segunda-feira, 28 de maio de 2012

FERIADO INFORMATIVO


Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 27/04/97.


Ao contrário do que reza o senso comum, o campo jornalístico não é um espaço essencialmente de jornalistas. Mais ainda. Um jornal só adquire relevância na medida em que consegue absorver as linguagens mais variadas, venham elas dos profissionais que vierem, ultrapassando o nível de seu idioma doméstico.

O escritor, ao invés de ser visto com um intruso no periódico (ponto de vista erroneamente introduzido pela onda de especialização que deformou o ensino universitário), desempenha uma função extremamente salutar: os seus textos marcam uma mudança de registro, são uma espécie de feriado informativo no vasto calendário noticioso do jornal. O que distingue o texto do profissional da área do de um escritor é a sua natureza. No daquele impera a função de noticiar. No do escritor, o que sobressai é o trabalho com os meios de expressão. Neste, o convívio com a linguagem é muito mais intenso e reflete uma visão de mundo própria, enquanto o jornalista, por força das circunstâncias, está inserido em uma rede de linguagem validada pela maioria.

É incorreto, no entanto, pensar que o escritor é que faz o grande jornalismo. Este nasce do choque de discursos antagônicos que, ocupando o mesmo espaço, sofrem um processo de influência recíproca.

O novo espaço que o “Caderno G” cria para três escritores do Paraná vai desempenhar importante papel na consolidação de um conceito aberto de jornalismo. Ao convidar Roberto Gomes, Jamil Snege e Carlos Dala Stella, a Gazeta do Povo está apostando na diversidade de expressões. São três escritores com propostas diferenciadas que destoam da literatura galvanizada que se produz no estado. A escolha desses nomes tem, portanto, um sentido. É um investimento no jornalismo como espaço agregativo, em que se reúnem tendências e visões discordantes.

Roberto Gomes, filósofo de formação e editor por vocação, já conta com uma vasta obra em que se misturam ingredientes como humor, problemas sociais, sexo e solidão. Formado nos anos de ditadura militar, sua obra e sua carreira se distinguem por uma coerência ética cada vez mais rara. Não existe uma linha escrita por Gomes que não surpreenda pela sinceridade. Walter Benjamim afirmava que o bom escritor não diz mais do que pensa, por isso o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer. O que marca a sua produção é esta opção por uma expressão autêntica, sem a diplomacia do refreamento das verdades. Sua prosa escorreita não se deixa iludir por jogos de linguagem, apostando de forma invariável num sentido impertinente.

Já Snege, publicitário bem sucedido, joga pesado com a linguagem. Seus textos fortes revelam um paciente trabalho com a palavra. Contrariando a tendência do discurso publicitário, ele evita os trocadilhos, as frases curtas e as visões idealizantes da realidade. Fica bem nítida a fronteira que separa a sua dupla condição. De um lado, o mundo da publicidade com as suas regras e o seu idioma; de outro, o do escritor que não faz concessões a nenhum tipo de verdade aceita. Na literatura, ele age sobre a linguagem, moldando-a segundo o seu projeto pessoal; na publicidade, ele se deixa agir por uma linguagem grupal, pagando o preço de sua liberdade de escritor autoimpresso. Em Como eu se fiz por si mesmo, Snege resolveu em um aforisma a sua situação: “Pago para escrever o que quero com o que ganho para escrever o que não quero” (p. 277). O seu verbo forte, mesmo em prosa, dá a ver um autor com a preocupação de esticar o fio da escrita, eliminando a flacidez verbal.

Desenvolvendo paralelamente uma carreira de artista plástico e de poeta, Carlos Dala Stella exerce a escrita como uma experiência visual, elidindo a distância entre a linguagem plástica e a poética. Embora não tenha ainda publicado nenhum livro, ele trabalha há dez anos em conjuntos de poemas que, quando vieram à tona, vão desvelar uma de nossas mais consistentes vocações. A sua poesia é uma espécie de infrassom em que não se encontra exibicionismo verbal ou narcísico. Ela flui de forma natural, conduzindo o leitor a uma poética enraizada no cotidiano. Trabalhando com a colagem tanto no campo das artes plásticas quanto no literário, Dala Stella investe na superação do fragmentário, criando continuidades entre pedaços que, num primeiro momento, parecem totalmente independentes.

