segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

GENÉRICO


Há quem me ame profissionalmente
porque são amigos ou parentes
ou admiram uma ou outra coisa
que por acaso eu tenha feito.

Mas eu gostaria de ser amado
por quem nada sabe de mim
nem cogita a possibilidade
de eu um dia vir a existir.

Apenas sendo amado desse jeito
digamos – genericamente –
é que eu ficaria um pouco crente
nessa minha já quase ausência.

sábado, 29 de janeiro de 2011

TODAS AS VIAGENS

Precisamos de algumas frases feitas para manter uma conversa em situações de banalidade ou de formalidade. É isso que se espera de uma pessoa que vive no meio das outras: que ela possa reverenciar as convenções. O indivíduo, por exemplo, não acredita na mística do ano novo, mas deseja um bom ano para amigos ou meramente conhecidos. Neste momento, não é ele que está falando, mas a própria linguagem que funciona sozinha.
Essas frases são acionadas nas ocasiões as mais diversas: para consolar pessoas, concluir um assunto, refletir sobre acontecimentos. Há quem as use com moderação, mas outros falam apenas por meio desses clichês. Por mais que se policie, ninguém está, no entanto, a salvo deles.
Por trás de cada frase há um conceito sobre as coisas, sobre a própria vida. Então, ao repetir um desses chavões, nós estamos vendendo determinada visão do mundo, que talvez não seja nem a nossa, mas que passamos adiante como a expressão de uma verdade, de uma tendência, de uma ideologia.
Cheguei àquela triste idade em que começamos a contar os anos para a aposentadoria. Falta ainda um bom tempo, mas no meu caderninho interior, lá no fundo escuro dos meus pensamentos, iniciei uma contagem regressiva.
Tenho, por isso, conversado sobre o assunto com os meus colegas de trabalho que estão prestes a receber a alforria. Quase todos dizem a mesma coisa.
– Vou aproveitar para viajar.
A crer nesse desejo secreto dos futuros aposentados, a vida deles será de deslocamentos para lugares que eles gostariam de conhecer ou de rever. O trabalho não permitia os passeios sonhados ao longo de décadas.
Mas tenho observado que, mesmo expressando esse desejo, a maioria deles acaba se ocupando com outras coisas. Muitos até se tornam ainda mais caseiros. Alguns chegam a se mudar para sítios e chácaras. Mas, às vésperas da aposentadoria, quase todos prometem aproveitar o tempo livre para viajar.
Falamos isso porque é o que se espera. Imaginemos uma pessoa que está fechando o seu tempo de serviço e diz que quer agora ficar trancada em casa. Este projeto causaria o protesto de todos, e ela seria vista como depressiva. Trabalhou tanto para terminar assim, as pessoas com certeza diriam. Então, usamos o clichê de que gastaremos merecidamente o resto da vida percorrendo o mundo.
Mas cada um tentará, nesta situação de disponibilidade, ocupar-se distintamente. Muitos continuarão trabalhando em outras atividades. Alguns se mudarão para a praia. Ou para uma cidade maior ou menor. Enfim, a aposentadoria é muito mais do que viagens.
Como tirei uma licença (a primeira na vida), todos perguntam para onde vou. Claro, gosto de viajar e terei que fazer algumas viagens no período, mas a coisa que mais quero, e é o que tenho feito, é me trancar em casa para ler. Disciplinei meu tempo, tentando ter horário para tudo. Só estou usando o computador entre meio dia e as 5 horas da tarde, passando a manhã entre os livros.
Como uma licença é uma espécie de aposentadoria provisória, não correspondo ao desejo padrão dos futuros aposentados. Qualquer deslocamento para mim pode ser um atrapalho. Meu projeto é permanecer o máximo de tempo em casa, como um antiviajante.
Era exatamente isso que eu pensava até me lembrar que estou sendo muito rigoroso. Não há apenas a viagem no espaço, o deslocamento físico. Ficando em casa, na companhia de livros, tenho feito viagens no tempo, e principalmente viagens ao interior de mim mesmo – e está aí um lugar que quero conhecer muito bem antes de morrer.

in Gazeta do Povo (Curitiba), 29 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A SOLIDÃO DO ESCRITOR

Conheci o poeta Sérgio Rubens Sossélla e publiquei um livro dele: A linguagem prometida. Fui de carro até Paranavaí apenas para visitá-lo, e passamos uma tarde muito agradável.
Agora, encontro na internet esta foto que é um verdadeiro poema - o poeta (em 1978) elegendo o seu braço direito, que pode ser ninguém, a solidão ou um vazio a ser futuramente ocupado por um imprevidente leitor.
Mas no fundo acredito que o braço direito de todo escritor é a escrita.

