domingo, 27 de novembro de 2011

AMBAS


Meu filho Antônio, com 4 anos, está se tornando canhoteiro, embora eventualmente use a mão direita. Claro, não obrigamos o menino a seguir nosso padrão, e ele vai encontrando o seu melhor lado.

Nunca escrevi com a mão esquerda, com a qual tenho muitas dificuldades laborais, mas ultimamente estou me fazendo ambidestro.

Usando muito a internet, a mão mais solicitada é a que comanda o mouse, com o trabalho essencial do indicador. Há dias em que esta mão e seu dedo que dispara os cliques estão completamente destruídos, então mudo o mouse para a outra mão, para dar descanso à principal.

Estou nesta fase esquerdista, e não me sinto nem um pouco limitado. No mundo digital, chuto agora com as duas mãos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AJUDE A DECIDIR O TÍTULO DE UM LIVRO MEU

Depois de ter escrito uma coluna semanal de crônica no Caderno G, da Gazeta do Povo, entre 2003 e 2010, voltei a fazer crítica.

Ao longo dos anos, usei parte deste material em 4 livros meus, que recolhem 82 textos nascidos em jornal:

Herdando uma biblioteca (Record, 2004)
Impurezas amorosas (Leitura, 2006)
Um camponês na capital (Aymará, 2009)
De pai para filho (Scipione, 2010)

Agora, para ordenar este passado, estou organizando uma coletânea que encerra esta fase de minha vida.

Tenho dois possíveis títulos para o livro:

VISTA-SE LOGO, QUERIDA

ou

MINHA VIDA DE MULHER

Agradeço quem puder opinar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RUÍNAS NARRATIVAS

Publicado na Gazeta do Povo, 20 de novembro de 2011.


Escrito como se fossem ruínas de outros livros, Alvo Noturno, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras, 2011), renuncia aos recursos fundadores do romance policial. A maquinaria narrativa a funcionar com perfeição, marca deste gênero, é que joga a leitura para frente, prendendo o leitor. O livro de Piglia antes se arrasta, prejudicado pela sucessão de episódios soltos, de linhas que seguem para um lado e depois desaparecem, sem a menor relevância para o todo, a não ser para conduzir o leitor a espaços vazios da trama.

Atendendo a um desejo experimental, Piglia escreve uma obra aberta, que não renova esta gramática e sim a inviabiliza. Há um contrato de leitura estabelecido entre o leitor de policiais e o narrador que pressupõe um fechamento mínimo, recusado programaticamente pelo escritor argentino, um intelectual mais interessado em teorias do que na criação literária. Tudo neste livro é marcado por uma energia centrífuga. Há pedaços de histórias que não se sustentam, diálogos opacos absolutamente dispensáveis, longas descrições decorativas, confissões de personagens que não servem para nada; enfim, a impressão que o romance deixa é de que ele foi feito com pedaços de outros livros, justapostos de maneira aleatória.

Isto dá a Alvo Noturno uma flacidez que o compromete não apenas como romance policial, mas como grande ficção. A gratuidade de cenas, diálogos e reflexões é o seu principal defeito. Em nenhum momento, o leitor se sente diante de um mundo verossímil. O povoado onde se passa a ação é apresentado ora como um fim de mundo, minúsculo e retrógrado, ora como um lugar progressista. Uma das teses da morte de um estrangeiro (sim, há o mistério de um morto, pois o DNA da obra se mantém policial) leva a uma questão de especulação imobiliária – um grande shopping center seria construído no meio do nada, onde já funciona uma antiga fábrica, referência de uma modernidade periférica. Mesmo o personagem principal, o comissário Croce, não consegue ser mais do que uma versão incompleta do inspetor Maigret, de Simenon. Ele está sempre rondando os suspeitos e não consegue tirar a menor conclusão do que o atinge. Em determinado momento, enlouquece e se interna num hospício, de onde manda cartas anônimas que não têm sentido dentro da obra. Daí em diante, quem conduz a investigação é um jornalista de Buenos Aires, que passa longo tempo no campo, gentilmente liberado de seu trabalho.

