sexta-feira, 30 de setembro de 2011
O CRÍTICO QUE AMAMOS ODIAR
Versão integral da entrevista a Schneider Carpeggiani, publicada no Jornal do Comércio (Recife), 29/09/2011.
O título do seu novo livro soa como uma provocação, Então você quer ser um escritor. Qual a provocação que reside no fato de ser escritor?
Todos querem ser escritores, muitas vezes sem fazer o dever de casa, que é ler os autores de outras gerações, os clássicos e os contemporâneos. O grande escritor, para mim, é também um grande leitor, que sucede com conhecimento as gerações anteriores – a literatura sempre foi uma corrida de bastão. Agora, o imediatismo faz com que pessoas que não leram nada ou leram muito pouco tentem entrar em cena o mais rápido possível. Meu livro mostra a densidade de algumas trajetórias de escritores que se frustraram. A escrita é antes de tudo frustração. Nesse sentido, o livro é uma provocação. Quer destruir miragens. Cria um modelo sofrido de escritor. Escolha esta profissão quem acha que pode suportá-la.
A crítica literária é uma preocupação do seu trabalho. Em que medida você acha que um escritor deva também ser um crítico?
Como todo escritor deve ser um leitor, ele acaba, para uso íntimo, avaliando a produção do outro. Assim, todo escritor é um crítico, mesmo sem escrever resenhas para revistas e jornais. Este exercício crítico é fundamental para os profissionais da escrita criativa. Agora, há um segundo nível: o escritor tem que ser o primeiro crítico de seu trabalho. Saber se ele tem algum valor dentro de um mercado com tanta oferta. Não adianta apenas escrever e achar que é genial, tem que ter o espírito crítico, o olhar de fora, a capacidade de ver as qualidades e as limitações do seu trabalho. Sem isso, ele corre o risco de ser apenas ridículo. Mas há ainda um terceiro nível crítico, o de escrever sobre a produção contemporânea. Com o fim da figura dos mestres da crítica, aqueles homens de letras que liam tudo e comparavam a produção do período, o escritor também tem que se manifestar sobre o mercado editorial. Eu tenho estes três defeitos críticos.
Em seu trabalho você já lançou em alguns momentos uma espécie de alter ego seu. Quais os riscos de um escritor se misturar com sua obra de forma explícita?
Como diz Nietzsche, “falar muito de si é também um meio de se esconder”. O que vale em uma obra é o pacto estabelecido com o leitor. Eu quero que os meus romances sejam lidos como ficção. Então, o teor factual que há neles não interessa, o que interessa é a estrutura que eu soube ou não criar para que eles funcionem como narrativa. É isso que tem que ser cobrado do escritor. Tudo que escrevo é sempre uma forma de cifrar a existência em um código ficcional. Não quero ser lido como biógrafo nem como memorialista. Falo de entidades que são literárias. Mesmo quando falo de Miguel Sanches Neto (tal como acontece no romance Chove sobre minha infância), é para me esconder, nunca para me revelar.
Ano passado, houve toda polêmica em relação a Chá das Cinco com o vampiro. Como você lidou com toda a repercussão do livro?
Quando decidi publicar este livro escrito em 2002, eu tinha consciência de que ele seria polêmico e que poderia me causar problemas. Mas depois que escrevemos um romance só nos resta publicá-lo. Não há outra saída. Tomei esta decisão quando o próprio Dalton Trevisan começou a me hostilizar. Não havia mais razão para esconder meu livro. Meu livro não é sobre Trevisan, se ele se reconheceu nele é um problema dele, não de meu personagem. Tudo que eu quis foi escrever um livro sobre a vida literária, a partir das grandezas e misérias do meio literário que mais conheço, o de Curitiba. O resto é com o leitor. Leia o livro da forma que quiser.
O Dalton Trevisan continua fascinante para você?
Tenho um interesse inalterado pela obra de Dalton Trevisan – acabei de ler O anão e a ninfeta, e escrevi positivamente sobre o livro. É um autor que codifica coisas que me atingem, tanto como ser humano quanto como escritor. Então, continuarei lendo tudo dele, mesmo os textos em que ele acha que está me atacando. Agora, quanto ao homem Dalton Trevisan, não tenho o menor interesse por esta figura. Desde 2001, desliguei-me dela. Desejo apenas que viva o máximo possível para continuarmos lendo os seus novos livros.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
NA METRÓPOLE
Publicado no caderno Cidades (O Estado de S. Paulo), em 25 de setembro de 2011.
Ser paranaense é ser um pouco paulista, não só por termos um passado em comum, mas principalmente porque acompanhamos com interesse o que acontece na capital e em todo o estado. Para nós, escritores, há a prova de universalidade: ir além do Rio Atuba – rio que se cruza em direção a São Paulo.
Estou por isso sempre chegando, em busca daquilo que mais me agrada na cidade – essa sua multiplicidade de eventos nas mais diversas áreas. Basta sair sem rumo, percorrer alguns pontos e encontramos uma exposição, um lançamento, um show, uma estréia no cinema etc. E, andando por livrarias, cafés e bares, é difícil não topar com alguma pessoa conhecida, da cidade ou de outros lugares, muitas vezes de nossa própria cidade, pois é em São Paulo que as pessoas e os destinos se encontram, nem que seja por um breve instante.
Por conta de minhas atividades profissionais, e mesmo quando estou apenas passeando, a minha São Paulo é principalmente essa que acontece na Av. Paulista e imediações. Depois de dois ou três dias nela, posso voltar revigorado para minha vidinha. São Paulo é sempre um feriado para mim.
Ser paranaense é ser um pouco paulista, não só por termos um passado em comum, mas principalmente porque acompanhamos com interesse o que acontece na capital e em todo o estado. Para nós, escritores, há a prova de universalidade: ir além do Rio Atuba – rio que se cruza em direção a São Paulo.
Estou por isso sempre chegando, em busca daquilo que mais me agrada na cidade – essa sua multiplicidade de eventos nas mais diversas áreas. Basta sair sem rumo, percorrer alguns pontos e encontramos uma exposição, um lançamento, um show, uma estréia no cinema etc. E, andando por livrarias, cafés e bares, é difícil não topar com alguma pessoa conhecida, da cidade ou de outros lugares, muitas vezes de nossa própria cidade, pois é em São Paulo que as pessoas e os destinos se encontram, nem que seja por um breve instante.
Por conta de minhas atividades profissionais, e mesmo quando estou apenas passeando, a minha São Paulo é principalmente essa que acontece na Av. Paulista e imediações. Depois de dois ou três dias nela, posso voltar revigorado para minha vidinha. São Paulo é sempre um feriado para mim.
domingo, 25 de setembro de 2011
O NADA
Em seus depoimentos, o ficcionista mineiro Luiz Vilela, meu mestre e amigo, fala que o mais difícil, em um romance, é conseguir “arrancá-lo do nada” – em seguida vêm as revisões, as mudanças, as melhorias, mas foi preciso uma força muito grande para dar uma existência ao texto.
Quanta verdade nesta expressão. Escrever é tirar histórias desse vazio que nos rodeia.
Mesmo um romance realista ou altamente autobiográfico opera este milagre: o nada se faz linguagem. Antes de nossa intervenção era a vida esboroando a cada segundo, a cada frase. Depois, ela se fixa em um conjunto de palavras.
Diariamente o escritor luta contra esse nada.
