sábado, 31 de dezembro de 2011

CARTA A DANIEL PIZA

Morreu ontem o jornalista Daniel Piza, com quem mantive, por um tempo, uma correspondência digital. Não o conheci pessoalmente, mas acompanhava seu trabalho, embora tivesse parado de ler a sua coluna no Estadão por não concordar com a maneira como ele desprezava a literatura brasileira. O último livro dele que li foi Aforismos sem juízo (Bertrand, 2008), um tema de meu interesse, e comentei em carta a minha leitura. Segue o que escrevi à época para ele. Infelizmente não anotei a data.




Prezado Daniel


Aproveito o domingo para, enfim, ler o seu livro Aforismos sem juízo. Aforismos e domingo são coisas que se aproximam. Há uma leveza de pensamento e de escrita que se manifesta mais naturalmente num feriado. Então, uni estas duas coisas.

Começo esta carta – pois sou hoje um ex-crítico – com um aforismo de Nietzsche, que está nos Fragmentos do espólio. O velho filósofo dizia:

“Quem escreve aforismos não quer ser lido, mas decorado”.

Verdade profunda esta. E a mesma coisa vale para a poesia. Quem escreve poemas não quer ser lido, mas decorado. Dito isso, é preciso avançar um pouco no que diz o mestre. Não poderemos decorar todos os aforismos, inclusive porque nem todos foram escritos para nós. Assim, vamos selecionando, como numa prateleira de mercado, os produtos dos quais necessitamos. Para ler aforismos, e depois poder decorá-los, precisamos de um instrumento. Este instrumento se chama lápis. Vamos grifando, uns com um traço na vertical, outros com um xis, enquanto outros são totalmente circundados. São justamente estes últimos os que devem ser decorados.

Aforismos existem para que os usemos nos momentos em que a vida nos pede uma idéia, uma resposta, e então nos saíamos com algo sintético, espirituoso, extremamente cortante. O aforismo é como um estilete, um caco de vidro. Corta fundo. Deixa cicatrizes em que o ouve.

Se há uma diversidade muito grande num livro de aforismo, existem procedimentos constantes. No seu livro, identifiquei alguns deles. O primeiro é o livre-pensar. Tudo pode ser dito, todo conhecimento pode ser alcançado. Não como uma montanha longamente escalada, mas como uma pedrinha, que catamos no chão da existência, fazendo dela uma arma, ao menos um sinalizador, pois a atiramos na vidraça dos leitores.

Outra constante é a ironia, que você consegue obter ao desorganizar frases feitas, ao explorar as semelhanças das palavras, ao brincar com o leitor, rompendo idéias galvanizadas. O bom autor de aforismos é sempre irônico, não podendo nunca se levar 100% a sério.

Outro procedimento é o da experiência gerando uma regra, uma concentração de significado. Por isso, os grandes aforismos são os menores.

Das partes do livro, o que mais me agradou – como não poderia deixar de ser – é a última, sobre cultura e saber. Nesta, você escreve a partir de sua essência, a condição de leitor.

Mas não quero falar sobre os seus aforismos, quero que eles falem por mim. Abaixo os aforismos que pretendo decorar.

A esperança é a única que morre.

Quem espera sempre cansa.

Já há esperança suficiente em dormir bem.

Toda lucidez pede penumbra.

É dizendo o que se pensa que se respeita o que o outro pensa.

Sem calma não se pensa. Sem pressa não se capta.

Um homem inteligente sem amigos inteligentes é menos inteligente.

Ética é aquilo que defendemos que os outros façam enquanto não estamos na mesma situação em que eles estão.

O sentido da lealdade é ser mútua.

O acerto é solidário; o erro, solitário.

Não há crítica mais destrutiva do que a posteridade.

Aprendi a rir. Nascemos sabendo chorar.

Se houvesse perfeição, não haveria movimento.

Poder viver em qualquer lugar e não ter ansiedade de viver em outro lugar – eis a condição mais próxima da felicidade.

Todo pai pensa no bem do filho. Todo filho pensa nos bens do pai.

Burocracia é a ineficiência disfarçada de ocupação.

Quem vigia não cria.

Inveja é confissão de incapacidade.

A vantagem de não ter sido radical é não precisar ser conservador.

Minha pátria é minha íngua.

No Brasil, ser decente é uma forma de rebeldia.