Há um clarão misterioso que se manifesta à noite e que também não existe além da sua condição de pista mística, que explicaria a manifestação do mal. O livro traz ainda inúmeras notas de rodapé que introduzem informações supérfluas ou redundantes. E mesmo o episódio central para o crime, a entrada de um dinheiro sem fisco, para pagar as dívidas do filho do poderoso estancieiro, não convence. O pai poderia levantar muito mais dinheiro sem precisar “importar” aquele valor (para ele pequeno) de uma de suas contas no exterior.

Tudo soa falso no livro, embora a sua tese seja extremamente interessante: é impossível clarear o que está por trás de um assassinato. “Lutamos para descobrir as causas e deduzir os efeitos, mas nunca conseguimos conhecer a rede complexa de intrigas [...]. Quanto mais perto do centro você está, mais se emaranha numa teia sem fim” (p.242). Nem o comissário nem o jornalista desenredam o crime, que permanecerá na escuridão. Sabe-se apenas que foi condenado um inocente – um homossexual. Mas para se obter este efeito de emaranhamento e obscuridade, Ricardo Piglia usa uma coleção de lugares comuns, como se reciclasse uma tradição comercial de literatura. Alvo Noturno só tem sentido como crítica às limitações de um gênero. O seu valor está neste fim metalinguístico e não na transcendência literária.

Serviço:

Alvo Noturno, de Ricardo Piglia. Tradução de Heloisa Jahn. Companhia das Letras, 256 págs., Preço médio: R$ 38,90. Romance.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

CADERNOS DE CONTABILIDADE

Escrever diários se confunde com tomar remédios. Tantos comprimidos diariamente. Podemos até falhar um ou outro dia, mas é preciso continuidade para o tratamento fazer efeito.

Escrevo à mão, em cadernos que ficam na minha mesa. Não releio, confiando totalmente na eficácia do remédio.

O diário é uma contabilidade do precário.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

FUNDOS FALSOS



Virou moda, na ficção, o uso de notas de rodapé com função narrativa. É um reaproveitamento, com fins irônicos ou pelo que há de inusitado, de um recurso usado de forma nauseante nos textos acadêmicos. Na ficção ou na poesia, a nota de rodapé não é algo externo ao texto, criando antes uma tensão. É uma espécie de fundo falso, onde o leitor encontra algo a mais sobre os episódios.

Alguns autores se valem deste expediente para criar um efeito de estranhamento. Ricardo Piglia o usa recorrentemente em Blanco Nocturno (2010). Antes dele, e de forma um pouco diferente, mas com idêntica intenção, J. M. Coetzee utilizou a mesma ferramenta em Diário de um ano ruim (2007). As notas, aqui, criam um universo narrativo subterrâneo.

Nesta onda de confundir o aparato ficcional com o acadêmico, em romances que se aproximam de estudos teóricos, Paulo Scott cria capítulos inteiros que são réplicas de notas de rodapé em seu Habitante irreal (Alfaguara, 2011).

Identifico o início deste uso na poesia de Manoel de Barros, que fazia poemas paralelos em rodapés em um de seus livros mais importantes, Gramática expositiva do chão (1966). O poeta pantaneiro zombava assim da função explicativa das notas, mostrando que em poesia tudo é enigma. Parece-me que ainda é esta a compreensão dos romancistas hoje, que as notas não explicam nada, antes aumentam as dúvidas.

Ao mesmo tempo, elas mostram a força de um imaginário linguístico universitário, que mesmo criticado não deixa de ser uma sombra devoradora.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

DEVOLVER-SE A SI MESMO

Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo), 13 de novembro de 2011.