Quanta verdade nesta expressão. Escrever é tirar histórias desse vazio que nos rodeia.
Mesmo um romance realista ou altamente autobiográfico opera este milagre: o nada se faz linguagem. Antes de nossa intervenção era a vida esboroando a cada segundo, a cada frase. Depois, ela se fixa em um conjunto de palavras.
Diariamente o escritor luta contra esse nada.
RENUNCIANDO ÀS HONRARIAS
Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo) em 25 de setembro de 2011.
Os prêmios literários aparecem nas biografias dos autores como sinal de distinção. Medalhas no peito de um combatente, eles querem destacar a glória conquistada pelo indivíduo. Na contramão deste movimento consagratório, o escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) nega toda essa mecânica com Meus Prêmios. Este livro publicado postumamente é composto por um conjunto de ensaios memorialísticos, com algo de ficcional, em que o irreverente Bernhard ridiculariza as solenidades, critica organizadores e autores que receberam os prêmios, satirizando as circunstâncias de alguns dos muitos galardões que ele recebeu. Pobre, tuberculoso, músico falhado, marcado por tragédias familiares e por conflitos com a sua pátria, tendo trabalhado entre outras coisas como motorista de caminhão, vivendo em internatos e na casa de parentes, e sonhando com paredes que o protegessem do mundo – uma casa para ele era representada metonimicamente por paredes –, Benhard se submetia mesmo aos prêmios de valor baixo, pois precisava de todo o dinheiro que pudesse obter com sua obra.
Uma obra extremamente polêmica, em conflito com os valores de seu país, o que o torna um problema para o meio literário, que prefere sempre premiar o bom moço, o artista comportado, e não os encrenqueiros, como era o caso de Bernhard. Assim, ele recebe o dinheiro, pois vê cinicamente como obrigação do escritor aceitar todo o dinheiro que quiserem lhe dar, mas recusa as honrarias, que vêm manchadas com as piores intenções. Estes ensaios querem fazer a distinção entre o que ele aceita dos prêmios e o que recusa: “Agradeci à Academia de Língua e Literatura pelo prêmio, mas, na verdade, agradecia a ela apenas pela soma em dinheiro, porque, no tocante à chamada honra que tal distinção representaria [...] não significava mais nada para mim” (p.84). Ele se vê como alguém que passa a buscar apenas dinheiro, sem a ilusão de que sua obra esteja sendo valorizada. É desprezado em uma solenidade; em outra, o ministro deixa o salão batendo a porta porque ele critica a Áustria e os austríacos; um dos prêmios teve a solenidade de entrega cancelada porque o mesmo ministro não confirmou a presença; a um outro, ele comparece para dar à sua tia uma viagem no dia de seu aniversário.
Simbólico é o episódio em torno do Prêmio Grillprazer. Bernhard, que se exibia sempre em trajes velhos, resolve comprar roupas especiais poucas horas antes do evento. Sai da loja trajando um terno novo. Chega à solenidade com a tia, é ignorado pelo cerimonial, e se senta irritado no fundo da plateia, exigindo que o ministro venha pedir que ele tome parte da mesa das autoridades. Depois de todos esses contratempos, ele se dá conta de que não há dinheiro no prêmio, o que o deixa mais humilhado ainda. Percebe então que o terno que comprara era um número menor do que o seu e volta à loja para trocá-lo, falando ao vendedor com tal determinação que é atendido na hora: “quem comprar o terno que acabo de devolver jamais saberá que ele me acompanhou à entrega do Prêmio Grillprazer” (p.17). É como se ele se livrasse do próprio prêmio ao fazer a substituição do terno.
Mesmo seus discursos – o livro reproduz três deles – são improvisados horas antes. Curtos, sem reverência a quem concede o prêmio, um tanto herméticos, tais textos também são uma forma de desprezar toda a pantomima das solenidades.
Mais do que uma crítica às instituições, ou uma tendência megalomaníaca por se achar maior do que os prêmios, estas atitudes refletem um escritor convencido da nulidade de tudo, da condição decaída do ser humano: “não somos nada e não merecemos nada além do caos” (p.93). Assim, o livro desarma qualquer poder de estabilização biográfica, mostrando um escritor que nunca se deixou homenagear, fiel à sua condição de franco-atirador.
Serviço:
Meus Prêmios, de Thomas Bernhard. Tradução Sérgio Tellaroli. Companhia das Letras, 112 págs. R$ 33. Autobiografia.
Os prêmios literários aparecem nas biografias dos autores como sinal de distinção. Medalhas no peito de um combatente, eles querem destacar a glória conquistada pelo indivíduo. Na contramão deste movimento consagratório, o escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989) nega toda essa mecânica com Meus Prêmios. Este livro publicado postumamente é composto por um conjunto de ensaios memorialísticos, com algo de ficcional, em que o irreverente Bernhard ridiculariza as solenidades, critica organizadores e autores que receberam os prêmios, satirizando as circunstâncias de alguns dos muitos galardões que ele recebeu. Pobre, tuberculoso, músico falhado, marcado por tragédias familiares e por conflitos com a sua pátria, tendo trabalhado entre outras coisas como motorista de caminhão, vivendo em internatos e na casa de parentes, e sonhando com paredes que o protegessem do mundo – uma casa para ele era representada metonimicamente por paredes –, Benhard se submetia mesmo aos prêmios de valor baixo, pois precisava de todo o dinheiro que pudesse obter com sua obra.
Uma obra extremamente polêmica, em conflito com os valores de seu país, o que o torna um problema para o meio literário, que prefere sempre premiar o bom moço, o artista comportado, e não os encrenqueiros, como era o caso de Bernhard. Assim, ele recebe o dinheiro, pois vê cinicamente como obrigação do escritor aceitar todo o dinheiro que quiserem lhe dar, mas recusa as honrarias, que vêm manchadas com as piores intenções. Estes ensaios querem fazer a distinção entre o que ele aceita dos prêmios e o que recusa: “Agradeci à Academia de Língua e Literatura pelo prêmio, mas, na verdade, agradecia a ela apenas pela soma em dinheiro, porque, no tocante à chamada honra que tal distinção representaria [...] não significava mais nada para mim” (p.84). Ele se vê como alguém que passa a buscar apenas dinheiro, sem a ilusão de que sua obra esteja sendo valorizada. É desprezado em uma solenidade; em outra, o ministro deixa o salão batendo a porta porque ele critica a Áustria e os austríacos; um dos prêmios teve a solenidade de entrega cancelada porque o mesmo ministro não confirmou a presença; a um outro, ele comparece para dar à sua tia uma viagem no dia de seu aniversário.
Simbólico é o episódio em torno do Prêmio Grillprazer. Bernhard, que se exibia sempre em trajes velhos, resolve comprar roupas especiais poucas horas antes do evento. Sai da loja trajando um terno novo. Chega à solenidade com a tia, é ignorado pelo cerimonial, e se senta irritado no fundo da plateia, exigindo que o ministro venha pedir que ele tome parte da mesa das autoridades. Depois de todos esses contratempos, ele se dá conta de que não há dinheiro no prêmio, o que o deixa mais humilhado ainda. Percebe então que o terno que comprara era um número menor do que o seu e volta à loja para trocá-lo, falando ao vendedor com tal determinação que é atendido na hora: “quem comprar o terno que acabo de devolver jamais saberá que ele me acompanhou à entrega do Prêmio Grillprazer” (p.17). É como se ele se livrasse do próprio prêmio ao fazer a substituição do terno.