Com esta trindade terá início uma nova etapa da história do “Caderno G” que, sem favor, é o território cultural mais importante do sul do país.

domingo, 27 de maio de 2012

CRONISTAS DA GAZETA DO POVO

Ana Amélia Filizola

Em abril de 1997, a pedido da jornalista Ana Amélia Filizola, selecionei 4 cronistas para o recém-criado Caderno G, da Gazeta do Povo. Cada um ia escrever em um domingo do mês. Eram eles: Cristovão Tezza, Jamil Snege, Roberto Gomes e Carlos Dala Stella. Na última hora, Cristovão desistiu da empreitada, pois achava muito desgastante produzir textos curtos.
Ficaram os outros três, iniciando a fase das crônicas literárias da Gazeta do Povo, com o apoio entusiasmado da Ana Amélia. O primeiro a ter interrompida a colaboração foi o poeta e artista plástico Dala Stella, por um descompasso com a linguagem jornalística. Depois, Jamil Snege, inadvertidamente, morreu. No lugar dele, entrou Domingos Pellegrini – que até hoje alterna os domingos com Roberto Gomes.
Só mais recentemente, Cristovão Tezza começou a escrever crônicas, agora no primeiro caderno, às terças, e por convite de outras pessoas do jornal. A literatura já tinha o seu lugar garantido na Gazeta do Povo.

CARTOGRAFIAS MÍNIMAS


Publicado na Gazeta do Povo, em 20 de maio de 2012.




Potencializado pela geração da internet, o conto breve tem raízes profundas na cultura brasileira. Vem de nosso Romantismo, quando o ficcionista passou a publicar histórias em jornais. O conto neste formato tem a extensão da crônica, esse gênero tão aclimatado ao nosso modo de fazer literatura. Enquanto na crônica, no entanto, há um predomínio da espontaneidade narrativa, no conto breve prevalece um tratamento mais poético da linguagem.

Trazem certo esfumaçamento de sentido, próprio da poesia, os contos que Tércia Montenegro (1976) publica em O Tempo em Estado Sólido (Grua, 2012). A autora se vale de uma linguagem mais literária, com o uso de termos eruditos em enredos que não se desenrolam facilmente. O seu narrador recorrente é uma pessoa com atividades artísticas, que questiona a condição frágil da experiência humana. Uma postura mais filosofante distingue os relatos desses seres atormentados com aquilo que não fica.
 
Se cada conto é uma cena, uma fotografia, um flash, Tércia os amarra por meio deste dilema central. E também pela projeção de personagens e posturas entre as peças. Talvez, o texto mais simbólico do livro seja “Aquarela com Bonsai”, relato do encontro sexual de uma mulher e seu companheiro com uma jovem negra. Esta é comparada a uma escultura, por seu corpo bem torneado, por sua juventude explícita. Mas, quando a narradora acaricia o corpo da outra, descobre a consistência líquida daquela beleza e toda a esperança de solidez se desfaz: “Não me acostumo a um corpo que só consegue ser fluido, que não enrijece, que não tem o poder das coisas sólidas” (p.52). Esses corpos líquidos das fêmeas reforçam o seu vínculo ao corpo masculino, mais marmóreo.

As fotografias e a memória (esta vista como uma exposição interior que cada um organiza para uso próprio) são as formas de dar algum osso ao tempo, embora o próprio fluxo dos contos seja invertebrado. Não há um esqueleto narrativo, tudo acontece na mente do narrador, as ações são mínimas e quase não vemos os personagens. Os contos intimistas de Tércia Montenegro são, como o título de um deles, “Cartografias de Instantes”, tal como o varal de fotos que a narradora pendura no seu apartamento para consumo artístico privado.

Embora traga um arsenal de epígrafes da poeta Adélia Prado (dispensáveis para a economia narrativa do volume), os contos de Moacyr Godoy Moreira (1972) – Soalho de Tábua (Ateliê Editorial, 2012), estão mais para a crônica do que para a poesia. A linguagem aqui é transitável, os dramas vividos pelos narradores se limitam com a vida das pessoas comuns e há uma claridade de linguagem que revela um desejo de comunicação.

Falta também a exploração de todas as possibilidades narrativas dos núcleos dramáticos, apresentados de forma rápida. O conto mais significativo do livro talvez seja “O estreito espaço dos caminhos”, que conta como um marido em desencontro com a esposa faz sozinho suas viagens a trabalho para Portugal, deparando-se nas vielas sombrias da cidade ancestral com um mapa de sua própria interioridade. O eu e a cidade com vias estreitas se confundem: “Notei que os trajetos remetiam-me não à cidade que não conhecia, mas aos meandros de sentimentos que me habitavam” (p. 73). Ele vai concluir que, neste passeio por velhas ruas, experimenta a cartografia detalhada dos próprios desacertos.

