quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ANOREXIA LITERÁRIA



É conhecida a exigência de um mercado de romance para obras de maior fôlego. Livros com mais de 300 páginas tendem a ter mais chance de mercado do que livros curtos, pois o leitor comum sente prazer em conseguir cruzar um território narrativo mais extenso – espécie de Liso do Sussuarão, como na obra maior de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

No dicionário de lugares comuns, seria o livro que para em pé.

Agentes literários estrangeiros reclamam que nossa literatura é seca demais, recomendando um regime de engorda para atender ao gosto do público.

No pólo oposto, o jornalismo cultural brasileiro dá destaque para as obras curtas ou curtíssimas. Faça uma análise das resenhas e verá que a maioria dos títulos resenhados tem menos de 180 páginas. Por quê? Gosto pela brevidade? Concepção moderna de linguagem?

Nada disso, simples circunstâncias editoriais. O jornalista não tem tempo para ler obras mais parrudas e escolhe, entre os lançamentos, as de leitura mais rápida. Melhor ainda se for uma história em quadrinhos – que nunca teve tanto espaço em nossa mídia. E assim cumpre a sua função de divulgar “livros”.

As duas posturas geram equívocos. Um livro é bom indiferentemente do seu tamanho ou de sua natureza, mas quando só se busca o bom entre as obras gordas ou entre as magérrimas, leitor comum e jornalista matam outras possibilidades literárias.

Este quadro ingrato de nossa vida cultural se fortaleceu por conta da substituição do crítico pelo jornalista de cultura, que raciocina em termos de custo e benefício.

Pagar a resenha por páginas lidas seria a solução?

5 comentários:

  1. Mas aí os jornalistas poderiam passar a ler só obras mais fofinhas. Iam ignorar as boas obras elegantemente magras.

    ResponderExcluir
  2. Oi, Igor

    Seria de fato um grande risco. O que mostra que a coisa não tem mesmo solução.
    abraço

    ResponderExcluir
  3. eu não gosto de amarras na arte. se um livro é enorme, que seja, se é curto, que seja. o mesmo com os filmes. essas exigências fazem os filmes terem 2horas, nem mais nem menos com pouca oscilação e acho que perdem muito. amarras na arte são péssimas. cada autor deve escrever no formato q mais gosta. eu amo ler livros enormes, tenho crise de abstinência com contos. mas esse é um aspecto meu. e não tento impor isso aos outros. mas leio qq tamanho. beijos, pedrita

    ResponderExcluir
  4. Miguel, as duas questões que vc levantou são complicadas... uma pena que ainda exista essa concepção de "quanto maior, melhor", ou que se prevaleça a ditadura do romance, em relação ao conto ou a poesia. Os últimos jabutis não foram dados a livros com menor tamanho, tipo 150 a 200 páginas? E quanto ao jornalismo cultural... depende do tipo de público que ele deseja alcançar. Mas se a escolha é pelo livro "menor", incorre em erro também e lança a si e aos seus leitores no abismo da leitura superficial. Abs

    ResponderExcluir
  5. Dependendo da linguagem ou fluidez eu também me esqueço do tamanho do livro ou da duração do filme. Mas, quem são os nossos críticos literários? Pra quem eles escrevem? Adoro quando você fala que se ficarmos preocupados com a espessura do livro mata outras possibilidades... por exemplo, eu nunca tive coragem de publicar um livro porque meus contos são curtíssimos, e penso que não é literatura, meu texto não passa de um diário, lembranças, coisa do gênero... até ler Katherine Mansfield e ficar feliz com uma nova possibilidade. Beijokas.

    ResponderExcluir