Mesmo seus discursos – o livro reproduz três deles – são improvisados horas antes. Curtos, sem reverência a quem concede o prêmio, um tanto herméticos, tais textos também são uma forma de desprezar toda a pantomima das solenidades.
Mais do que uma crítica às instituições, ou uma tendência megalomaníaca por se achar maior do que os prêmios, estas atitudes refletem um escritor convencido da nulidade de tudo, da condição decaída do ser humano: “não somos nada e não merecemos nada além do caos” (p.93). Assim, o livro desarma qualquer poder de estabilização biográfica, mostrando um escritor que nunca se deixou homenagear, fiel à sua condição de franco-atirador.
Serviço:
Meus Prêmios, de Thomas Bernhard. Tradução Sérgio Tellaroli. Companhia das Letras, 112 págs. R$ 33. Autobiografia.
sábado, 24 de setembro de 2011
MEMÓRIA DA NEVE
Ele era ainda um jovem professor de Letras quando ganhou uma bolsa para um estágio nos Estados Unidos. Assim que chegou, ligou para Wilson Martins, o temido crítico paranaense que lecionava na New York University.
Wilson era odiado na universidade paulista onde o jovem se formara e depois seria professor, mas mesmo assim ele tinha interesse pelo autor de julgamentos definitivos sobre tantos figurões. Tímido ao telefone, marcou o encontro com o crítico, que se mostrou atencioso.
– Tome cuidado com a neve, fica tudo muito escorregadio.
Pensou se tratar apenas de uma observação para alguém dos trópicos, sem intimidade com a neve.
Só percebeu o sentido carinhoso do conselho quando viu o crítico, descobrindo que ele sofria de paralisia e usava uma pesada ferragem nas duas pernas e botinas especiais, o que lhe dificultava a locomoção mesmo em dias normais.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O TAMANHO DA LINHA
Quando eu era criança, minha mãe contava uma história.
Num incerto reino, fizeram um concurso para saber qual era a costureira que produziria um vestido de maneira mais rápida. Todas as profissionais foram colocadas numa imensa sala e começaram a executar o mesmo modelo, destinado à princesa.
As costureiras mais afoitas faziam linhadas imensas, tentando ganhar tempo. Na hora de costurar, o fio se embaraçava.
Uma única costureira usava linhadas pequenas, e seguia trabalhando sem contratempos.
Foi a vencedora da competição.
Lembrei-me desta história quando tive que escrever meu primeiro romance.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
CORTE E COSTURA
Estive ontem à noite na palestra de Marina Colassanti em Ponta Grossa. Viajante das letras, Marina vai e volta no tempo, falando de sua infância européia, sua formação intelectual e artística, o trabalho como jornalista e seus hábitos atuais de leitura e escrita. Uma observação dela teve um caráter epifânico para mim. Ela declarou que adora tecidos, que faz as próprias saias – o que poderia ser uma confissão banal, mas aí vem a comparação com a criação literária:
– Escrever poesia – disse ela – é como costurar: não podemos deixar nenhum fio solto, a peça tem que estar bem arrematada. Já a ficção, principalmente o romance, admite muitos fios soltos.
Este cuidado de costureira é algo fundamental em toda escrita.
– Escrever poesia – disse ela – é como costurar: não podemos deixar nenhum fio solto, a peça tem que estar bem arrematada. Já a ficção, principalmente o romance, admite muitos fios soltos.
Este cuidado de costureira é algo fundamental em toda escrita.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O SENHOR NÃO FAZ POR MENOS?
Publicado no Diário dos Campos (Ponta Grossa), em 15 de setembro de 2011.
Em carta ao seu amigo Suvórin, em 11 de março de 1889, o escritor russo Anton Tchékhov, reclamando do descaso com que eram tratadas as empregadas domésticas, diz: “quanto mais o trabalho é remunerado num país, mais este prospera; cada um de nós deve almejar, portanto, pagar mais caro para o trabalho”. A lição de Tchékhov continua atual e parece sob medida para Ponta Grossa.
A primeira coisa que estranhei quando cheguei à cidade foi o fato de pessoas ricas não quererem remunerar adequadamente os serviços. Uma lógica escravagista está por trás dessa mania de economia da cidade, onde se opta sempre pela construção mais barata, pelos produtos em promoção, pelos pratos mais econômicos e, consequentemente, pelos profissionais que cobram menos ou que fazem gratuitamente.
Isso, que poderia ser apenas um hábito inocente (e até louvável, pois economizar tem o seu lado positivo, principalmente em momentos de crise) produz efeitos nocivos para o desenvolvimento local. Na administração pública, acabamos fazendo tudo subdimensionado , pois não ousamos grandes projetos. Na arquitetura, escolhemos as soluções mais em conta – e daí proliferam os monstrengos dos edifícios pré-fabricados e as réplicas horrendas, determinando a inexistência de marcos arquitetônicos na cidade. Não remuneramos bem os profissionais especializados, contentando-nos com coisas mal feitas.
Assim, o dinheiro fica parado nas classes que, por herança ou qualquer outro acidente de percurso louvável ou não, o detém, enquanto a grande maioria da população é mantida num regime de exclusão econômica.
Um país, um estado ou uma cidade em que apenas uma pequena parcela de seus cidadãos acumula fortunas, recusando-se a fazer o dinheiro circular, estará fadada (ou fadado) a se tornar inviável. A lógica acumulativa do Tio Patinhas talvez seja o maior empecilho para o crescimento de Ponta Grossa e precisa ser combatida por uma nova mentalidade, avessa ao movimento de regatear tudo, até mesmo na feira de frutas e verduras. Valorizar o trabalho, única riqueza das classes operárias, intelectuais e artísticas, é a melhor maneira de alargar a classe média.
Ponta Grossa só se desenvolverá plenamente quando aprendermos a pagar bem pelos serviços.
Em carta ao seu amigo Suvórin, em 11 de março de 1889, o escritor russo Anton Tchékhov, reclamando do descaso com que eram tratadas as empregadas domésticas, diz: “quanto mais o trabalho é remunerado num país, mais este prospera; cada um de nós deve almejar, portanto, pagar mais caro para o trabalho”. A lição de Tchékhov continua atual e parece sob medida para Ponta Grossa.
A primeira coisa que estranhei quando cheguei à cidade foi o fato de pessoas ricas não quererem remunerar adequadamente os serviços. Uma lógica escravagista está por trás dessa mania de economia da cidade, onde se opta sempre pela construção mais barata, pelos produtos em promoção, pelos pratos mais econômicos e, consequentemente, pelos profissionais que cobram menos ou que fazem gratuitamente.
Isso, que poderia ser apenas um hábito inocente (e até louvável, pois economizar tem o seu lado positivo, principalmente em momentos de crise) produz efeitos nocivos para o desenvolvimento local. Na administração pública, acabamos fazendo tudo subdimensionado , pois não ousamos grandes projetos. Na arquitetura, escolhemos as soluções mais em conta – e daí proliferam os monstrengos dos edifícios pré-fabricados e as réplicas horrendas, determinando a inexistência de marcos arquitetônicos na cidade. Não remuneramos bem os profissionais especializados, contentando-nos com coisas mal feitas.
Assim, o dinheiro fica parado nas classes que, por herança ou qualquer outro acidente de percurso louvável ou não, o detém, enquanto a grande maioria da população é mantida num regime de exclusão econômica.
