quinta-feira, 18 de abril de 2013

TRÊS COISAS SOBRE JAMIL SNEGE


Entrevista a Franco Caldas Fuch



Qual foi a importância do Jamil para a sua trajetória?

Passei a conviver com Jamil Snege a partir de 1994, quando do lançamento de Como eu se fiz por si mesmo, que para mim é a primeira autoficção declarada da literatura brasileira. O impacto da sua obra e de sua personalidade foi muito grande, pois Jamil condensava uma maneira paranaense, uma maneira curitibana de escrever e ver o mundo. A sua ironia sarcástica, a sua forma de heroicizar as misérias e o seu lirismo negativista vão influenciar minha maneira de escrever. Outro  elemento importante é sua adesão aos que não deram certo, que também me marcou. Jamil era um grande gozador, não levava nenhuma de nossas pretensões a sério, e isso faz um bem danado para quem quer se dedicar à literatura.

Quais aspectos da literatura do Turco e quais livros mais te encantam?

Os aspectos já mencionei acima, e o livro também. Como eu se fiz por si mesmo é uma obra de grande impacto. Ela narra a trajetória torta de um publicitário que não quis dar certo. A publicidade é um reduto dos caçadores de sucesso e grana, mas Jamil Snege mostra que ele só quis errar-se como profissional, porque o que interessava para ele era a literatura. Este livro vai influenciar diretamente a produção de meu primeiro romance – Chove sobre minha infância (Record, 2000). Eu escrevia esta minha autoficção relendo trechos da narrativa desencantada do Velho Turco. A outra obra, mais ficcional mas nem por isso menos autobiográfica, é Viver é prejudicial à saúde, que continua esta mesma linha de contar com humor e dor, com uma triste alegria, a vida de um vencido da vida.

No fim da vida do Jamil, o que te chamou a atenção na forma como ele enfrentou a doença?

Era uma forma direta e sarcástica, bem do jeito dele. Quando Caio Fernando Abreu descobriu a Aids, ele também narrou nas suas crônicas a doença, que tinha, e tem, um caráter amaldiçoante. Jamil fez a mesma coisa com o câncer. Ele escancarou a doença. Lembro-me que quando alguém ligava pedindo alguma coisa para ele, ele respondia: “Sabe, eu tenho um câncer, então não posso fazer isso”. Havia uma perversidade nesta maneira de encarar a doença, ele queria esfregar a Coisa (ele tratava o tumor assim) na cara das pessoas, para desestabilizá-las. Mas havia também o humor à la Jamil. Depois do tratamento, quando ele perdeu a barba que tanto o orgulhava, e começou a nascer uma barba rala e espetada, ele se autoapelidou de Capitão Chuchu, e se referia a si mesmo dessa forma. Ele brincou com o seu fim. Jamil foi uma criança que nunca cresceu. E esta sua recusa do mundo adulto continuou até na doença.

sexta-feira, 5 de abril de 2013



Juliana Sanches, em nosso primeiro apartamento, no Boa Vista, em Curitiba. Final dos anos 80.
Éramos tão jovens, meu Deus. Como se fosse outra vida.

