HERDANDO UMA BIBLIOTECA
"Tudo que não é literatura me irrita", Kafka.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
TRÊS COISAS SOBRE JAMIL SNEGE
Entrevista a Franco Caldas Fuch
Qual foi a importância do Jamil para a sua
trajetória?
Passei a conviver
com Jamil Snege a partir de 1994, quando do lançamento de Como eu se fiz por si mesmo, que para mim é a primeira autoficção
declarada da literatura brasileira. O impacto da sua obra e de sua
personalidade foi muito grande, pois Jamil condensava uma maneira paranaense,
uma maneira curitibana de escrever e ver o mundo. A sua ironia sarcástica, a
sua forma de heroicizar as misérias e o seu lirismo negativista vão influenciar
minha maneira de escrever. Outro elemento
importante é sua adesão aos que não deram certo, que também me marcou. Jamil
era um grande gozador, não levava nenhuma de nossas pretensões a sério, e isso
faz um bem danado para quem quer se dedicar à literatura.
Quais aspectos da literatura do Turco e quais livros
mais te encantam?
Os aspectos já
mencionei acima, e o livro também. Como
eu se fiz por si mesmo é uma obra de grande impacto. Ela narra a trajetória
torta de um publicitário que não quis dar certo. A publicidade é um reduto dos
caçadores de sucesso e grana, mas Jamil Snege mostra que ele só quis errar-se
como profissional, porque o que interessava para ele era a literatura. Este
livro vai influenciar diretamente a produção de meu primeiro romance – Chove sobre minha infância (Record,
2000). Eu escrevia esta minha autoficção relendo trechos da narrativa
desencantada do Velho Turco. A outra obra, mais ficcional mas nem por isso
menos autobiográfica, é Viver é
prejudicial à saúde, que continua esta mesma linha de contar com humor e
dor, com uma triste alegria, a vida de um vencido da vida.
No fim da vida do Jamil,
o que te chamou a atenção na forma como ele enfrentou a doença?
Era uma forma direta e sarcástica, bem do jeito dele. Quando Caio
Fernando Abreu descobriu a Aids, ele também narrou nas suas crônicas a doença,
que tinha, e tem, um caráter amaldiçoante. Jamil fez a mesma coisa com o
câncer. Ele escancarou a doença. Lembro-me que quando alguém ligava pedindo
alguma coisa para ele, ele respondia: “Sabe, eu tenho um câncer, então não
posso fazer isso”. Havia uma perversidade nesta maneira de encarar a doença,
ele queria esfregar a Coisa (ele tratava o tumor assim) na cara das pessoas,
para desestabilizá-las. Mas havia também o humor à la Jamil. Depois do
tratamento, quando ele perdeu a barba que tanto o orgulhava, e começou a nascer
uma barba rala e espetada, ele se autoapelidou de Capitão Chuchu, e se referia
a si mesmo dessa forma. Ele brincou com o seu fim. Jamil foi uma criança que
nunca cresceu. E esta sua recusa do mundo adulto continuou até na doença.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
domingo, 31 de março de 2013
A LINGUAGEM SOLITÁRIA
Estamos à procura da Vila Rosa Maria, numa
Paranavaí conhecida apenas por pequenos livros de poemas, recebidos nos últimos
10 anos. É esta cidade vertida em versos que me atrai e não a real, de belas
lojas e onde as pessoas se vestem bem acima da média das cidades interioranas
de um Paraná que foi sertão e hoje se sonha pequena metrópole, tanto pelos
hábitos importados quanto por um consumismo meio vazio.
Percorremos as ruas,
falando com frentistas de postos, moradores, taxistas e ninguém sabe dizer onde
fica a Vila Rosa Maria, coração atemporal de uma Paranavaí com espessor
literário. Resolvo, contrariado, perguntar pela avenida Martin Luther King, n.º
3.360, endereço do homem mais importante da cidade, farol para uma geração de
poetas.
Então, o caminho
urbano até esta rua se descortina. Fica no rumo da Vila Operária, outro local
com sentido forte para compreender o homem que, sozinho, vale por toda a
cidade, por ele adotada num prolongamento de seu percurso de juiz itinerante.
Ao lado da bela
avenida, surgem ruas sem asfalto, casas pobres, carroças com cavalos – é a
outra cidade, circo de vidas provisórias em um espetáculo sujo. Encontramos o
número procurado em uma casa de madeira, meio torta, comida pelo tempo. Mas o
poeta não mora nela, como me informa a sua dona, e sim no sobrado de alvenaria
ao lado, semi-construído, dando para a rua de areia. O poeta se esconde,
deixando falsas pegadas.