Um país, um estado ou uma cidade em que apenas uma pequena parcela de seus cidadãos acumula fortunas, recusando-se a fazer o dinheiro circular, estará fadada (ou fadado) a se tornar inviável. A lógica acumulativa do Tio Patinhas talvez seja o maior empecilho para o crescimento de Ponta Grossa e precisa ser combatida por uma nova mentalidade, avessa ao movimento de regatear tudo, até mesmo na feira de frutas e verduras. Valorizar o trabalho, única riqueza das classes operárias, intelectuais e artísticas, é a melhor maneira de alargar a classe média.
Ponta Grossa só se desenvolverá plenamente quando aprendermos a pagar bem pelos serviços.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
MUITAS EXPLICAÇÕES
Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo)em 18 de setembro de 2011.
Um herói a posteriori, assim poderia ser definido sir Roger Casement (1864-1916), que, no seu tempo, foi o irlandês mais conhecido internacionalmente. Morou na África e no Brasil, tendo percorrido o mundo na condição de diplomata britânico. Mas o contato com a realidade sofrida das colônias, exploradas pelas potências europeias, o levou a um aguçado sentimento nacionalista. Depois de ter sido feito Cavaleiro, ele abandona o posto diplomático para se dedicar à luta pela libertação da Irlanda, sendo executado como traidor do império.
É a história deste homem que Mario Vargas Llosa retoma em O Sonho do Celta. O interesse que o peruano demonstra por esta figura tem motivação identitária: Casement denunciou os abusos cometidos em Iquitos, no Peru, pela indústria da borracha, que escravizava os índios de Putumayo. Esta passagem foi tratada no romance de maneira extensiva, embora sir Roger tenha dedicado apenas um ano de sua vida ao Peru, e duas décadas ao Congo. Casement é visto principalmente a partir de sua oposição aos desmandos de feitores amazônicos, descritos com grande riqueza de detalhes. Tanto na parte dedicada ao Congo quanto à Irlanda, a narrativa é mais rápida. Aqui, o romancista vê a região de fora, enquanto na parte amazônica ele a vê de dentro.
Roger Casement poderia ter sido um herói de primeira hora, mas sofreu um processo de difamação. Ele deixara uns diários secretos em que narrava cruamente casos homossexuais, escancarados depois de sua prisão. Não há certeza quanto à veracidade dos episódios, mas eles foram fortes o suficiente para cobrir de opróbrio o nome do irlandês. Como um defensor do humanismo e da liberdade dos oprimidos poderia explorá-los sexualmente?
Somente por manter esses encontros é que Roger Casement desenvolveu uma compreensão afetiva do drama dos povos periféricos, entre eles a sua Irlanda natal. O contato com o outro o leva a um eu profundo. Assim como Walt Whitman, que se misturou amorosamente com as classes mais pobres, tirando deste universo a força de uma poesia cívica, Casement mudou sua visão de mundo, tornando-se um anticolonialista, a partir da entrega a negros, mulatos e indígenas nos seus períodos de permanência em latitudes estrangeiras, onde ele experimentava uma liberdade sexual impossível na civilização. Aquilo que o modificou, tornando-o um herói, também enlameou sua reputação. Ele só pôde ser compreendido plenamente depois da revolução sexual, que fez dele um duplo mártir, da causa irlandesa e de sua orientação erótica. O livro passa um tanto ao largo desta questão, talvez por ter pouco de romance e mais de ensaio biográfico.
Numa ficção, pode-se narrar uma história resumindo-a explicativamente ou encenando-a diante do leitor, ou ainda misturando as duas formas. Vargas Llosa prefere a primeira estratégia. Esta escolha faz com que toda cena coloque em ação uma voz que conta e comenta o que ocorreu. O narrador em terceira pessoa é um explicador repetitivo, os diálogos soam artificiais e a narrativa se torna monocórdia.
Há também uma linha analítico-evolutiva da personalidade que se quer coerente. O romancista diz, no final, que as cenas pornográficas dos diários poderiam ser um relato ficcional, o que estabilizaria, dentro de um modelo de herói, a figura de Roger Casement. Isso parece tolher as possibilidades romanescas de uma trajetória tão rica. Vargas Llosa minimiza a inquietação sexual, centro das ações políticas de sir Roger, perdendo assim a oportunidade de mostrá-lo nas suas complexidades e incoerências. Ficamos conhecendo apenas a verdade desta voz narrativa que organiza uma vida, tal como uma biografia convencional. A função da literatura, no entanto, é a de desorganizar vidas.
* * * * *
Serviço:
O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa. Tradução Paulina Wacht e Ari Roitman. Alfaguara, 390 págs. R$ 47,90. Romance.
Um herói a posteriori, assim poderia ser definido sir Roger Casement (1864-1916), que, no seu tempo, foi o irlandês mais conhecido internacionalmente. Morou na África e no Brasil, tendo percorrido o mundo na condição de diplomata britânico. Mas o contato com a realidade sofrida das colônias, exploradas pelas potências europeias, o levou a um aguçado sentimento nacionalista. Depois de ter sido feito Cavaleiro, ele abandona o posto diplomático para se dedicar à luta pela libertação da Irlanda, sendo executado como traidor do império.
É a história deste homem que Mario Vargas Llosa retoma em O Sonho do Celta. O interesse que o peruano demonstra por esta figura tem motivação identitária: Casement denunciou os abusos cometidos em Iquitos, no Peru, pela indústria da borracha, que escravizava os índios de Putumayo. Esta passagem foi tratada no romance de maneira extensiva, embora sir Roger tenha dedicado apenas um ano de sua vida ao Peru, e duas décadas ao Congo. Casement é visto principalmente a partir de sua oposição aos desmandos de feitores amazônicos, descritos com grande riqueza de detalhes. Tanto na parte dedicada ao Congo quanto à Irlanda, a narrativa é mais rápida. Aqui, o romancista vê a região de fora, enquanto na parte amazônica ele a vê de dentro.
Roger Casement poderia ter sido um herói de primeira hora, mas sofreu um processo de difamação. Ele deixara uns diários secretos em que narrava cruamente casos homossexuais, escancarados depois de sua prisão. Não há certeza quanto à veracidade dos episódios, mas eles foram fortes o suficiente para cobrir de opróbrio o nome do irlandês. Como um defensor do humanismo e da liberdade dos oprimidos poderia explorá-los sexualmente?
Somente por manter esses encontros é que Roger Casement desenvolveu uma compreensão afetiva do drama dos povos periféricos, entre eles a sua Irlanda natal. O contato com o outro o leva a um eu profundo. Assim como Walt Whitman, que se misturou amorosamente com as classes mais pobres, tirando deste universo a força de uma poesia cívica, Casement mudou sua visão de mundo, tornando-se um anticolonialista, a partir da entrega a negros, mulatos e indígenas nos seus períodos de permanência em latitudes estrangeiras, onde ele experimentava uma liberdade sexual impossível na civilização. Aquilo que o modificou, tornando-o um herói, também enlameou sua reputação. Ele só pôde ser compreendido plenamente depois da revolução sexual, que fez dele um duplo mártir, da causa irlandesa e de sua orientação erótica. O livro passa um tanto ao largo desta questão, talvez por ter pouco de romance e mais de ensaio biográfico.