Desde Maíra (1977), de Darcy Ribeiro, a questão indígena não aparecia como centro de um romance contemporâneo de projeção nacional. Nossa literatura se fez caminho para a distância, um caminho de tema e de linguagem. Com Habitante Irreal (Alfaguara, 2011), Paulo Scott retoma, em termos atuais, o dilema do índio, cada vez mais forçado a desposar o urbano. Trata-se de um romance forte, com viés político e amoroso, em que experimentação de linguagem (Scott é também poeta) e realidade não se excluem.

Um militante petista de Porto Alegre, no final dos anos 1980, cruza com uma jovem índia num dia de chuva. A chuva é uma das metáforas do livro. Chove muito ao longo da vida dos personagens desta história cheia de dramas. Para se manter fiel a seus ideais, Paulo (o militante) tem que dar carona para Maína – eis seu nome. E não só isso, tem que tentar fazer alguma coisa para melhorar a vida dela e a de seus familiares. O idealismo leva a uma intervenção desastrosa num universo já precário, e ele termina por engravidá-la. Ao ser baleado num confronto com a polícia, desiste daquele sonho.

Maína coleciona papéis velhos para aprender a ler. Pela linguagem e pelo amor com Paulo, descortina um outro mundo. Abandonada, suicida-se, não sem deixar o filho bastardo a um casal de pesquisadores bem intencionados, mas com uma visão acadêmica da situação social.

É este filho – Donato – o personagem principal do romance. Educado num colégio internacional em São Paulo, ele vai adquirindo a linguagem do império (o inglês) e hábitos totalmente brancos, chegando a defender a absorção dos índios pela cultura dominante. Isso se efetiva com a morte do pai adotivo, quando ele possui a madrasta, ocupando o lugar do outro. Entre decepções, tragédias e coincidências, ele tem que perder a máscara civilizada para encontrar-se. Na volta a Porto Alegre, a mudança da família é queimada num acidente com o caminhão da transportadora; só lhe resta agora o vazio da antiga casa do padrasto. Poderia repetir uma passagem de Maíra: “Aqui estou na minha aldeia, devolvido a ela, mas não devolvido a mim mesmo”. No caso dele, nem aldeia havia mais, pois sua mãe morava num acampamento de beira da estrada.

Donato é, no entanto, devolvido à sua história por meio de documentos e imagens deixados pela mãe. Herdando pelo sonho as tradições ancestrais de canto, transmuda-se em feiticeiro urbano. Constrói uma máscara de madeira, e entoa suas canções pela cidade, desempenhado performances antropológicas para restaurar-se como sujeito – pois até então havia sido mero espectro. A sua condição de índio não é exercida num retorno à aldeia – ele é um mestiço, uma pessoa entre dois mundos –, mas nessas aparições públicas. Torna-se um artista de si mesmo, dos de sua origem, vagando pelas ruas em uma identidade primitiva. É a selva ambulante, o mundo que, destruído, ainda vive.

Como parênteses a esta história, há o que poderíamos chamar de narrativa externa, a da própria escrita do romance, que só se revela no último capítulo, em uma das muitas notas de rodapé que introduzem sempre um fundo falso. Paulo Scott cria este artifício para que o leitor descubra que o romance é na verdade um grande teatro vivo, onde a existência está sendo encenada. Aqui, reconhecemos a semelhança entre o narrador e o autor na concepção da arte como uma forma desencantada de se engajar nas dores coletivas.

A arte como uma militância sem propósito prático (avessa à ocupação de cargos), como uma utopia desesperançada, fazendo da habitação simbólica um caminho para a autenticidade.

Serviço

Habitante Irreal, de Paulo Scott. Alfaguara, 262 págs. Romance.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MONSTRO

Raramente releio meus livros depois que são publicados. A escrita e a revisão dos originais me consomem tanto que, quando me livro deles, publicando-os, já não sou mais leitor para esse material. Algumas pessoas comentam passagens e eu fico em silêncio – não tenho convivência com estas histórias. Elas se fizeram autônomas.