Os dois autores resolvem seus contos em duas ou três páginas, pois estão interessados mais num levantamento de instantes do que na exploração das potencialidades narrativas.

O Tempo em Estado Sólido
Tércia Montenegro. Editora Grua. 112 págs., R$ 29.
Soalho de Tábua
Moacyr Godoy Moreira. Ateliê Editorial. 116 págs. R$ 32.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

IRMANDADE

Publicado na Gazeta do Povo, 13 de maio de 2012.

A literatura se encaminha para uma crença no ser humano, assumindo um papel educativo tido como ultrapassado. Educar pela sensibilidade, pelo exercício de encenação de uma outra vida, para a formação emocional do leitor. Quando tudo nega a importância da literatura, um grupo de escritores muito diferentes entre si afirma este seu velho poder, o da emoção civilizadora.
Há um fundo utópico nestes livros que tentam construir outra humanidade, tal como se pode ver no recente O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (Cosac-Naify, 2012). Trocando a linguagem veloz dos fatos pela escrita sensitiva, focada nos estados de alma dos personagens e não em suas ações, o escritor se vale de uma estrutura poética que mina os valores imperantes na prosa. É ficção de poeta, cujo centro é a linguagem. Mas uma linguagem feita sob medida para os seres que se valem dela.
Assim, a própria linguagem tem função humanizadora, pois coloca o leitor em contato com seres que não se enquadram no sistema e que exercem esta diferença por meio de uma fala desviante, potencialmente poética. O ritmo da leitura leva a uma outra postura diante das pessoas.
O território deste romance também marca um afastamento em relação ao espaço cosmopolita que tomou conta de tudo. A narrativa se passa em uma aldeia, onde as pessoas vivem uma essencialidade social: são pescadores, agricultores, caseiros etc. O alimento é pouco; o trabalho, cotidiano. O romance, dessa forma, permite que se habite literariamente uma latitude em conflito com o mundo moderno.
A própria construção dos personagens tem um sentido pouco comum em nosso anódino agora. Elas aparecem inicialmente como seres incompletos, atormentadas por aquilo que lhes falta, para seguir rumo a uma inusitada unidade. Aos poucos, passando por perdas e por negações, frustrando as expectativas, elas encontram uma experiência de plenitude. Mesmo no plano da trama, tudo começa descosido, com a história de pessoas vivendo isoladamente as suas fraquezas, mas a mão do romancista vai aproximando essas solidões, e com elas constrói um clã, anunciando um projeto maior de felicidade nas gerações que ainda virão. O livro é simbolicamente dedicado às crianças e termina como a celebração do filho, um filho adotivo que, por isso mesmo, não pertence a uma história individualizada, mas comunal. Opera-se assim um movimento do indivíduo para o coletivo.
Estes seres não correspondem à média do cidadão contemporâneo. São individualidades problematizadas, que sofrem algum tipo de mutilação, interior ou exterior. Um pescador que sonha ser pai e compra um boneco para acalentar. Uma anã que engravida depois de supostamente ter dormido com todos os homens da aldeia. Uma solteirona ressequida. Um gay que se casa para contentar a mãe. Um velho que quer comprar uma companheira para o fim da vida. E muitos órfãos, pois a orfandade é o sinônimo mais feroz da incompletude.
Sofrendo baixas, envolvidos em um clima mágico próprio das sociedades rurais, estas pessoas vão construindo vínculos afetivos e sexuais, ao ponto de constituírem uma família não-sanguínea, mas com laços ainda mais fortes. Ao adotar as crianças sem pais, ao se casar com aqueles que padecem de solidão e ao se importar um com os outros, surge um novo modelo relacional. E a família acaba sendo a própria aldeia, onde se manifestam o entusiasmo e o amor.
Nesta trajetória utópica, cada personagem se faz filho do todo, e por isso não sofre com a rejeição: “todos nascemos filhos de mil pais e mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo” (p.188). Construir este sentimento de pertença é o que deseja Valter Hugo Mãe, fazendo com que o leitor – assim como os seus personagens – se entusiasme com a possibilidade de mudar minimamente o mundo.

Serviço:
O filho de mil homens. Valter Hugo Mãe . Editora Cosac-Naify, 2012, 208 páginas. Romance.

terça-feira, 15 de maio de 2012

DESMEMÓRIA






Enfim saiu a nova edição de Chove sobre minha infância, 12 anos após a primeira, e quase dois anos depois desta ter se esgotado.

Reeditar é muito mais difícil do que editar.

Um autor só existe de fato quando seu livro é reeditado, o que indica que houve um público mínimo.

