segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os altos e baixos da Educação

Entrevista ao jornalista Sebastião Natálio, publicada no caderno Urbe, do Jornal da Manhã. Ponta Grossa, 29 de janeiro de 2012.


"O escritor, crítico literário e professor, Miguel Sanches Neto, defende a valorização do profissional do ensino, mas faz considerações sobre a falta de leitura pelos professores"



Você sabia que a escola pode deseducar? Que boa parte dos professores de literatura não leem, e que os livros literários são criminosamente utilitarizados nas escolas? Estas são algumas análises do escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto, um dos mais importantes nomes da nossa literatura e que mora em Ponta Grossa, sobre a educação. Por outro lado, Miguel fala dos avanços que estão ocorrendo no país e destaca a necessidade de desenvolver uma formação mais cosmopolita do estudante brasileiro, através de estágios, bolsas e extensões no exterior. O professor defende, ainda, a sua categoria, apontando que não haverá melhoria da educação enquanto não houver respeitabilidade ao profissional da área. Leia mais na entrevista que o Jornal da Manhã fez na casa do escritor.


Qual é a análise que você faz da Educação hoje no Brasil?
Como o Brasil hoje está ocupando um papel de protagonismo internacional, a questão da educação se tornou politicamente mais forte. Você vê que existe um esforço muito grande para se modificar a educação no Brasil. E esta preocupação está em todos os níveis, até na universidade. Existe um interesse em mandar brasileiros ao exterior para que, em cursos de graduação e pós-graduação, eles possam trazer uma formação mais cosmopolita. Desde a época em que eu era aluno, no período da ditadura, sem falso entusiasmo, nunca se viveu uma preocupação tão grande com a educação no país. O Brasil sente que pode ser um líder internacional na economia, ele tem este potencial, mas ao mesmo tempo falta para ele uma base, a formação de pessoas capazes de assumir este momento histórico.
Qual é o principal problema da nossa educação?
Nós, historicamente, sempre vimos a educação como algo adjetivo, ela não foi substantiva na nossa cultura. A gente tem uma identidade mais externa. Veja o que define o brasileiro. É ir ao bar, é jogar futebol, é o carnaval. São atividades externas e coletivas, ao contrário de outros países onde a identidade é muito mais interna, de estudo e de reflexão. Algumas são muito espirituais, por exemplo, no Tibete, onde a meditação é marca de identidade do povo. Esta nossa identidade externa e a falta de uma política mais sistemática fizeram com que a educação fosse tratada como algo secundário na história do Brasil.
Esta preocupação com a educação está vindo tarde então?
Sim, e a gente está ainda em um processo em que prevalece, na escola e nas universidades, um descaso.Vou dar um exemplo: uma conhecida nossa aqui do Paraná, descendente de japoneses, foi para o Japão como trabalhadora braçal. Lá, ela foi arregimentada para as fábricas. Quando souberam que ela era professora, que tinha um curso de graduação, imediatamente ela foi guindada a uma posição de destaque dentro da comunidade, passou a ter um outro salário, um outro tratamento e uma respeitabilidade social que ela disse que nunca teve aqui no Brasil. Então, quando se fala em educação, temos que falar em melhorar os alunos, melhorar a escola, melhorar a formação dos professores, mas existe também a necessidade de um reconhecimento social da função do professor. Porque tudo está casado. Não adianta colocar os melhores computadores na escola, os melhores equipamentos eletrônicos, sem esta valorização do professor. Mudando este olhar sobre o professor, haverá pessoas querendo ser professores e professores se entusiasmando mais com a profissão.
Falta este entusiasmo hoje para o professor?
Falta, falta porque a condição do professor no Brasil é quase uma condição de pária social. Toda vez que você fala em professor, você fala de um indivíduo sofrido, das más condições de trabalho, de baixos salários, de atraso de salário, do desrespeito que ele sofre na sala de aula. Quando um grupo de alunos desrespeita um professor na sala de aula, não é que os alunos não sejam educados, não é que eles não gostem do professor, os alunos refletem o olhar que a comunidade tem do professor. Os alunos estão dizendo para o professor o que a sociedade pensa sobre ele. Não existe melhoria da educação sem a melhoria da respeitabilidade da profissão do professor.
O giz e o quadro pode salvar o Brasil ou falta muita coisa ainda?
