segunda-feira, 26 de março de 2012

TRABALHO DE ESQUECIMENTO

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, em 25 de março de 2012.


As vidas periféricas de Domingos sem Deus, do mineiro Luiz Ruffato (Record, 2011), estão presas à classe operária ou são oriundas delas, compondo um painel metonímico de um país literariamente subterrâneo. Embora tão presentes na sociedade, essas pessoas-narrativas não contam para a nossa cultura, porque se acredita, numa nítida postura patronal, que a alta literatura não pode ser feita com matéria tão precária. Contrariando esta presunção artística, Ruffato construiu uma pequena comédia humana (intitulada “Inferno Provisório”, da qual este é o quinto e último volume) dando densidade de linguagem a esses seres invisíveis.

Tecnicamente, os seus romances nascem da justaposição de histórias autônomas, como se cada uma delas fosse um conto (pequeno ou médio) desligado do outro. O que os costura não são os entrecruzamentos de enredo, dada a independência das peças, mas as destinações a que esses indivíduos estão condenados. Neste Domingos sem deus, o leitor não encontrará a menor felicidade, pois os personagens trazem na memória ou nos fracassos as marcas de um passado de privações. Contra a ética hipócrita da autoajuda, súmula filosófica do consumismo capitalista, estes personagens fadados a uma solidão total não conseguem criar outras possibilidades de ser, e tudo que lhes resta (como acontece com o machucado jornalista Guto, de “Outra Fábula”) é um esforço imenso para esquecer-se. Simbolicamente, ele se prepara para correr a São Silvestre, hábito novo este, lutando interiormente para afastar-se de um passado que não se descola dele. É como se o grande esforço da corrida, a provação física extrema, equivalesse ao trabalho de esquecimento.

Olvidar as dores não significa, no entanto, negar-se; é sim uma estratégia de sobrevivência: “decidiu romper com seu passado. E para isso procurou distanciar-se de tudo que avivasse ainda que vagamente suas origens” (p.81). Origens que continuarão latejantes, atormentando fantasmagoricamente essas pessoas. No primoroso conto “Milagres” (referência a um milagre retórico, sem transcendência), Cabeludo se esconde na beira de uma estrada baiana, cuidando de uma borracharia e vivendo sozinho, numa fuga de si mesmo.

Estes seres isolados aparecem dentro de narrativas igualmente isoladas, pois como estrutura os contos estanques querem representar o aprisionamento a um mundo. Por mais que os personagens saiam de sua terra (Rodeiro ou Cataguases – centro do universo narrativo de Ruffato) eles continuam dentro daquela história inolvidável – uma história que transcorre com grande rapidez. Ficamos sabendo de uma vida inteira em poucas e intensas páginas, em que a fala do eu (o narrador) é fraturada por múltiplas vozes, reproduzindo um ruído próprio dos estados de loucura contra os quais todos os habitantes deste mundo lutam.

Assim, saindo de Cataguases, voltando para ela ou vivendo à sombra dos anos passados lá, todos são almas penadas, vagando pelas grandes cidades, encalhados em lugares ermos. Não há realização, a não ser como manifestação irônica, como acontece com Sandra, que só conhece alguma estabilidade quando contrai aids e passa a receber uma pensão mínima – em “Sorte Teve a Sandra”. Todos são terrivelmente sofridos, e apenas o sofrimento os identifica.

Os livros de Ruffato encenam, pela linguagem nova e perturbadora – que traduz formalmente o incômodo que é a presença de tais seres em nossa literatura certinha – este conhecimento denso das agruras de classe, o que faz dele uma das vozes mais humanas e revolucionárias da literatura brasileira.

Serviço:
Domingos sem Deus, de Luiz Ruffato. Record, 2011. 110 páginas. Romance.

quarta-feira, 21 de março de 2012

EDITAR-SE

No âmbito da escrita impressa, assim como no da manuscrita, vale o que está lançado no papel. Ocupar uma página, seja de um diário íntimo, de um livro ou de um jornal, é comprometer-se com uma visão do mundo. O indivíduo acaba responsabilizado por uma opinião.

Na internet, espaço em que a escrita pode ser constantemente mudada, reconstruída, apagada, disfarçada, o indivíduo está livre para modificar o texto. Ele não se sente ligado a uma opinião, e pode mudar completamente seus pontos de vista. Assim, a ética se tornou algo datado – só vale a última edição da postagem.

