Morreu ontem o jornalista Daniel Piza, com quem mantive, por um tempo, uma correspondência digital. Não o conheci pessoalmente, mas acompanhava seu trabalho, embora tivesse parado de ler a sua coluna no Estadão por não concordar com a maneira como ele desprezava a literatura brasileira. O último livro dele que li foi Aforismos sem juízo (Bertrand, 2008), um tema de meu interesse, e comentei em carta a minha leitura. Segue o que escrevi à época para ele. Infelizmente não anotei a data.
Prezado Daniel
Aproveito o domingo para, enfim, ler o seu livro Aforismos sem juízo. Aforismos e domingo são coisas que se aproximam. Há uma leveza de pensamento e de escrita que se manifesta mais naturalmente num feriado. Então, uni estas duas coisas.
Começo esta carta – pois sou hoje um ex-crítico – com um aforismo de Nietzsche, que está nos Fragmentos do espólio. O velho filósofo dizia:
“Quem escreve aforismos não quer ser lido, mas decorado”.
Verdade profunda esta. E a mesma coisa vale para a poesia. Quem escreve poemas não quer ser lido, mas decorado. Dito isso, é preciso avançar um pouco no que diz o mestre. Não poderemos decorar todos os aforismos, inclusive porque nem todos foram escritos para nós. Assim, vamos selecionando, como numa prateleira de mercado, os produtos dos quais necessitamos. Para ler aforismos, e depois poder decorá-los, precisamos de um instrumento. Este instrumento se chama lápis. Vamos grifando, uns com um traço na vertical, outros com um xis, enquanto outros são totalmente circundados. São justamente estes últimos os que devem ser decorados.
Aforismos existem para que os usemos nos momentos em que a vida nos pede uma idéia, uma resposta, e então nos saíamos com algo sintético, espirituoso, extremamente cortante. O aforismo é como um estilete, um caco de vidro. Corta fundo. Deixa cicatrizes em que o ouve.
Se há uma diversidade muito grande num livro de aforismo, existem procedimentos constantes. No seu livro, identifiquei alguns deles. O primeiro é o livre-pensar. Tudo pode ser dito, todo conhecimento pode ser alcançado. Não como uma montanha longamente escalada, mas como uma pedrinha, que catamos no chão da existência, fazendo dela uma arma, ao menos um sinalizador, pois a atiramos na vidraça dos leitores.
Outra constante é a ironia, que você consegue obter ao desorganizar frases feitas, ao explorar as semelhanças das palavras, ao brincar com o leitor, rompendo idéias galvanizadas. O bom autor de aforismos é sempre irônico, não podendo nunca se levar 100% a sério.
Outro procedimento é o da experiência gerando uma regra, uma concentração de significado. Por isso, os grandes aforismos são os menores.
Outro procedimento é o da experiência gerando uma regra, uma concentração de significado. Por isso, os grandes aforismos são os menores.
Das partes do livro, o que mais me agradou – como não poderia deixar de ser – é a última, sobre cultura e saber. Nesta, você escreve a partir de sua essência, a condição de leitor.
Mas não quero falar sobre os seus aforismos, quero que eles falem por mim. Abaixo os aforismos que pretendo decorar.
A esperança é a única que morre.
Quem espera sempre cansa.
Já há esperança suficiente em dormir bem.
Toda lucidez pede penumbra.
É dizendo o que se pensa que se respeita o que o outro pensa.
Sem calma não se pensa. Sem pressa não se capta.
Um homem inteligente sem amigos inteligentes é menos inteligente.
Ética é aquilo que defendemos que os outros façam enquanto não estamos na mesma situação em que eles estão.
O sentido da lealdade é ser mútua.
O acerto é solidário; o erro, solitário.
Não há crítica mais destrutiva do que a posteridade.
Aprendi a rir. Nascemos sabendo chorar.
Se houvesse perfeição, não haveria movimento.
Poder viver em qualquer lugar e não ter ansiedade de viver em outro lugar – eis a condição mais próxima da felicidade.
Todo pai pensa no bem do filho. Todo filho pensa nos bens do pai.
Burocracia é a ineficiência disfarçada de ocupação.
Quem vigia não cria.
Inveja é confissão de incapacidade.
A vantagem de não ter sido radical é não precisar ser conservador.
Minha pátria é minha íngua.
No Brasil, ser decente é uma forma de rebeldia.
A esquerda é a direita fora do poder.
Não há afrodisíaco com a adolescência.
Um grande autor até pode escrever sem dor, mas jamais sem ardor.
Escrever não se ensina, só se aprende.
A única fortaleza do escritor é seu impulso de escrever.
A grande arte é sempre uma fuga da futilidade.
Ter estilo não é ser correto; é tornar qualidade o que nos outros seria defeito.
Estilo é aquilo que você construiu e que já era seu.
Não existe cirurgia plástica como a fama.
Acadêmico, s.m. – O sujeito que acha que profundidade se mede pela borda.
No ato de digitar estes textos, vou conquistando uma maior apreensão deles. Só a memória nos dá a arte. Nunca os livros. Obrigado por ter acrescentado à minha memória estas verdades em doses letais.
Abraço do
Miguel