A esquerda é a direita fora do poder.

Não há afrodisíaco com a adolescência.

Um grande autor até pode escrever sem dor, mas jamais sem ardor.

Escrever não se ensina, só se aprende.

A única fortaleza do escritor é seu impulso de escrever.

A grande arte é sempre uma fuga da futilidade.

Ter estilo não é ser correto; é tornar qualidade o que nos outros seria defeito.

Estilo é aquilo que você construiu e que já era seu.

Não existe cirurgia plástica como a fama.

Acadêmico, s.m. – O sujeito que acha que profundidade se mede pela borda.

No ato de digitar estes textos, vou conquistando uma maior apreensão deles. Só a memória nos dá a arte. Nunca os livros. Obrigado por ter acrescentado à minha memória estas verdades em doses letais.

Abraço do

Miguel

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

QUANTOS ANOS

Publicado na revista D'Pontaponta, n. 194, dezembro de 2011

Antônio e eu, em foto de Cristovão Tezza


A relação das crianças com o tempo está mudando. Algumas delas são mais sensíveis às experiências vividas, apresentando uma capacidade de entender esse processo por meio de metáforas espontâneas.

Quando Antônio completou 4 anos, ele me disse:

– Pai, agora eu cresci, não é?

Soou estranha esta conclusão de meu filho.

Crescer para ele é ter alcançado a idade avançada de 48 meses.

Na hora, apenas rimos deste raciocínio inusitado.

Esta semana, ele queria reclamar que o deixávamos meio de lado.

– Faz anos que vocês não me levam para andar de bicicleta – ele disse, soltando um suspiro.

Confesso que me diverti com esta forma de se expressar. Meu filho talvez tenha ouvido tal construção de mim ou de outro adulto. Uma criança na sua idade não pode ter uma percepção do transcurso de anos. Ele parecia um velho falando de algo que cessara em sua vida.

Ainda não levamos Antônio a um local em que possa andar de bicicleta, mas passei a refletir sobre sua maneira de perceber o tempo.

As pesquisas mostram que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Isso vem aumentando a população idosa, o que, a médio prazo, vai comprometer todo o sistema social. Teremos mais doentes, as aposentadorias se estenderão, a produtividade cairá etc.

Esta é, no entanto, apenas uma parte do problema. Em verdade, estamos envelhecendo muito desde o nascimento. Não se trata de um envelhecimento físico, pois conseguimos prolongar bastante a juventude. As mulheres de 50 anos na minha infância, por exemplo, eram velhas. As mulheres de 50 anos hoje são verdadeiras balzaquianas, muito ativas no mercado da sedução.

A sensação de passagem de tempo é que se intensificou; e a causa talvez seja o nosso relacionamento com o mundo dos objetos.

Vejam a diferença. Ganhei uma máquina de escrever Olivetti ‘Lettera 35’ em 1979. Eu havia concluído o Curso Bandeirante de Datilografia e queria treinar para arrumar colocação em algum escritório. Nada deu certo e acabei no Colégio Agrícola, como interno, mudando-me para lá com a máquina.

Ela me acompanhou durante o ensino médio, a faculdade, os meus primeiros anos de trabalho, a minha especialização e o início de meu mestrado. Comprei o primeiro computador em 1992, e daí em diante a quinquilharia eletrônica começou a se suceder num ritmo acelerado.

Os objetos mudam com tanta freqüência que nem nos lembramos mais deles. Tente listar todos os aparelhos de celular que você já teve. Esta obsolescência dos objetos funciona como um cronômetro enlouquecido. Como trocamos muito as coisas, descartando rapidamente as velhas, imaginamos ter vivido muito mais do que o que foi registrado pelos calendários.

Crianças de 4 anos já passaram por tantos brinquedos e produtos eletrônicos que sofrem uma sensação de perda e são tomadas por uma nostalgia que não condiz com a idade biológica delas.

No próximo aniversário do Antônio, não sei quantos anos ele terá.

ESTÚDIO DE LIEV TOLSTÓI

Liev Nicolaevitch, conde de Tolstoi, em seu estúdio em Yasnaya Polyana

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

MEDIR O TEMPO

Publicado na Gazeta do Povo, em 25 de dezembro de 2011.

Como uma pessoa pode se colocar fora do tempo?

