domingo, 24 de julho de 2011

MEMORIAL DO MENINO MORTO

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 24 de julho de 2011.

Em 1989, o jovem Gustavo Adolfo Cox, de 19 anos, se matava numa casa de praia em Saquarema. O motivo teria sido uma desilusão amorosa. Cox tinha sido criado pelo poeta e ficcionista Walmir Ayala, que morreria de problemas cardíacos em 1991. Walmir padeceu, nesses dois anos, o destino de um pai em tal circunstância, tentando dar uma sobrevida ao filho. É este o contexto dos poemas que ficaram inéditos até agora, e que compõem o volume A Viagem.
A palavra viagem assume significações múltiplas no livro. É a viagem de partida do filho, que sai batendo a porta, e tem, portanto, um sentido forte de perda. Mas é também a viagem cotidiana que o pai faz, pela memória, em busca do filho. E aí ela assume um valor positivado, que reverbera na preparação para a partida do pai, esperançoso de se reencontrar com o filho numa outra dimensão. A estes sentidos transcendentes soma-se um do mundo físico, que fortalece os anteriores. O poeta está sempre viajando do Rio, seu lugar de morada, para Saquarema, o endereço de descanso e agora de tormento.
Os poemas podem ser divididos em dois grupos: os que trazem a data em que foram escritos e os que aparecem sem data. Com isso, o autor localiza no tempo e fora do tempo o seu diálogo poético com o ente desaparecido, criando a tensão do agora (os poemas com data) com o sempre (os poemas sem data), respectivamente, poemas do tempo vazio e do tempo da plenitude. Outra divisão possível para os textos é a da localização geográfica. Os com data foram escritos ou no Rio ou em Saquarema, lugares entre os quais se divide o poeta. Os demais não têm localização geográfica.
Tais detalhes ampliam a tensão do livro, em que o poeta oscila entre duas temporalidades e duas espacialidades, neste projeto de herdar o mundo metafísico.
O livro todo é um doloroso canto de despedida, que Walmir transforma em celebração amorosa. Ele não compreende a morte de Gustavo, não suporta a forma abrupta da separação do filho, o que não impede que reconheça o heroísmo desesperado dessa sua última atitude. Por isso, a dor se faz uma oportunidade de cantar o outro, a sua coragem: “E faço deste adeus a minha festa” (p.7), como ele escreve na abertura do livro.
Eis como o poeta escolhe eternizar o jovem, com uma festa triste de despedida, doando ao filho uma existência outra, simbólica: “Não é no mármore, nem na pedra, nem no barro, / nem no ar, / é em mim que te construo” (p.32). Uma construção pela palavra que faz com que o pai amputado do filho seja um memorial dele. Como não quer viver longe de quem partiu, concebe os poemas como um espaço de encontro, pequena tentativa de eternidade.
Este movimento lírico é que ressuscita o filho, em oposição ao estado de abandono em que ficou o seu corpo. Em um dos poemas, Walmir revela a natureza da matéria inerte: “a solidão daquele recinto onde te depositaram, como uma coisa sem uso” (p.44). Os poemas, a memória, a própria vida do pai se encaminhando para a morte, as suas “pequenas conquistas cotidianas”, tudo quer vivificar o filho.
Não tendo sido o pai biológico de Gustavo, e se sentindo por isso duplamente vazio (“Eu sou o copo vazio”, p.45), pela ausência no seu nascimento e pela ausência maior da morte, Walmir Ayala fez dessas memórias febris uma forma de assumir a paternidade plena.
A experiência da morte de Gustavo, que anteciparia a sua, foi assim um louvor à vida.

Serviço:
A Viagem, de Walmir Ayala. Editora Bem-te-vi, 64 págs. Poemas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MULHERES, A MULHER

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 17 de julho de 2011.