Estamos sempre reconstruindo o passado em função das conveniências presentes ou futuras.

terça-feira, 20 de março de 2012

À MÃO

Publicada na revista D'Pontaponta, n. 196, março de 2012.


Achei que fosse apenas um funcionário recolhendo os cartazes de campanha quando o vi pela primeira vez. Era fim do período de propaganda eleitoral e ele saía com braçadas de lixo de um candidato. Quando o identifiquei de novo, estava desamarrando dos muros de um dos nossos clubes um informativo qualquer, provavelmente de uma festa, talvez restos do aparato de um aniversário ou de um casamento. Mas só desconfiei que estava diante de um colecionador ao encontrá-lo com vários rolos de tecido, com as manchas de tinta vermelha e azul, na porta do auditório, durante um evento que eu promovera.

O segurança o abordou para dizer que ele não podia levar aquilo.

Eu então me aproximei, apresentando-me como organizador, para dizer que havia autorizado a retirada do material. E saí junto com ele, sem olhar para quem tentara barrar a fuga do intruso.

Do lado de fora, ainda sem trocar uma palavra, eu o acompanhei até o carro. Era um veículo bom, meio antigo. Tive certeza de que ele se dedicava àquela estranha tarefa com muita seriedade. Ele abriu o porta-malas, havia mais tecidos enrolados.

– Consegui essas preciosidades numa festa de igreja.

E ficamos olhando para os rolinhos de tecido branco, transparente de tão fino, como se eles fossem filhotes de animais raros.

– É cada vez mais difícil usarem pano. Agora é tudo lona plástica, num festival de cores.

Eu estava de fato diante de um idealista.

– E o cheiro da lona é horrível – falei.

– Pois é – ele se entusiasmou –, não tem o aroma do algodão e da tinta.

– Por que precisam tanto de imagem?

– Eu me pergunto isso todos os dias. Não se produzem mais faixas, estamos na era dos banners.

– Uma vulgaridade só!

– E olha que tínhamos grandes artistas que escreviam centenas de faixas por semana.

– O senhor trabalhava com isso? – perguntei.

Ele ficou tímido. Fechou o porta-malas. Mas falou.

– Faz muito tempo. Eu ajudava o pessoal de uma empresa de garagem. Fiquei só uns meses. Pincéis. Rolos de tecido. Latas de tinta. Madeiras. Grampeadores. Umas mesas. A gente inventava as frases na hora. O cliente pedia uma faixa para a filha aprovada no vestibular. Dava o nome dela e o tamanho do tecido, a frase saía sob medida.

– E aqui sempre gostaram dessas coisas, né? – provoquei –. Faixas, placas comemorativas. São complementos da coluna social.

– Não tinha pensado nisso. Para mim, as faixas são as escritas anônimas da cidade.

– E as das passeatas, as das manifestações públicas?

– Tenho muitas. Mas trazem palavras gastas.

– Muitas?

Estávamos ali na rua, diante do carro. Não havíamos nem nos apresentado, mas algo nos unia.

– Vou confessar uma coisa para o senhor. Não tive coragem de falar nem para minha mulher. Tenho milhares de faixa num depósito alugado.

– Não é perigoso um incêndio? – foi a única coisa na qual pensei.

– E o meu plano é, bem, peço que não ria. Meu plano é criar o primeiro museu das faixas de tecido.

E seus olhos se fizeram sonhadores. Eu imaginei um imenso barracão com estes dizeres tão longamente conseguidos, pendurados em todos os sentidos, criando uma trama de palavras. As pessoas passando por baixo e lendo.

Ele entrou no carro. Mas tive tempo de dizer que seria um museu muito útil. Ele sorriu, sabia da falta de sentido do projeto, mas era isso que o movia, graças a uma imagem vinda da infância. Não tinha gente que colecionava coisas bem menos importantes?

Nunca mais o encontrei. Mas sempre penso nele quando encontro meu filho sentado no chão da sala, desenhando suas primeiras palavras.

segunda-feira, 19 de março de 2012

EM NOME DO ESCRITOR

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, em 18 de março de 2012.


O romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), projetado em 1904 e publicado postumamente em 1948, fecha o grande parênteses autobiográfico de sua obra, iniciado com Recordações do Escrivão Isaías Caminha (folhetim de 1907). Se, neste livro, ele projeta a trajetória de um jovem mulato no meio jornalístico de um Rio de Janeiro dominado por asnos pomposos, deixando o seu triste fim apenas entrevisto, em Clara dos Anjos os descaminhos dos personagens se assemelham muito ao do próprio autor, o que lhe dá uma intensidade maior do que qualquer outro de seus romances.