Este parece ser o centro do romance Ponto ômega, de Don Dellilo. Na cena inicial, um acadêmico e um jovem documentarista são mostrados por um olhar anônimo durante a projeção de 24 hour Psycho, instalação de Douglas Gordon, no Museu de Arte Moderna de Nova York. Este vídeo exibe em ritmo de pesadelo, extremamente lento, o filme Psicose, de Alfred Hitchcock, fazendo com que os expectadores entrem em outra experiência cronológica, avessa à movimentação contínua da grande metrópole.

Esta instalação aparece no início e no fim do romance – sob o título de Anonimato. Conhecer minuciosamente os movimentos dos personagens ajudaria a compreender melhor as pulsões obscuras do ser humano? Eis o outro enigma proposto.

A partir do segundo capítulo, participamos da vida dos dois homens que visitam a instalação. Jim Finley, o documentarista, quer fazer um filme com o acadêmico Richard Elster, que foi conselheiro do Pentágono na Guerra do Iraque. Humanista, leitor dos poetas mais nobres, Elster usou o seu poder intelectual para sustentar como linguagem a guerra: “Era para isso que eu estava lá, para dar a ele palavras e significados” (p. 29), pois “o Estado precisa mentir” (p.28) . O jovem quer que ele se confesse para a câmera, purgando assim seus tormentos interiores.

Embora negaceando, ele convida o jovem para passar uma temporada no deserto de Sonora, onde possui uma casa rústica. É nesta anticidade que transcorrem os capítulos centrais. O deserto, entre outras coisas, promove a suspensão do tempo. Aos poucos, Finley vai perdendo a noção dos dias, entrando num mundo de essencialidades, de comunhão com a ferocidade da paisagem: “As cidades foram construídas para medir o tempo, para retirar o tempo da natureza” (p.41). Há ali um desejo de anulação da história para se atingir o ponto ômega, uma espécie de comunhão com a matéria, sem consciência nem dor, “um salto para fora da biologia”, uma volta para “a matéria inorgânica”, para ser “como pedras no campo” (p.48).

Matar a consciência humana é ao mesmo tempo esquecer a participação a distância do grande ritual de morte que foi a guerra. Nesta parte do romance, há uma teorização sobre este afastamento. Elster é afetivamente falido – separado, tem problemas com os filhos do primeiro casamento (apelidados de Desastre e Ruína) e com uma filha em dificuldades. Esta também segue para o deserto, alguns dias depois, fugindo de um namorado perigoso e incógnito para os pais. Ela imediatamente gera uma energia erótica, atraindo o visitante e fugindo dele. Tudo é enigma neste romance, que culmina com o desaparecimento da moça, provavelmente assassinada.

Este fato faz com que o tempo seja novamente mensurado: “eu voltara a contar os dias, tal como fazia no começo” (p.76). Logo em seguida, Finley diz: “À noite, os cômodos eram relógios” (p.77), numa percepção de que não há um lugar onde o tempo possa ser cego, refratário à cidade. O provável crime coloca Nova York dentro do deserto, anexando-o à sua temporalidade, e o acadêmico que tentava neutralizar ali a sua culpa pela morte de inocentes é obrigado a reviver tudo a partir desta perda pessoal.

O projeto do filme que iria mostrar um rosto como se fosse alma, que daria respostas às desrazões da guerra, perde completamente o sentido. Finley conclui que “a história estava acontecendo ali, não no Iraque nem em Washington” (p.87), e que não há repostas, não há verdades, por mais que tentemos retardar o tempo para tentar compreender os episódios. Nova York não para nunca, conclui o narrador deste ótimo romance que é pura poesia.

Serviço
Ponto ômega, de Don Dellilo – trad. Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 2011. 104 páginas. Romance.

domingo, 25 de dezembro de 2011

DE PEIXES E DE HOMENS

Caderno G, Gazeta do Povo, 18 de dezembro de 2011.




Fiel ao recurso do diálogo, marca de seus contos, Luiz Vilela (Ituiutaba, 1942) escreve agora um romance – Perdição (Record, 2011) – em que quase tudo se passa no interior das conversas que o narrador, o jornalista Ramon, tem com amigos, conhecidos e visitantes de uma cidade mineira fictícia chamada Flor do Campo. O relato desvia a ação para o terreno da oralidade. E este deslocamento cria um efeito muito moderno, o de não conceder certezas ao leitor quanto ao que motiva os acontecimentos. Quase tudo atinge o narrador de forma indireta, pela versão que os personagens criam sobre os fatos, versões em conflito, ora exageradamente falsas ora mais plausíveis.