Da abstinência sexual ao excesso, eis a trajetória narrativa de Mulheres, um clássico de Charles Bukowski (1920–1994) do final dos anos 70. À primeira vista, é um romance monotemático, sobre as aventuras libidinosas de um escritor que não se cansa de beber e de sair com fêmeas entregues ao álcool e às drogas, na Los Angeles dos anos loucos. As cenas de sexo se sucedem repetitivamente ao longo do livro, o que pode levar o leitor menos atento a achar que este é apenas um livro de pornografias.
Mas onde a literatura se manifesta nunca há pornografia, e sim dramas humanos. Ao fazer suas conquistas amorosas, Henry Chinaski, o Hank, alter ego de Bukowski, se remunera afetivamente pelo longo período de desprezo. Quase sexagenário, com uma feição horrível, barrigona flácida de cerveja, cicatrizes por todo o corpo, vergando roupas estropiadas, sempre de ressaca, vomitando a todo o momento, morador de um pardieiro, ele encontra em jovens que o procuram por causa de sua literatura uma paga por todas as privações.

Em vários momentos, ele se lembra de seu passado: a infância pobre e sem carinho; as acnes que o tornaram um adolescente repugnante; a falta de namoro por conta de seu aspecto e da pobreza; os trabalhos sórdidos nos lugares mais brutais; os anos como funcionário nos Correios; o confronto com os animais da noite; a falta crônica de dinheiro; a solidão de quem mora em hotéis e cortiços etc. Tudo isso é um passado recente e muito doloroso para o narrador que começa a fazer sucesso com uma literatura de embate com a vida.

A ação do romance ocorre quando Hank, depois de abandonar a estabilidade do emprego nos Correios, vive de seus livros e de leituras ébrias de poesia em universidades e boates. Há um orgulho imenso em ser um profissional da escrita. Visitando o prédio de uma das mulheres com quem sai, vê as caixas de correspondência. Faz um co­­mentário marginal, mas de grande força humana: “Passando pelo saguão do prédio, reconheci as caixas do correio. Tinha deixado muita correspondên-cia ali quando eu era carteiro” (p.38). No final do romance, no hipódromo, ao lado de uma jovem, ele encontra um amigo do Correio que pergunta do que ele está vivendo. E ele faz, no ar, o gesto de quem datilografa:

"– Quer dizer que você trabalha de datilógrafo numa firma?
– Não, eu escrevo.
– Escreve o quê?
– Poemas, contos, romances. Me pagam para isso.
Ele me deu uma olhada. Aí, fez meia volta e se mandou.” (p.309)

Bebendo à tarde e à noite, acordando ao meio dia, viajando para as leituras, sempre na companhia de mulheres diferentes, ele vive de uma vez tudo que não pôde nas décadas de miséria. Uma das cenas recorrentes é ele abrindo a sua própria caixa de correio – e há um ar triunfal nisso – para pegar as correspondências, que são de duas naturezas: convites para leituras de poesia ou cartas de fãs se oferecendo para transar com ele. Ele conseguiu passar para o outro lado.



Por isso não desperdiça ne­­nhuma oportunidade de fazer sexo ou de beber. Joga nos cavalos e vê lutas de boxe, além de arrumar encrencas com todo mundo. É isso que alimenta sua escrita autobiográfica e não a dedicação comportada aos estudos: “Assistir a lutas de boxe ensina algumas coisas sobre o ato de escrever, a mesma coisa acontece com as corridas de cavalo” (p.109). Assim, a sua literatura nasce deste conhecimento da vida nas suas manifestações mais intensas, na sua luta contra a morte. Esta luta agora não se dá mais nos confrontos com marginais em bares; é solitária. Ele se olha no espelho e vê a morte. Continua lutando ao se recusar a parar de beber e ao conquistar garotas mais jovens. Mas, em pouco tempo, zera esse passado de carência de sexo e se liga a uma mulher decente. Apesar de toda a bandalheira, Mulheres é um romance de amor; um amor à maneira do velho Hank.