Embora o seu fio condutor seja a situação de vulnerabilidade de uma mulata pobre numa sociedade preconceituosa, que a vê apenas como móvel de lascívia, a grandeza deste romance não reside apenas neste eixo narrativo. Clara dos Anjos, já pelo nome, vive um desejo de pureza e de brancura, mas acaba numa armadilha social: criada no isolamento de um lar estreito, sem educação sólida, alimentada pelas modinhas dengosas, ela é presa fácil para um famoso deflorador. No final, ela descobre o lugar que lhe reservaram na sociedade; ao ser enxovalhada pela família do bandido que a engravida, é chamada de negra, condição que, somada à de mu­­lher, lhe tira todos os direitos. Nos seus devaneios matrimoniais, ela sonha com uma “casa branca no morro” ao lado do amante de falsa origem inglesa, mas ao olhar o céu identifica uma mancha negra, anúncio de um destino incontornável. Du­­rante todo o livro ela é apenas uma pessoa, mas na última frase do romance conquista uma consciência de seu gênero e da sua raça: “Nós não somos nada nesta vida”. Deve, a partir daí, “educar o caráter, revestir-se de vontade [...] e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente” (p.294).

O centro desta obra é a fidelidade às origens. Ligado ao subúrbio e seus moradores, Lima Barreto deu status literário a um idioma falado. Em Clara dos An­­jos, aparece pela primeira vez na literatura brasileira a palavra cara para designar pessoa. E há um uso de expressões ainda hoje questionadas pelos bem falantes – como pivete. Deste seu projeto de naturalização da língua veio o preconceito estético – vinculado ao preconceito racial – de que o autor escrevia mal. Lima Barreto escreve maravilhosamente bem, e é um dos mestres da língua, mas de uma língua portuguesa que se afastava da sua matriz lusitana, incorporando os recursos estilísticos da oralidade.

Se se aproxima da música popular pela crônica dos costumes suburbanos, ele nega o conteúdo deste gênero, culpando-o pela ilusão amorosa que cria nas pessoas. Clara e o pai são apaixonados pelas modinhas e esta acaba seduzida por um modinheiro. O autor se insurge contra a percepção meramente auditiva do mundo. Do pai de Clara diz: “Não compreendia um desenho, uma caricatura, por mais grosseira e elementar que fosse. Para que pudesse receber qualquer sensação duradoura e agradável, era-lhe preciso o ‘som’, o ‘ouvido’” (p. 217). Reconhecer o valor literário da língua falada não significa endossar todos os seus produtos. Lima Barreto, tal como o seu alter ego Isaías Caminha ou Policarpo Quaresma, acredita no estudo, mas sem negar o universo social dos excluídos.

Neste romance esplêndido, crescem as histórias dos condenados à priori à miséria. O grande personagem do livro é o bêbado, o homem ou mulher que se entregou ao álcool – tal como o próprio autor – como uma forma de suportar as provações. Assim é o poeta Leonardo Flores, totalmente íntegro, ébrio e enlouquecido, amado pelos fi­­lhos e pela mulata Castorina. Nin­­­­guém entende seu vício:

“– Esse Leonardo é mesmo homem de inteligência, Quincas?
– É, Engrácia, por quê?
– Por que ele então bebe tanto?
– Quem sabe lá? Vício, hábito, capricho da sua natureza, desgostos, ninguém sabe – observou o marido”. (p.284)

Se os pais de Clara não entendem as razões dos alcoólatras, o livro todo parece dizer, em nome do escritor: bebemos para suportar o desprezo com que tratam os de nossa cor.

Serviço:
Clara dos Anjos, de Lima Barreto. São Paulo: Companhia das Letras / Penguin, 2012.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A MULHER E A POETA

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, em 11 de março de 2012.


Historiadora e prosadora, Ana Paula Tavares (Huíla, Angola, 1952) é também poeta e assume nesta última área o nome artístico de Paula Tavares, talvez para marcar uma diferença, insinuando ao leitor que são duas mulheres distintas em uma só. Este pequeno jogo aponta para questões mais profundas em sua produção poética, publicada na íntegra pela primeira vez no Brasil: Amargos como os Frutos: Poesia Reunida.