Nesse sentido, o romance é a história de uma busca. Da busca da verdade sobre a trajetória de um jovem que, inicialmente sem ambição, levando uma vida humilde e honrosa, totalmente ligado à natureza – é um pescador –, vê-se seduzido por um estrangeiro que o convida para ser pastor de uma nova religião. Versão contemporânea da biografia do apóstolo Pedro, este relato mostra o jovem Leonardo no começo e no final da vida. A sua saga como pastor Pedro, no Rio de Janeiro, nos chega pela ótica alheia. Ele nunca consegue saber o que se passou de fato, nem quando se encontra com Leonardo, este já intelectualmente transtornado. Tudo são suposições. Diz Ramon sobre a verdade: “Jamais saberíamos” (p.372).

Ramon e Leonardo são amigos de infância, o que move o primeiro deles a tentar compreender o amigo que se aventura num caminho de exploração da ingenuidade humana. Ramon não encontrará nada além das hipóteses, mas o seu interesse, as renúncias que faz em nome do amigo, as longas conversas para tentar extrair alguma informação sobre ele, a preocupação com o seu sofrimento etc., isso é o que ele pode fazer pelo outro.

Nessas longas palestras, que seguem em várias direções, Ramon vai desmascarando a sociedade. A sensação que se tem é de que todos falam muito, inventam coisas, mentem para si mesmos e para os outros, numa prática descarada da hipocrisia. Assim, o fato de o pastor Pedro ludibriar as pessoas não é uma exceção à regra, é apenas a profissionalização deste impulso natural do homem, que promove o engano e se autoengana.

Em contraponto, Ramon ou fica quieto (ele repete constantemente um som que indica uma dúvida silenciosa: “Hum”) ou parte para a ironia. Por isso, há muitos momentos de humor no livro, momentos em que o narrador não resiste a trocadilhos, a zombarias e a ditos espirituosos, colocando em xeque as histórias que lhe são apresentadas como verdadeiras, sejam premonições ou relatos de graças conseguidas, sejam discursos políticos ou histórias forjadas de sucesso. O narrador passa em revista os mitos da cidade com um riso no canto dos lábios.

Muito mais do que desvelar os processos de exploração da fé alheia por conta de religiosos oportunistas, Perdição se fixa na predisposição das pessoas para um tipo de crença ingênua nas coisas mais improváveis: episódios folclóricos, relatos de milagres, maldições de curandeiros, mitificações de pessoas etc.

Num tempo de mentiras, em que só há versões, o romance nos apresenta uma pergunta: crer no quê? Ele parece sinalizar que só nos restam a natureza, os animais e insetos (há vários episódios em que eles são mencionados amorosamente) e uma atitude de amizade cada vez mais rara, mais difícil. O pescador Leonardo se perde ao tornar-se o pastor Pedro, mas em sua trajetória de retorno, que guarda um final trágico, ele restaura a antiga personalidade, integrando-se ao lago de onde vinha o seu sustento. E é como um peixe (podre e deformado) que ele é retirado das águas por parentes e amigos. Simbolicamente, como uma baleia morta.

Com uma fatura realista, um uso musical da linguagem, num estilo literário da oralidade, Luiz Vilela constrói o seu romance de maturidade, em que o banal cotidiano dos personagens se manifesta como tragicomédia.

sábado, 17 de dezembro de 2011

SÉRIE ESSENCIAL

Por Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo de hoje.


Organizada por Antônio Carlos Secchin, a Academia Brasileira de Letras está lançando uma coleção de livros uniformizados, muito bem editados, sob a rubrica Série Essencial.

São muitos os volumes, cada qual dedicado a um vulto importante de nossa literatura, incluindo seus membros já mortos e seus respectivos patronos, muitos deles sem quase nenhuma fonte de pesquisa ou informação.

Para aqueles que não se satisfazem com os dados fornecidos pelo Google, alguns deles completamente furados, a série, que é assinada por escritores em atividade, traz um ensaio sobre o autor, sua biografia, a relação de suas obras e uma antologia de seus melhores trechos ou poemas.