NÃO SOMOS ASSIM TÃO CAPITALISTAS

Primeiro, a gente
pega o que der
Pra que ganância?
Se sobrar alguma coisa
aí sim, aí a gente
pega também

sábado, 22 de janeiro de 2011

FICÇÃO CIENTÍFICA

Fala-se muito (bem e mal) das pesquisas na internet, do aces­­­so a bancos de dados pa­­­­ra extrair informações ou mesmo artigos completos. A geração que hoje está na escola se vale da internet como uma espécie de me­­­mória coletiva, reproduzindo tex­­­tos segundo o processo pedagógico do copiar-e-colar. Assim, não é mais o caso de aprender algo, mas de fazer as informações circularem.
Os puristas de plantão gritam:
– Com isso, perdeu-se a criatividade. É um absurdo. Não há mais nenhum esforço numa geração acomodada ao saque.
Não defendo essa pirataria textual, mas também não luto contra ela. Estamos em uma época em que a noção de originalidade é algo cada vez mais démodé (aliás, nada mais démodé do que a palavra démodé; os jovens diriam que ser original é palha). O conhecimento se massificou, como tudo em nossa sociedade. Os sujeitos são produzidos em série nesta era da comunicação múltipla e contínua, e em breve não existirá mais escola; todos serão autodidatas.
Falei isso para minha filha e os olhos dela brilharam:
– Será que pego essas mu­­­danças?
– Provavelmente não – respondi.
Mas ela não se abalou, estava vendo um programa na tevê, acessando o Orkut no laptop e ouvindo música no iPod, tudo ao mesmo tempo, e de vez em quando lia trechos de O leitor, romance do alemão Bernhard Schlink, do qual está gostando muito.
Não sabemos aonde isso vai nos levar, e não podemos conter essa avalanche tecnológica que padroniza vozes, comportamentos, rostos e desejos. Então, a grande luta é mesmo colocar internet em todos os lares, para que os periféricos também participem do butim do conhecimento e da festa das futilidades.
Li em um texto de ficção científica, mas estou propenso a crer que já deve estar em teste em algum laboratório das empresas de tecnologia, que acessaremos a rede por meio de neurotransmissores, instalados diretamente em nosso cérebro.
Se descontarmos o exagero dessa inovação, ela pode ao menos indicar em que caminho anda a tecnologia: eliminar o computador, fazendo com que pessoas se comuniquem diretamente.
Confesso que me encanta a ideia de poder transmitir alguns pensamentos, imagens de minha infância e outras coisas que minha mente guardou para pessoas que eu amo. Não precisaríamos mais descrever experiências nem justificar nossos pontos de vista. Eu permitiria um download da minha memória pessoal, claro que deletando antes algumas passagens comprometedoras.
Tais questões me levam a imaginar que, ao fazer isso, estaríamos criando comunidades em que as pessoas teriam as mesmas recordações. Eu poderia me lembrar de cenas, por exemplo, da vida de minha mulher, e isso me ajudaria a compreendê-la melhor.
As possibilidades são fascinantes e denunciam a inocência de nossos alunos (e de alguns pesquisadores) que usam o copiar-e-colar para dar conta de suas tarefas.
Você me dirá que isso está longe de acontecer, e talvez esteja mesmo, mas eu já tiro um modesto proveito dessa nova era. Uso a internet para comprar livros antigos, esgotadíssimos, perdidos em sebos remotos, aos quais antes eu não tinha acesso.
E ler um livro já é baixar arquivos diretamente em nosso sistema nervoso.

