segunda-feira, 31 de outubro de 2011

VIDA E OBRA

Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo), 30 de outubro de 2011.

Num misto de fotobiografia, antologia de poemas sobre sua terra natal e coletânea de perfis literários, o volume O Vento do Mar (Contracapa, 2011), de Lêdo Ivo, funciona como uma autobiografia indireta, como autobiografia de uma voz. Nele, o poeta se revela ao lado de inúmeros outros escritores, brasileiros e estrangeiros, recorda lugares frequentados e opiniões sobre sua obra, situa as suas origens em um conjunto de poemas e principalmente dá depoimentos sobre figuras literárias com quem conviveu desde sua chegada, ainda menino, à cidade do Rio de Janeiro.

Falando de Afonso Arinos de Melo Franco, ele diz que este “desejava escrever um livro sobre as grandes amizades literárias” (p.130). É exatamente este projeto que Lêdo Ivo realiza por meio da recolha de textos sobre figuras que o marcaram: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Clarice Lispector etc. Felizmente, o poeta contraria a crença de Cornélio Pena, para quem seria “um erro, um erro grotesco, essa curiosidade de conhecer o autor em sua vida interior, a não ser pelos livros” (p. 66). Fazendo críticas contundentes ao excesso de teorização, essa praga que transformou os estudos literários em algo afastado do coração selvagem da vida, Lêdo Ivo compõe deliciosos retratos de escritores que tiveram um impacto sobre a sua formação. Ele confunde, para o nosso bem, memória e estudo literário, focando sua percepção da obra de alguns autores no ser que eles foram. Assim, esses ensaios memorialísticos são documentos humanos e também culturais.

Tendo abandonado a possibilidade de ser crítico militante ainda jovem, assumindo a sua vocação de criador, o poeta pôde se ver livre dos formatos analíticos, deixando que a convivência com os autores lhe desse chaves de leitura. Dessa forma, ao revelar que Graciliano Ramos tinha preconceitos de raça, ele cria uma relação direta entre pureza gramatical (obsessão do autor de Vidas Secas) e pureza racial. O movimento analítico, longe do “eruditismo predatório”, se faz da vida para a obra, conquistando o leitor por revelações sobre a intimidade desses autores, mas postas a serviço de uma compreensão de legados literários.

Acostumados a tomar Clarice Lispector como um consenso editorial, ficamos sabendo de sua solidão ao longo da vida, de sua dificuldade de arrumar editor, e também de suas crises. Tudo isso está resumido em uma resposta doída a um comentário jocoso de um de seus editores no jornal, que a aconselha a fazer sexo para melhorar o humor. E Clarice diz: “Não posso transar com ninguém. Tenho o corpo todo queimado” (p. 125). Para além do meramente anedótico, tais casos servem para devolver a escritores que hoje são entidades abstratas uma dimensão humana.

De todas as grandes figuras com quem cruzou, a de maior importância em sua vida foi Manuel Bandeira, a quem Lêdo Ivo dedica um conjunto de textos, recordando da história comovente do poeta que não é aceito em nenhum hotel em Teresópolis, por ser tuberculoso, tendo de dormir na prefeitura, ao seu impulso, quando já tinha 80 anos, de passar uma noite com uma vedete negra, o que lhe foi proibido por seu médico. O desejo por esta mulher era a consolidação de uma relação amorosa com o Brasil, pátria de seres humildes que ele habitou de uma maneira erótica e comovida: “ninguém ensina melhor a ver do que Manuel Bandeira. O que viu – beco, enterro, umbigo de mulher – nenhum outro poeta o terá visto” (p.208). Esse olhar horizontal se desenvolveu pela posição de doente profissional, que lia na cama, que passara seus dias de mocidade num sanatório, “estirado numa chaise longue” (p.218).

Irritado com os “monstros gerados pela Teoria Literária” (p.217), Lêdo Ivo nos coloca em sintonia com a vida/obra desses escritores, e também com a dele.


Serviço:
O Vento do Mar, de Lêdo Ivo. Organização de Monique Cordeiro Figueiredo Mendes. Contracapa, 298 págs. Perfis biográficos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ESPERA


Chegaram.

São três.

Eles têm um aspecto de velhice vermelha. Sempre identifiquei a velhice à cor vermelha, pois é esta tonalidade que predomina na região de onde venho, o Norte do Paraná, a famosa terra roxa, com seu barro grudento na chuva e sua poeira alada na seca. Tudo que vive ou viveu lá conhece esta cor na pele.

Eles chegaram com pretensões de beleza. Vieram com capas de papel de presente. Ficaram 25 anos me esperando. A pessoa que os havia retido se mudou para Campinas, depois morreu e eles, pacientemente, me aguardaram.

Estão aqui na minha mesa. Os três livros de José J. Veiga que emprestei em 1996 para minha professora Cida Perez. A hora dos ruminantes; Torvelinho dia e noite; e Sombras de reis barbudos.

Naquela época, para evitar a poeira, eu encapava os livros, reciclando papéis de presente, sem usar cola, apenas com dobras perfeitas. E assinava as capas. A minha assinatura mudou muito. O planeta deu seus milhares de rodopios. Mas os livros mantiveram-se inalterados.

É esta a natureza dos livros, que são avessos aos rios correntes da vida e da internet. Eles esperam o tempo que for preciso.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A VIDA NÃO PODE SER BONITA

Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo), 23 de outubro de 2011.