Numa ficção, pode-se narrar uma história resumindo-a explicativamente ou encenando-a diante do leitor, ou ainda misturando as duas formas. Vargas Llosa prefere a primeira estratégia. Esta escolha faz com que toda cena coloque em ação uma voz que conta e comenta o que ocorreu. O narrador em terceira pessoa é um explicador repetitivo, os diálogos soam artificiais e a narrativa se torna monocórdia.
Há também uma linha analítico-evolutiva da personalidade que se quer coerente. O romancista diz, no final, que as cenas pornográficas dos diários poderiam ser um relato ficcional, o que estabilizaria, dentro de um modelo de herói, a figura de Roger Casement. Isso parece tolher as possibilidades romanescas de uma trajetória tão rica. Vargas Llosa minimiza a inquietação sexual, centro das ações políticas de sir Roger, perdendo assim a oportunidade de mostrá-lo nas suas complexidades e incoerências. Ficamos conhecendo apenas a verdade desta voz narrativa que organiza uma vida, tal como uma biografia convencional. A função da literatura, no entanto, é a de desorganizar vidas.
* * * * *
Serviço:
O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa. Tradução Paulina Wacht e Ari Roitman. Alfaguara, 390 págs. R$ 47,90. Romance.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
ESCRITORA DE VERDADE
Publicado na Gazeta do Povo (Caderno G), em 11 de setembro de 2011.
Embora o título do livro de estreia de Luisa Geisler soe como um pleonasmo – Contos de Mentira –, ele tem um forte sentido estrutural. A jovem escritora gaúcha (nascida em 1991) pertence a uma geração que frequenta oficinas literárias – foi aluna do ficcionista Luiz Antonio de Assis Brasil – e teria tudo para escrever histórias sobre as suas vivências juvenis. Felizmente, isso não acontece, tirando de seu livro qualquer queda para as confissões públicas.
Seus contos são construções ficcionais. Mais do que isso, são construções de linguagem. Na maioria deles, a voz narrativa se afasta da autora para experimentar-se em outras latitudes de identidade. Seus protagonistas podem ser moças iguais a ela, mas são também rapazes, mulheres e homens casados. Esta maneira de narrar denuncia uma escritora que consegue sair de seu eu para olhar o mundo do lugar do outro. Este é o exercício ficcional por excelência, algo que vem sendo negligenciado por uma literatura que se contenta em ficar presa ao próprio umbigo.
Nesse sentido, o título é uma declaração de princípios: os seus contos não querem ser de verdade, ou seja, vividos em uma primeira pessoa que se confunde com a própria autora. As suas primeiras pessoas são imaginárias.
Do ponto de vista da linguagem e da estrutura, há um movimento em sentido similar. Mesmo se valendo de expressões próprias de sua geração, com um uso acentuado de termos estrangeiros, principalmente de inglês, não se percebe um naturalismo de expressão – outra constante na literatura egótica em moda. Luisa Geisler constrói deliberadamente os seus contos, e este senso arquitetônico permite uma variação de recursos. Sua narrativa mais elaborada, talvez a mais densa do livro, “Apenas Este Réquiem para Tantas Memórias”, revela um tratamento de linguagem mais próximo da poesia do que da ficção. Um rapaz pula de um aeroporto a outro na Europa, convivendo superficialmente com a língua do país do momento; quanto mais rápido ele se desloca mais ele perde o contato com o real. A viagem clássica tinha um sentido de revelar o outro, mas esta viagem do Ulisses turístico é apenas um apagamento do eu. Num tempo em que a obsolescência dos objetos nos livrou de maiores vínculos com o mundo, este jovem tenta se fixar em algo feito para durar – ele compra uma lente fotográfica, lembrando que as lentes, ao contrário das máquinas, não são tão descartáveis. Apesar deste esforço de ancoragem, a viagem pelos aeroportos opera a perda de si mesmo. É interessante notar que, paralelamente ao cosmopolitismo da narrativa, há um uso regional do tu, próprio do Rio Grande do Sul: “The thing about airport is. Tu acaba esquecendo onde tu tá. Por isso o piloto avisa onde. aterrissa. [sic] Pra ele mesmo” (p.14). Este choque entre o cosmopolitismo e o provincianismo vai se manifestar em outros contos, mostrando com isso a ausência de fronteiras entre estes dois espaços de ser. O final do conto só podia levar a um estado de completa amnésia, em que o rapaz se desfaz de seus referenciais, tornando-se um estrangeiro.
Os recursos usados neste conto não se manifestam em outros, numa variação de códigos de acordo com as necessidades narrativas. Há, no entanto, uma constante nelas: os narradores não compreendem tudo, são movidos por dúvidas e por uma descoberta da incompletude da vida, expressa sempre com uma poesia dolorosa em histórias com finais abertos. Ao conseguir nos comover com dramas cotidianos e ao mesmo tempo profundos, Luisa Geisler dá mais uma prova de que o leitor não está diante de uma jovem que escreve, mas de uma escritora de verdade, que sabe tirar todas as notas emocionais de pequenos acontecimentos.
Serviço
Contos de Mentira, de Luisa Geisler. Record, 128 págs. R$ 25. Contos.
Embora o título do livro de estreia de Luisa Geisler soe como um pleonasmo – Contos de Mentira –, ele tem um forte sentido estrutural. A jovem escritora gaúcha (nascida em 1991) pertence a uma geração que frequenta oficinas literárias – foi aluna do ficcionista Luiz Antonio de Assis Brasil – e teria tudo para escrever histórias sobre as suas vivências juvenis. Felizmente, isso não acontece, tirando de seu livro qualquer queda para as confissões públicas.
Seus contos são construções ficcionais. Mais do que isso, são construções de linguagem. Na maioria deles, a voz narrativa se afasta da autora para experimentar-se em outras latitudes de identidade. Seus protagonistas podem ser moças iguais a ela, mas são também rapazes, mulheres e homens casados. Esta maneira de narrar denuncia uma escritora que consegue sair de seu eu para olhar o mundo do lugar do outro. Este é o exercício ficcional por excelência, algo que vem sendo negligenciado por uma literatura que se contenta em ficar presa ao próprio umbigo.
Nesse sentido, o título é uma declaração de princípios: os seus contos não querem ser de verdade, ou seja, vividos em uma primeira pessoa que se confunde com a própria autora. As suas primeiras pessoas são imaginárias.
Do ponto de vista da linguagem e da estrutura, há um movimento em sentido similar. Mesmo se valendo de expressões próprias de sua geração, com um uso acentuado de termos estrangeiros, principalmente de inglês, não se percebe um naturalismo de expressão – outra constante na literatura egótica em moda. Luisa Geisler constrói deliberadamente os seus contos, e este senso arquitetônico permite uma variação de recursos. Sua narrativa mais elaborada, talvez a mais densa do livro, “Apenas Este Réquiem para Tantas Memórias”, revela um tratamento de linguagem mais próximo da poesia do que da ficção. Um rapaz pula de um aeroporto a outro na Europa, convivendo superficialmente com a língua do país do momento; quanto mais rápido ele se desloca mais ele perde o contato com o real. A viagem clássica tinha um sentido de revelar o outro, mas esta viagem do Ulisses turístico é apenas um apagamento do eu. Num tempo em que a obsolescência dos objetos nos livrou de maiores vínculos com o mundo, este jovem tenta se fixar em algo feito para durar – ele compra uma lente fotográfica, lembrando que as lentes, ao contrário das máquinas, não são tão descartáveis. Apesar deste esforço de ancoragem, a viagem pelos aeroportos opera a perda de si mesmo. É interessante notar que, paralelamente ao cosmopolitismo da narrativa, há um uso regional do tu, próprio do Rio Grande do Sul: “The thing about airport is. Tu acaba esquecendo onde tu tá. Por isso o piloto avisa onde. aterrissa. [sic] Pra ele mesmo” (p.14). Este choque entre o cosmopolitismo e o provincianismo vai se manifestar em outros contos, mostrando com isso a ausência de fronteiras entre estes dois espaços de ser. O final do conto só podia levar a um estado de completa amnésia, em que o rapaz se desfaz de seus referenciais, tornando-se um estrangeiro.