O portão está
aberto, estaciono o carro enquanto uma mulher se aproxima me respondendo que o
seo Sossélla está no andar superior da casa e não pode ser interrompido por
ninguém.
Por mais que
tentemos convencer a empregada que precisamos falar com Sérgio Rubens Sossélla,
mais ela desconversa.
Retornando pela
Martin Luther King, decidimos andar pela cidade. Atendendo ao velho hábito de
conhecer as ruas pelos passos, deixamos o carro num canto do centro e gastamos
mais de uma hora vagando sem rumo, já conformados com a frustração da viagem de
centenas de quilômetros só para conversar com o poeta.
Sossélla não
existe, é apenas uma invenção de sua poesia. Sem endereço certo, residindo numa
vila que não aparece no mapa, ele se habita a si próprio, numa mágica importada
de sua arte.
Mas e se tivéssemos
entrado de maneira errada na avenida, afastando-se do endereço e da dimensão
temporal em que ele se localiza? Para matar a dúvida, nova viagem à casa
escondida da Martin Luther King. Paro o carro em frente ao portão de madeira
eternamente descerrado. Vejo um vulto no fundo da casa, com um capacete de
motociclista na mão, embora não haja nenhuma moto estacionada na garagem
igualmente aberta. Mesmo estando tudo escancarado, esperamos as passagens se
abrirem.
O vulto é uma
moça, prima da dona da casa, que me responde que tudo está fechado. Percebo
então que atrás do meu carro estaciona outro, surgindo uma mulher com olhar
meigo que me identifica (sem mesmo nos conhecermos, embora eu tivesse, um mês
antes, e por e.mail, ameaçado vagamente com uma visita) e diz que estavam nos
esperando.
É hora de entrar
na casa, de tirar da inexistência este poeta que edita artesanalmente um livro
por semana em tiragens que já foram de 100, 30 e agora são de 10 exemplares,
distribuídos com parcimônia aos poucos leitores. Na sala, enquanto fico olhando
a capa do próximo livro, a mulher sobe em busca do solitário bardo e ouço uma
voz compassada vindo de cima. Primeiro ela é uma sandália preta, que aos poucos
vai se dilatando em um pijama branco e um blusão xadrez, terminando com um
gorro de lã bege. É assim, aos pedaços, que vou apreendendo a figura de
Sossélla, que desce falante as escadas, garrafa de café na mão esquerda e
cigarro na direita.
Eu poderia ter me vestido melhor para
conversamos, mas como estou à vontade de pijama, vou ficar assim – fala lentamente, pesando cada sílaba,
enquanto eu, como sempre, atropelo as palavras.
Trocando cartas
esporádicas há quase uma década, só hoje nos encontramos, numa tarde fria. A
conversa para mim é a literatura dele, o seu exílio criativo – pois já tem mais
60 pequenos livros prontos, que ele só conseguirá terminar de editar no final
de 2002, mas até lá inúmeros outros serão escritos.
Eu não forço o poema, não. Apenas vivo
aberto para ele.
E tudo é tão
natural em suas explicações que não há por onde questionar.
Falamos da
antologia de seus poemas que estou organizando e ele, que não me pediu nada,
exige que cada texto, por menor que seja, apareça sozinho na página.
O poema para mim é um cartaz e dois
cartazes juntos entram em conflito.
Vou anotando na mente suas
palavras, seus desejos, sua maneira precisa de fumar, beber café, falar e mover
as mãos – sei que estou dentro de algum ritual, em um lugar entre o sonho, a
realidade e o nada. Tudo é hoje, ontem e sempre. Eu falo com ele pela primeira
vez, mas incontáveis foram as inexistentes conversas nossas. E depois de sair,
sei que continuarei a falar com ele para sempre, num buraco qualquer do tempo
que nos pertencerá na imensa China superpovoada que será a eternidade.
Sossélla tira do
envelope uma foto e me entrega, dizendo para usá-la na capa da antologia que
batizou de A linguagem prometida. É
uma criança loira, de suspensório e calções brancos e pés sujos no chão,
encostada numa porta. Está pronta para entrar, ou se despede de alguém lá
dentro? Os dois, com certeza. Não enviei ainda a Sossélla, por pudor, o meu
livro de poema, em cuja capa aparece uma foto de minha infância pavorosamente
perdida. Ao receber idêntica imagem do poeta, sei que o destino está selando
algo.