O giz e o quadro é o conjunto básico, é o mínimo. Falta principalmente que a escola seja atrativa para o aluno. Aí nós vamos pegar o outro lado da questão, uma coisa é a valorização do professor e a outra é que a escola tem que ser um lugar mais interessante. Vivemos a era do entretenimento, seja nos jogos eletrônicos, seja na televisão, e tudo isso tem um poder muito grande para fisgar a atenção dos jovens. Enquanto isso, a escola funciona no velho modelo, como um depósito de alunos entediados. No geral, é um lugar materialmente precário, feio, que não tem nenhum outro atrativo a não ser aquela pessoa que vai lá passar um conteúdo. Eu defendo a ideia de uma biblioteca que seja um centro cultural, e acredito que a escola tem que ser um centro cultural, recreativo e desportivo. A essência da revolução na educação passa pela escola pública e ela tem que aderir às estratégias do entretenimento, ela não pode continuar sendo um espaço de aprendizagem seca. Tem que ser um espaço de lazer, de encontro com aquelas coisas que formam a contemporaneidade.
Você falou dos jogos, dos aparelhos eletrônicos. Falta o acesso a estas mídias na escola?
Falta. A educação formal, a informação que você recebe na escola, é uma pequena parte do processo de aprendizagem. Eu sou da era mecânica e dependíamos muito da escola para termos uma formação. Hoje esta formação pode ser muito mais compartilhada, recai muito menos peso sobre a escola por conta das mídias que se popularizam rapidamente. No entanto, a escola pública continua presa a um modelo anterior à era eletrônica. Nós, os da geração que está chegando aos 50 anos, somos imigrantes da tecnologia digital, nós não somos desta era, mas temos que aprender a habitá-la. A escola precisa se equipar melhor, precisa abrir estes espaços, não só para os alunos usarem, mas para o professor criar uma maior intimidade tecnológica, porque o processo formal de aprendizagem não pode ser distinto daquele que acontece fora da escola.
E até saber orientar os estudantes a usarem estas mídias..
Sim, uma das funções da escola é criar uma didática para o uso destas tecnologias. O que nós precisamos fazer no Brasil – me parece que os últimos governos têm feito, eu ainda não sei os resultados – é a inclusão digital. Todo o órgão público, toda a escola, biblioteca, associação de moradores ou de classes deve se pensar como um lugar de acesso estratégico à internet, voltado para a população de menor recurso. Nós defendemos muito que todas as bibliotecas públicas, principalmente as de bairro, sejam também centros de tecnologias digitais organizadas para o entretenimento educativo. Hoje uma comunidade que não tem acesso ao mundo digital está fadada a viver numa pré-história.
Como escritor, qual a análise que você faz da leitura na escola?
Este é um assunto muito complexo. Há inúmeros exemplos de que estamos vivendo um grande processo de fomento da leitura, a Biblioteca Nacional tem feito muitos trabalhos nesta área, mas a escola ainda tem um grande problema com relação à leitura: ela utilitariza o livro. A escola utilitariza tudo, mas com o livro literário ela faz isso de maneira quase criminosa. A pessoa lê aquele livro para tirar algo dele. E todas as vezes que você lê literatura para tirar informação, para aprender alguma coisa, você mata a essência dela que é justamente esta entrega a um mundo imaginário, esta entrega a uma compreensão do ser humano, a uma possibilidade de viver outras vidas diferentes da sua. Quando lemos um livro que se passa no século XIX, na verdade não estamos querendo aprender como era o século XIX, você está vivendo no século XIX por meio da literatura. Como a escola utilitariza muito a leitura literária, nós temos um processo muito estranho, ao invés de criar o gosto pela leitura ela transforma a leitura em uma obrigação. E tem mais um problema grave, boa parte dos professores de literatura não são leitores.
Já ouvi de terceiros, inclusive de amigos professores, muitas coisas neste sentido. Isto é fato?
A minha afirmação vai ser bastante polêmica, sempre pensei em fazê-la e nunca fiz, mas vou correr o risco aqui: eu acredito que para ser professor de literatura você não precisa ser formado em Letras, precisa antes de tudo ser leitor. Aliás, não precisa ter nenhuma formação universitária. A principal ferramenta didática para formar um leitor literário, aquele que lê romance, crônica, poesia, é o entusiasmo pela leitura. Não é uma ferramenta técnica, é sangue correndo nas veias em um outro ritmo, é o desejo incontido de comunicar um prazer conquistado. E qualquer ser humano, qualquer profissional, qualquer pessoa alfabetizada que leia, e que tenha esta chama literária, pode ser um grande incentivador da leitura, um grande formador de leitores. Talvez um dos equívocos do sistema é o de achar que instrumentalizando um profissional, dando as ferramentas que a universidade acha que lhe dá, ela está fazendo dele um professor de literatura. Ele pode se tornar professor de outras áreas, de gramática, de língua estrangeira, quanto a isso acho que a formação é fundamental. Mas a literatura deve ser um compromisso muito maior do que o de uma única classe profissional. Dentro da escola, a leitura literária tem que ser um compromisso do professor de matemática, do professor de educação física etc. Porque ali está a essência da formação humana. Não que a literatura seja melhor do que as outras disciplinas, mas a literatura transcende a própria escola. Se a pessoa lê bem, ela se torna um ser humano diferente.