Os recursos usados neste conto não se manifestam em outros, numa variação de códigos de acordo com as necessidades narrativas. Há, no entanto, uma constante nelas: os narradores não compreendem tudo, são movidos por dúvidas e por uma descoberta da incompletude da vida, expressa sempre com uma poesia dolorosa em histórias com finais abertos. Ao conseguir nos comover com dramas cotidianos e ao mesmo tempo profundos, Luisa Geisler dá mais uma prova de que o leitor não está diante de uma jovem que escreve, mas de uma escritora de verdade, que sabe tirar todas as notas emocionais de pequenos acontecimentos.
Serviço
Contos de Mentira, de Luisa Geisler. Record, 128 págs. R$ 25. Contos.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
PÁTRIA MINHA
Crônica publicada no livro Um camponês na capital (Aymará, 2009)
Antes, os discursos sobre o amor à pátria, fanfarra ensaiando durante um mês, depois marchar pelo centro da cidade, cantar o Hino Nacional em frente à Prefeitura e, na volta à Escola Olavo Bilac, comer o lanche preparado para os alunos que participavam do Sete de Setembro. Todos agora correndo pelo pátio, alegres e sem nenhum princípio de ordem, relaxando das semanas de marcha e alinhamento. O cardápio era pão francês com carne moída e uma garrafa de sodinha – refeição com gosto especial para gente acostumada com carne de porco e de galinha. Aquele pão muitas vezes meio murcho, a carne com cebola, o molho de tomate e uma pitada de pimenta guardavam um sabor que ficaria codificado em minha memória como o gosto da farra depois de tanta ordem e fanfarra.
Para o Sete de Setembro, a mãe costurava uma calça de tergal azul-marinho e camisa branca de algodão. Nós, como último requinte, engraxávamos velhos sapatos, renovados com meias-solas. Roupas simples e malfeitas que serviriam de uniforme para o ano seguinte, tributo de famílias humildes a um grande dia. Nas comemorações na escola, as roupas ficavam sujas e perdiam sua virgindade, mas aquele pão com carne moída pagava todo nosso esforço e, ao voltar para casa, éramos parte de um grupo que cantava o hino, vestia roupas iguais e comia do mesmo pão.
Se tudo naquele período do ano era preparação para a festa, depois do desfile havia algo incômodo. Já no fim do primário, inquietava-me o sentido da palavra pátria, que não entrava em minha cabeça. No começo, pensei que pudesse ser a marcha unida, mas eu me sentia melhor quando estávamos dispersos. Se pátria fosse o desfile, ela era algo de que eu, no fundo, não gostava. Depois comecei a imaginar que pátria pudesse ser uma espécie de amada, mas se fosse a namorada com que todos os meninos sonhavam, por que falar em morte e luta, em filhos dela? Deveríamos é cantar sua sensualidade, seus olhos, a penugem de seus braços. Não, pátria não podia ser isso. Então, talvez fosse apenas uma palavra.
Palavra que, com os anos, esqueci. Ela não mais me inquietava. Depois aprendi o seu sentido e não dei muita importância. Ela se tornou letra morta, que eu pronunciava como quem fala o Papa visitou a Croácia. Eu não conheço a Croácia, por isso, a Croácia não me atinge, sou imune a ela.
Movido pela saudade, voltei, décadas depois, a comer pão com carne moída, descobrindo por fim que pátria significa justamente isso. Os professores que discursavam tanto sobre ela foram incapazes de me dizer que se tratava de algo tão simples. Pátria é pão com carne moída, compartilhado alegremente com os amigos.
Antes, os discursos sobre o amor à pátria, fanfarra ensaiando durante um mês, depois marchar pelo centro da cidade, cantar o Hino Nacional em frente à Prefeitura e, na volta à Escola Olavo Bilac, comer o lanche preparado para os alunos que participavam do Sete de Setembro. Todos agora correndo pelo pátio, alegres e sem nenhum princípio de ordem, relaxando das semanas de marcha e alinhamento. O cardápio era pão francês com carne moída e uma garrafa de sodinha – refeição com gosto especial para gente acostumada com carne de porco e de galinha. Aquele pão muitas vezes meio murcho, a carne com cebola, o molho de tomate e uma pitada de pimenta guardavam um sabor que ficaria codificado em minha memória como o gosto da farra depois de tanta ordem e fanfarra.
Para o Sete de Setembro, a mãe costurava uma calça de tergal azul-marinho e camisa branca de algodão. Nós, como último requinte, engraxávamos velhos sapatos, renovados com meias-solas. Roupas simples e malfeitas que serviriam de uniforme para o ano seguinte, tributo de famílias humildes a um grande dia. Nas comemorações na escola, as roupas ficavam sujas e perdiam sua virgindade, mas aquele pão com carne moída pagava todo nosso esforço e, ao voltar para casa, éramos parte de um grupo que cantava o hino, vestia roupas iguais e comia do mesmo pão.
Se tudo naquele período do ano era preparação para a festa, depois do desfile havia algo incômodo. Já no fim do primário, inquietava-me o sentido da palavra pátria, que não entrava em minha cabeça. No começo, pensei que pudesse ser a marcha unida, mas eu me sentia melhor quando estávamos dispersos. Se pátria fosse o desfile, ela era algo de que eu, no fundo, não gostava. Depois comecei a imaginar que pátria pudesse ser uma espécie de amada, mas se fosse a namorada com que todos os meninos sonhavam, por que falar em morte e luta, em filhos dela? Deveríamos é cantar sua sensualidade, seus olhos, a penugem de seus braços. Não, pátria não podia ser isso. Então, talvez fosse apenas uma palavra.
Palavra que, com os anos, esqueci. Ela não mais me inquietava. Depois aprendi o seu sentido e não dei muita importância. Ela se tornou letra morta, que eu pronunciava como quem fala o Papa visitou a Croácia. Eu não conheço a Croácia, por isso, a Croácia não me atinge, sou imune a ela.
Movido pela saudade, voltei, décadas depois, a comer pão com carne moída, descobrindo por fim que pátria significa justamente isso. Os professores que discursavam tanto sobre ela foram incapazes de me dizer que se tratava de algo tão simples. Pátria é pão com carne moída, compartilhado alegremente com os amigos.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
MINHA VIDA DE MULHER
Crônica publicada na revista D'pontaponta, n. 190, agosto de 2011.
Nunca acreditei nesse negócio do lado feminino de todo homem, que me parecia mais uma das faces do politicamente correto. Sei que agora ser mulher está na moda, embora elas nunca tenham reivindicado um lado masculino, o que teria sido tão desastroso quanto a idéia estapafúrdia do Dia do Orgulho Heterossexual.