O seu território é o lirismo amoroso, em variações fragmentárias dos cantos de Sulamita, agora ambientados na África, o que lhe dá uma originalidade muito grande. Seu verbo vai deixando o espaço mais literário de Ritos de Passagem (1985), em que as construções poéticas são preponderantes, para incorporar progressivamente as vozes ancestrais. Mesmo neste seu primeiro livro, encontramos os frutos da terra, as temáticas tribais e uma presença modificante do corpo feminino, embora estes elementos tão caros à autora apareçam sob um olhar, digamos, mais estético, visível na própria forma dos poemas, com uma disposição gráfica que dialoga com a modernidade.

De O Lago da Lua (1999) até a última coletânea, Como Veias Finas na Terra (2010), o elemento étnico se faz mais denso e passamos a uma poesia que pertence, como linguagem, à poeta e, como voz, às mulheres africanas em geral. É neste sentido que a duplicidade se manifesta no interior da obra, conjugando as duas autoras nomeadas, a Ana Paula historiadora e a Paula poeta, uma escritora com um olhar focado nos produtos da literatura e outro nas tradições populares da África.

A sua poesia é, em inúmeras passagens, ritualística; ou seja, existe em consonância com uma concepção antropológica da palavra. Nenhuma imagem talvez seja mais forte do que a do sangue, não um sangue vertido em lutas, em guerras, ou, para dizer de outra forma, nos campos de combate essencialmente masculinos, mas o sangue da fêmea:

“No lago branco da lua / lavei meu primeiro sangue / Ao lago branco da lua / voltaria cada mês / para lavar / meu sangue eterno / a cada lua // No lago branco da lua / misturei meu sangue e barro branco...” (p.73)

O barro do Gênese e o sangue são metáforas da mesma ordem: da fertilização, dos inícios, da continuidade da vida. Esta vida de que fala Paula Tavares é dolorosa por conta das condições históricas de seu povo, tem um travo amargo, deixa marcas, suja a pessoa, daí a busca da água que tudo limpa.

As suas vozes femininas, tão doídas, acabam representando o próprio país. Esta equivalência faz com que as trajetórias das mulheres sejam uma metonímia da África. Como se a mulher fosse a pátria mais enraizada, por estar mais tragicamente vinculada à terra. Uma das tradições dramatizadas nestas vozes é a da jovem dada em casamento em troca de bois, numa relação de contiguidade da mulher e do animal sagrado. Daí vem a sua força telúrica, que a autora explora cifrando em um código poético: “Trouxe o canto / Não é claro, mãe / Mas tem os pássaros certos / Para seguir a queda dos dias / Entre o meu tempo e o teu” (p.168). Entre duas gerações, duas histórias femininas, a da terra e a da cultura, nasce esta poesia sob o signo do duplo.

Se a poeta diz que de onde ela vem, deste país mítico e histórico, “empresta-se o corpo à casa” (p.197), numa visão da mulher como morada, como eixo do mundo, podemos dizer que a sua poesia, marcada por uma denominação de origem, faz do corpo linguagem, onde se abrigam os ancestrais africanos e a cultura europeia adquirida, ponto de encontro do eu e do outro.

Serviço:
Amargos como os Frutos: Poesia Reunida, de Paula Tavares. Editora Pallas, 288 págs. R$ 47. Poemas.

terça-feira, 6 de março de 2012

SEMPRE LUCIANA



Ter agente literário talvez não seja uma coisa nova para mim. Se um agente é uma espécie de anjo da guarda, alguém que cuida da gente (perdão pelo trocadilho), eu sempre tive um agente informal. Desde o lançamento de Chove sobre minha infância, em 2000, Luciana Villas-Boas é uma grande entusiasta de minha literatura, e foi pelas mãos dela que apareci nacionalmente.

Ela não apenas me editou na Record, nós nos tornamos grandes amigos. E minhas idas ao Rio eram mais para conversar com ela. Percorríamos juntos principalmente o Leblon, visitando restaurantes, cafés, livrarias, tratando de literatura e vida.

Um escritor precisa de um grupo de pessoas que acredite na sua literatura. Luciana foi (é) uma dessas figuras-chave, alguém que sempre respeitei. Minha editora por 12 anos, a partir de abril de 2012 ela será minha agente literária.