Serviço

Mulheres, de Charles Bukowski. Tradução de Reinaldo Moraes. L&PM, 230 págs.. Romance.

terça-feira, 12 de julho de 2011

RESENHA DE ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?

Por Bruno Camargo Manenti

Miguel Sanches Neto é considerado um dos autores nacionais de maior destaque dos últimos anos, com a publicação de mais de dez livros, dois deles traduzidos para o espanhol. Em "Então você quer ser escritor?", (Record, 2011, 222 páginas), o novo livro de Sanches Neto, é possível entender o porquê . São 16 contos, alguns inéditos, outros já publicados com títulos diferentes em coletâneas, revistas ou jornais.

As histórias são, de um modo geral, uma busca por algo que falta ou que se perdeu: um amor, um mentor, uma inocência. O filho que perde o pai e tenta entender por que ele não voltará; a esposa que procura um motivo para continuar cozinhando lasanha de frango no almoço como sempre fez durante anos de casamento; o pretenso escritor que quer conhecer seu ídolo; o professor que busca nos alunos o nascimento de um grande autor, sem sucesso.

Grande parte das narrativas do livro se passa em cidades interioranas ou tem uma passagem em local parecido, com acontecimentos que serão marcantes para o que acontece na cidade grande. A representação do interior do estado, do interior de cada um, que espera encontrar na capital um motivo a mais para viver, sem perceber que é no interior que moram todos os motivos.

"Então você quer ser escritor?" traz personagens belamente criados para serem fracos, sentirem ao longo da narrativa a necessidade de mudança e buscarem seus ápices (durante o texto ou ainda que continuem a jornada depois do ponto final). Lembram de tempos melhores ou de acontecimentos que foram marcantes e decisivos, com reflexos em suas vidas até o momento presente da narrativa.

As falas não são indicadas em nenhum momento com travessões ou aspas, deixando no ar um suspense: será que o personagem disse isso realmente? Ou é apenas fluxo de pensamento extravasado? São as atitudes que demonstram quão reais são os diálogos, alguns que talvez devessem se manter em silêncio, caso do professor do conto que dá nome ao livro. Fala sozinho em uma livraria, citando Ernest Hemingway: "A maioria dos escritores vivos não existe", fazendo uma jovem ao seu lado rir com desprezo. A riqueza dos personagens pouco reconhecida pelos seus companheiros é destacada por Sanches Neto, para o prazer do leitor.

Pequenos detalhes fazem a diferença nas histórias. Às vezes, um conto começa por um fato e termina com outro bem diferente, não-linear como de costume. O que importa aqui são as miudezas, um olhar, um sapato, um pé de manga. Em "Vestindo meu avô", por exemplo, há uma frase que se repete, e ela é o elo de todo o texto e peça-chave para o entendimento da narrativa, o que a deixa muito emocionante, bela.

A forma de narrar de Miguel Sanches Neto é bem particular, mostrando os detalhes mais importantes logo no início do texto, muitas vezes, mas de forma tão sutil que só percebemos a sua importância quando chegamos ao fim. Embarcamos na busca de um conhecimento que sempre tivemos, mas precisávamos da busca para compreender a totalidade de cada elo dos contos. O caminho dos personagens através de suas histórias se confunde com o do leitor pelas palavras. Um toque leve e preciso que Sanches Neto desenvolve com maestria.

VERSÃO E VERDADE

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 10 de julho de 2011.


Seria possível escrever uma história política do Brasil a partir das denúncias infundadas que atingem homens públicos e cidadãos comuns. Uma mistura perigosa do desejo de furos jornalísticos e do vale-tudo eleitoreiro tem possibilitado uma sucessão de linchamentos morais que espalham versões sobre a vida das pessoas, sem uma preocupação com a verdade.