Nesta nova fase da civilização, é de bom tom compor chapa com mulheres, escolher algumas para ocupar cargos públicos, dar-lhes prêmios etc. Aproveitando a onda, minha filha já pediu um aumento da mesada. Perguntei com base no quê? E ela:
– Na lei da oferta e da procura. Aumentou muito a demanda por mulheres no mercado. Filhas valem mais do que filhos.
Tem toda a razão. O mercado para as mulheres está mais aquecido do que as próprias em período da menopausa. E assim chegamos ao assunto desta crônica.
Nós, homens (com o perdão da palavra), não temos propriamente uma parte e sim uma fase feminina. E estou aprendendo a conviver com ela.
É que a velhice nos torna mais frágeis.
A primeira metamorfose é muscular. Perdemos boa parte dos músculos, que sempre foram a razão de nosso poder. Por mais que façamos musculação, eles insistem em continuar atrofiando.
Passamos a usar cremes e mais cremes, besuntando todas as partes do corpo na esperança de melhorar o aspecto geral. Isso antes era coisa de mulher, mas, no apagar da juventude, torna-se uma atividade de sobrevivência social.
Outros procedimentos também se fazem necessários. Como, por exemplo, tirar a sobrancelha. Não que eu faça isso com o mesmo objetivo das fêmeas; apenas elimino os pêlos mais revoltosos que querem denunciar o lobisomem em mim. Tirar os fios imensos da sobrancelha, do nariz, das orelhas e das costas – que até então eram lisas – se tornou uma coisa rotineira.
Trocamos o regime de carnes (de carnes vermelhas e gordurosas, como deve ser o repasto desse primata chamado homem) por frutas, saladas e iogurte de ameixa – prisão de ventre é um problema mais feminino.
Alguns, ainda não estou entre eles, pintam os cabelos brancos, não para mostrar uma jovialidade que não voltará, apenas porque pintar os cabelos é conquistar os mesmos direitos estéticos da mulher. Quem usava barba, começa a andar com a cara limpa e lisa assim que os fios embranquecem. Alguns até se arriscam com um pouco de botox. Por que não, se as esposas usam?
E aí compreendemos melhor as vantagens das mudanças. O casamento de décadas atinge o estágio ideal. Marido e mulher não são mais seres estranhos, em disputas entre si; são agora dois amigos. Aliás, duas amigas.
E os dois podem ser vistos juntos, andando lentamente pela rua, olhando vitrines, nunca antes tão próximos. Até parece que é a mulher que escora e protege o maridinho – ele enfim passa a ser tratado no diminutivo.
A idade também apresenta ao homem uma espécie de experiência ginecológica. Ele começa a ir ao urologista, para o exame de próstata. Minha vida de mulher me reserva, pelo jeito, grandes surpresas, como a que me aconteceu este mês.
Por usar um tipo de medicamento, sou um forte candidato a osteoporose. Fiz então meu primeiro exame de densitometria óssea, mais comumente recomendado às senhoras.
A moça que me atendeu pediu para que eu erguesse as pernas sobre um pufe posto na cama e, enquanto a máquina registrava meus ossos, fez o questionário padrão:
– O senhor fuma?
– Não.
– O senhor quebrou algum osso?
– Não.
– Tem caso de osteoporose na família?
– Minha mãe.
– O senhor já retirou o útero e o ovário?
– Não, mas a senhora acha que vai ser preciso?
Imediatamente, ela me acalmou, dizendo que não, não era o caso.
Esta, afinal de contas, é uma preocupação boba. Uma mulher da minha idade não pensa mais em ter filhos.
Nunca acreditei nesse negócio do lado feminino de todo homem, que me parecia mais uma das faces do politicamente correto. Sei que agora ser mulher está na moda, embora elas nunca tenham reivindicado um lado masculino, o que teria sido tão desastroso quanto a idéia estapafúrdia do Dia do Orgulho Heterossexual.
Nesta nova fase da civilização, é de bom tom compor chapa com mulheres, escolher algumas para ocupar cargos públicos, dar-lhes prêmios etc. Aproveitando a onda, minha filha já pediu um aumento da mesada. Perguntei com base no quê? E ela:
– Na lei da oferta e da procura. Aumentou muito a demanda por mulheres no mercado. Filhas valem mais do que filhos.
Tem toda a razão. O mercado para as mulheres está mais aquecido do que as próprias em período da menopausa. E assim chegamos ao assunto desta crônica.
Nós, homens (com o perdão da palavra), não temos propriamente uma parte e sim uma fase feminina. E estou aprendendo a conviver com ela.
É que a velhice nos torna mais frágeis.
A primeira metamorfose é muscular. Perdemos boa parte dos músculos, que sempre foram a razão de nosso poder. Por mais que façamos musculação, eles insistem em continuar atrofiando.
Passamos a usar cremes e mais cremes, besuntando todas as partes do corpo na esperança de melhorar o aspecto geral. Isso antes era coisa de mulher, mas, no apagar da juventude, torna-se uma atividade de sobrevivência social.
Outros procedimentos também se fazem necessários. Como, por exemplo, tirar a sobrancelha. Não que eu faça isso com o mesmo objetivo das fêmeas; apenas elimino os pêlos mais revoltosos que querem denunciar o lobisomem em mim. Tirar os fios imensos da sobrancelha, do nariz, das orelhas e das costas – que até então eram lisas – se tornou uma coisa rotineira.
Trocamos o regime de carnes (de carnes vermelhas e gordurosas, como deve ser o repasto desse primata chamado homem) por frutas, saladas e iogurte de ameixa – prisão de ventre é um problema mais feminino.
Alguns, ainda não estou entre eles, pintam os cabelos brancos, não para mostrar uma jovialidade que não voltará, apenas porque pintar os cabelos é conquistar os mesmos direitos estéticos da mulher. Quem usava barba, começa a andar com a cara limpa e lisa assim que os fios embranquecem. Alguns até se arriscam com um pouco de botox. Por que não, se as esposas usam?
E aí compreendemos melhor as vantagens das mudanças. O casamento de décadas atinge o estágio ideal. Marido e mulher não são mais seres estranhos, em disputas entre si; são agora dois amigos. Aliás, duas amigas.
E os dois podem ser vistos juntos, andando lentamente pela rua, olhando vitrines, nunca antes tão próximos. Até parece que é a mulher que escora e protege o maridinho – ele enfim passa a ser tratado no diminutivo.
A idade também apresenta ao homem uma espécie de experiência ginecológica. Ele começa a ir ao urologista, para o exame de próstata. Minha vida de mulher me reserva, pelo jeito, grandes surpresas, como a que me aconteceu este mês.
Por usar um tipo de medicamento, sou um forte candidato a osteoporose. Fiz então meu primeiro exame de densitometria óssea, mais comumente recomendado às senhoras.
A moça que me atendeu pediu para que eu erguesse as pernas sobre um pufe posto na cama e, enquanto a máquina registrava meus ossos, fez o questionário padrão:
– O senhor fuma?
– Não.
– O senhor quebrou algum osso?
– Não.
– Tem caso de osteoporose na família?
– Minha mãe.
– O senhor já retirou o útero e o ovário?
– Não, mas a senhora acha que vai ser preciso?
Imediatamente, ela me acalmou, dizendo que não, não era o caso.
Esta, afinal de contas, é uma preocupação boba. Uma mulher da minha idade não pensa mais em ter filhos.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
CAPOEIRA CULTURAL
Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo (Curitiba), em 04 de setembro de 2011.