Entrando no vestibular e Enem. O vestibular ainda é o meio mais adequado de ingressar na universidade ou já está ultrapassado?
Avançou muito nos últimos anos a compreensão da função do vestibular. Pelo menos tem se discutido mais. O Processo Seriado Seletivo é uma grande conquista: você faz a prova acompanhando a própria formação secundária. Felizmente a nossa universidade aderiu a esta metodologia. E falo não só como professor, mas como pai de uma estudante que está neste processo. O rendimento dela no PSS é muito maior do que no vestibular. Ela faz uma prova referente a um conteúdo que ela viu naquele ano, e isso é muito mais humano. Por outro lado, o vestibular geral ainda é extremamente objetivo, cruel neste sentido, pois mede muito mais uma capacidade de memorização do que de reflexão. Aí é que está a questão central do vestibular, ele deveria medir a capacidade de reflexão e não de memorização do aluno. A memorização é um critério burro, porque você entra na universidade e esquece quase tudo. E aí você seleciona aqueles que têm capacidade para memorizar regras e deixa de lado aqueles com capacidade de refletir. A universidade privilegia assim a rotina e não a criatividade.
E sobre o Enem?
Eu sou absolutamente favorável ao Enem. Eu não acompanhei a prova do Enem, mas minha filha fez e ela comparou as duas, e achou a prova do Enem muito mais reflexiva do que dos vestibulares em geral. O que é importante no Enem, com todos os problemas que ele está tendo, é que ele e a primeira tentativa de implantar um sistema de seleção em âmbito nacional, o que não é pouca coisa. Nós sabemos da dificuldade de fazer vestibular sigiloso em uma universidade, agora imagine fazer isso no Brasil todo. O Enem, dentro de três ou quatro anos, vai ser uma ferramenta muito eficaz. Veja as oportunidades que ele cria. Se um determinado aluno da selva amazônica tiver vocação para uma determinada profissão ele terá oportunidade de chegar a uma universidade em qualquer canto do Brasil. Democratizar o acesso ao vestibular é o primeiro passo para democratizar o acesso à universidade.
Já li críticas suas ao sistema de ensino de que às vezes a escola deseduca. Em que sentido isso ocorre?
A escola deseduca em vários sentidos, mas principalmente quando não corresponde àquilo que está acontecendo no mundo do qual ela faz parte. Se toda a sociedade está integrada tecnologicamente, se tudo está funcionando com base na troca de informações em tempo muito rápido e a escola ainda mantém um processo arcaico de transmissão do conhecimento, ela deseduca. A atualização da escola é fundamental para que ela seja educadora. Tudo o que faz parte da identidade de um povo, de uma região, pode e deve ser usado como instrumento de aprendizagem.
Mas existe uma discriminação do professor quando ele faz isso?
Existe, porque acham que a pessoa não está dando a aula no sentido tradicional não está passando conteúdo. Vou contar a história de um professor, o João Amálio Ribas, que foi meu aluno. Ele dava aula em uma determinada escola e tinha uma disciplina que de leitura. Ele levava os alunos para a biblioteca da escola e deixava os alunos lendo à vontade. Os próprios colegas achavam que não era justo, porque enquanto eles estavam dando aula, ele não estava fazendo nada. É que nós temos uma visão muito fechada do que seja ensino. Tudo é ensino, tudo é passível de uma atividade didática, tudo aceita uma função formadora. Na Universidade não é muito diferente. A universidade insiste muito em sala de aula, em número de aulas das disciplinas, e no processo de transmissão de conhecimento professor/aluno. Mas existem duas outras esferas da universidade com igual potencial, a pesquisa e a extensão. Uma valorizada e a outra não muito. A pesquisa é tão formadora ou mais do que a sala de aula, e a extensão responsabiliza a comunidade pela formação do aluno. Na extensão com caráter formador, o aluno vai para a rua não para ensinar a comunidade, mas se formar no contato com ela.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