domingo, 31 de março de 2013

A LINGUAGEM SOLITÁRIA




Estamos à procura da Vila Rosa Maria, numa Paranavaí conhecida apenas por pequenos livros de poemas, recebidos nos últimos 10 anos. É esta cidade vertida em versos que me atrai e não a real, de belas lojas e onde as pessoas se vestem bem acima da média das cidades interioranas de um Paraná que foi sertão e hoje se sonha pequena metrópole, tanto pelos hábitos importados quanto por um consumismo meio vazio.
Percorremos as ruas, falando com frentistas de postos, moradores, taxistas e ninguém sabe dizer onde fica a Vila Rosa Maria, coração atemporal de uma Paranavaí com espessor literário. Resolvo, contrariado, perguntar pela avenida Martin Luther King, n.º 3.360, endereço do homem mais importante da cidade, farol para uma geração de poetas.
Então, o caminho urbano até esta rua se descortina. Fica no rumo da Vila Operária, outro local com sentido forte para compreender o homem que, sozinho, vale por toda a cidade, por ele adotada num prolongamento de seu percurso de juiz itinerante.
Ao lado da bela avenida, surgem ruas sem asfalto, casas pobres, carroças com cavalos – é a outra cidade, circo de vidas provisórias em um espetáculo sujo. Encontramos o número procurado em uma casa de madeira, meio torta, comida pelo tempo. Mas o poeta não mora nela, como me informa a sua dona, e sim no sobrado de alvenaria ao lado, semi-construído, dando para a rua de areia. O poeta se esconde, deixando falsas pegadas.
O portão está aberto, estaciono o carro enquanto uma mulher se aproxima me respondendo que o seo Sossélla está no andar superior da casa e não pode ser interrompido por ninguém.
Por mais que tentemos convencer a empregada que precisamos falar com Sérgio Rubens Sossélla, mais ela desconversa.
Retornando pela Martin Luther King, decidimos andar pela cidade. Atendendo ao velho hábito de conhecer as ruas pelos passos, deixamos o carro num canto do centro e gastamos mais de uma hora vagando sem rumo, já conformados com a frustração da viagem de centenas de quilômetros só para conversar com o poeta.
Sossélla não existe, é apenas uma invenção de sua poesia. Sem endereço certo, residindo numa vila que não aparece no mapa, ele se habita a si próprio, numa mágica importada de sua arte.
Mas e se tivéssemos entrado de maneira errada na avenida, afastando-se do endereço e da dimensão temporal em que ele se localiza? Para matar a dúvida, nova viagem à casa escondida da Martin Luther King. Paro o carro em frente ao portão de madeira eternamente descerrado. Vejo um vulto no fundo da casa, com um capacete de motociclista na mão, embora não haja nenhuma moto estacionada na garagem igualmente aberta. Mesmo estando tudo escancarado, esperamos as passagens se abrirem.
O vulto é uma moça, prima da dona da casa, que me responde que tudo está fechado. Percebo então que atrás do meu carro estaciona outro, surgindo uma mulher com olhar meigo que me identifica (sem mesmo nos conhecermos, embora eu tivesse, um mês antes, e por e.mail, ameaçado vagamente com uma visita) e diz que estavam nos esperando.
É hora de entrar na casa, de tirar da inexistência este poeta que edita artesanalmente um livro por semana em tiragens que já foram de 100, 30 e agora são de 10 exemplares, distribuídos com parcimônia aos poucos leitores. Na sala, enquanto fico olhando a capa do próximo livro, a mulher sobe em busca do solitário bardo e ouço uma voz compassada vindo de cima. Primeiro ela é uma sandália preta, que aos poucos vai se dilatando em um pijama branco e um blusão xadrez, terminando com um gorro de lã bege. É assim, aos pedaços, que vou apreendendo a figura de Sossélla, que desce falante as escadas, garrafa de café na mão esquerda e cigarro na direita.