Órfão de mãe, com um pai ladrão que o abandonou, criado por avós pobres, recusado pelo exército, um jovem professor de educação física se fez um homem íntegro, um herói para os meninos que ele treinava. Corpo musculoso, caráter inflexível, esportista exemplar, ele conquista o amor de uma bela moça, pertencente a uma família respeitada da Newark dos anos 1940. Tudo está preparado para uma grande felicidade, mas recai sobre ele a ira da deusa da vingança, que castiga aqueles que se elevam demais, pondo em risco a ordem do mundo. Eis aí o novo romance de Philip Roth, Nêmesis (Companhia das Letras, 2011), que pode ser colocado entre as suas melhores obras pela força emocional que consegue tirar de um drama íntimo e ancestral.

O principal recurso de Roth é a ironia, aqui explorada com um sentido trágico. Impossibilitado de ir para a guerra, por uma deficiência visual, Bucky Cantor acaba trabalhando como professor em um pátio de atividades físicas de sua cidade, promovendo a saúde das crianças. Mas, como a guerra estava em todos os lugares, o conflito chega até ele por meio de uma epidemia de poliomielite, que atinge a sua cidade e principalmente o seu bairro. Cantor assume o papel de combatente, luta para manter a ordem no pátio, vendo os seus alunos ficarem subitamente aleijados ou mesmo morrerem. Era inicialmente um herói: “Seu jeito confiante e decidido, sua força de halterofilista, sua participação cotidiana e entusiástica em nossas partidas de beisebol – tudo isso havia causado admiração na turma” (p.20). Mas logo começa a ser acusado de responsável pela doença que se espalha. Instala-se um clima de histeria, com acusações a todos, pesando sobre ele a origem judaica.

Roth extrai força emocional de drama ambientado entre os anos 1940 e 1970
Neste mesmo momento, recebe convite para trabalhar com a namorada na colônia de férias onde ela se encontra, lugar livre de pólio. Seu senso se responsabilidade não permite que ele abandone o front; quer ficar ali, mesmo se sentindo impotente. Mas o amor de Márcia e a experiência de alegria produzida pela sua presença quase angelical o levam a renunciar ao trabalho antigo e seguir para aquela região protegida.

Humilhado, ele chega às montanhas junto com a doença. Vários são infectados, e ele se descobre com pólio. A devastação é total. Até a irmã de Marcia, também na colônia, é atingida. E sua condição de judeu, que o atormenta, pois a sociedade projeta uma repulsa nele, faz com que se veja como vetor da contaminação. Sente-se responsável por tudo. Depois de se recuperar (ficando com sequelas: perna e braço secos), ele se afasta das pessoas, recusando até o amor de Marcia, para viver obscuramente.

É neste epílogo que descobrimos quem narra a história – um dos meninos do pátio que fora atingido pela doença e que conseguiu ter uma família e se fazer empresário de sucesso. Os dois conversam, nos anos 1970, sobre aqueles tempos. O ex-aluno ainda idolatra Cantor, e tenta inocentá-lo. Mas é impossível. Mais do que apenas uma culpa pessoal, ele se liga à tragédia de exclusão sofrida pelos judeus, atormentados pela culpa ancestral que sempre lhes é imposta.

O romance termina com a memória de um episódio mágico em que Cantor lançara o dardo no pátio de exercícios. Era um deus olímpico naquele momento. O contraste com o corpo agora deformado e a alma ressequida é terrível. E esta última cena, vinda da lembrança longínqua, é mais uma ironia. Pois Cantor, negando o Deus de sua religião, se sente um espírito do mau que espalha a doença, flechando as pessoas.

Serviço:
Nêmesis, de Philip Roth. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras, 194 págs. Romance. Preço médio: R$ 30.

sábado, 22 de outubro de 2011

ECONOMIZANDO LINHAS

Aluno de escola pública em Peabiru, eu sofria o patrulhamento de meu padrasto. Ele numerava as folhas de nossos cadernos, para que não as gastássemos com coisas fúteis. Quando um professor pedia para escrever algo e entregar para ele, eu entrava em pânico. Pedia para o colega do lado uma folha emprestada, sempre recebendo junto um olhar de desprezo. Por que não tirava de meu próprio caderno? É que ele não me era tão próprio assim.

Além de numerar as folhas, meu padrasto fiscalizava os cadernos para ver se estávamos preenchendo bem as linhas, pois não admitia desperdício.

Assim eram os pais; assim era a vida dos pobres na minha infância; assim eram esses seres errados que um dia fomos.

Meus irmãos não sofreram com a redução das margens de nossos cadernos. Mas eu já me sonhava escritor. E queria escrever meus poemas. Então me sentia censurado.

Quando me tornei economicamente independente, comecei a comprar cadernos. Sempre tenho vários comigo. Pois pode haver coisa mais reconfortante para um escriturário da literatura do que saber que temos ali várias páginas em branco, um estoque de linhas nos solicitando?

Testei vários cadernos. Dos mais sofisticados – os moleskines – a cadernetas de feirantes. E elegi o meu caderno oficial: o Opus capa dura, costurado, nas cores: azul, verde, vermelho, preto ou bege. Tamanho 190mm por 248 mm, com 100 folhas. As linhas são generosas, adequadas para quem gosta de escrever com letra grande, o visual é sóbrio, o formato lembra um pouco os antigos cadernos de contabilidade. E eles podem ser guardados na estante como se fossem livros.

Nesses cadernos mantenho, desde o dia 25 de março de 2007, um diário íntimo (Diários Indignos), velho projeto que só consegui consolidar quando encontrei um suporte ideal. Havia tentado várias vezes antes, mas sem sucesso.