TEMPO INTEIRO

Publicado na Gazeta do Povo, 22 de janeiro de 2012.


A julgar por autores e obras com destaque, o que a contemporaneidade entende por poesia não passa daquilo que o crítico italiano Alfonso Berardinelli definiu como o kitsch do moderno, um conjunto desconectado de palavras, caracterizado por uma forma vazia e intercambiável. Para este intelectual, a poesia hegemônica no Ocidente é a que nega o autor, a que se despersonaliza ao extremo, numa reprodução constante de si mesma. Tratando não só da poesia, mas da literatura como um todo, Isaac Bashevis Singer lembrava em suas memórias (Amor e Exílio) que “todas as inovações de linguagem em breve se tornam clichês”. Avessos a esse processo, alguns poetas produzem uma obra vinculada à própria circunstância.

Pertencendo a este grupo, o baiano Ruy Espinheira Filho tem agora publicada uma antologia (Melhores Poemas. Global, 2011) em que o leitor poderá acompanhar a trajetória de um dos mais importantes poetas líricos brasileiros da modernidade. É uma poesia com dimensão biográfica e histórica, contrária à ideia de que o universo poético deve ser uma realidade paralela, onde flutuam linguagens marcadas pelo vácuo semântico. Não existe linguagem sem o ser humano. E o ser humano enquanto linguagem é o que se chama de literatura.

Desde o início de sua vida editorial, em 1973, Ruy Espinheira se destaca como uma voz à parte, praticando a poesia contra a passagem do tempo. Ao poeta cabe uma atividade das mais difíceis, que é transformar os vazios existenciais em obra de arte, em uma tentativa de plenitude. Perdemos pessoas, paisagens, feições e por fim perdemos a nós mesmos, e é com estas perdas que ele erige o poema: “Mais pleno é o perdido, pois o resto/ ainda não se cumpriu” (p.98). É no passado que ele encontra o tempo inteiro, conquistando uma ampla compreensão emocional. No presente, tudo é incompleto. E o futuro, mera ficção.

Habitam esta poesia os parentes, os amigos, as mulheres, os livros, as paisagens, ou seja, todo o contexto afetivo do poeta. Mas a figura central para Ruy Espinheira é o pai, de quem ele herda mais do que o nome, recebendo também uma visão generosa do mundo. Eis a fonte imorredoura de afeto. E embora haja belos tributos às paixões, a sua poesia é amorosa num sentido muito mais amplo, que inclui todas as coisas mudáveis do mundo. Há vários poemas falando de amigos, outros que lhes são dedicados, o que faz de sua poesia uma das mais belas celebrações da amizade em nossa língua.