Temos conversado por e-mail, por telefone e ao vivo. Eu fico em silêncio. Ouço e aprendo. Luciana é uma das pessoas que mais conhece o mercado literário no Brasil e no exterior. Agora, morando nos Estados Unidos (em Atlanta) e no Rio, ela será a grande embaixatriz da literatura brasileira, desempenhando para a língua portuguesa o papel que Carmen Balcells teve para a língua espanhola.

MUSEU

in Poemas, de Wislawa Szymborska. Tradução Regina Przybycien. Cia das Letras: 2011.



Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.

Há um leque - onde os rubores?
Há espadas - onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo,
o bigode pendido sobre a vitrine.

Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo.
Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito.

A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
E como ele adoraria sobreviver!

segunda-feira, 5 de março de 2012

FANTASMAS DE FILME

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, em 04 de março de 2012.


Essencialmente autobiográfico, o escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) estava condenado a uma obra rebarbativa, tal como se pode ver em mais um título seu publicado no Brasil: Chamadas Telefônicas. Editados originalmente em 1997, os contos são voltas em torno de seus agora já velhos temas: uma juventude vagando pelo mundo, a falta de sentido de tudo, suicídios, desistências, o sexo em excesso e sempre frustrante, solidões extremas, o Chile perdido, pequenos enigmas... Neste painel depressivo, só a leitura tem papel salvador. Os seus personagens se apegam ao mundo pelos livros, mas de forma desesperançada. Eles não são leitores convencionais, escorados em prateleiras confiáveis, e sim pessoas à beira do desespero, que se agarram a um livro (nem sempre bom) apenas para continuar vivas por mais algum tempo.

Escritores falhados também aparecem com regularidade nestas histórias. Vivendo entre poetas e outros bichos literários, Bolaño vê o escritor como um profissional da inadequação, e conta trajetórias sempre infrutíferas desses desajustados e de si próprio, neste caso sob o alter ego de Arturo Belano, que aparece em alguns momentos deste volume.

Em “Sensine”, narrativa que abre a coletânea, Belano conhece a solidão de um chileno que se dedicava, na Espanha, a participar de concursos de contos. Mudando apenas o título, submetia os mesmos textos a vários prêmios, conseguindo assim sobreviver no exílio. O narrador aprende com ele esta possibilidade de profissionalização que consta da trajetória tumultuada do próprio Bolaño. Em “Detetives”, ele glosa mais um episódio biográfico, a ajuda de dois amigos de escola (agora policiais) no período em que esteve preso no regime de Pinochet. Neste conto, todo ele dialogado, os policiais fazem um retrato ácido de Belano/Bolaño, mostrando o seu enlouquecimento.

Estas histórias, com outros elementos factuais, farão parte dos livros que o consagraram como um dos mais originais autores latino-americanos, mas aqui aparecem como repetição antecipada de seus recursos. É que ele escreveu apenas sob o impacto de suas experiências geracionais. Nesses relatos, todos de leitura agradável, sentimos mais do que em outros livros seus uma saturação temática e estilística.

E isto é explicável. O autor estava ainda testando seus instrumentos. E trazia um pouco dos defeitos de quem escrevia para concursos do interior. Assim, são comuns clichês narrativos, típicos da subliteratura: “A vida, como dizem nas telenovelas, continua” (p.66). Mais grave no entanto é uma tendência para perfis biográficos. Muitos destes contos levam o nome do personagem principal e são resumos de vidas rocambolescas, apresentadas em poucas páginas. Se tal opção permite revelar figuras interessantes, estas nunca cabem no formato escolhido. Será no romance, principalmente nos grandes painéis, como Os Detetives Selvagens (1998), que ele poderá investigar ficcionalmente essas vidas.

Apenas uma peça desta coletânea tem a grandeza de seus melhores textos – “Joanna Silvestri”, a história do reencontro de uma atriz pornô com um velho astro com quem contracenou no passado. Aqui, Bolãno opta por uma cena central, a gravação de um novo filme durante o dia e os encontros noturnos com o garanhão de outrora, tirando o máximo deste descompasso de temporalidades. É Joanna quem talvez sintetize a condição não apenas de seu grupo, mas de todos os personagens de Bolaño, sempre sujeitos à irrealidade circundante: “Eu me sinto tentada a lhe dizer que todos somos fantasmas, que todos entramos cedo demais nos filmes dos fantasmas” (p.181). E é assim, como imagens gastas, que esses seres se repetem, tal como os quadros de um filme pornô.

Serviço:

Chamadas Telefônicas, de Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão. Companhia das Letras, 216 págs. R$ 37,50. Contos.