Mas o tempo lento
do ritual se interrompe e lembramos que mais 150 quilômetros de estradas nos
esperam. Antes, no entanto, Rosa Maria, a mulher de Sossélla, conduz todos à
imensa biblioteca, anexa à casa. Sob o batente superior da porta, a placa
esculpida em madeira: Vila Rosa Maria.
Lá dentro, livros
em silêncio, um labirinto de palavras, que vamos percorrendo pelas entrelinhas.
Selecionamos mais livros de Sossélla. E então percebo que estou num ambiente
duplo. No fundo da biblioteca, separados por um degrau e uma parede, livros
encadernados em ordem, estantes escuras, mesas amplas e organizadas. Na
entrada, o caos de prateleiras, livros coloridos e menos imponentes e mesas com
sinais de ocupação. Este é o território daquele que se diz o último, mas não o
derradeiro, surrealista. O outro é o território do juiz.
No quintal para
as despedidas, sentimos de novo o doce estranhamento que tudo aqui nos
transmite. Na frente da casa, dois coqueiros com frutos viçosos, os únicos na
cidade, e um pé de caju. Ao lado, uma oliveira. E esta paisagem deslocada e
contraditória está absolutamente apropriada à vida e à obra de Sossélla, que
transformou Paranavaí num espaço radicalizado de linguagem, alargando-a no
tempo e no espaço, cifrando enigmas e antagonismos.
Sossélla acena
para nós do jardim, depois de mais de 6 meses sem ir até o portão. O carro já
está andando e evito olhar para trás com medo de não encontrar mais o poeta,
nem casa, nem os coqueiros e a oliveira, porque o homem que faz Paranavaí
existir praticamente não existe para Paranavaí e mesmo para o Paraná. Somos um
estado que desperdiça seus talentos, que rouba deles a existência concreta,
transformando-os em algo impalpável.
Mas quando um
leitor se encontra com estas obras em segredo, todo um mundo de esplendor se
materializa e gerações inteiras de outros artistas esquecidos e lugares
imaginários dançam na voz do poeta ressuscitado pela e para a linguagem.
Gazeta do Povo, 24 de julho de 2000.
sábado, 30 de março de 2013
sexta-feira, 22 de março de 2013
COMO UMA PARTIDA DE FUTEBOL
Em 2001, imaginei um jogo de futebol entre os escritores paranaenses ligados à capital e os ligados ao interior. Saiu no jornal Rascunho de junho daquele ano. Aí vai.
Não sei de quem foi a idéia, mas no
último domingo nos reunimos num campo neutro, o do Combate Barreirinha, para um
amistoso entre o selecionado do interior e o da capital. Pena que os jornais
não noticiaram o acontecimento e não houve transmissão televisiva. Apenas o
locutor Wilson Martins, revivendo seus tempos de PRB2, narrou a partida para
uma rádio pirata.
O nosso time era
capitaneado por Eloi Zanetti, que também fazia as vezes de treinador,
obrigando-nos a decorar todos os lances de seu livro Administração, futebol e cia. (Negócio Editora). Tinham sido
escalados para o time alguns representantes do interior: o ficcionista Domingos
Pellegrini, o escritor e editor Roberto Gomes, o ex-atacante do Esporte Clube
Comercial, hoje jogando no time literário do Rio de Janeiro, Jair Ferreira dos
Santos, o poeta Foed Castro Chama, glória do Irati Futebol Clube, o escritor
roseano Wilson Bueno e, na falta de gente melhor, este escriba perna de pau.
No time adversário, uma seleção
de craques: Nego Pessoa, que já entrou driblando a própria sombra, Dalton
Trevisan, estampando orgulhosa e merecidamente a camisa 10, Valêncio Xavier
tagarelando como sempre, Cristóvão Tezza preparado para todos os gols que ele
sempre faz, Jamil Snege com seu jeito (falso, descaradamente falso) de quem não
quer nada e o capitão Ernani Buchmam, que repassou longamente uma tática de
ação, para depois ver que o time ia ficar no velho esquema de sempre.
Como árbitro, tivemos a
sorte de contar com um elemento alienígena, que não tinha motivos para torcer
para nenhum dos lados, embora sempre seja visto nos textos de Valêncio Xavier:
o poeta concretista Décio Pignatari, que trouxe vários cartões semióticos, para
desespero do próprio Valêncio, que não conseguiu entender o que eles
significavam.
A partida começou
tumultuada.
Assim que Dalton Trevisan
pegou a bola, fugiu com ela e não voltou mais para o campo. Para maior atraso,
não tínhamos outra e foi preciso que o Jamil saísse pela vizinhança para
adquirir, no câmbio negro, uma bola substituta. Conseguiu uma seminova, mas não
era tão boa como a que desaparecera nos pés do grande craque que, tudo bem
analisado, era o único com direito a bola oficial. Nós, uns mais outros menos,
merecíamos mesmo era bola estropiada, dessas meio ovais, que vão aonde querem e
não para o rumo que damos a ela.
