Publicado na revista D'pontaponta, jan.fev. de 2012.
Você quer saber por que eu parei de comer carne? Não, não foi por esse negócio ecológico, sei que dizem que o gado é responsável por florestas devastadas, contribui para o efeito estufa. Nem por ter enjoado de carne. Sempre gostei de um churrasquinho no final de semana. Agora estou trocando o churrasco por espeto de legumes.
Conto sim. Tenho uma chacrinha. Não foi lá ainda? Uns pastos, um chalé de madeira, um casal que cuida da propriedade. Antes eu criava gado de corte. Só umas poucas reses, vendidas pro frigorífico local. Eles me davam as cabeças, e eu ia pendurando nos palanques, o crânio e os chifres como troféu do caçador que nunca fui. Você bem sabe, vivo de outros trecos. Chácara é aquele negócio, mais prejuízo que lucro, mais incômodo que prazer.
Foi o que pensei quando, neste final de ano o caseiro avisou que teria que ir ver um parente nas vascas da morte. Isso mesmo, vascas e não vacas. Não podia deixar a propriedade sozinha, pois andam roubando tudo ultimamente. Dizem que é por causa das drogas, do crack. Sei não, acho que é por causa dos exemplos do governo. Se todo mundo lá rouba... Bem, não aprecio a política.
Mas gosto de meu gadinho. Então fui pra chácara, sozinho. Levei umas cervejas, duas pizzas congeladas, pacotes de macarrão instantâneo, era bom passar o Natal e o Ano Novo longe de tudo, longe do consumo. As pessoas roubam porque querem consumir. Não é por causa de droga não.
Na véspera do Natal, bebi todas as cervejas. Sei lá, me senti muito sem pai, muito sem mãe. Não pense assim, falei pra mim mesmo. Na verdade todo mundo tem mãe e pai, pois como teria nascido sem um homem e uma mulher?
Bebi mais do que podia, sem comer nada. Um defeito meu. Bebo rápido, e depois de uns copos a comida me repugna. Daí não paro mais.
Dei conta das cervejas, depois ataquei o garrafão de pinga do caseiro. Sem tevê, sem ninguém pra conversar, abandonado no mundo. Eu queria voltar pro centro líquido de minha mãe, uma mãe que não me quis. Acabei criado pelos meus avós. Faltava um útero para mim, pensei. Cabeça de bêbado é assim. A gente se sente sempre um pobre diabo, com o perdão da palavra.
Não sei a que horas resolvi que o lago no meio do pasto era minha mãe. Tirei a roupa e segui pra lá. Voltar ao útero, essa baboseira bêbada. Fui indo devagar, sem medo. Passei pelos arames farpados da cerca, esta cicatriz aqui no braço, veja, é do arranhão que levei.
Andei um pouco, já via o lago. O útero. Mergulhar nele. Mas aí veio um pouco de lucidez. Não havia mãe. Não havia útero. Tudo ilusão. Eu continuava ali sozinho. Me deu um desacorçoo tão grande que perdi a força e me larguei na grama. Contemplei um pouco o céu e suas estrelas. Era isso. Um planeta órfão. Logo dormi.
Acordei com o sol, mas não abri os olhos. Era Natal, pensei. A luz da estrela, aquela conversa toda. Fui aos poucos erguendo as pálpebras. E daí vi as vacas ao meu redor. Não tinha nenhum boi, só vacas. Umas dez. Elas formavam um círculo, com aqueles olhos imensos, redondos e piedosos. Elas olhavam pra mim. Elas oravam lá do jeito delas por mim.
Sabe como me senti na hora? Um menino Jesus na manjedoura. Pelado, desprotegido, no capim, rodeado pelos animais. Não havia São José, não havia Maria.
Depois disso, troquei, com um vizinho, os bois por vacas leiteiras. Uma vaca de leite é como uma mãe da gente, não é?

JUCÉLIA DE JESUS SEIXAS
ResponderExcluirResgatei do twitter este pensamento seu:
PERGUNTINHAS: Por que será que vaca é sempre autodidata? 1:14 PM Oct 19th from web
Lendo esta crônica me vem a pergunta: por que a palavra vaca me soa sempre como ofensa? Tõ condicionada absorvida por um conceito pejorativo? Nesse texto há mais humor ácido do que amor eu diria! Iniciando a manhã com reflexões bovinas, é bom p variar!
Que bom encontrar seu blog. Seus livros foram os primeiros que escolhi ler depois de um longo tempo sem ler nem outdoor.
ResponderExcluirOi, Luciana
ResponderExcluirEspero que você possa continuar lendo muitos outros autores.
Abraço do
...e mais uma vez um texto teu salva meu dia. Abç Hélio F
ResponderExcluirOi, Hélio
ResponderExcluirEspero ao menos nunca estragar o seu dia.
abraço