Trabalhando em duas frentes, a da vida pública e a da privada, em duas classes sociais, a de um pequeno funcionário público e a de uma família de diplomatas poderosos, Ana Maria Machado traça um painel dessa nossa propensão pelas versões vexatórias em um romance de grandeza maior: Infâmia. Avessa a uma escrita com as marcas estereotipadas do feminino, a autora constrói uma narrativa sobre o Brasil, que percorre a história do país e a cultura popular, aproximando uma família de intelectuais e outra de pessoas ligadas ao samba, ao bar e às religiões africanas. É, portanto, um livro contrário ao intimismo de extração feminina. Falando dos escritos da filha, o embaixador Vilhena afirma algo elucidativo: “... uma espécie de moda se espalhara um pouco desde que Clarice Lispector, mulher de diplomata, começara a escrever uns contos sobre a rotina do cotidiano e os problemas psicológicos femininos e com isso acabara se transformando [...] num ícone do feminismo internacional” (139). Infâmia opta pelo real. A marca do livro é o contraponto. Duas trajetórias distintas que se cruzam pela exposição à mentira.

Um embaixador aposentado, ex-menino da roça, está quase cego. Este seu estado de saúde vai determinar uma viagem interior, em que ele tenta entender a morte da filha única. Há algo mentido nessa morte. A verdade só virá quando seu neto, também diplomata, tal como o pai e o avô, começar a remexer no passado. Uma das vertentes do romance é o desvelamento da vida conjugal da filha e do que ocasionou a sua morte. O conhecimento de tais fatos não deixará margens para a inocência. Avô e neto terão de tomar decisões que modificarão suas vidas, corroendo a falsa urbanidade do meio diplomático. Nessa parte do relato, a vida conjugal padrão esconde violências sob a proteção de uma instituição que se propõe como um país à parte.

Na outra vertente, o responsável pelo almoxarifado de uma repartição pública denuncia a corrupção, sofrendo um massacre por parte de uma mídia municiada pelos criminosos. Assim, o inocente é tragado pelos fatos que ele próprio revelara, situação comum num tempo de busca de escândalos a todo custo e de leis frouxas. Diferentemente do que acontece com a família do embaixador que, por preservação, mantém uma distância da pessoa que está sofrendo a ação difamatória, a família do funcionário se solidariza com ele.

Embora com uma história dupla, o romance tem guarda uma unidade interna. É a postura mais acalorada de um grupo tipicamente carioca que contamina os intelectuais ligados à diplomacia. Este contato com o sofrimento do inocente que ousa contrariar interesses políticos gera um olhar mais atento do embaixador, levando-o a não ocultar a vilania do meio em que viveu, e que acabou matando sua própria filha.

O romance se divide em três partes: “Intrusos”, “Intromissão” e “Introito”. No começo, o embaixador se sente apenas um intruso no mundo da ficção, vivendo pacificamente à sombra dos clássicos que ele leu e que tanto admira – a sua cegueira simboliza isso. Aos poucos, no entanto, vai se introduzindo na realidade. A conclusão do embaixador, depois de operar os olhos e voltar a ver, aponta um caminho literário: “ser capaz de não me excluir do real ao ser intruso no fictício” (p.276). É esse o prodígio de Ana Maria Machado no romance Infâmia.

Serviço

Infâmia, de Ana Maria Machado. Alfaguara, 280 págs..