Gazeta do Povo, 22 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

AMOR & CIA

1. O amor é um raio que cai sempre no mesmo lugar.

2. Gostava tanto de mulheres que chegava a gostar da própria mulher.

3. Todo casamento é uma sociedade anônima.

4. Pessoas apaixonadas se embriagam até com água.

5. Pelas contas dele, fizeram amor mais de três mil vezes, mas como não se lembravam de nada, era preciso recomeçar sempre.

6. ETERNIDADE: Os apaixonados são um relógio em que os dois ponteiros pararam no mesmo horário.

7. Fazem amor apenas à noite, como se fossem contrabandistas do próprio corpo.

8. Diante de uma mulher deslumbrante, totalmente fora de seu alcance, ele se sentia na mais completa orfandade.

9. SELF-SERVICE: Há os que fazem amor. E aqueles que já o compram feito.

10. Não se pede para ser amado. Todo amor é uma forma de assalto.

11. Há paixões que são como raios, queimam tudo onde caem. Há outras que são como corrente elétrica – alimentam continuamente.

12. No amor, a comunicação dispensa a linguagem.

13. BODAS DE PRATA: Ele a observou tirando a roupa, não com estes olhos de agora, mas com aqueles de quando eles eram jovens.

14. Mudando as roupas da vitrine, o rapaz esquece as mãos, amorosamente, nos seios da manequim.

15. FIDELIDADE: Continua preparando grandes almoços mesmo depois de ele ter ido embora. A cada dia, ela está um pouquinho mais gorda.

16. Os pregadores de roupa, de plástico (um vermelho e outro prata), ficaram esquecidos no varal, coladinhos como um casal.

17. Olhos líricos, ele disse: sair com prostitutas seria colher flor em floricultura.

18. "Você se lembra de quando namorávamos e você me deu aquela caixinha de música?" E tudo que ele fez foi erguer o som da televisão.

19. Por mais que esgotemos o poço do desejo, ele acaba sempre transbordando.

20. Ainda deseja as belas mulheres que encontra, mas o amor pela eterna esposa obliterou todas as outras.

21. O amor não é eliminado durante o orgasmo.

22. A pessoa amada está sempre amanhecendo.

23. Então o pastor disse: a principal causa do aquecimento do planeta é o excesso de atividade sexual.

24. AMOR CONJUGAL: quando conjugamos numa única pessoa o desejo colhido em muitas outras.

25. Dormir com a mulher amada ainda é exílio. Só dormindo nela é que retornamos à nossa origem.

26. Dizem agora os cientistas que amar demais pode causar câncer. E isso talvez explique todas aquelas mortes de amor na literatura romântica.

27. O corpo nunca termina de dizer o desejo.

28. Este meu corpo é a instituição que mais paga imposto.

29. Pobre corpo, cultivas a mudez das roupas.

30. Não é apenas encontro amoroso, eu me visto com o teu corpo.


D’pontaponta, dezembro de 2010, n. 183.

domingo, 16 de janeiro de 2011

MORRER UM POUCO MAIS


Recebi algumas mensagens sobre o fim de minha coluna de crônicas na Gazeta do Povo, e reproduzo aqui uma delas, de uma leitora que eu não conhecia até este momento. Também morro um pouco ao deixar de escrever semanalmente uma crônica, mas o vento está jogando o barquinho contra outros rochedos.


Relutei, fiquei indecisa, matutei, mas resolvi escrever.

Vais fazer falta, eu lia sempre suas crônicas, me identificava com elas, com sua cidade do interior, com seu colégio agrícola, sua família, até com seus passarinhos batendo na janela do seu escritório.

Quando vamos envelhecendo - eu no caso - vivemos de pequenas perdas: um parente querido que nos deixa, um amigo que você não via havia tempo e aí alguém diz... sabe aquele nosso amigo? pois é foi dormir e não acordou.

Toda essa conversa para lhe dizer que o fim de sua coluna de crônicas, para mim, é mais uma perda.

Vou sentir saudades, mas tenho todas as suas crônicas arquivadas - que termo mais antigo, não é?

Sucesso na nova empreitada!