O Opus me oferecia margens amplas, formato manuseável, uma sensação de seriedade. A última compra que fiz, 5 cadernos, foi numa livraria em Brasília. Distribuí alguns para amigos, e agora estou no final do último caderno – faltam apenas 4 páginas para ele acabar. Adio as anotações no diário, pois não quero ter a sensação de que me tiraram o caderno, que me proibiram de continuar escrevendo.

Tudo porque a Tilibra parou de produzir o Opus. Pelo menos, tiraram o caderno do site, deixando apenas uma versão chamada Organizer, que é daqueles em que se destacam as folhas. O meu velho Opus sumiu também das livrarias e papelarias. Não consigo mais encontrá-los.

Acionei amigos para rastrearem velhos estoques. Vou comprar uma boa quantidade deles. Pela internet, já conseguimos encomendar 10 exemplares de uma papelaria do Rio. Minha amiga Naira Nascimento localizou uma livraria no Ahú (Curitiba) em que há ainda alguns.

Quando eu voltar a conviver com este animal em extinção, pretendo numerar as folhas e não gastá-las com anotações irrelevantes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RE-FORMATURA


Minha turma está comemorando 25 anos de formatura em Letras. Sou informado pela minha colega Célia Ribeiro da Silva que haverá missa (ai de mim, esse ateuzinho não-praticante!) e almoço no dia 13 de novembro.

Recebi o convite com uma foto em que estão todos na frente do prédio antigo da Faculdade em Mandaguari, quando éramos jovens.

– Quando foi isso? – pergunta minha filha.

– Em mil novecentos e Cid Moreira – respondo.

E ela faz a sua cara de incompreensão.

Bem, talvez eu nem esteja entre meus colegas na velha foto, porque já naquela época eu evitava comemorações. Lembro-me de que não participei da formatura e tive que receber o grau em solenidade particular na sala da direção.

– Você continua ainda hoje se escondendo – me diz meu mestre imaginário –. Só não entendo do quê?

Não respondo este mestre desaforento.

Um mestre devia consolar, mas o meu só me acusa.

Por isso estou sem jeito de dizer para ele que também não participarei da re-formatura, não porque eu não queira, mas porque neste período estarei no Fórum de Letras em Ouro Preto.

– Safou-se bem – me diz meu mestre.

Eu me irrito. Mesmo sem falar com ele, o maldito sempre me responde. Não há como fugir a uma voz assim.

O fato é que não me sinto formado (sim, deformado eu sou). É como se ainda estivesse nos bancos da faculdade. Só não entendo porque sou eu agora quem tem que dar as aulas.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MIUDEZAS

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, dia 16 de outubro de 2011.

O aforismo circula no sangue da cultura brasileira. Desde Machado de Assis, autor de frases carregadas de ironia, recorremos a este gênero que se confunde com a modernidade, com o uso sintético da língua portuguesa, nosso trunfo sobre os colonizadores prolixos. Com o advento das redes sociais, o aforismo se tornou uma moeda corrente, sendo agora praticado em larga escala. Como somos um país de frasistas, nada poderá nos deter.

Com textos que vão de pensamentos a minicontos, ora mais sérios ora mais irônicos, Livia Garcia-Roza reúne em livro as suas postagens dos anos de 2009 e 2010, num título que remete ao Facebook – Faces (Record, 2011). É a vida em suas ninharias, num pacto de observação da realidade, espécie de redução da crônica a dimensões liliputianas. Essa produção ocupa um lugar fronteiriço na literatura, pois não há um gênero certo para abrigá-la. Tudo cabe ali, da confissão à cena imaginária, da reflexão à piada, porque o que importa é o tamanho: 420 ou 140 caracteres – limites, respectivamente, do Facebook e do Twitter.

O formulário digital produz uma mudança de olhar, que agora recai sobre as coisas que não têm força e relevância para ocupar mais palavras. A novidade não está em termos ou sintaxes próprias do mundo digital, mas nesta nova matéria que pode ser o centro de um projeto literário: “A internet está lidando bem [...] com esses pequenos comentários, porque a vida, na verdade, é essa miudeza” (p.9), diz a autora na introdução. As redes sociais nos educaram para os pequenos nadas, que antes eram desperdiçados, e que sofrem agora uma reciclagem literária. E essa mudança de perspectiva de criação já conta com seus primeiros frutos em livro.

Lívia separa uma passagem daquilo que seria um assunto para conversas familiares, sinalizando, no passado e num gênero grandioso (a ópera), a mudança da produção/fruição artística: “Meu bisavô era um crítico musical. Meu pai contava que um dia o avô assistia a uma ópera de uma das frisas quando um sujeito ao lado começou a trautear a melodia. / – Eu aqui, ansioso por ouvi-lo, e aquele sujeito lá embaixo a impedir... dissera o bisavô” (p.23). O episódio, que poderia ter apenas um sentido humorístico, pois o grande cantor é quem atrapalha a interpretação inconveniente de alguém na plateia, mostra uma nova forma de pensar a arte, que é também, e principalmente, o que o público produz, e não mais só o material consagrado. A arte se faz um pecadilho pessoal, o trautear de que fala o texto, música cantada para uso próprio.

A internet permitiu que todos nos fizéssemos autores, e que autores praticantes de gêneros maiores também frequentassem os menores. Livia Garcia-Roza, nesta militância digital de textos, amplia seus instrumentos de expressão; lê trajetórias minúsculas, inventa personagens ligeiros e reflete sobre psicanálise e escrita sem nenhuma preocupação com a erudição. E este me parece o maior mérito das redes sociais: elas permitem pensar sobre tudo sem a mínima pose da seriedade. Somos como crianças liberadas para arriscar descobertas. Livres de credenciais e de maiores esforços sistematizadores, apenas com um olhar atento, podemos identificar, em nosso entorno e em nós mesmos, verdades sinalizadoras, como este aforismo primoroso de Livia: “Só acabei de nascer quando fui mãe” (p.52).