Falei no Google aí em cima e já entrei pelo cano por confiar estupidamente em suas informações. Cito apenas meu caso: nas páginas que se referem a mim, há erros lastimáveis, até mesmo um livro que nunca escrevi, "Cadernos do Fundo do Abismo".

Volta e meia, recebo cópia de algum trabalho feito por alunos e estudantes que estão fazendo mestrado ou doutorado, em alguns deles consta um livro que não existe e, querendo Deus ou o diabo, nunca existirá.

Evidente que na série em questão muitos autores possuem fortunas críticas abundantes, biografias excelentes, como a de Machado de Assis, Joaquim Nabuco, João do Rio, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto, José do Patrocínio, Gonçalves Dias, Gregório de Matos e outros.

Mas a maioria dos nomes que compõem a Série Essencial tem escassa literatura crítica e mesmo biográfica. É o caso de Antônio José da Silva, o Judeu, sacrificado pela Inquisição; e Ribeiro Couto, poeta a quem se deve a definição do brasileiro como o "homem cordial", expressão que erroneamente é
atribuída a Sérgio Buarque de Holanda, que apenas desenvolveu o mesmo conceito no capítulo 5 de seu hoje clássico Raízes do Brasil.

Excelente o volume dedicado a Graça Aranha [volume que organizei para a coleção], do qual a maioria dos entendidos salienta apenas a escandalosa briga com Coelho Neto a respeito do modernismo. Sua obra principal é "Canaã", muito citada, mas pouco lida. O bate-boca entre os dois escritores por pouco não chegou à luta corporal no próprio recinto da Academia. Prevaleceu a turma do deixa-disso.

Outro nome de destaque, hoje inteiramente submerso no mercado editorial e nas academias, é Domício da Gama, mais famoso como embaixador e ministro, protegido escancaradamente na carreira diplomática pelo barão do Rio Branco.

Foi o terceiro presidente da ABL, sucedendo a Rui Barbosa, que por sinal sucedeu a Machado de Assis.

Excelentes também os textos de Ferreira Gullar sobre Gonçalves Dias; sobre Afonso Arinos, com texto de Afonso Arinos Filho; sobre Rachel de Queiroz, texto de José Murilo de Carvalho; sobre Peregrino Júnior, texto de Arnaldo Niskier, destacando-se também o estudo de Alfredo Bosi sobre Machado de
Assis.

A Série Essencial prosseguirá no mesmo ritmo e com a mesma qualidade, dando relativa preferência aos autores do passado que raramente entram no catálogo de nossas editoras.

Embora escreva crônicas para jornais ou revistas há bastante tempo, não costumo abordar temas literários. Eventualmente comento um livro ou um autor, mas em 60 anos de ofício são raros os textos sobre o assunto.

Faço este registro da Série Essencial da ABL para ter o pretexto de transcrever um pequeno poema de Ribeiro Couto, que há anos mantenho sob o vidro da minha mesa de trabalho:

Cais Matutino

"Mercado do peixe, mercado da aurora: cantigas, apelos, pregões e risadas à
proa dos barcos que chegam de fora./ Cordames e redes dormindo no fundo; à
popa estendidas, as velas molhadas; foi noite de chuva nos mares do mundo./
Pureza do largo, pureza da aurora, há viscos de sangue no solo da feira, se
eu tivesse um barco, partiria agora./ O longe que aspiro no vento salgado
tem gosto de um corpo que cintila e cheira para mim sozinho, num mar
ignorado."

Quando estou triste, muito triste mesmo, e descrente de quase tudo, leio com
renovada atenção este pequeno poema, apesar de sabê-lo de cor.

Para comprar a coleção:
http://livraria.imprensaoficial.com.br/essencial-colec-o-serie-02-composta-de-alberto-f-machado-a-alvaro-m-austregesilo-a-antonio-j-afranio-c-sergio-c-josue-m-mario-a-alcantara-m-domicio-g-gregorio-m-magalhaes-a-visconde-t-e-graca-a.html

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

CULTIVAR ROMÃS


Gostaríamos que tivesse
nascido ao acaso,
de sementes excretadas
por pássaros

a romãzeira do quintal
comprada
na loja de produtos
agropecuários

mas tivemos que esperar
a frágil muda
adotar uma terra
inculta.

Da primeira florada
colhemos as cinco
frutinhas
saciando a fome.

Fome
do que um dia fomos
já que toda romã
vem da infância.