Dione Antonik, 14 de janeiro de 2011.

PROTEÇÃO


Comentam que fulano me odeia,
e isso seria normal se eu tivesse
feito alguma maldade para ele.
Nada fiz, quase o ignorava,
e no entanto ele me odeia
de uma maneira doentia.
Tantos devem sentir o mesmo.
Tenho muitos inimigos ocultos,
tramando coisas que desconheço.

Nascido com este triste dom,
quando entro em algum ambiente
identifico os olhares de desprezo.
E, como defesa, provoco a platéia
com opiniões, gestos e risos,
atraindo para mim mais ódio ainda.

À noite, esgotado pelos conflitos,
eu me lavo demoradamente
depois de atirar as roupas do dia
no cesto que fica no banheiro.
Visto um pijama e logo durmo
para, de madrugada, retomar
esta minha cruzada sem rumo.

Não posso ser de outro jeito.
Desperto os piores sentimentos
em pessoas que nem conheço.
Odiando-me elas se aliviam
nesse processo terapêutico.

Como única forma de proteção
conto com estas roupas comuns
sobre uma pele mais que fina,
roupas que retêm no tecido
o que contra mim se destila.

A empregada deixa de molho
por um tempo, estas roupas,
lavando-as com muito amaciante,
fazendo-as secar ao vento.
E quando as visto novamente
é como se nunca tivessem
ficado retidos entre seus fios
tanto ódio e ressentimento.

sábado, 15 de janeiro de 2011

MACARRÃO SOLITÁRIO

Mantimentos

1 pacote de Miojo de galinha – ou similar.
10 azeitonas verdes grandes ou 15 médias ou 20 pequenas.
3 pimentas verdes em conserva ou 5 pimentas rosas secas.
2 ovos de galinha de granja.
queijo parmesão desses de saquinho.
sal
cheiro verde picado.


Como misturar

Coloque dois copos de água em uma panela.
Quando ferver, acrescente o Miojo, quebrando-o bem, e apenas um pouquinho do tempero que vem junto e também as pimentas.
Depois que o macarrão estiver cozido, escorra o excesso de água, deixando um pouquinho no fundo da panela.
Devolva a panela ao fogo e quebre os dois ovos sobre o macarrão, colocando uma pitada de sal.
Espere o suficiente para os ovos começarem a endurecer e acrescente as azeitonas picadas e o cheiro verde.
Mexa umas poucas vezes, despeje tudo num prato, acrescente o queijo e, pronto!, é só comer.

A porção serve uma pessoa solitária em uma noite de sábado.