Textos como esse nos colocam diante de uma vastidão de sentido, unindo a forma poética de dizer à densidade de uma experiência nascida no corpo de quem a viveu.

Serviço:

Faces, de Livia Garcia-Roza. Record, 72 págs. Preço médio: R$ 19,90. Aforismos

domingo, 16 de outubro de 2011

QUEM PAGA A CERVEJA


Recebi pelo correio o aviso de que havia ganhado o prêmio nacional de poesia Luiz Delfino de 1989. Não tinha telefone, então fiquei sabendo assim, por carta. Morava na baía sul, em Florianópolis, e cursava mestrado.

De minha temporada curitibana, guardava um blazer de lã, importado, que foi o primeiro paletó que usei na vida. Sobre uma calça desbotada e uma camisa social de colarinho puído, o blazer me transformava numa versão errada de intelectual. Fazia calor na noite em que fui até a sede da Associação Atlética Banco do Brasil, no Continente, em meu Fusca ano 80. Ninguém me conhecia. Sentei-me com minha mulher, uma amiga, Inês Mafra, e o marido, e esperamos a solenidade. Fui chamado para receber o prêmio, algo perto de mil dólares. Depois, um secretário de governo passou na minha mesa e me cumprimentou. Foi tudo que me aconteceu naquela noite, e não me lembro se o jantar era bom. Provavelmente não era.

No dia seguinte, já tendo descontado o cheque, fui com Juliana ao Box 32, no Mercado Municipal, e bebemos pela primeira vez uma cerveja Xingu – era outro o Box 32 e outra, bem melhor, a Xingu, ainda produzida em pequena escala. Foi ali que eu achei que podia ser escritor de verdade. A literatura estava pagando a cerveja.

Era o ano de 1990. E esperei longamente pela edição do meu livro, a outra parte do prêmio. Passei uma vez na Fundação Catarinense de Cultura e o responsável (que não me conhecia, mas depois se tornaria meu amigo), o contista Flávio José Cardozo, mal me respondeu sobre a publicação.

Só em final de 1991 o livrinho foi publicado. Quando eu soube que isso iria enfim acontecer, tratei de atualizar a coisa toda, e fiz muitas mudanças. O original que ganhou o prêmio, datilografado na minha Lettera 35, e que guardo até hoje, é bem diferente do livro que foi impresso. Aí, já era outro o responsável pela Fundação, o poeta Joca Wolff, que levou os meus exemplares numa viagem a Curitiba, para onde eu tinha voltado.

Nós nos encontramos num bar no Largo da Ordem, ele me passou uma caixa com 100 exemplares do livro, bebemos umas cervejas, mas agora quem pagava a conta era o professor e não o escritor.

Distribuí os volumes e não houve repercussão nenhuma.

Nesta época, eu colaborava no jornal Nicolau e ia sempre à redação na Secretária de Estado de Cultura do Paraná. Tinha entregue em mãos um exemplar para Wilson Bueno, e sempre via o voluminho num canto da sua sala, entre outros livros cobertos de poeira. Um dia, o meu já não estava mais lá. Descobri assim que ele tinha fechado o seu ciclo.

Continuei bebendo cerveja, publiquei outros livros, aprendi a não esperar nada de ninguém, mas só depois da “enfiada das decepções que nos ultrajam”, para dizer como o Raul Pompéia, em O Ateneu.

Passados 20 anos, sairá a nova edição de Inscrições a giz, que agora integra a coletânea Poesia reunida e inéditos, que a editora Ficções pretende lançar este ano. Avaliando tudo que me ocorreu, posso garantir que a cerveja nacional tem piorado muito nos últimos anos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

NOVA EDIÇÃO DE CHOVE SOBRE MINHA INFÂNCIA

A nova edição de Chove sobre minha infância, meu romance de estréia, sairá em dezembro pela Record com novo projeto gráfico. A capa agora é assinada por Leonardo Iaccarino.

A linguagem que ele usa para o livro produz um choque entre os elementos secos das árvores, postas no lugar das nuvens, e a sombrinha colorida.

Tristeza e alegria ao mesmo tempo. É isso o livro.

E não seria isso também a vida?

Abaixo o layout.

domingo, 9 de outubro de 2011

ANIMAL DAS LETRAS

Publicado na Gazeta do Povo, 9 de outubro de 2011.

Mestre dos fragmentos, das fábulas, dos microcontos, dos aforismos e de outros gêneros da brevidade, o guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003) também se dedicou ao romance – é de 1978 o livro só agora traduzido no Brasil: O Resto É Silêncio (Novo Século, 2011). Antes, Millôr Fernandes havia vertido para o português os pequenos textos de Ovelha Negra e Outras Fábulas (Record, 1983), único título de Monterroso até então disponível no Brasil, não obstante o renome que o autor alcançou principalmente por um conto seu tido como o menor do mundo: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

Mesmo optando pelo formato do romance, ainda aí se manifesta o autor de pequenas narrativas e de comentários que tendem para o ensaio. Ele produz na verdade um antirromance, em que elementos essenciais do gênero são negados. Não há um enredo, os personagens se confundem com o autor (ou com os autores), não há uma força estruturante (fragmentos heterogêneos são recolhidos ao livro) nem uma preocupação em definir uma trajetória do protagonista, visto quase sempre pela lente deformada de pessoas que conviveram com ele ou de seus textos irrelevantes. Isso talvez permita entender o título tirado de Shakespeare: é nesses pequenos textos equivocados que está a verdade, não havendo nada além deles.