Uma obra com tal função não pode optar pelo verbo agressivo, pelas dissonâncias, pelas inovações (que querem tornar o anterior obsoleto). O seu verbo é calmo, forjando uma voz melancólica mas estranhamente pacificadora, que nos leva a viver o perdido, a sofrer com ele, mas também a participar de sua redenção. Assim se cumpre a essência do literário, sem a qual ele perde todo o sentido, que é nos unir a uma trajetória, criando laços com outros seres; no caso da poesia, com o próprio poeta, com um eu que não se afasta daquilo que se afastou dele:

“Isto o que ganhei: essas perdas.
Isto o que ficou: esse tesouro
de ausências” (p.111).

Este tesouro nos forma e nos conforma diante do nosso próprio fim. Pela poesia, participamos de uma experiência individualizada, a do poeta, e também de uma genérica, a da natureza humana. É nesse sentido que a poesia é sempre verbo encarnado. Verbo que se faz gente. E não uma linguagem funcionando sozinha.

Serviço
Melhores Poemas, de Ruy Espinheira Filho. Organização de Sérgio Martagão Gesteira. Global, 296 págs. R$ 35. Poesia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ACOMPANHE A CAMPANHA



Foto para a campanha PAZ TEM VOZ, da Gazeta do Povo.

ESCRITOR AUSENTE

Publicado na Gazeta do Povo, 15 de janeiro de 2012.



Se, pela compulsão de escrever a amigos, Otto Lara Resende (1922-1992) se equipara a Mario de Andrade (1893-1945), o resultado de sua atividade como missivista – a crer nas cartas enviadas a seu interlocutor maior, Fernando Sabino (O Rio É tão Longe, Cia das Letras, 2011) – é bem inferior. Não há a discussão de questões relevantes da vida e da literatura, contentando-se Otto com gracinhas, levantamentos de um cotidiano anódino e principalmente com a cobrança de notícias de amigos.

As cartas de escritor são relevantes na medida em que ele discute a sua obra, revelando caminhos e opções estéticas, fixando conceitos basilares para a compreensão de seus livros. Não lemos apenas o homem nas cartas, mas principalmente o escritor por trás delas. Dono de uma obra menor, na quantidade e na qualidade, Otto Lara não tinha uma estatura literária que desse nervos às suas correspondências.

Este volume foi organizado quando o autor ainda estava vivo, mas ele fugia à publicação, denunciando uma consciência das limitações de suas atividades de epistológrafo. Em 28 de dezembro de 1967, recusa uma oferta editorial de Fernando Sabino, um dos donos da editora Sabiá: “a ideia de editar as cartas pra falar a verdade não me anima, quem sou eu, hein, Rosa (Guimarães)” (p.276) – notem a escrita em forma de citação, sobrenome e depois nome, que dá a dimensão literária a Guimarães Rosa. Otto não se sentia assim, e isso não era falsa modéstia, mas senso de proporção artística entre ele e suas admirações. Para haver cartas de um escritor, é preciso antes haver o escritor. E o escritor Otto Lara Resende não se sentia existir.

No geral, as cartas são cheias de palha seca, não há confissões bombásticas nem avaliações mais originais sobre pessoas, e pouco dizem a quem não está interessado na rotina do grupinho literário fechado que eles formavam, com Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino no núcleo duro, e mais alguns autores nos subúrbios. Em dois momentos, Otto está na Europa (Bruxelas e Lisboa), como adido cultural, e se restringe a falar de sua solidão e do contato protocolar com brasileiros – havia muitos escritores e jornalistas em postos no Itamaraty. Em outro, ele escreve do Rio de Janeiro a Sabino, que está em Londres, também como adido. Há ainda umas poucas cartas de juventude, quando morava em Belo Horizonte.

Duas são as grandes constantes nestas centenas de páginas. A primeira delas é a choraminga de Otto, que abre sempre as cartas reclamando que Fernando Sabino não responde, não escreve para ele, não atende aos seus pedidos, não toma as providências solicitadas. A amizade entre os dois é muito intensa, trata-se de algo amoroso, não no sentido sexual, ao ponto de Otto confessar, entre melancólico e humorístico: “hoje, Fernando, estou muito deprimido e muito viúvo de você” (p.225). É neste tom de amantes que ele exige mais atenção. Sabino funciona como resumo do Brasil e da literatura para ele, ocupando assim um lugar afetivo central. As cartas lembram a relação de um casal de namorados separados por algo superior a eles, ao ponto de uma conhecida perguntar: “Que é que há entre você e Fernando Sabino?” (p.367)

A outra constante talvez explique isso. Otto não se cansa de confessar que parou de escrever, que não quer mais se dedicar à ficção, que literatura mesmo é o que os amigos fazem, principalmente o que Fernando Sabino faz: “Romance, parei, não continuo, vou desistir” (p.143). Ao mesmo tempo, ele quer acontecer como escritor, continua escrevendo, preocupa-se com o destino de seus poucos textos, e pede insistentemente para que o amigo os publique.