E foi com gula
que rasgamos a fruta
para repartir
seus rubis.

Na nova florada
duplicaram as romãs
que vergam
frágeis ramos.

A primeira delas
rachou logo
e foi invadida
por formigas.

De longe
apenas olhamos
as nove romãs
que ainda restam.

Esperaremos que todas
se desperdicem
ou que alimentem
os bichos?

Mesmo as romãs
viram rotina
neste jardim
rente à vida?

Acordemos cedo
amanhã
e disputemos
róseas romãs,

inventando
alegre vinho
em lábios
ilícitos,

para que insetos
e bichos
não nos tirem
os prêmios

e ao cuspir pelo jardim
sementes insanas
surja de nossas bocas
um pomar de romãs.

POESIA REALISTA


Affonso Romano de Sant'Anna e eu na Bienal do Livro de Curitiba (2010)


Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, em 11 de dezembro de 2011.

Há coletâneas poéticas cuja leitura não se faz pelos poemas em si, mas por algo que percorre os textos – uma voz, uma música, um sentimento. É uma forma de ler própria da prosa, em que o leitor quer a próxima página, o que virá logo à frente. Pertence a este grupo o volume Sísifo desce a montanha (Rocco, 2011), de Affonso Romano de Sant’Anna. Poeta maduro, com obra extensa, ele escreve poemas num idioma aberto, promovendo uma contração dos mecanismos literários.

Seus últimos títulos já traziam uma serenidade (um manso desespero, ele vai dizer a certa altura) ao tratar do fim, serenidade intensificada agora neste volume que, desde o título, se fixa nas trajetórias decrescentes. Este sentimento é a marca da coletânea em que o poeta se confronta com a morte – mais de um poema fala no crematório –, desejando-a e a repelindo, numa tensão permanente.

Viajando por vários países, por lugares carregados de História e por outros que vivem ainda à sombra dos mitos, o poeta reconhece a fragilidade da vida humana e ao mesmo tempo a sua força. Esses deslocamentos servem de espelho cego, que não mostram um eu, mas a ausência dele em espaços de alteridade.

Assim, o eu se torna menor nos poemas, desarmando a ilusão da originalidade. Não é a linguagem de exceção, a condensação de sentimentos, a inovação ou o trabalho formal que interessam a Affonso Romano de Sant’Anna. Ele está em busca de uma poesia que seja linguagem discretamente meditativa, colada à vida interior das pessoas, uma linguagem própria para falar e para pensar, que adquira uma condição vivente:

o frágil sopro
do monge que
                 imóvel
liga-se ao universo
e é só respiração.

A “poética da respiração” (título deste poema) perpassa todas as páginas do livro, mesmo quando ele assume um tom mais indignado (com em “Parem de jogar cadáveres na minha porta”), momentos esses que servem para preparar o tom brando de outros poemas. Aqui também há uma tensão entre opostos – revolta e resignação. O ritmo preponderante é, portanto, suave, porque este eu se sabe a cada hora mais às vésperas do fim.

Formalmente, os poemas se avizinham da crônica – o autor também é cronista –, em uma apropriação de recursos da prosa que garante o caráter transitável da linguagem. Na tradição da lírica moderna, há uma força comunicativa no que poderíamos chamar de poesia realista – mais um realismo de linguagem (próxima à respiração humana) do que temática – na qual é possível inscrever o autor mineiro. Não que ele faça crônica em versos, mas ele amplia as possibilidades da crônica ao transportar esta sensibilidade para o domínio do poema.

Seus poemas são formas de sentir, de pensar, de ver e de criticar a realidade a partir da trajetória de um intelectual que cruzou os 70 anos e que avalia a paisagem pessoal, devastada por tantas perdas, e também a paisagem histórica, e faz da linguagem um registro desses vazios. Dono de ampla erudição, Affonso Romano de Sant’Anna não a usa como força de argumentação, colocando-a em situação de diálogo.

Tenho colhido a vida dentro
e fora dos museus.
Quando o real me oprime
volto aos mestres
que me redimem.
Quando as obras me exasperam
volto à vida, ao jardim
às rosas
          - que me esperam.