Dono de um olhar irônico, a partir do qual construiu a sua obra, Monterroso é avesso à tendência épica do romance latino-americano, evitando assim o desejo de construir personagens marcantes. Este seu O Resto É Silêncio pretende ser a história de um intelectual (Eduardo Torres) de um lugar imaginário (San Blás), renunciando ao relato de uma vida. Ele inventa amigos do protagonista, que dão testemunhos sobre si próprio, mostrando ou a mediocridade da figura ou a vaidade de quem quer aparecer na hora de falar de uma figura pública. Além disso, são coligidos textos (ensaios e aforismos) e mesmo desenhos com traços infantis de Torres, material que o mostra como um autor provinciano e medíocre. Em um desses textos do pretenso herói das letras, ele faz uma crítica sobre o livro A Ovelha Negra e Outras Fábulas, de Augusto Monterroso, autor “conhecido por sua falsa ambiguidade de todo gênero e número” (p.108). Assim, o autor biográfico é feito personagem pela voz de seu protagonista. Esta sobreposição de identidades é reforçada na passagem em que se analisa o arremedo de soneto “O burro de San Blás (Mas sempre há alguém mais)”, em que se misturam ainda mais as autorias, remetendo a uma ideia de que todos se encaixam neste papel asnático de Eduardo Torres.

Talvez esteja nessa questão a resposta para a obsessão de Monterroso pelos animais, pelas fábulas. Ele quer mostrar a superioridade do reino selvagem, em que os bichos revelam alguma inteligência, sugerindo por contraste a natureza embrutecida do homem. Tendo esta percepção do humano, ele constrói um romance em que Eduardo Torres é apresentado ao leitor seja pela imbecilidade daqueles que os rodeiam seja pela imbecilidade de seus próprios textos.

Mesmo o formato do romance é um sinal desta falta de inteligência. Há ali todos os materiais literários, todos os recursos, usados de forma equivocada: das notas de rodapé ao índice onomástico; da utilização equívoca de pseudônimos a uma bibliografia pretensiosa e falsa; das platitudes filosóficas aos erros de análise. A incapacidade de construir um romance é mais um tributo ao burro de San Blás, deliciosa caricatura do intelectual latino-americano, esse animal das letras.

Serviço:
O Resto É Silêncio, de Augusto Monterroso. Editora Novo Século. 160 págs. Romance. Preço médio: R$ 27,50.

sábado, 8 de outubro de 2011

CONSERVAÇÃO DE LIVROS


A pedido de um dos herdeiros de Wilson Martins, fui ver o escritório que o crítico deixou, e ao qual tentaremos dar um destino público. São poucos livros, uns 500, pastas com correspondências e outros materiais. Nas estantes, Wilson só retinha livros de referência e de amigos. Os demais iam para a Biblioteca Pública do Paraná – já que a imensa biblioteca da época da História da Inteligência Brasileira fora vendida para a Universidade de Princeton, antes da vinda definitiva dele para o Brasil.

Entrei no apartamento quase todo vazio, apenas uns móveis perdidos nos cômodos e quadros na parede. No pequeno escritório, onde estive várias vezes, o que mais me machucou foi um envelope que ele estava endereçando a alguém – ficou no carro de sua máquina de escrever elétrica. Na mesa, uma carta padrão de fim de ano, dizendo que estava mal da pneumonia (era câncer, mas ele não comentava nem com os parentes) e que não podia mandar notícias, mas em breve ele as enviaria, completando: “se o homem do crematório não chegar antes”.

Chegou.

Na prateleira, o livro-chave para ele: Sertões, de Euclides da Cunha, em edição de 1937, com uma dedicatória de todos os seus colegas de secundário. Ali começava a carreira do crítico. Era, segundo os amigos, uma obra para ser conservada durante a vida inteira.

Ele a conservou.

Agora são seus amigos que devem continuar conservando-a.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

LÍNGUA ESTRANGEIRA

In revista D'pontaponta, n. 191, setembro de 2011.
Quando comecei a aprender alguma coisa na escola, em uma época em que nem televisão tínhamos, surgiram os conflitos linguísticos. Os livros nos ensinavam a falar de um jeito diferente daquele praticado em casa. Embora nunca tenha dominado nem o espanhol ancestral, comecei a falar dois idiomas: o da família de agricultores e o dos mestres – este é um caso de biliguismo típico de países em que a cultura popular é muito forte.

O que exigia uma inteligência social, para que soubéssemos qual idioma acessar em cada um dos momentos. Chegava um tio em casa e falava que já tinha “prantado a sorja”. E eu respondia: “um trabaião, hein”.

Já nas matinês, quando eu tentava conquistar alguma das meninas por quem me apaixonara naquela semana, tinha de usar palavras que me enobrecessem diante delas: “por vós, tenho pranteados os olhos”, dizia um dos meus poemas da época.

A linguagem podia ser uma roupa nova usada aos domingos ou as peças rasgadas do dia a dia. Ao falar, nós nos vestimos adequadamente para determinadas ocasiões.

Talvez por isso meus parentes nunca acreditassem que eu tirava proveito dos estudos.

– Esse menino parece que num aprende nada na escola.