A reedição de meus romances seria uma oportunidade de revê-los. Ali por volta de 2003, haveria uma grande compra da Secretaria de Estado de Educação do Paraná de Chove sobre minha infância, e a editora teria que tirar uma nova edição. A compra não saiu, fui acusado de ser “homem do ex-governador Jaime Lerner” por certa pessoinha da SEED com pretensões literárias, e meu livro foi retirado da lista. Era assim o governo Requião.

Por conta disso, reescrevi todo o meu romance de estreia. Eu estava pensando em ser um eterno reescritor. Como a compra não saiu, não vingou a segunda edição. E o livro foi publicado na Espanha a partir da primeira. Entendi então que este livro não poderia mais sofrer alterações. Ele tinha que ser o que ele era.

Agora, 11 anos depois, sai a nova edição, e resolvo não mexer em nenhuma linha. É o mesmo romance, apenas adaptado ao acordo ortográfico e com novo projeto gráfico. Acrescentei à capa frases de artigos sobre o livro. E não quis nem olhar o miolo.

Nos meus arquivos, há ainda a versão modificada do Chove. Não pretendo publicá-la. Não a reconheço como melhor do que a primeira.

Na poesia, o movimento é inverso. Estou agora reescrevendo cada um dos poemas para minha Poesia Reunida, pois o gênero exige um acabamento preciso. Já o romance, como diz A. Alvarez, é um monstro flácido. E não se melhora muito um monstro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

CLAUDIA NINA SOBRE ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?


SONHOS DE ESCRITOR

Então você quer ser escritor? (Record, 2011) A seleção de narrativas curtas ganhou meu abraço: adorei. Em dois dias, li com entusiasmo histórias diversas quanto ao tema, coerentes quanto ao estilo sempre bem conduzido do autor. A última é a que dá título ao livro -a melhor de todas. Imperdível para quem alimenta sonhos de se tornar escritor. E saberá se ainda há tempo de desistir...

Revista Seleções, setembro de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

PARA SER UM AUTOR INTEIRO

Publicado no Caderno G (Gazeta do Povo), em 06 de novembro de 2011.


O que se ama e o que se odeia é que escrevem a literatura, defende Ray Bradbury, numa coletânea de ensaios e de poemas que talvez seja um dos mais fascinantes livros sobre a atividade literária: O Zen e a Arte da Escrita (Leya, 2011). Não se iluda o leitor, no entanto. Não se trata de uma obra de aplicação de filosofia oriental ao processo criativo, mas um conjunto de depoimentos apaixonados.

O primeiro pré-requisito para quem quer escrever, neste receituário radical, é o entusiasmo, o estado febril, a elevação da temperatura da linguagem. Quem não for capaz de sentir um prazer incontornável na hora da escrita estará fadado a não se constituir artisticamente: “Se você está escrevendo sem entusiasmo, sem prazer, sem amor, sem alegria, você é apenas meio autor” (p.22). A escrita “deve atingir a página como um raio” (p.23). E aí se chega a um elemento essencial para um texto se realizar plenamente no leitor: a velocidade.

E velocidade nada tem a ver com brevidade. Há textos breves e, mesmo assim, de leitura insuportável. A rapidez na hora da escrita é fator fundante de uma literatura que diz o que tem que ser dito, que não cria anteparos que a desvirtuem: “Quanto mais rápido você se expressar, quanto mais prontamente escrever, mais honesto será” (p. 31). A lentidão propicia um esforço de estilo, uma construção de linguagem que cerceia as pulsões mais profundas de um eu que deve funcionar como um silo de experiências humanas.

Para se tornar um repositório de memórias e de imaginação, Ray Bradbury entende que o escritor deve cultivar uma fome total pelo mundo, pelas pessoas, pelos ambientes frequentados tanto em vida quanto em sonho. Este acúmulo de ser funciona para ele como a Musa, uma entidade voraz que desencadeia informações reativas, dando origem a histórias. Para se cultivar este estado de absorção simbólica do mundo, é fundamental a intimidade com a poesia. Da minha parte, sempre desconfiei do ficcionista que não lê poesia, pois um poema é uma cápsula de vida, um concentrado que nos dá uma energia de linguagem impossível de ser encontrada em outro suporte. A poesia nos ensina a sermos nós mesmos, a percorrermos as regiões escuras de nossos sonhos e pesadelos, território de nossas raízes.