Prudente, fiquei na
defesa e, assim que sobrava alguma jogada, mandava a bola pra frente. Meu alvo
preferido, seguindo minha perversa natureza de crítico, eram as canelas adversárias
– e em mais de uma deixei hematomas leves, mas nem por isso menos dolorosos.
Enquanto a gente se digladiava no campo, Wilson Martins irradiava com todo o
entusiasmo os erros dos dois times, vibrando ainda mais quando alguém conseguia
fazer alguma coisa certa.
Do nosso lado, quem
liderava o placar era o italianão Pellegrini, que conseguiu furar mais vezes a
barreira inimiga, emplacando dois belos gols. Roberto Gomes não deixou por
menos e, fora as bolas na trave, fez um gol de bicicleta e passou o resto da
partida sorrindo para si mesmo. Eloi Zanetti tentava organizar a equipe, mas
assim que algum de nós pegava a bola saía em egoísta disparada, só voltando
depois de perder o lance ou de errar o alvo. A salvação foi que o pessoal da
capital também tinha o mesmo defeito e, com isso, a partida ficou mais ou menos
equilibrada.
Cristóvão Tezza jogou com discrição e nos enfiou, com
muita técnica, três golaços, sendo o artilheiro do amistoso. Jamil jogava bem
até o meio do campo, mas se recusava a invadir nosso território. Valêncio,
fincado sempre na banheira, em posições de impedimento que o árbitro não
chegava a ver, conseguiu o seu gol quando uma bomba desferida por Nego Pessoa
resvalou na cabeça dele e surpreendeu nosso goleiro, Wilson Bueno, que a esperava
no outro canto da trave. Valêncio caiu atordoado e não chegou a entender bem a
razão da pequena torcida gritar entusiasticamente o nome dele.
Eu e o Foed ficamos mais
na retaguarda, prontos para todos os heroísmos, mas não tivemos oportunidade de
mostrar nosso futebol. Quase no fim da partida, o Jamil segurou a bola com a
mão, interrompendo uma jogada do Jair que seria gol na certa. No meio da área
adversária, começou um tumulto que logo era pancadaria.
Cheguei acertando o
inimigo, mas em poucos segundos os murros e chutes não tinham mais um alvo
específico, era cada um por si – até Deus aproveitou para dar umas bordoadas e
descontar as sacanagens que escrevemos contra ele. Levei uma joelhada anônima
que me pôs no chão e logo choveram punhos ininterruptos sobre minha cabeça que,
para azar de todos, é dura, muito dura.
A torcida invadiu o campo
aumentando a confusão, que só acabou quando a polícia veio com cacetetes em
riste e palavrões ríspidos. Décio Pignatari ainda brandia seus cartões
semióticos, assustado com o futebol de várzea. Olhinhos apertados de prazer,
Trevisan nos espiava por uma fresta do vestiário. Então, Wilson Martins, sem
perder a classe, pôs fim ao jogo:
– O árbitro declara
susssspeeeeeeenso mais um amistoso paranaense.
Fim da festa; animais novamente dóceis, ganhamos o caminho de
casa, onde durante todo o inverno lamberemos em silêncio nossas feridas.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
TODA CRISE É CRIATIVA
Literatura é sempre uma linguagem com a temperatura
modificada.
Não se escreve um bom texto, que se faça redemoinho de fatos experimentados interiormente, sem sair de nosso estado de normalidade psíquica.
Esta mudança aguça a percepção de quem escreve e permite que a linguagem o comande e não o contrário.
Todas as vezes que comandamos a linguagem, o texto esfria, perdendo a fluência. Enquanto, nestes momentos de entrega total, o texto escorre, denso e poderoso, arrastando o autor (e depois o leitor) a lugares imprevisíveis.
Estou opondo aqui dois conceitos, o texto febril e o texto fabril.
Este é fabricado, construído de maneira racional, e tem inúmeros fins na comunicação principalmente de idéias. A funcionalidade é sua marca. Serve para certa filosofia, para artigos políticos, para ensaios.
Mas a grande literatura será sempre febril. Linguagem quente, vertida do olho convulso do vulcão.
Por isso, pessoas com instabilidades de espírito tendem a se tornar artistas. Elas passam de uma temperatura a outra com grande facilidade.
O que para a maioria seria uma crise, para o escritor é um momento criativo.
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