sábado, 5 de maio de 2012

JORNALISMO INSTANTÂNEO

Publicado na revista D'pontaponta, n. 197, abril de 2012.




As tecnologias criaram um fenômeno que poderia ser chamado de jornalismo instantâneo. Assim como o macarrão instantâneo fez de todo mundo um cozinheiro de minuto, as facilidades tecnológicas permitiram o surgimento de um tipo de jornalista amador, responsável pela produção e pela circulação de boa parte das notícias hoje.

O principal reduto deste novo “profissional” são as redes sociais. Nelas, principalmente no twitter, qualquer internauta dá furos sobre mortes, acidentes, eventos etc., pautando o noticiário local, nacional e internacional. Muitos usuários das redes sociais, mesmo sem nenhuma formação na área, se veem como repórteres engajados, assumindo um sentido de missão cada vez mais raro entre funcionários das empresas de comunicação. Nestas empresas, há uma tensão de interesses de classe, e é comum o jornalista não se identificar totalmente com o veículo que ele ajuda a alimentar. Nas redes sociais, as pessoas comuns noticiam fatos colados à sua experiência.

Outra versão deste fenômeno está nos vídeos feitos por uma categoria que as emissoras de televisão chamam de “cinegrafistas amadores”. Eles produzem vídeos de baixa qualidade técnica mas que flagram um acontecimento importante – acidente, briga, tentativas de corrupção etc. Seus equipamentos são mínimos (uma câmera fotográfica, um celular com câmera ou mesmo uma filmadora comum), mas eles estão sempre prontos para uma eventual reportagem que cruze o caminho.

No campo da assessoria de imprensa, este comportamento é mais visível ainda. Políticos, personalidades, artistas, profissionais de várias áreas, empresários, enfim, todos aqueles que têm algo a oferecer usam as redes sociais para se divulgar, para criar ondas de aceitação de seu produto ou de sua imagem. A maioria não conta com um jornalista profissional para fazer este reclame de si mesmo, desempenhando de forma amadora tal papel. Se falta profissionalismo nestes movimentos de marketing pessoal, o público prefere a presença do eu real nas redes sociais, por sua autenticidade de linguagem, aos perfis gerados e alimentados pelas assessorias.

Outra manifestação desta tendência está no leitor que se faz editor. Navegando pela internet, muitos colecionam as principais matérias do dia e publicam no formato paper.li (devem existir outros programas que eu desconheço) os seus jornais pessoais, numa espécie de autobiografia pelos assuntos do momento. Aqui, o internauta customiza o vasto noticiário internacional, criando ondas novas de leitura. E mesmo os blogs, com a reprodução de vídeos, matérias, notícias, artigos de opinião, têm este caráter coletivo próprio das folhas impressas, com suas listas de seguidores que funcionam como os assinantes.

Ao mesmo tempo em que há esta explosão dos meios e dos sujeitos da comunicação, os cursos de jornalismo lutam para, com justiça, garantir áreas reservadas de atuação. A internet alterou todas as profissões, mas algumas foram atingidas de forma mais direta. O movimento de abertura ao máximo de atores sociais, ao direito de voz de todos os setores da comunidade, coloca em xeque a função tradicional do jornalista como detentor de um poder comunicativo. Talvez o caminho seja fazer do jornalista não apenas um profissional da comunicação, mas também um formador desses comunicadores em potencial. Ele trabalharia em cursos, oficinas, assessorias e outras instâncias para transmitir os princípios e práticas fundamentais desta profissão aos cidadãos comuns.  Para que os indivíduos não precisem de alguém fale por eles.

2 comentários:

  1. ótimo texto. eu vi uma antiga entrevista com o daniel piza dele comentando a importância desses blogs e sites em cidades que o jornal é comprometido com a política local. a diversificação, o jornalismo não amarrado surgia na mídia virtual. como tudo há prós e contras. e vejo surgir uma infinidade de "especialistas" em mídias sociais que mal conhecem os sistemas e propagam mais equívocos. também há profissionais buscando aqueles que os divulgam na mídia, mas de preferência aquele q ame transformar as notícias em sensacionalistas para ampliar a visibilidade. o sonho pela mídia instantânea faz até bons profissionais buscar esse tipo de mídia bombástica, inventar histórias para ampliar sua visibilidade. e pior menosprezarem aqueles q são sérios e não aceitam sensacionalismo e mentiras. beijos, pedrita

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  2. Oi Miguel, isso é uma realidade que vem, cada vez mais, se solidificando e encontrando novíssimos caminhos. Porém, há pouca qualidade de informação. Ou são meras reproduções ou não há qualidade na confrontação ou comparação dos fatos. O texto bem escrito, com fontes seguras - seja ou não opinativo - sempre terá seu público e função a despeito dessa realidade comtemporânea.

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