Assim, o mundo externo só atinge a sua potencialidade artística quando recolhido ao inconsciente, onde os detritos mais diversos se fazem adubo. É lá, no que Bradury nomeia como self intuitivo, ou mente secreta, que se encontra a terra fértil da escrita. Dessa viagem ao centro de si mesmo é que trazemos as narrativas que não poderiam ser produzidas por nenhuma outra pessoa. É lá que se encontra a voz individual, nascida das leituras perturbadoras e de tudo o mais que atingiu a pessoa, ferindo-a.

Neste perfil de um autor que não controla o que escreve, que libera as comportas de uma usina interior, a escrita não é uma construção, e sim uma água incontrolável que chega como transbordamento: “Aprendi a deixar os meus sentidos e o meu Passado me contarem tudo o que era, de algum modo, verdadeiro” (p.100). O que compromete a arte é a submissão a uma autoconsciência, que nos afasta deste terreno da verdade de cada um. É preciso se inundar do mundo, vivendo tudo numa grande vertigem, e depois deixar que a escrita se faça a vazante das tensões acumuladas.

Por isso, as três grandes atitudes literárias, na visão de Bradbury, são: “trabalho, relaxamento e não pense!” – escrever todos os dias por décadas, para adquirir uma naturalidade neste ato, para que ele não seja uma exceção na rotina da pessoa; derrubar o controle das intenções de um texto; e não refletir sobre a história antes, deixando que ela se imponha.

Como se pode ver, para ser um autor inteiro há que jogar a vida na escrita.

Serviço:
O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury. Tradução de Adriana de Oliveira. Leya, 168 págs. Preço médio: R$ 19,90. Criação literária.

sábado, 5 de novembro de 2011

LEITURA EXPERIMENTAL


Alguns bons livros emperram? Isto é que me pergunto num momento em que acabo sempre parando de ler obras que me agradam. Tenho aqui na mesa vários livros começados. Ao invés de terminar alguns cuja leitura está bem avançada, começo outro livro.

Tento me justificar.

– Há tempo mais de começar a ler os livros do que de concluí-los.

Mas a verdade talvez seja outra.

Estou tão contaminado pela dispersão da internet que perdi o fôlego para cruzar correndo um romanção de 400 páginas. No meio da leitura, deixo a poltrona para ver e-mails, para acompanhar o rio-corrente do twitter, e acabo fisgado por um belo artigo de Enrique Vila-Matas em El pais ou por qualquer outro texto.

Semanas atrás, convivi uns dias com uma pessoa totalmente conectada, e fiquei meio assustado. Ela postava coisas no blog e no twitter, conversando na mesa do café, e roendo a unha sem parar. Era tanta ansiedade para saber o que estava passando na internet que ela não conseguia acompanhar as conversas.

O lado bom de tudo isso é que hoje toda obra literária, por mais convencional que seja, na hora da leitura se faz experimental. Uma leitura como colcha de retalhos narrativos (de vários autores e gêneros), composta ao longo de semanas, mais fragmentária e polifônica do que a obra do mais inovador dos ficcionistas.

Não lemos mais o livro, mas um conjunto sucessivo de pedaços de textos, dentro da mesma lógica que percebemos a realidade.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

DESBOCADO


quando eu enfim adoecer
agora pela derradeira vez
haverá talvez quem queira
ainda e de novo me ver

peço por favor não venha
continuarei sem tempo
aprendendo a apodrecer
sozinho e rapidamente

é tão breve um cadáver
pior se de doença grave
que pra ele é sempre tarde

melhor vocês se afastarem
o odor será sua última palavra
vão todos praquele lugar