A TRINCA FILMES, de Douglas Machado, e a Madre Filmes acabaram de produzir o booktrailer sobre Então você quer ser escritor? Esta modalidade publicitária, voltada para a internet, é mais uma face da promoção do livro (e da leitura) em uma época em que se multiplicam os canais periféricos e se reduzem os espaços centrais.
O pequeno filme é fruto da generosidade de toda a equipe, a quem agradeço. Em breve, colocaremos no Youtube – coisa que qualquer internauta mais familiarizado com o código poderá fazer, uma vez que quem escreve aqui é um imigrante que ainda não aprendeu esta língua tecnológica.
Para assistir:
http://www.youtube.com/watch?v=FP-Ea6saVW0
sábado, 28 de maio de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
UM OLHAR SOBRE O HOMEM E A REALIDADE
Por Ronaldo Cagiano, in Correio Braziliense, 21/05/2011.
No atual ambiente da literatura brasileira, a ficção parece cada vez mais (co) movida pelos interesses mercadológicos. A reboque disso, fluem obras que se movimentam para agradar a mídia e ao mercado e uma certa tendência no que diz respeito a uma linguagem pop, diluída ou contaminada pelos modismos ou subsidiária do lixo literário estrangeiro, que aqui chega com status de novidade e renovação.
Na contramão dessa corrente, e remando contra a maré de uma lógica editorial hegemônica e monopolista, encontramos raros autores preocupados com uma proposta literária ou um projeto ficcional definido, cuja obra seja capaz de estabelecer um diálogo estético e crítico,e também ético, com a realidade e não com as ondas do arrivismo literário.
Em Miguel Sanches Neto, premiado autor paranaense, alcançamos esse patamar em que a literatura é construída com paixão, aplicação e seriedade, sem firulas ou conveniências para agradar ao status quo ou às ditaduras intelectuais da academia ou dos cadernos culturais das imprensa monopolista e hegemônica. Começou uma trajetória segura e vitoriosa, ao vencer em 2003 o Prêmio Cruz e Sousa, do Governo de Santa Catarina, que o revelou para o mundo literário com os contos de “Hóspede Secreto”. É um livro de profunda sensibilidade poética, cujas histórias transmitem um olhar há muito perdido no momento atual de nossa ficção, que diz respeito ao resgate mítico do interior e dos pequenos dramas e acontecimentos domésticos, capturados com singeleza e sentimento de mundo, detido na carga de verdade e de violência que recolhemos em nossas experiências.
Em seu novo livro “Então você quer ser um escritor?” (Ed. Record, Rio, 2011, 224 pgs.), Sanches não se desvia dos temas que têm povoado sua obra, seja na poesia ou na prosa. Os dilemas humanos, as dores e conflitos amorosos, as perdas, a passagem do tempo, a morte, os questionamentos sociais e existenciais, os jogos de poder e sedução, as dúvidas e ambigüidades do sexo, a simbiose entre passado e presente, além de um olhar reflexivo e contundente sobre o mundo da criação – nada escapa ao seu observatório nos dezesseis contos que enfeixam a obra. O conto que dá título ao livro, paradigmático por excelência, é munido das preocupações do autor com o lugar do homem, da literatura e da arte nesse mundo de fetiches e estereótipos, etiquetado e banalizado. Na sombra desse nosso tempo repleto de desconforto, a prosa de Sanches, desde os primeiros livros, alimenta-se, com força vital, de um permanente embate com questões ligadas à nossa identidade, ao isolamento, à violência e ao confronto com situações e impasses desconcertantes, mercê da grandeza e desgraça de viver, algo que enriquece e contextualiza sua produção.
Autor, dentre outros, de “Chove sobre minha infância”, “A primeira mulher”, “Amor de menino” e “Um amor anarquista”, Miguel Sanches Neto reafirma nessa nova safra de histórias que nascem de uma interação entre a invenção e a memória, fruto de uma delicada observação do ser em seu quotidiano de grandezas, abjeções e misérias. Tudo confeccionado com uma sofisticação narrativa que deriva da habilidade e versatilidade em criar enredos, cenários, atmosferas e desfechos. Sua originalidade não se manifesta pela desconstrução do discurso tradicional, ainda que transite com grande facilidade por estruturas ou fronteiras narrativas distintas. Nos meandros de sua prosa, é nítido o apelo das raízes, da velha maneira de contar uma história, renovando-a na medida em que lança outras miradas, quando autor e personagem se reconhecem ao explorar a realidade histórica e humana. Nisto, resiste a palavra como cápsula de apreensão da consciência do mundo, onde há espaço para questionamentos, assombros, desilusões e é também a sua releitura a partir percepção das coisas; e também culmina deságua num realismo pungente, tanto pela força, densidade e psicologia dos personagens, quanto pelo universalismo dos temas, particularizadas por uma elegância de estilista, marcas que o colocam, sem favor algum e com inegável destaque, entre os melhores escritores de sua geração.