terça-feira, 5 de julho de 2011

A CIDADE NA SOLA DOS PÉS

Publicado na Revista D'Pontaponta, n. 188, junho de 2011


A humanidade pode ser dividida em dois grandes grupos: os que gostam de acordar cedo e os que gostam de acordar tarde. Faço parte do primeiro, e me sentia um tanto solitário aqui em casa porque mulher e filha são do segundo.
Mas agora as forças se equilibraram.
Numa dessas nossas deliciosas manhãs de frio, Antônio (meu filho está com 4 anos) acordou na hora em que o dia estava nascendo.
– Eba! Já é dia – gritou.
Ele adora madrugadas, pois o dia para ele é quase só diversão, daí querer aproveitar todos os minutos. Vai aos outros quartos da casa, e age como um oficial em alojamento militar:
– Vamos acordar, pessoal.
Eu já estou lendo na cama, ou me preparando para minhas atividades físicas, pois extemporaneamente me tornei devoto do deus corpo.
Pois é, a meia idade (que não tem nem os privilégios naturais da juventude nem as proteções públicas da velhice) me obrigou a criar uma rotina semiesportiva: musculação, caminhadas e corridas. E prefiro fazer essas tarefas, quando posso, em um horário completamente incivilizado: às 6 da manhã.
Uma vez por semana, a corrida é na rua.
Corria com meu irmão nas estradas rurais de Peabiru e guardo esta como uma das lembranças boas de uma época em que tudo estava ainda para acontecer. Hoje, tento me dedicar a esse esporte que me religa àquele tempo.
Corro de madrugada mesmo no inverno.
Saio de casa ainda escuro, faço alongamento no gradil da frente, e começo a correr, enfrentando uma ladeira imensa. Uns 400 metros depois, quando já escalei o morro, vem um ódio contra mim mesmo. Por que essa necessidade de provações? Estou tão exausto que tenho vontade de voltar para casa e dormir até tarde. Mas logo a respiração se normaliza e consigo vencer a subida seguinte, suave e extensa, sem sofrer muito. Entro então em uma reta plana, a da Av. Paula Xavier, que já tem um pouco de trânsito. Como as calçadas são irregulares, e mal cuidadas, corro perigosamente na pista.
Atento a tudo, aos cachorros de rua, a bandidos fazendo hora extra, a buracos e motoristas distraídos, chego ao centro, à Av. Vicente Machado, toda iluminada, com as calçadas largas e bem cuidadas. Há pouca gente neste horário, apenas alguns funcionários do comércio que talvez não entendam porque esse maldito não ficou mais tempo na cama. Sigo em disparada agora para o Parque Ambiental, impulsionado pela descida. Posso ainda correr uma ou duas voltas na pista inclinada (e perigosa) que construíram no parque, ou posso seguir pela rua, voltando para o bairro.
É quando o dia começa a clarear. E este é um dos momentos em que mais me sinto pertencer à cidade. Ver os prédios, as ruas, as casas e as pessoas sob a luz ainda tímida me reconforta. É uma das alegrias mais verdadeiras porque gratuita. Ninguém me pediu para correr, não vou ganhar nada com isso, podia estar na academia, protegido, mas escolhi ver a cidade imprópria até para caminhadas na velocidade que meu corpo consegue atingir.
Uma velocidade nada competitiva, apenas ajustada a um mecanismo muscular que, mesmo às vésperas da velhice, ainda quer amanhecer.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

DUAS GARRAFAS



Ontem bebi duas garrafas de vinho,
proeza que tenho sempre repetido.

O que de melhor guarda um vinho
é a sua promessa de breve olvido.

Não saber quem nós temos sido
entre um poente e o dia amanhecido.

Beber vinho nada tem de vício,
é só um anoitecer dos sentidos.

Ouça o som da rolha expelida.
E apaguemos um pouco a vida.

POESIA DE BRINQUEDO

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 03 de julho de 2011.


Contra os poetas ocasionais, há o poeta total, que transforma qualquer coisa em poesia. Poesia de baixa, média ou alta frequência, mas sempre poesia. Pertence ao primeiro nível o volume Versos de Circunstância, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), a maioria mantida inédita até agora. Drummond personalizava seus livros com dedicatórias em versos, e os fazia não apenas para fins imediatos, mas como parte – periférica, é bem verdade – de sua obra. Por isso, ao longo dos anos, recolheu em cadernos textos produzidos para saudar amigos.

Passadas algumas décadas, os poemas ainda funcionam como literatura, apesar de seu vínculo com o momento em que foram produzidos.

O que distingue essa modalidade lírica, do ponto de vista formal, é a singeleza. São versos cerzidos com a linha das rimas. A busca de rimas que ressoem o nome da pessoa homenageada é o motor dessa poesia. Isso faz com que o poema ecoe sempre um nome, mostrando a importância de seu dono para o poeta.