Assim, o deslocamento do poeta pelo mundo, registrado em vários poemas nascidos em viagem, as referências a obras de artistas e as leituras são apenas um dos polos de sua poesia, que encontra no outro, na mínima e rica paisagem doméstica, nos afetos da madureza, um contraponto de linguagem que lhe dá a forma.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

POESIA REUNIDA

Capa feita por Alonso Alvarez - Editora Ficções - para o volume POESIA REUNIDA que será lançado no começo de 2012 - são cinco livros de poemas, publicados nas últimas duas décadas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

HABITAR ROMANCES


Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 4 de dezembro de 2011.

Na maioria das vezes, o ensaio literário é uma forma de presunção intelectual. Fala-se para os pares, excluindo o maior número de pessoas. Há também um desejo nunca confessado de fazer com que ele seja o substituto do livro ou dos livros a que remete. O trânsito das ideias tende a ser do crítico para o autor, pois aquele se vê como superior nesta cadeia alimentar. Em alguns casos, o texto analítico se desconecta totalmente da literatura, funcionando sozinho e no vazio.

Este modelo, além de não formar leitores para a literatura, ainda passa uma ideia de que esta é uma área irrelevante. Assim, o poder estaria na crítica, numa crítica que fez da autonomia uma anomalia. Mas o discurso analítico ainda pode dialogar com os leitores comuns, tornando-se vital para ele, ao mesmo tempo em que destaca o poder da literatura. É isso que se conclui da leitura prazerosa dos ensaios de William Deresiewicz – Aprendi com Jane Austen (Rocco, 2011).

Aluno de mestrado em Nova York, Deresiewicz era um jovem pretensioso, que se sentia confortável nos valores da modernidade: “Tendo frequentado o altar do modernismo, com suas posturas arrogantes e seus altos conceitos de sentido filosófico, eu acreditava que a grande literatura deveria ser perturbadora e hermética” (p.41). As imagens de adoração neste altar eram James Joyce e Joseph Conrad, até ele encontrar um professor atípico, que o leva à romântica Jane Austen, ensinando-o a escutar os autores, a dialogar em intimidade com eles, para compreendê-los e não para negá-los. Este mestre o convence de que “os estudos literários não têm relação com o aprendizado de alguma linguagem secreta ou o domínio de um monte de filigranas teóricas” (p.104) e restabelece o contato com as formas tradicionais de leitura.

Isso faz com que objeto de estudo de Deresiewicz mude imediatamente; ele passa a habitar os romances de Austen. Ao se dedicar de forma não preconceituosa a livros de outra época para escrever sua dissertação, o rapaz imaturo, em conflito com o pai, sem um lugar no mundo, obtém muito mais do que um ensaio acadêmico, pois descobre com a autora que “aprender a ler significa aprender a viver” (p.108). Assim, a pós-graduação, para além de um lugar de adestramento de discurso, foi uma oportunidade de amadurecimento.

Aprendi com Jane Austen é um livro deslumbrante, em que a vida do crítico e a análise dos romances caminham juntas. Deresiewicz não usa a primeira pessoa apenas para tratar das obras, ele se apresenta autobiograficamente, sem perder a sua capacidade de compreensão e elucidação dos livros, demonstrando como foi encontrando caminhos existenciais por meio dos romances.

Educação sentimental e social que ajudou um homem de 30 anos a se tornar adulto, os romances de uma autora com “uma linguagem que não chama a atenção para si mesma em momento algum, que vai se desenrolando facilmente como a respiração” (p.24), encarnam o poder humanizador do literário, que não está nos jogos, nas experimentações de linguagem e muito menos nas suspensões éticas, e sim nas particularidades de quem viveu os seus livros e não apenas os escreveu.

Com estes ensaios, Deresiewicz restaura a importância do eu biográfico, repassando as lições aprendidas com seu mestre Karl Kroeber, a de que toda leitura é antes de tudo uma postura receptiva diante de uma obra e a de que a literatura nos ajuda a chegar a nós mesmos.


Serviço

Aprendi com Jane Austen, de William Deresiewicz. Tradução de André Pereira da Costa. Rocco, 256 págs. Ensaios.

sábado, 3 de dezembro de 2011

PAINEL DAS LETRAS

Por Josélia Aguiar, Ilustrada, Folha de São Paulo, 3 de dezembro de 2011.

Inventário Está no prelo "Poesia Reunida", de Miguel Sanches Neto, inventário de versos do autor, que só pretende se dedicar agora à prosa. O volume vai incluir cinco livros, um deles inédito. Sai pela Ficções no começo de 2012.