecanismos internos) remete ao trabalho de desmontagem do texto, de estudo das peças de seu maquinismo, ele também permite outra leitura: quem assina estes ensaios é um romancista que conhece a literatura por dentro. Este saber do ofício dá a Coetzee uma autoridade crítica que ele usa discretamente.
A maior parte de seus ensaios está centrada nas traduções para o inglês de autores de língua alemã, hoje clássicos da modernidade. Aqui, Coetzee não apenas verifica a validade das obras, mas também confere as traduções, apontando problemas técnicos. Estes comentários sobre as traduções, dirigidos ao leitor de língua inglesa, poderiam ser omitidos na versão para o português, aumentando assim a fluência da leitura.
O outro conjunto de reflexões focaliza majoritariamente os autores de língua inglesa, contemporâneos ou mestres da modernidade, centrais ou periféricos, vistos também nesta perspectiva hierárquica, fundamento de todo trabalho crítico: Coetzee lê o livro lançado ou relançado em face dos momentos mais altos do autor, numa reverência não ao artista, mas à literatura.
O seu método crítico está baseado neste respeito e na capacidade de incluir-se nas obras alheias. Ele apresenta o enredo e a linguagem, acompanha a evolução do livro e da obra como um todo, aderindo de forma amorosa a ela, para logo se afastar e julgá-la. Como romancista, ele resume de maneira criativa os livros, cita trechos, fazendo com que o leitor se sinta nos domínios da literatura.
Outro de seus recursos é apresentar a biografia do autor, entendendo-o dentro de sua época, para ver como ele a transcendeu. Significativamente, um dos ensaios versa sobre os biógrafos de William Faulkner, esse autor formalmente progressista que sempre teve uma visão crítica do progresso. Ao tentar compreender a obra e o homem, a linguagem como resposta às pressões sociais e históricas, o crítico tenta ver de que maneira o individual ganha um sentido maior: o artista  “mediante a faculdade demiúrgica da imaginação, transforma seus pequenos problemas pessoais em questões de alcance universal” (p.261).
É nesse sentido que a biografia do autor conta para a crítica, mas sempre com a ressalva de jamais confundir o autor nomimal com o narrador/personagem, ainda quando os dois exibem o mesmo nome, tal como acontece em Complô contra a América, de Philip Roth: “As histórias que começamos a escrever [Coetzee se insere nesta primeira pessoa do plural] muitas vezes começam a escrever-se sozinhas; a partir de então sua veracidade ou falsidade nos escapa das mãos, e as declarações de intenção do autor perdem qualquer peso” (p.276). Esta declaração sobre Philip Roth é um alerta de leitura para a trilogia autobiográfica que o próprio Coetzee escreveu: Infância, Juventude e Verão.
Se este ganhador do Prêmio Nobel de literatura de 2003 é conhecido por tomar o ensaio e a ficção como irmãos gêmeos, tal como podemos ver em seus romances, aqui, por trás do crítico, encontramos o romancista. Melhor dizendo, encontramos toda uma literatura, porque é isso um escritor: motor oculto de uma linguagem atemporal.

Serviço:
Mecanismos internos: ensaios sobre literatura (2000-2005), de J.M. Coetzee. Tradução de Sergio Flaksman. Companhia das Letras, 2011, 360 páginas.

sábado, 2 de abril de 2011

DEPOIS

e quando enfim
               eu me for
haverá tanto de mim
em meus escritos
que eles
sozinhos
(e de for-
ma clandestina)
terminarão de criar
meu filho
          e minha filha