Muito mais do que crítica, a produção reflexiva do poeta Paulo Leminski (1944-1989) se enquadra no que ele próprio chamou de textos-ninjas ou capoeiras culturais, como pode ser visto na recente edição de seus Ensaios e Anseios Crípticos, originalmente publicado em dois volumes (1986 e 2001) pela Criar Edições. Leminski evita as maquinações preguiçosas dos textos acadêmicos e o comedimento jornalístico, partindo para o ataque. Cada ensaio, com suas estruturas originalíssimas, tenta derrubar o leitor com frases curtas que são golpes certeiros. Ele não escreve, antes luta artes marciais nesses textos em que a contradição é uma constante.
Dividido entre a arte difícil e a mensagem fácil, entre a ruptura da linguagem de vanguarda e as concessões ao mercado midiático, entre a glória artística e o sucesso de público, ele escreveu textos a partir de estados de alma conflitantes. E tinha consciência disso: “Me diverte pensar que, em vários momentos, estou brigando comigo mesmo” (p. 18). Estas brigas são assim dilemas interiores.
Criado dentro de uma ideia de cultura como erudição, vangloriando-se de falar vários idiomas (muitos de seus ensaios são apresentações de livros traduzidos por ele), o poeta viveu um tempo em que arte e showbiz são indissociáveis. Ao mesmo tempo em que buscava um ideal, a leitura de clássicos e a inovação de linguagem, ele queria o calor da multidão, a aclamação em um show de rock. Ele nega o fácil (o realismo em arte ou o surgimento de um gosto de classe média) e afirma os grandes escritores (os inventores), ecoando os ensinamentos teóricos dos concretistas, mas cai na folia da contracultura, da geração beat, sobe ao palco com cantores e se faz músico e letrista, produzindo para o mercado.
Só aceitando esta contradição é que entenderemos a sua centralidade na cultura contemporânea. Leminski, dentro do espírito tropicalista, misturou saber e arte pop, criando uma obra que tem o seu lado complexo, funcionando como um ramo das vanguardas (o seu Catatau é a radicalização maneirista de James Joyce) e o seu lado altamente comunicativo, com poemas que podem ser estampados em camisetas. Qual desses dois é o Leminski verdadeiro? Nenhum dos dois. Mas o espaço de tensão criado entre eles.
Falando do Sul do Brasil, mais especificamente de Curitiba, ele percebe que a cultura erudita, quando desenraizada, perde a sua fertilidade: “Triste é a cultura das elites, quando sem comércio com formas culturais das classes mais populares” (p.35). Por isso, ele se aproxima dos baianos da música, para conquistar um chão nacional, enquanto nega o romance regional de 30, principalmente de extração nordestina. Ele faz sucesso por conta da música, mas insiste em afirmar que a função da arte, principalmente a da poesia, é negar a condição de mercadoria.
Mesmo quando se entregava ao mercado, Leminski matinha ativa a sua obsessão pela vanguarda, a sua busca de uma recepção culta. Alguns de seus artigos são tentativas de conciliar estes dois mundos – o próprio estilo marcial é um esforço nesse sentido –, mas a grande maioria deles é a afirmação do valor absoluto da inovação. Isso funcionou para criar o mito do erudito acessível ao fruidor médio: “Certas coisas parecem brigar, quando estão apenas se somando: a soma, talvez, seja uma operação aritmética marcada pela violência e pela ferocidade” (p.75). É esta soma furiosa que encontramos em sua obra e também nestes textos de intervenção que sobrepõem os verbos agredir e agradar.
Serviço:
Ensaios e Anseios Crípticos, de Paulo Leminski. Editora da Unicamp, 2011. 336 págs. R$ 35. Ensaios.
Muito mais do que crítica, a produção reflexiva do poeta Paulo Leminski (1944-1989) se enquadra no que ele próprio chamou de textos-ninjas ou capoeiras culturais, como pode ser visto na recente edição de seus Ensaios e Anseios Crípticos, originalmente publicado em dois volumes (1986 e 2001) pela Criar Edições. Leminski evita as maquinações preguiçosas dos textos acadêmicos e o comedimento jornalístico, partindo para o ataque. Cada ensaio, com suas estruturas originalíssimas, tenta derrubar o leitor com frases curtas que são golpes certeiros. Ele não escreve, antes luta artes marciais nesses textos em que a contradição é uma constante.
Dividido entre a arte difícil e a mensagem fácil, entre a ruptura da linguagem de vanguarda e as concessões ao mercado midiático, entre a glória artística e o sucesso de público, ele escreveu textos a partir de estados de alma conflitantes. E tinha consciência disso: “Me diverte pensar que, em vários momentos, estou brigando comigo mesmo” (p. 18). Estas brigas são assim dilemas interiores.
Criado dentro de uma ideia de cultura como erudição, vangloriando-se de falar vários idiomas (muitos de seus ensaios são apresentações de livros traduzidos por ele), o poeta viveu um tempo em que arte e showbiz são indissociáveis. Ao mesmo tempo em que buscava um ideal, a leitura de clássicos e a inovação de linguagem, ele queria o calor da multidão, a aclamação em um show de rock. Ele nega o fácil (o realismo em arte ou o surgimento de um gosto de classe média) e afirma os grandes escritores (os inventores), ecoando os ensinamentos teóricos dos concretistas, mas cai na folia da contracultura, da geração beat, sobe ao palco com cantores e se faz músico e letrista, produzindo para o mercado.
Só aceitando esta contradição é que entenderemos a sua centralidade na cultura contemporânea. Leminski, dentro do espírito tropicalista, misturou saber e arte pop, criando uma obra que tem o seu lado complexo, funcionando como um ramo das vanguardas (o seu Catatau é a radicalização maneirista de James Joyce) e o seu lado altamente comunicativo, com poemas que podem ser estampados em camisetas. Qual desses dois é o Leminski verdadeiro? Nenhum dos dois. Mas o espaço de tensão criado entre eles.
Falando do Sul do Brasil, mais especificamente de Curitiba, ele percebe que a cultura erudita, quando desenraizada, perde a sua fertilidade: “Triste é a cultura das elites, quando sem comércio com formas culturais das classes mais populares” (p.35). Por isso, ele se aproxima dos baianos da música, para conquistar um chão nacional, enquanto nega o romance regional de 30, principalmente de extração nordestina. Ele faz sucesso por conta da música, mas insiste em afirmar que a função da arte, principalmente a da poesia, é negar a condição de mercadoria.
Mesmo quando se entregava ao mercado, Leminski matinha ativa a sua obsessão pela vanguarda, a sua busca de uma recepção culta. Alguns de seus artigos são tentativas de conciliar estes dois mundos – o próprio estilo marcial é um esforço nesse sentido –, mas a grande maioria deles é a afirmação do valor absoluto da inovação. Isso funcionou para criar o mito do erudito acessível ao fruidor médio: “Certas coisas parecem brigar, quando estão apenas se somando: a soma, talvez, seja uma operação aritmética marcada pela violência e pela ferocidade” (p.75). É esta soma furiosa que encontramos em sua obra e também nestes textos de intervenção que sobrepõem os verbos agredir e agradar.
Serviço:
Ensaios e Anseios Crípticos, de Paulo Leminski. Editora da Unicamp, 2011. 336 págs. R$ 35. Ensaios.
Assinar:
Postagens (Atom)