Esperei este momento como quem aguarda o reencontro com uma pessoa amada.

Este livro, cuja personagem principal é minha mãe, chega em casa horas antes de um telefonema de meu padrasto que me comunica que ela está com as manifestações do Mal de Alzheimer.

As coisas não podem ser mais simples, menos dramáticas? Devo sempre sorrir-sofrer ao mesmo tempo?

Tenho ido com frequência a Peabiru, exclusivamente para visitar minha mãe, e pelo encaminhar das coisas esperava esta notícia.

Ela veio junto com a nova edição de meu romance, logo depois do dia das mães.

Uma amena temporada de desmemória, mãe.

A TIMIDEZ DO MONSTRO



Michel Laub e este monstro tímido na Bienal do Amazonas.
Roer as unhas é sinal de uma infantilidade imperdoável.

domingo, 13 de maio de 2012

LITERATURA EM REDE

Publicado na Gazeta do Povo, 06 de maio de 2012.



Na apresentação de seus 47 Contos (Companhia das Letras, 2004), datada de 1981, o Nobel Isaac Bashevis Singer (1904-1991) lembrava que “a literatura genuína informa enquanto entretém”. Poderíamos propor uma variante igualmente verdadeira para esta frase: a literatura genuína forma enquanto entretém. Nos dois casos, a questão de uma arte que tem um poder de informar ou de formar sempre aparece ligada à ideia da fruição.

Na contemporaneidade, quando houve o domínio total do entretenimento, não se pode mais ignorar, nos ambientes didáticos, a função de distração da arte. Sempre atento às alterações de comportamento do público leitor, o poeta Paulo Leminski (1944-1989), lançava em 1987 uma coletânea poética cujo título era um programa: Distraídos Venceremos. Mais do que uma despolitização da arte, negação do “unidos venceremos” das passeatas, este título e a própria poesia midiática de Leminski apontavam para uma união legítima entre entretenimento e palavra literária. Ou seja, o caminho era o mesmo proposto e vivido por Singer.

Conquanto haja esta orientação mais arejada, prevalece em nossa cultura uma concepção excludente de texto. A literatura genuína, para o pensamento hegemônico no país, é aquela que se define como alta literatura. Ou seja, que se afastou das tensões e linguagem mais humanas, fazendo a cabeça dos leitores intelectualmente mais exigentes, que leem dentro de uma perspectiva teórico-crítica. Alta literatura, assim, passa a ser um rótulo para aquilo que se afasta do leitor comum, podendo assumir a forma da experimentação, hermetismos vários, feição barroca, extrema intelectualização literária, transgressão (não só de linguagem como de estruturas e enredos) etc. É este o sinônimo de literatura no pensamento crítico em vigor.

Por outro lado, a grande maioria da população letrada se abastece de produtos narrativos e poéticos nos mercados do entretenimento. Não existe maior mecanismo internalizador de estruturas narrativas do que o cinema, as séries de televisão e as telenovelas. São estas instâncias que dão ao grande público uma capacidade de enfretamento de narrativas maiores, ampliando o domínio do gênero romance. Lemos cada vez mais romances porque há uma estrutura mental criada pela indústria do cinema e da televisão. Com relação à poesia, o fenômeno é idêntico. O consumo poético hoje passa por uma sensibilidade criada pela música que, desde os anos de 1960, forja aptidões textuais.

Enquanto isso, a intelectualidade continua aferrada a um conceito de literatura de exceção, para os happy few, para os que podem consumir os biscoitos finos da linguagem. Para um lado foi o piano, para outro a orquestra. Todo texto que flertar de forma mais assumida com o entretenimento, ou com a linguagem reconhecível pelo leitor comum, sofrerá o anátema de vendido ao mercado, de subliteratura, de submissão à mediocridade.

O grande desafio do ensino da literatura é reconhecer a função entretenimento, formando fruidores do texto literário fora do serviço militar das leituras obrigatórias. Entender a literatura como instância de formação pelo entretenimento é criar um diálogo como o mundo contemporâneo, demonstrando que o texto literário não é a exata negação das experiências comunicativas desta era das mídias.

Esta proposta dificilmente virá da universidade, onde todo pensamento está dentro de um sistema de hierarquização temporal e cultural, mas pode surgir dos escritores que, rebelando-se contra um receituário de linguagem excludente, construam suas obras em franco diálogo com o leitor comum, incluindo-o na medida em que permite que ele se reconheça nos códigos usados.

Para usar uma expressão de Singer, a literatura não pode continuar se vendo (ou sendo vista) como “abismos verbais”, e sim como ponte que nos leve a todos os lugares.