No atual ambiente da literatura brasileira, a ficção parece cada vez mais (co) movida pelos interesses mercadológicos. A reboque disso, fluem obras que se movimentam para agradar a mídia e ao mercado e uma certa tendência no que diz respeito a uma linguagem pop, diluída ou contaminada pelos modismos ou subsidiária do lixo literário estrangeiro, que aqui chega com status de novidade e renovação.
Na contramão dessa corrente, e remando contra a maré de uma lógica editorial hegemônica e monopolista, encontramos raros autores preocupados com uma proposta literária ou um projeto ficcional definido, cuja obra seja capaz de estabelecer um diálogo estético e crítico,e também ético, com a realidade e não com as ondas do arrivismo literário.
Em Miguel Sanches Neto, premiado autor paranaense, alcançamos esse patamar em que a literatura é construída com paixão, aplicação e seriedade, sem firulas ou conveniências para agradar ao status quo ou às ditaduras intelectuais da academia ou dos cadernos culturais das imprensa monopolista e hegemônica. Começou uma trajetória segura e vitoriosa, ao vencer em 2003 o Prêmio Cruz e Sousa, do Governo de Santa Catarina, que o revelou para o mundo literário com os contos de “Hóspede Secreto”. É um livro de profunda sensibilidade poética, cujas histórias transmitem um olhar há muito perdido no momento atual de nossa ficção, que diz respeito ao resgate mítico do interior e dos pequenos dramas e acontecimentos domésticos, capturados com singeleza e sentimento de mundo, detido na carga de verdade e de violência que recolhemos em nossas experiências.
Em seu novo livro “Então você quer ser um escritor?” (Ed. Record, Rio, 2011, 224 pgs.), Sanches não se desvia dos temas que têm povoado sua obra, seja na poesia ou na prosa. Os dilemas humanos, as dores e conflitos amorosos, as perdas, a passagem do tempo, a morte, os questionamentos sociais e existenciais, os jogos de poder e sedução, as dúvidas e ambigüidades do sexo, a simbiose entre passado e presente, além de um olhar reflexivo e contundente sobre o mundo da criação – nada escapa ao seu observatório nos dezesseis contos que enfeixam a obra. O conto que dá título ao livro, paradigmático por excelência, é munido das preocupações do autor com o lugar do homem, da literatura e da arte nesse mundo de fetiches e estereótipos, etiquetado e banalizado. Na sombra desse nosso tempo repleto de desconforto, a prosa de Sanches, desde os primeiros livros, alimenta-se, com força vital, de um permanente embate com questões ligadas à nossa identidade, ao isolamento, à violência e ao confronto com situações e impasses desconcertantes, mercê da grandeza e desgraça de viver, algo que enriquece e contextualiza sua produção.
Autor, dentre outros, de “Chove sobre minha infância”, “A primeira mulher”, “Amor de menino” e “Um amor anarquista”, Miguel Sanches Neto reafirma nessa nova safra de histórias que nascem de uma interação entre a invenção e a memória, fruto de uma delicada observação do ser em seu quotidiano de grandezas, abjeções e misérias. Tudo confeccionado com uma sofisticação narrativa que deriva da habilidade e versatilidade em criar enredos, cenários, atmosferas e desfechos. Sua originalidade não se manifesta pela desconstrução do discurso tradicional, ainda que transite com grande facilidade por estruturas ou fronteiras narrativas distintas. Nos meandros de sua prosa, é nítido o apelo das raízes, da velha maneira de contar uma história, renovando-a na medida em que lança outras miradas, quando autor e personagem se reconhecem ao explorar a realidade histórica e humana. Nisto, resiste a palavra como cápsula de apreensão da consciência do mundo, onde há espaço para questionamentos, assombros, desilusões e é também a sua releitura a partir percepção das coisas; e também culmina deságua num realismo pungente, tanto pela força, densidade e psicologia dos personagens, quanto pelo universalismo dos temas, particularizadas por uma elegância de estilista, marcas que o colocam, sem favor algum e com inegável destaque, entre os melhores escritores de sua geração.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
REINVENÇÃO DA CIDADE
Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, de 22 de maio de 2011.