Para mim foi sempre difícil demonstrar que, sim, alguma coisa sempre se aprende, mas ninguém precisa ficar sabendo disso. Minha fala (ou escrita) não é uma vitrine de loja e sim um guarda-roupa versátil. Há peças para todos os gostos.

Fui me afastando do universo popular que me amamentou. Fiz-me herdeiro de grandes escritores, transitando por tradições literárias impossíveis de serem imaginadas pelo menino que frequentava escolas públicas e periféricas. Consigo esconder razoavelmente minhas origens roceiras. E os mais desavisados até me imaginam com alguma erudição.

Mas, por saudosismo, acabei desenvolvendo o hábito de colecionar expressões populares, descobrindo a inventividade de um povo monolíngue, que transforma todo o desconhecimento em força poética. A nossa é uma gente que customiza o idioma, descolonizando-o.

Algumas expressões são dignas de um escritor de vanguarda. Não sabendo pronunciar termos em inglês e sem imaginar o significado deles, os populares corrompem expressões consagradas. Não falam, por exemplo, restaurante self-service. Atentos ao fato de que as pessoas, nestes locais de repasto, se servem várias vezes, dizem:

– Hoje vou almoçar no serve-serve.

Existe melhor tradução do que esta para self-service?

Outra variação criativa se encontra num procedimento central da modernidade. Todos hoje se preocupam muito com a questão estética. E muitas pessoas se submetem a processos clínicos de emagrecimento, descarregando 40/50 quilos de uma vez. Para o povo, esta pessoa perdeu tanto peso que só criando um verbo novo é possível expressar isso.

– Você viu como fulano desmagreceu?

Desmagrecer, no caso, é emagrecer muito e de forma súbita.

Os esnobes zombam dessa faixa de falantes, dizendo que eles pronunciam de quatro formas diferentes a palavra problema (pobrema, probrema, plobrema, ploblema), não acertando em nenhuma das vezes. Acham que isso é um sinal de ignorância – na língua do povo: enguinorância –, mas tenho aqui comigo que estamos apenas ampliando a língua portuguesa, fazendo dela um território com a mesma medida de um país de grande extensão social.

Talvez nossos filhos precisem fazer intercâmbio com o Brasil profundo, para que dominem também este outro idioma.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

LATIFÚNDIOS

Na minha infância em Peabiru, havia um louco que sempre parava em nossa máquina de arroz. Acho que se chamava Bernardo, mas o nome pode ser apenas uma memória falseada pela leitura dos poemas de Manoel de Barros (a bença, meu mestre!), onde aparece um tal Bernardo.

O meu Bernardo possuía dois objetos valiosíssimos: uma carriola velha e um cachimbo rançoso. Parava a carriola no pátio da máquina de arroz – vivia de limpar terrenos e fazer outros serviços manuais – e acendia seu cachimbo. Logo começava a narrar as notícias.

O fazendeiro tal oferecera uma das fazendas por aquele cachimbo, mas o que ele ia fazer com uma fazenda? O cachimbo era muito mais útil, permitia estes momentos de prazer e de distração.

– Fazenda dá é muito trabalho.

E alguém então perguntava da carriola.

– Esta eu não vendo por nada – ele respondia -. É ela que me sustenta.

E então contava que já tinham proposto um caminhão novo em troca dela.

– Mas caminhão vive só encrencando.

Depois de mais algumas de suas mentiras tão verdadeiras, ele seguia empurrando a carriola pela rua sem asfalto, cachimbo pendente nos beiços e um olhar tão altivo.

Era um homem realizado. Ninguém nunca o humilhava. Possuía latifúndios de fumaça.

Mesmo sem fumar, aos poucos fui me tornando um Bernardo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

VOLTA ÀS ORIGENS

Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo), em 2 de outubro de 2011.

A biblioteca como síntese do mundo – esta parece ser a ideia borgeana que move a escrita de Eustáquio Gomes. Em seu livro de crônicas A Biblioteca no Porão (Papirus, 2009), ele heroiciza um leitor que exerce reverência total à palavra escrita: “colecionador de impressos encantadores, aproximador de disparidades e, dentro do possível, organizador do mundo” (p.32). As crônicas de Eustáquio propõem a biblioteca como centro da experiência humana, entendendo que todo escritor deve, antes de mais nada, reinventá-la. O seu papel é o da abelha, que colhe em várias flores o doce para a colmeia. Ele se sente assim “fiel ao costume de servir ao leitor o mel de minhas leituras” (p.78).

Esse papel de coletor do melhor não forma apenas o leitor apaixonado, mas também um escritor que exerce a ficção como uma oportunidade de aproximar livros distantes, de ordenar mundos imaginários, tal como se pode ver em sua recente novela – O Vale de Solombra (Geração Editorial, 2011). Nesta narrativa, o resumo do mundo está numa loja de livros usados, onde o passado ainda não terminou de acontecer, criando vias de comunicação com as pessoas que ocupam de maneira instável o tempo presente. Ler um livro que foi contemporâneo de um escritor ou leitor morto há décadas é uma forma de suspender a passagem do tempo.

Em capítulos curtos, na melhor tradição oswaldiana, Eustáquio Gomes conta a história de Benjamin, um velho judeu – essa etnia livresca por excelência – que vaga pelo interior em busca de obras especiais. Ele entra em contato com o dono de um sebo, um homem pragmático, que só acredita no real. A loja é um espaço de silêncios, misterioso por desdenhar o burburinho da História, criando passagens para outras temporalidades.