Eu poderia ter me vestido melhor para conversamos, mas como estou à vontade de pijama, vou ficar assim – fala lentamente, pesando cada sílaba, enquanto eu, como sempre, atropelo as palavras.
Trocando cartas esporádicas há quase uma década, só hoje nos encontramos, numa tarde fria. A conversa para mim é a literatura dele, o seu exílio criativo – pois já tem mais 60 pequenos livros prontos, que ele só conseguirá terminar de editar no final de 2002, mas até lá inúmeros outros serão escritos.
Eu não forço o poema, não. Apenas vivo aberto para ele.
E tudo é tão natural em suas explicações que não há por onde questionar.
Falamos da antologia de seus poemas que estou organizando e ele, que não me pediu nada, exige que cada texto, por menor que seja, apareça sozinho na página.
O poema para mim é um cartaz e dois cartazes juntos entram em conflito.
Vou anotando na mente suas palavras, seus desejos, sua maneira precisa de fumar, beber café, falar e mover as mãos – sei que estou dentro de algum ritual, em um lugar entre o sonho, a realidade e o nada. Tudo é hoje, ontem e sempre. Eu falo com ele pela primeira vez, mas incontáveis foram as inexistentes conversas nossas. E depois de sair, sei que continuarei a falar com ele para sempre, num buraco qualquer do tempo que nos pertencerá na imensa China superpovoada que será a eternidade.
Sossélla tira do envelope uma foto e me entrega, dizendo para usá-la na capa da antologia que batizou de A linguagem prometida. É uma criança loira, de suspensório e calções brancos e pés sujos no chão, encostada numa porta. Está pronta para entrar, ou se despede de alguém lá dentro? Os dois, com certeza. Não enviei ainda a Sossélla, por pudor, o meu livro de poema, em cuja capa aparece uma foto de minha infância pavorosamente perdida. Ao receber idêntica imagem do poeta, sei que o destino está selando algo.
Mas o tempo lento do ritual se interrompe e lembramos que mais 150 quilômetros de estradas nos esperam. Antes, no entanto, Rosa Maria, a mulher de Sossélla, conduz todos à imensa biblioteca, anexa à casa. Sob o batente superior da porta, a placa esculpida em madeira: Vila Rosa Maria.
Lá dentro, livros em silêncio, um labirinto de palavras, que vamos percorrendo pelas entrelinhas. Selecionamos mais livros de Sossélla. E então percebo que estou num ambiente duplo. No fundo da biblioteca, separados por um degrau e uma parede, livros encadernados em ordem, estantes escuras, mesas amplas e organizadas. Na entrada, o caos de prateleiras, livros coloridos e menos imponentes e mesas com sinais de ocupação. Este é o território daquele que se diz o último, mas não o derradeiro, surrealista. O outro é o território do juiz.
No quintal para as despedidas, sentimos de novo o doce estranhamento que tudo aqui nos transmite. Na frente da casa, dois coqueiros com frutos viçosos, os únicos na cidade, e um pé de caju. Ao lado, uma oliveira. E esta paisagem deslocada e contraditória está absolutamente apropriada à vida e à obra de Sossélla, que transformou Paranavaí num espaço radicalizado de linguagem, alargando-a no tempo e no espaço, cifrando enigmas e antagonismos.
Sossélla acena para nós do jardim, depois de mais de 6 meses sem ir até o portão. O carro já está andando e evito olhar para trás com medo de não encontrar mais o poeta, nem casa, nem os coqueiros e a oliveira, porque o homem que faz Paranavaí existir praticamente não existe para Paranavaí e mesmo para o Paraná. Somos um estado que desperdiça seus talentos, que rouba deles a existência concreta, transformando-os em algo impalpável.
Mas quando um leitor se encontra com estas obras em segredo, todo um mundo de esplendor se materializa e gerações inteiras de outros artistas esquecidos e lugares imaginários dançam na voz do poeta ressuscitado pela e para a linguagem.

