Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 27/04/97.
Ao contrário do que reza o senso comum, o campo jornalístico não é um espaço essencialmente de jornalistas. Mais ainda. Um jornal só adquire relevância na medida em que consegue absorver as linguagens mais variadas, venham elas dos profissionais que vierem, ultrapassando o nível de seu idioma doméstico.
O escritor, ao invés de ser visto com um intruso no periódico (ponto de vista erroneamente introduzido pela onda de especialização que deformou o ensino universitário), desempenha uma função extremamente salutar: os seus textos marcam uma mudança de registro, são uma espécie de feriado informativo no vasto calendário noticioso do jornal. O que distingue o texto do profissional da área do de um escritor é a sua natureza. No daquele impera a função de noticiar. No do escritor, o que sobressai é o trabalho com os meios de expressão. Neste, o convívio com a linguagem é muito mais intenso e reflete uma visão de mundo própria, enquanto o jornalista, por força das circunstâncias, está inserido em uma rede de linguagem validada pela maioria.
É incorreto, no entanto, pensar que o escritor é que faz o grande jornalismo. Este nasce do choque de discursos antagônicos que, ocupando o mesmo espaço, sofrem um processo de influência recíproca.
O novo espaço que o “Caderno G” cria para três escritores do Paraná vai desempenhar importante papel na consolidação de um conceito aberto de jornalismo. Ao convidar Roberto Gomes, Jamil Snege e Carlos Dala Stella, a Gazeta do Povo está apostando na diversidade de expressões. São três escritores com propostas diferenciadas que destoam da literatura galvanizada que se produz no estado. A escolha desses nomes tem, portanto, um sentido. É um investimento no jornalismo como espaço agregativo, em que se reúnem tendências e visões discordantes.
Roberto Gomes, filósofo de formação e editor por vocação, já conta com uma vasta obra em que se misturam ingredientes como humor, problemas sociais, sexo e solidão. Formado nos anos de ditadura militar, sua obra e sua carreira se distinguem por uma coerência ética cada vez mais rara. Não existe uma linha escrita por Gomes que não surpreenda pela sinceridade. Walter Benjamim afirmava que o bom escritor não diz mais do que pensa, por isso o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer. O que marca a sua produção é esta opção por uma expressão autêntica, sem a diplomacia do refreamento das verdades. Sua prosa escorreita não se deixa iludir por jogos de linguagem, apostando de forma invariável num sentido impertinente.
Já Snege, publicitário bem sucedido, joga pesado com a linguagem. Seus textos fortes revelam um paciente trabalho com a palavra. Contrariando a tendência do discurso publicitário, ele evita os trocadilhos, as frases curtas e as visões idealizantes da realidade. Fica bem nítida a fronteira que separa a sua dupla condição. De um lado, o mundo da publicidade com as suas regras e o seu idioma; de outro, o do escritor que não faz concessões a nenhum tipo de verdade aceita. Na literatura, ele age sobre a linguagem, moldando-a segundo o seu projeto pessoal; na publicidade, ele se deixa agir por uma linguagem grupal, pagando o preço de sua liberdade de escritor autoimpresso. Em Como eu se fiz por si mesmo, Snege resolveu em um aforisma a sua situação: “Pago para escrever o que quero com o que ganho para escrever o que não quero” (p. 277). O seu verbo forte, mesmo em prosa, dá a ver um autor com a preocupação de esticar o fio da escrita, eliminando a flacidez verbal.
Desenvolvendo paralelamente uma carreira de artista plástico e de poeta, Carlos Dala Stella exerce a escrita como uma experiência visual, elidindo a distância entre a linguagem plástica e a poética. Embora não tenha ainda publicado nenhum livro, ele trabalha há dez anos em conjuntos de poemas que, quando vieram à tona, vão desvelar uma de nossas mais consistentes vocações. A sua poesia é uma espécie de infrassom em que não se encontra exibicionismo verbal ou narcísico. Ela flui de forma natural, conduzindo o leitor a uma poética enraizada no cotidiano. Trabalhando com a colagem tanto no campo das artes plásticas quanto no literário, Dala Stella investe na superação do fragmentário, criando continuidades entre pedaços que, num primeiro momento, parecem totalmente independentes.
Com esta trindade terá início uma nova etapa da história do “Caderno G” que, sem favor, é o território cultural mais importante do sul do país.