Vindo da geração marginal, e de uma prisão, durante a ditadura militar, por porte de material pornográfico, isto é, por porte de poesia, Nicolas Behr (nascido em 1958) mantém-se fiel aos valores daquele período. Morando desde 1974 em Brasília, ele fez da margem uma forma de refundar a capital federal, num livro todo dedicado a ela: Brasilíada.
À primeira vista, causa estranhamento que um poeta irreverente se dedique a cantar, num projeto épico, Brasília. Mas a referência à Ilíada, de Homero, cumpre uma função irônica em poemas que compõem uma narrativa fragmentária e corrosiva. As suas intenções são, portanto, antiépicas, e demarcam uma posição estética e política.
O livro cria um movimento antagônico de amor e ódio. Para o poeta, há uma cidade encoberta que precisa ser desenterrada. É nisto que ele está empenhado, em trazer de volta uma outra Brasília, vista a partir não dos monumentos e da sua mitologia modernista, mas da dor e do suor dos trabalhadores que a construíram, os calangos. Eis o surgimento de Braxília: lugar simbólico dos fracassados. Se a planta oficial tem a forma de um avião, esta outra planta, mítica, terá a forma de uma borboleta. Contra a imagem-máquina, própria dos valores concretistas – e do concreto armado que deu origem aos prédios – ele opõe uma imagem natural, em sintonia com o cerrado.
O movimento do livro é duplo. Destruição da “cidade-mamata”, da “cidade-autorama”, e ressurreição da urbe subterrânea. Em poemas de uma simplicidade profunda e divertida, totalmente afastados do hermetismo de certa lírica contemporânea, Nicolas Behr opera a ressemantização de Brasília, fazendo saborosos jogos de linguagem. Assim, o anti-homem público é o homem-bico, o homem-bic, os trabalhadores informais e o poeta marginal, heróis dessa nova cruzada. Nicolas lembra que Brasília é maior do que os seus habitantes habituais:
os políticos são visitantes ocasionais
e logo logo os expulsaremos (p.54)
Além desse ódio aos políticos, há ainda o ódio ao burocrata (definido magistralmente pelo poeta como um “ser meio homem meio carimbo”), todos irmanados pela vida fácil e pela vaidade. Num dos belos poemas do livro, ele relaciona o vazio urbanístico aos seus freqüentadores engravatados e similares:
em meio ao vazio do cerrado
construiu-se uma cidade vazia
habitada por pessoas vazias
que circulam por avenidas vazias
em carros vazios de pneus vazios
mas cheias do vazio de si mesmas (p.36)
Seu amor e sua devoção são exercidos pela outra urbe, “viva, noturna, alternativa, rebelde, roqueira”, e pelo cerrado – o autor é sócio-proprietário de um viveiro de plantas da região. Nesse processo, ele reverte o sentido daquele espaço, que deixa de ser uma referência da arquitetura moderna (e da corrupção) para que surja a cidade ecológica, construída diariamente pelos trabalhadores. Se o desejo de confronto que moveu a geração marginal amorteceu na grande maioria dos seus adeptos históricos, em Brasília, onde o poder é mais opressor, este impulso segue vivo na verve lírica e irônica de Nicolar Behr, o seu melhor tradutor: “o primeiro mito / de brasília / é jk // o segundo, renato russo // o terceiro mito sou eu // mas isso / vocês não sabem // porque ainda não morri” (p.25). Manter-se longe do poder, tanto do político quanto do literário, tem garantido a Nicolas Behr uma rara autenticidade na poesia brasileira.
Serviço
Brasilíada, de Nicolas Behr. Língua Geral, 72 págs, R$ 30. Poesia.
Vindo da geração marginal, e de uma prisão, durante a ditadura militar, por porte de material pornográfico, isto é, por porte de poesia, Nicolas Behr (nascido em 1958) mantém-se fiel aos valores daquele período. Morando desde 1974 em Brasília, ele fez da margem uma forma de refundar a capital federal, num livro todo dedicado a ela: Brasilíada.
À primeira vista, causa estranhamento que um poeta irreverente se dedique a cantar, num projeto épico, Brasília. Mas a referência à Ilíada, de Homero, cumpre uma função irônica em poemas que compõem uma narrativa fragmentária e corrosiva. As suas intenções são, portanto, antiépicas, e demarcam uma posição estética e política.