GRANDE PLANTAÇÃO: VEREDAS

Estive na parte baiana dos Gerais, região que rendeu a Guimarães Rosa um estilo literário inconfundível. Do homem sertanejo, de sua linguagem inusitada, pouco vi fora alguns topônimos, como o Rio Alagamar (Goiás) ou a cachoeira Acaba Vidas (Bahia). Bem recorrentes, no entanto, são as veredas, uma das referências centrais da obra de Rosa.
No terreno arenoso e plano, surgem baixios com pequenos rios, alagados ou apenas com uma vegetação mais densa no meio do cerrado. Nessas veredas, dominam os buritis com o seu verde intenso. As águas da chuva se infiltram rapidamente pelo solo poroso e se concentram nas baixadas, criando faixas verdes mesmo na época da seca.
A região vive o inverno, estação das chuvas, e o cerrado está verde, ou de sua vegetação nativa ou das plantações, mas mesmo assim as veredas são exuberantes. Esse conhecimento explica o recurso do título mais famoso de Rosa – Grande sertão: veredas. O uso de dois pontos desarma a oposição entre esses espaços – o sertão único que está por tudo e as múltiplas veredas. Os contrários não estão separados, comunicam-se, por isso Rosa se vale de dois pontos e não da vírgula, o que seria gramaticalmente mais esperado. Essa mistura também se manifesta em outros níveis do romance: o bem e o mal, Deus e o diabo, o masculino e o feminino, a morte e a vida.
É ainda a convivência de realidades opostas que marca a região que se tornou na última década um dos centros agrícolas mais importantes do país. Saindo de Goiás e entrando na Bahia, há uma mudança geográfica brusca – desaparecem as montanhas e surge uma imensa planície, quase toda cultivada. Cortando as extensas plantações, as veredas e algumas poucas áreas da vegetação do cerrado.
O centro dessa nova fronteira agrícola é a cidade que já se chamou Mimoso do Oeste, e que hoje leva o nome de Luís Eduardo Magalhães, mas que os moradores abreviam para LEM, uma cidade que está sendo construída em ritmo de cenário cinematográfico. Oficialmente, tem pouco mais de 60 mil habitantes, mas nesta época chega a 100 mil, pois a safra atrai os proprietários, trabalhadores e vendedores para a cidade.
Os baianos – que não são a maioria, porque aqui é uma extensão do Sul do Brasil – chamam a todos os que vêm de São Paulo para baixo de gaúchos – tanto os catarinenses quanto os paranaenses. Pequenos agricultores dos estados do Sul venderam suas terras ou concentraram seus investimentos na compra de propriedades no cerrado, abriram essas áreas, semearam fazendas onde não havia nada. Muitos passam na Bahia apenas o período de planta e colheita da soja, mas Luís Eduardo Magalhães se tornou o endereço fixo de uma nova população – entre eles, meus dois irmãos.
Rodei mais de 4 mil quilômetros (ida e volta) para visitá-los. Como tantos outros, estão erguendo a vida nos Gerais, que vão se fazendo habitado por essa estranha gente que chama de minha terra todo o solo que possa ser produtivo. No hotel em que nos hospedamos, o balcão de recepção é composto por vitrines com os produtos locais, orgulho desta raça de agricultores. Há vitrines de soja, milho, feijão, algodão, arroz, sorgo e café.
Fazendas de gado são comuns, embora não dominantes, e vi vegetação e animais nativos. Mas a palavra mágica aqui é safra. É ela que move o comércio, os muitos caminhões, as milhares de camionetes caras, as edificações urbanas. Em Luís Eduardo Ma­galhães, ainda faltam asfaltos e outras infraestruturas, mas ela nasce como uma cidade moderna, rica e festiva. Nordeste e Sul ali se encontram.

Gazeta do Povo, 15 de janeiro de 2011.