Chega! Por trás da cortina
Uma rima todo em ina
É tão vasto que amofina
A paciência da menina
A melhor rima, Regina,
Para teu nome é Celina (p.152)

O poema é assim uma glosa da relação onomástica entre Celina (a mãe) e Regina (a filha). É este rimário, aqui exacerbado, o centro das homenagens. O tom é de paródia em quase todos os poemas, pois o poeta quer antes de tudo brincar: brincar com as ressonâncias, brincar com a própria arte da dedicatória. Se, por um lado, ele faz textos lúdicos, que encantam os seus interlocutores privados, por outro ele desconstrói o espaço político da dedicatória.

Todos, de grandes escritores (como um Manuel Bandeira ou uma Lygia Fagundes Telles) a afilhados ou filhos de amigos se encontram neste mesmo parque de linguagem destinado a brincadeiras. Com isso, Drummond tira a sisudez do texto, instaurando um território maroto.

Também marca esses poemas o exercício do afeto. Cada palavra é manejada como uma celebração do outro. O poeta se faz menor para engrandecer o destinatário. Como são basicamente poemas que versam sobre o conteúdo dos livros do poeta ou de seus interlocutores, e poemas que enviam votos de boas festas, tudo tende para o bom humor. O poeta quer fazer rir, ligando-se assim a uma tradição infantil que era tão cara aos modernistas.

Dentre os recursos narrativos centrais, há também a referência ao endereço a que chegará o livro. Nomes de ruas e os números da casa são elementos de linguagem que criam uma conexão entre emissor e remetente, pois esta é uma poesia de correspondência, no sentido amplo da palavra – o poeta se corresponde poeticamente com seus amigos/leitores, unindo-se a eles por uma correspondência de alma.

Cantor de brincadeira, ele usa uma linguagem de violeiro para festejar a existência. São poeminhas bobos e comoventes, que mostram nosso poeta maior em uma versão divertida.

Mas em seu giro inquieto,
Ela vai levando afeto,
Modulando uma alegria,
Um projeto de bom-dia... (p.261)

Mais do que construções líricas, são “abraços rimados” (p.199), como ele vai confessar, numa irmandade criada a partir da leitura/produção poética, de uma defesa da arte como “pensamento comovido” (p. 236). Se não acrescenta grandes poemas à sua obra extensa, Versos de Circunstância recorda uma face de Drummond, para quem a amizade era a mais pura fonte de poesia.

Serviço

Versos de Circunstância. Org. Eucanaã Ferraz. Instituto Moreira Salles, 290 págs., R$ 55.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ENTRE DOIS MUNDOS

Por Salvatore Carrozzo, Correio da Bahia, 29 de junho de 2011.