Neste drama de se sentir com facilidade para escrever, era especialista em sacadas geniais, mas sem conseguir construir uma obra à altura da de seus amigos é que está o valor destas cartas. Talvez tenha tentado fazer delas a sua obra, mas faltava também para isso o escritor.

Serviço:
O Rio É tão Longe: Cartas a Fernando Sabino, de Otto Lara Resende. Companhia das Letras, 416 págs. Correspondências.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O CASAMENTO

Quando tudo entre eles já havia acontecido
e da festa dos corpos restavam os filhos,

ele, vendo num canal de tevê, uma moça
entrar solene na igreja, vestida de noiva,

lembrou-se de perguntar se ela sonhara,
quando menina, em subir assim ao altar,

porque o casamento deles não, não fora
propriamente casamento, muito embora

casamentos só aconteçam bem depois
numa comunhão involuntária de vozes,

os dois repetindo as mesmíssimas palavras
diante de qualquer episódio sem graça,

ela vestindo as roupas mais velhas dele
como quem anseia por uma outra pele,

ele ainda usando, sem nem se dar conta,
o perfume feminino que ela sempre compra.

– Tudo que eu quis foi casar com você –
ela responde, tirando os olhos da tevê.

sábado, 14 de janeiro de 2012

DESENHOS DO ANTÔNIO

Ontem, enquanto jantávamos num restaurante da cidade, Antônio desenhava.


Aqui, um monstro, um dinossauro assustador, ataca uma menina que parece ser a irmã do Antônio - a Câmi.


Ele também se desenhou e escreveu os nossos nomes como imagem espelhada: LEUGIM, ALIMAC e ANAILUJ. Ele usa a mão esquerda para escrever e desenhar.

Quando chegamos em casa, pediu para eu ler para ele O batalhão das letras, de Mario Quintana, e passava o dedo sobre o traço de cada letra, memorizando com um gesto o seu formato. Dormiu só depois de lermos juntos o livrinho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ANOREXIA LITERÁRIA



É conhecida a exigência de um mercado de romance para obras de maior fôlego. Livros com mais de 300 páginas tendem a ter mais chance de mercado do que livros curtos, pois o leitor comum sente prazer em conseguir cruzar um território narrativo mais extenso – espécie de Liso do Sussuarão, como na obra maior de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

No dicionário de lugares comuns, seria o livro que para em pé.

Agentes literários estrangeiros reclamam que nossa literatura é seca demais, recomendando um regime de engorda para atender ao gosto do público.

No pólo oposto, o jornalismo cultural brasileiro dá destaque para as obras curtas ou curtíssimas. Faça uma análise das resenhas e verá que a maioria dos títulos resenhados tem menos de 180 páginas. Por quê? Gosto pela brevidade? Concepção moderna de linguagem?

Nada disso, simples circunstâncias editoriais. O jornalista não tem tempo para ler obras mais parrudas e escolhe, entre os lançamentos, as de leitura mais rápida. Melhor ainda se for uma história em quadrinhos – que nunca teve tanto espaço em nossa mídia. E assim cumpre a sua função de divulgar “livros”.

As duas posturas geram equívocos. Um livro é bom indiferentemente do seu tamanho ou de sua natureza, mas quando só se busca o bom entre as obras gordas ou entre as magérrimas, leitor comum e jornalista matam outras possibilidades literárias.

Este quadro ingrato de nossa vida cultural se fortaleceu por conta da substituição do crítico pelo jornalista de cultura, que raciocina em termos de custo e benefício.

Pagar a resenha por páginas lidas seria a solução?