domingo, 9 de janeiro de 2011

MOLHADO

As chuvas das últimas semanas fizeram com que eu me lembrasse de um episódio da época em que estudei como interno em um colégio agrícola. Assim que ingressávamos na vida gregária, dominada apenas por rapazes, sofríamos imediatamente um batismo. Ninguém nunca saía ileso dessa prática, e alguns de nós tiveram a sua identidade modificada várias vezes.
Mas certos apelidos pegavam para sempre. Um rapaz de traços finos e roupas idem, cujo nome esqueci completamente, recebeu o seu vulgo logo no primeiro dia de aula. Era começo de ano, fazia muito calor e a sala em que estudávamos carecia de ventilação. O rapaz pediu para ir ao banheiro quando o professor ainda apresentava o conteúdo da disciplina. Depois de receber um olhar duro, teve autorizada a saída emergencial.
Como as dependências didáticas eram coladas à parte habitacional do internato, nos banheiros ficavam também os chuveiros. Passados uns minutos, o rapaz voltou com o cabelo, as roupas e os calçados totalmente encharcados. Alguém perguntou, irônico:
– Ei, molhado, o que aconteceu? Caiu dentro do vaso?
E desde aquele momento ele passou a se chamar apenas Molhado. E fez de tudo para corresponder ao apelido. Assim que nos levantávamos, depois de as luzes dos dormitórios serem acesas pelo inspetor – era ele quem as apagava às 22 horas e as acendia às 6 – íamos para o banheiro coletivo, onde fazíamos nossa higiene. Seguíamos ainda de pijama. Molhado dormia com a roupa que usava durante toda a semana e ficava sob o chuveiro por um bom tempo já de manhã. Era pingando, porque ele nunca se enxugava (não tinha nem toalha), que ele ia para o refeitório, e depois para as aulas. No intervalo, outro banho. Mais um na hora do almoço, e também no meio da tarde e outro antes de dormir. Nas noites de muito calor, ele saía no escuro e ia até uma torneira do jardim e se molhava longamente.
Quem mora no meio de muitas pessoas se acostuma a toda sorte de esquisitice. Logo, era uma tradição encontrar esse estudante para quem só havia dias de chuva.
E as lendas foram surgindo: 1) Como tem vergonha de mostrar o corpo [os chuveiros eram abertos e coletivos], banha-se com roupa e tudo. 2) Havia usado muita droga e ficara assim perdidão. 3) Sofre de um problema de pele muito raro, que deixa o corpo queimando, por isso se refresca sempre que pode.
Essas e outras hipóteses isolaram Molhado ainda mais.
E ele tinha ainda outras dificuldades. Não conseguia, por exemplo, tomar nota das aulas. Os cadernos estavam sempre molhados, e as folhas empenavam. Mesmo os seus livros se tornavam imprestáveis por causa da umidade, que acabava lacrando as folhas. Ninguém queria dormir no beliche em que ele ocupava a parte de cima. Todos diziam que ele fazia suas necessidades na calça, e de fato não o víamos se aliviando nem no banheiro nem no mato.
Talvez por essa última suspeita, um grupo decidiu aplicar um corretivo. Quatro colegas pegaram Molhado pelas pernas e pelos braços e o jogaram no tanque ao lado da horta. Ele quase se afogou. Não sabia nadar. Teve de ser tirado com a ajuda de um bambu.
Quando Molhado saiu da água, tinha um sorriso de alegria. Talvez por isso, ou por temer que ele se afogasse, nunca mais ninguém o jogou no tanque.
Chegou o inverno e ele continuou com seus hábitos extravagantes. Tremia de frio, mesmo usando grossos casacos, mas não abria mão dos muitos banhos em que não tirava nem o gorro da cabeça. Não concluiu o ano, tendo ido embora sem se despedir da turma.
Quando quase já não nos lembrávamos dele, durante uma aula em que alguém falava da proporcionalidade entre o corpo humano e o planeta Terra, ambos tinham aproximadamente 75% de água, eu comentei:
– Menos o Molhado, que tem mais de 95%.
Todos riram.
No final da aula, a orientadora pedagógica me chamou na sala dela:
– Queria que você parasse com as gracinhas sobre Fulano. Ele desistiu do colégio porque morria de medo de que alguém ateasse fogo nas roupas dele. Não podia ver ninguém acendendo um fósforo.
Muito depois, soube de pessoas que sofreram autocombustão. Elas se incendiavam sozinhas. Porque além de água também somos gordura que queima com grande facilidade.

Gazeta do Povo, 09 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

FRUTO MIRRADO

Estou viajando pelo interior do país - Minas, Goiás e Bahia. Volto a postar mensagens com alguma regularidade a partir do dia 15 de janeiro.
Nesta semana, a Revista Veja recomendou a minha antologia ALUGO PALAVRAS (Edelbra, 2010). Transcrevo as palavras generosas e ao mesmo tempo certeiras do ponto de vista crítico, situando a minha produção poética na tradição memorialística de Carlos Drummond de Andrade:

"Autor de alguns dos melhores romances da literatura brasileira recente, como Um Amor Anarquista, A Primeira Mulher e Chá das Cinco com o Vampiro, Miguel Sanches Neto exercita-se, neste novo livro, na poesia. Na linha do Carlos Drummond de Andrade da série Boitempo, o escritor paranaense usa os poemas para expor sua história familiar e compor suas memórias. Em versos livres entremeados por trechos breves e intensos em prosa, o autor invoca figuras como seu pai e seu avô, ambos analfabetos. “A ânsia de escrever foi minha herança – e como é difícil dissipá-la, pai!”, lamenta o poeta, em um dos momentos mais dolorosos do livro. De leitura escorreita, sem pirotecnias barrocas, os versos de Sanches Neto extraem seu poder expressivo da concisão. Como ele mesmo define, sua poesia concentra toda a força em “um fruto mirrado/ no galho inatingível”.