Geralmente, quando escolhemos um livro para ler, vamos atrás de respostas, mesmo que elas sejam poucas – ou mesmo vagas . Não deixa de causar certa estranheza, portanto, deparar-se com um livro cujo título é Então Você Quer Ser Escritor? (Record, R$ 32,90/ 224 págs.), coletânea de 16 contos – alguns inéditos – do paranaense Miguel Sanches Neto, 45 anos.
Elogiado pela crítica como uma das revelações da literatura nacional da última década, Miguel dá mostras de gostar do trânsito entre dois ou mais mundos. O paranaense tem trabalhos como editor e crítico literário. Fez doutorado em Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atualmente é professor do departamento de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
Além disso, dizem estudiosos de sua obra, ele dialoga com maestria entre os universos regional e urbano, entre o romance histórico e histórias ambientadas na contemporaneidade.
A produção literária de Sanches Neto começou a ser publicada em 2000, quando tinha 35 anos. Você Quer Ser Escritor? é seu 15º livro, entre romances e contos. Atualmente, ele concorre ao Prêmio Literário Portugal Telecom com o livro Chá das Cinco com o Vampiro (Objetiva). Entre os finalistas também está o conterrâneo Dalton Trevisan, com o livro Desgracida (Record). Os escritores, outrora próximos, hoje mantêm relação distante.
A ideia inicial de Sanches Neto era fazer um livro de contos que girasse exclusivamente sobre o universo dos escritores e do ato de escrever. “Mas achei que ficaria chato demais”, diz, entre risadas.
Assim nasceu Então Você Quer Ser Escritor?. A trupe inicial de escritores faz companhia a outros personagens, como crianças, idosos e vendedores, entre outros.
Sanches Neto acha até irônico o título da obra. Há uma espécie de crítica indireta aos tempos atuais de glamorização do ato de escrever, do escritor pop star, afirma o paranaense.
Sanches afirma que só sabe escrever quando imerso no que chama de estado de explosão. “Quero tentar compreender essa tal condição humana”, afirma.
E, para entender a condição de Sanches Neto, é preciso voltar um pouco no tempo. Seus antepassados viviam em pequenas comunidades isoladas em Minas Gerais. Na década de 50, a família do escritor migrou para uma localidade rural no Paraná, “uma zona de mata fechada, com índios, como no Brasil colonial”, diz.
Filho de um analfabeto e uma costureira, o escritor perdeu o pai aos 4 anos . A mãe se casou novamente com um homem com pouco estudo e que priorizava o trabalho na terra. “Fui criado dentro de uma ética rigorosa, que valorizava o trabalho braçal. O estudo não era um valor para meu padrasto”, conta. Mas foi justamente no meio desse conflito que nasceu a voz de Sanches Neto.
Ele diz que não tem vergonha e nem se incomoda quando as críticas literárias apontam seu passado. Afinal, parafraseando o português José Saramago (1922 – 2010), acredita que leitor não lê apenas o romance, lê também o romancista.
De forma modesta, diz que tenta seguir os caminhos criativos do americano Ernest Hemingway (1899 – 1961), autor de livros como O Sol Também Se Levanta e O Velho e o Mar. Também admira o americano Charles D'Ambrosio, 52, “um autor que constrói narrativas, que não opta por fragmentações”, afirma.
Entre os autores baianos, elogia João Ubaldo Ribeiro, Mayrant Gallo e Ruy Espinheira Filho, este último classificado por Sanches Neto como um “grande poeta lírico”.
Os personagens de Então Você Quer Ser Escritor? são figuras contemporâneas que lidam com dilemas e questões existenciais. Muitas vezes, é mais a construção do personagem e menos o fim da história o que mais interessa a Sanches Neto. O autor se define como alguém extremamente observador, na tentativa de coletar fragmentos da realidade. Tudo para colher percepções para aquilo que ele, assim como tantos outros escritores, acredita ser o maior dilema da vida: pensar sobre o que é estar vivo.
A estudiosa Alzira de Christo, 28 anos, pesquisou aspectos como memória e identidade na obra de Miguel Sanches Neto no mestrado em Letras na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Em Então Você Quer Ser Escritor?, Alzira se diz surpresa com a maturidade do autor. “Leio suas obras hoje e, comparando com as do início, percebo que não perdeu a sua essência: a de um escritor que prima pela qualidade da arte e da obra literária”, observa.
Sanches Neto segue produzindo e zapeando pela internet. Bastante ativo digitalmente, usa o Twitter para se comunicar com leitores. Para ele, “o dia de fato só começa quando você acessa a internet”, como postou dia 25.
Atualmente, prepara um romance histórico. O livro pode até ser ambientado em séculos passados, mas o processo de criação é atualíssimo. Durante a pesquisa, comprou livros antigos, inclusive um de 1870. Tudo pela internet. “Quando me perguntam onde moro, digo: atrás de meu computador”. Não tem muitas preocupações com o tempo que voa. Cita o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 85, segundo o qual “vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Para Sanches, só a literatura salva.