Mas a pressão da realidade não cessa nunca. Acossado por dívidas (não paga a pensão da ex-esposa), o livreiro Quintana é preso, solto, mas tem de fugir para não sofrer maiores constrangimentos. Na fuga, acaba sendo atropelado e seu corpo desaparece. É esse fato que instaura um mistério. Ele fugiu e forjou uma morte? Ou seu corpo se perdeu ao ser arremessado no rio?

O enigma só cresce na novela, pois, na segunda parte, vemos Quintana numa dimensão nebulosa, uma réplica dos Gerais de Guimarães Rosa, um passado que recebe os refugos do hoje. Ele se move ali como fantasma.

Na terceira parte, os esclarecimentos desse mistério só o tornam maior. O corpo de Quintana é encontrado, embora a família receba cartas daquele passado no qual ele esteve e ainda continua existindo; e ficamos sabendo do testemunho de um casal de pescadores, que lembra que o livreiro foi atropelado mas depois fugiu. Ironicamente, o homem que só acredita no mundo físico, acaba submetido a uma existência mágica.

De onde vem essa energia? Para tentar responder isso é bom lembrar o primeiro título desta novela: Lemniscata. A chave para a compreensão do livro talvez venha daí. A lemniscata é o símbolo do infinito, e Guimarães Rosa a usa no final de Grande Sertão: Veredas. O narrador de Eustáquio explica o sentido deste símbolo: “a lemniscata não tem começo nem fim, percorrendo a si mesma numa órbita interminável – figurando o infinito” (p.24).

Esta Minas intemporal é habitada pelo túnel que os livros criam, permitindo a permanência num não espaço, onde inexistem pessoas, apenas personagens, atraindo-nos para suas existências impalpáveis.

Em O Vale de Solombra desfilam inúmeras referências literárias, fundadoras para Eustáquio Gomes, este mineiro exilado em Campinas, que volta à Minas edificada em nosso imaginário a partir de Guimarães Rosa. Minas se faz assim uma imensa biblioteca universal.

Serviço:
O Vale de Solombra, de Eustáquio Gomes. Geração Editorial, 168 págs, R$ 19,90. Novela.

domingo, 2 de outubro de 2011

UMA LACUNA A MENOS


Em 1986, fiz uma viagem etílica e literária a Curitiba.

O pretexto era participar de um congresso de estudantes, fiquei por isso hospedado na sede da UNE, nas imediações do Centro Histórico.

Política, álcool e livros.

Estive várias vezes no sebo da Emiliano Perneta, comprando livros que me interessavam. Era um prazer muito grande, maior do que o do álcool e o da política, ficar perdido entre as estantes.

Lembro-me de alguns livros decisivos na minha vida, comprados nesta época. Entre eles, Moise e o mundo da razão, retrato de “um ilustre escritor fracassado”, de Tennessee Williams, obra que nunca mais reli e nem sequer tiro da estante – estou fazendo isso agora.

Minha biblioteca sempre me foi inconstante, declaradamente infiel. Muitos amigos ficaram com livros, dei inúmeras obras de presente, dizendo que iria repor, mas acabava me esquecendo, aceitando viver com essas lacunas. Viver com lacunas, sei, é uma redundância.

Recebo agora e-mail de Josepha Perez, irmã de minha querida e falecida professora Cida Zanatta Perez, dizendo que conseguiu arrumar a biblioteca da irmã, hoje uma biblioteca comunitária, em Mandaguari (Norte do Paraná), e que encontrou um pacote de livros endereçado a mim. Antes de se mudar para Campinas, e bem antes de falecer, Cida Perez pretendia me devolver uns livros que eu lhe emprestara. Eram três obras de José J. Veiga, que eu havia comprado na tal viagem a Curitiba e, depois de ler, indicara para minha professora. Queremos que as pessoas que admiramos leiam os livros que admiramos. Não sei se a Cida os leu, mas agora, 25 anos depois, eles voltarão para casa. Josepha vai me mandar os exemplares e eu vou relê-los. Comprarei outros, novos, para doar à biblioteca comunitária que já recebeu uma caixa de livros saídos aqui de minhas estantes; mas estes velhos quero-os comigo.

Uma biblioteca, por mais que a dispersemos, acaba sempre voltando a seus donos, mesmo que invariavelmente ilegítimos.

DORES MALDITAS DE AMOR

Publicado no caderno Pensar, do Estado de Minas, 1 de outubro de 2011.

Já com uma carreira consagrada como desenhista que optou pelo preto e pelo branco (herança de seu trabalho em gravura), Poty Lazzarotto (1924-1998) começou a usar cores, retomando assim a identidade inicial de pintor. Seus desenhos ganharam um colorido forte. Guardadas as distâncias, os novos contos de Dalton Trevisan – O anão e a ninfeta (Record, 2011) – também apresentam uma suavização. Nos livros mais recentes, preponderava a obsessão por marginais, com sua linguagem crua e sua vida perversa. Estes personagens ainda são vistos no novo livro – nos contos “Uma rosa para João” e “O coração” –, mas eles não dominam mais a cena. O contista se concentrou num movimento que se compara às cores em Poty – as relações amorosas.

Desde os anos 70, o sexo é um dos alicerces desta obra. Então, não se pode pensar em uma mudança de foco. Mas, agora, mais do que o sexo o que sobressai é o amor. Não que não haja desejos e tensões sexuais neste sentimento, mas parece que o amor ganha uma centralidade inesperada nestes contos da maturidade.