Gazeta do Povo, 24 de julho de 2000.

sábado, 30 de março de 2013

sexta-feira, 22 de março de 2013

COMO UMA PARTIDA DE FUTEBOL


Em 2001, imaginei um jogo de futebol entre os escritores paranaenses ligados à capital e os ligados ao interior. Saiu no jornal Rascunho de junho daquele ano. Aí vai.


Não sei de quem foi a idéia, mas no último domingo nos reunimos num campo neutro, o do Combate Barreirinha, para um amistoso entre o selecionado do interior e o da capital. Pena que os jornais não noticiaram o acontecimento e não houve transmissão televisiva. Apenas o locutor Wilson Martins, revivendo seus tempos de PRB2, narrou a partida para uma rádio pirata.
O nosso time era capitaneado por Eloi Zanetti, que também fazia as vezes de treinador, obrigando-nos a decorar todos os lances de seu livro Administração,  futebol e cia. (Negócio Editora). Tinham sido escalados para o time alguns representantes do interior: o ficcionista Domingos Pellegrini, o escritor e editor Roberto Gomes, o ex-atacante do Esporte Clube Comercial, hoje jogando no time literário do Rio de Janeiro, Jair Ferreira dos Santos, o poeta Foed Castro Chama, glória do Irati Futebol Clube, o escritor roseano Wilson Bueno e, na falta de gente melhor, este escriba perna de pau.
No time adversário, uma seleção de craques: Nego Pessoa, que já entrou driblando a própria sombra, Dalton Trevisan, estampando orgulhosa e merecidamente a camisa 10, Valêncio Xavier tagarelando como sempre, Cristóvão Tezza preparado para todos os gols que ele sempre faz, Jamil Snege com seu jeito (falso, descaradamente falso) de quem não quer nada e o capitão Ernani Buchmam, que repassou longamente uma tática de ação, para depois ver que o time ia ficar no velho esquema de sempre.
Como árbitro, tivemos a sorte de contar com um elemento alienígena, que não tinha motivos para torcer para nenhum dos lados, embora sempre seja visto nos textos de Valêncio Xavier: o poeta concretista Décio Pignatari, que trouxe vários cartões semióticos, para desespero do próprio Valêncio, que não conseguiu entender o que eles significavam.
A partida começou tumultuada.
Assim que Dalton Trevisan pegou a bola, fugiu com ela e não voltou mais para o campo. Para maior atraso, não tínhamos outra e foi preciso que o Jamil saísse pela vizinhança para adquirir, no câmbio negro, uma bola substituta. Conseguiu uma seminova, mas não era tão boa como a que desaparecera nos pés do grande craque que, tudo bem analisado, era o único com direito a bola oficial. Nós, uns mais outros menos, merecíamos mesmo era bola estropiada, dessas meio ovais, que vão aonde querem e não para o rumo que damos a ela.
Prudente, fiquei na defesa e, assim que sobrava alguma jogada, mandava a bola pra frente. Meu alvo preferido, seguindo minha perversa natureza de crítico, eram as canelas adversárias – e em mais de uma deixei hematomas leves, mas nem por isso menos dolorosos. Enquanto a gente se digladiava no campo, Wilson Martins irradiava com todo o entusiasmo os erros dos dois times, vibrando ainda mais quando alguém conseguia fazer alguma coisa certa.
Do nosso lado, quem liderava o placar era o italianão Pellegrini, que conseguiu furar mais vezes a barreira inimiga, emplacando dois belos gols. Roberto Gomes não deixou por menos e, fora as bolas na trave, fez um gol de bicicleta e passou o resto da partida sorrindo para si mesmo. Eloi Zanetti tentava organizar a equipe, mas assim que algum de nós pegava a bola saía em egoísta disparada, só voltando depois de perder o lance ou de errar o alvo. A salvação foi que o pessoal da capital também tinha o mesmo defeito e, com isso, a partida ficou mais ou menos equilibrada.
Cristóvão Tezza jogou com discrição e nos enfiou, com muita técnica, três golaços, sendo o artilheiro do amistoso. Jamil jogava bem até o meio do campo, mas se recusava a invadir nosso território. Valêncio, fincado sempre na banheira, em posições de impedimento que o árbitro não chegava a ver, conseguiu o seu gol quando uma bomba desferida por Nego Pessoa resvalou na cabeça dele e surpreendeu nosso goleiro, Wilson Bueno, que a esperava no outro canto da trave. Valêncio caiu atordoado e não chegou a entender bem a razão da pequena torcida gritar entusiasticamente o nome dele.
Eu e o Foed ficamos mais na retaguarda, prontos para todos os heroísmos, mas não tivemos oportunidade de mostrar nosso futebol. Quase no fim da partida, o Jamil segurou a bola com a mão, interrompendo uma jogada do Jair que seria gol na certa. No meio da área adversária, começou um tumulto que logo era pancadaria.
Cheguei acertando o inimigo, mas em poucos segundos os murros e chutes não tinham mais um alvo específico, era cada um por si – até Deus aproveitou para dar umas bordoadas e descontar as sacanagens que escrevemos contra ele. Levei uma joelhada anônima que me pôs no chão e logo choveram punhos ininterruptos sobre minha cabeça que, para azar de todos, é dura, muito dura.
A torcida invadiu o campo aumentando a confusão, que só acabou quando a polícia veio com cacetetes em riste e palavrões ríspidos. Décio Pignatari ainda brandia seus cartões semióticos, assustado com o futebol de várzea. Olhinhos apertados de prazer, Trevisan nos espiava por uma fresta do vestiário. Então, Wilson Martins, sem perder a classe, pôs fim ao jogo:
– O árbitro declara susssspeeeeeeenso mais um amistoso paranaense.
Fim da festa; animais novamente dóceis, ganhamos o caminho de casa, onde durante todo o inverno lamberemos em silêncio nossas feridas.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

TODA CRISE É CRIATIVA



Literatura é sempre uma linguagem com a temperatura modificada.

Não se escreve um bom texto, que se faça redemoinho de fatos experimentados interiormente, sem sair de nosso estado de normalidade psíquica.

Esta mudança aguça a percepção de quem escreve e permite que a linguagem o comande e não o contrário.

Todas as vezes que comandamos a linguagem, o texto esfria, perdendo a fluência. Enquanto, nestes momentos de entrega total, o texto escorre, denso e poderoso, arrastando o autor (e depois o leitor) a lugares imprevisíveis.

Estou opondo aqui dois conceitos, o texto febril e o texto fabril.

Este é fabricado, construído de maneira racional, e tem inúmeros fins na comunicação principalmente de idéias. A funcionalidade é sua marca. Serve para certa filosofia, para artigos políticos, para ensaios.

Mas a grande literatura será sempre febril. Linguagem quente, vertida do olho convulso do vulcão.

Por isso, pessoas com instabilidades de espírito tendem a se tornar artistas. Elas passam de uma temperatura a outra com grande facilidade.

O que para a maioria seria uma crise, para o escritor é um momento criativo.