Espião da vida alheia, o contista flagra uma discussão de duas lésbicas em “No café”. O drama sentimental acontece em um lugar público, mostrando as conquistas de igualdade entre os apaixonados. O narrador tudo observa, fingindo ler o jornal, e conclui, pacificado com esta inovação dos comportamentos sociais: “É isso. O velho amor. Não escolhe hora nem lugar. Muito menos pessoa” (p.136). A manifestação do amor traz uma energia repetitiva: mudam os atores e as formas, mas os dramas são os mesmos.

A maior parte dos contos vai tratar deste velho e novo amor. O conto que dá título ao livro é a história de um anão que, mesmo se sentindo rejeitado, não para de tentar conquistar mocinhas, por quem se apaixona perdidamente, tendo que se contentar, no entanto, com programas pagos. Se este “Don Juanito” é um dos heróis nanicos de Trevisan, um tipo risível, ele também traz inscrito em sua obsessão amorosa um poder de comoção. Diante do amor, elevado às alturas impossíveis, somos sempre anões.

Outro lírico incorrigível é o falso bibliófilo que aparece numa série de três contos – “O colecionador”, “A caixeira” e “Rute, meu bem”. Este recurso de soldar histórias independentes é muito comum em Trevisan, e atende a um projeto de pensar os contos como peças de uma novela. Ele alonga uma obra que só na aparência é composta por brevidades narrativas.

O colecionador destes contos é Tito, um senhor de idade que corteja as funcionárias dos sebos. Ele conquista corações adquirindo livros raros e caros, premiando assim as vendedoras com porcentagens generosas por essas vendas. Ele compra livros velhos não para ler, ou para reviver um passado cultural, mas para viver o amor neste presente tão precário. O contraste entre a juventude das caixeiras e a velhice dos livros dá o tom compungido destas histórias, que são também repletas de humor. Tito oscila entre a ridicularia destas paixões extemporâneas, disfarçadas de mania bibliófila, e o lirismo de um amor que não aceita as limitações de tempo. Entre um pólo e outro, rimos e nos solidarizamos com o personagem.

Pertence a este mesmo campo – o do amor na velhice – o conto “A ninfeta e a matrona”, permitindo um contraponto perfeito para as histórias do homem que comprava livros que não iria ler. Aqui, o amor de um senhor viúvo – de 74 anos – não tem como objeto o corpo pipilante de uma ninfeta, que faz a paisagem toda cantar. Ele está apaixonado por uma senhora de 68 anos, que foi o seu amor da juventude. Além do humor que o conto explora, há também a beleza desta paixão madura, que desafia de maneira mais insana esse vilão chamado tempo. No final, depois de ironizar este amor, o interlocutor – o conto é apenas o diálogo entre dois homens – termina de maneira inesperadamente solidária, numa adesão ao outro tão rara na obra irônica de Dalton Trevisan: “Seja feliz, amigão” (p.83).

Nesta área vale tudo. A mulher pode se deixar escravizar pelo galã bonitão (“O distinto”); o namorado suporta as crises de uma moça com problemas psicológicos (“Bipolar”); o homem bem casado e morando em outra cidade se submete a viagens constantes a Curitiba e aos desmandos da amante (“O jogo sujo do amor”); o noivo se torna subitamente atraído pela estranha salada de caquis que a mocinha lhe serve (“Os caquis”); o senhor abandonado não se cansa de lembrar da amada, vivendo e revivendo o velho amor (“O mesmo”); o bonitão aceita o filho de outro (“Anjo bastardo”); etc. Há uma frase deste último conto, oriundo de outros livros de Trevisan, que resume a condição indefinível, e portanto descontrolada, deste sentimento: “O amor, essa coisa, sabe como é” (p.72).

Embora o amor sexual seja preponderante, há ainda o amor materno, como em “Três gotas de sangue”, em que a mãe que tanto idolatra o filho vê que ele só ama de verdade a mocinha que cuida dele. Ou ainda o amor do filho pela mãe em “O caniço barbudo”. Aqui, o filho, assim que o pai morre, se deita no lugar deste, ao lado da camisola florida da mãe também morta. Ele assume uma misantropia total, ficando preso em casa, pois a casa é o mundo; e o mundo todo para ele é a mãe.

Mas, de todos os contos, o mais intenso é “O rosto perdido”. Verdadeira obra-prima autobiográfica, em que o narrador vive a sua solidão numa casa antiga, mexendo com seus papéis no escritório externo – a famosa cabana – e alimentando um amor desaparecido. O vazio da casa é preenchido pela sombra de um rosto feminino. O homem e o cachorro sentem a falta da amada. Este conto apresenta o escritor com uma humanidade imensa, despido de seu olhar crítico, totalmente entregue ao abandono. Quando recolhe, na madrugada de insônia, o cachorro também solitário, ele desmorona: “Não resisto, na calada as lágrimas fluem dóceis e quentes. Até que arrebento em soluços ferozes. Por ele e por mim” (p.143). A falta da amada, a casa silenciosa, o diálogo com o cãozinho, tudo isso deixa o narrador desprotegido diante do nada de um céu vazio.

Renunciando, neste livro, ao preto e branco das narrativas mais ácidas, mas sem perder a pegada de pugilista, Dalton Trevisan recorre a estas cores sentimentais, cores fortes, pois o autor só vê o lirismo misturado aos componentes corrosivos, negando-o, tal como o narrador de “Rute, meu bem”: “Ai, dores malditas de amor. Que assunto mais usado e repetido. Eterno cantiquinho monocórdio. / Nem sequer merece um conto” (p.96). Mesmo concluindo isso, por meio de um narrador, Dalton Trevisan escreve e reescreve seus contos de amor e de desamor.