O livro cria um movimento antagônico de amor e ódio. Para o poeta, há uma cidade encoberta que precisa ser desenterrada. É nisto que ele está empenhado, em trazer de volta uma outra Brasília, vista a partir não dos monumentos e da sua mitologia modernista, mas da dor e do suor dos trabalhadores que a construíram, os calangos. Eis o surgimento de Braxília: lugar simbólico dos fracassados. Se a planta oficial tem a forma de um avião, esta outra planta, mítica, terá a forma de uma borboleta. Contra a imagem-máquina, própria dos valores concretistas – e do concreto armado que deu origem aos prédios – ele opõe uma imagem natural, em sintonia com o cerrado.
O movimento do livro é duplo. Destruição da “cidade-mamata”, da “cidade-autorama”, e ressurreição da urbe subterrânea. Em poemas de uma simplicidade profunda e divertida, totalmente afastados do hermetismo de certa lírica contemporânea, Nicolas Behr opera a ressemantização de Brasília, fazendo saborosos jogos de linguagem. Assim, o anti-homem público é o homem-bico, o homem-bic, os trabalhadores informais e o poeta marginal, heróis dessa nova cruzada. Nicolas lembra que Brasília é maior do que os seus habitantes habituais:
os políticos são visitantes ocasionais
e logo logo os expulsaremos (p.54)
Além desse ódio aos políticos, há ainda o ódio ao burocrata (definido magistralmente pelo poeta como um “ser meio homem meio carimbo”), todos irmanados pela vida fácil e pela vaidade. Num dos belos poemas do livro, ele relaciona o vazio urbanístico aos seus freqüentadores engravatados e similares:
em meio ao vazio do cerrado
construiu-se uma cidade vazia
habitada por pessoas vazias
que circulam por avenidas vazias
em carros vazios de pneus vazios
mas cheias do vazio de si mesmas (p.36)
Seu amor e sua devoção são exercidos pela outra urbe, “viva, noturna, alternativa, rebelde, roqueira”, e pelo cerrado – o autor é sócio-proprietário de um viveiro de plantas da região. Nesse processo, ele reverte o sentido daquele espaço, que deixa de ser uma referência da arquitetura moderna (e da corrupção) para que surja a cidade ecológica, construída diariamente pelos trabalhadores. Se o desejo de confronto que moveu a geração marginal amorteceu na grande maioria dos seus adeptos históricos, em Brasília, onde o poder é mais opressor, este impulso segue vivo na verve lírica e irônica de Nicolar Behr, o seu melhor tradutor: “o primeiro mito / de brasília / é jk // o segundo, renato russo // o terceiro mito sou eu // mas isso / vocês não sabem // porque ainda não morri” (p.25). Manter-se longe do poder, tanto do político quanto do literário, tem garantido a Nicolas Behr uma rara autenticidade na poesia brasileira.
Serviço
Brasilíada, de Nicolas Behr. Língua Geral, 72 págs, R$ 30. Poesia.
sábado, 21 de maio de 2011
O CONTO, A VIDA
Por CARLOS SCHROEDER, in A Noticia, 21 de maio de 2011.
“Então você quer ser escritor?” A pergunta nomeia o último livro do escritor Miguel Sanches Neto, recentemente lançado pela editora Record. Sanches Neto é um dos poucos escritores brasileiros que atingiu a maioridade no romance, tem timming, consegue desenvolver uma personagem sem se perder em rodeios fantasmáticos e, principalmente, sabe o poder de uma história bem contada.
A mesma perícia que mostra em seus romances também se repete nesta sua recém-lançada coletânea de contos. E quando afirma que é de equívocos e pequenas covardias que é feita a vida e a literatura, não está brincando. O escritor húngaro Sándor Marái, em sua obra-prima “De Verdade”, diz que “por trás de todo abraço de verdade se encontra a morte, com suas sombras, que não são menos completas que as luzes da felicidade”. Esta frase bem poderia ser a epígrafe do livro, pois a morte assombra muitas das personagens de Sanches Neto; e também a felicidade, já que o medo dela é uma espécie de morte anunciada. “Meus personagens caminham para a morte sem saber lidar com o lugar que eles ocupam. São seres desenraizados. Mas que sonham com raízes”, já afirmou o autor.
A pluralidade de gêneros e técnicas narrativas mostram a versatilidade do autor ao lidar com temas como cultura, dinheiro, morte, solidão, amor, amizade, hipocrisia e preconceitos, sempre com a leveza de um cronista, mas com a profundidade do romancista. Nos seus contos, a morte pode ser como uma noite de tempestade, mas também um lindo sonho. “É preciso passar por muitas decepções para merecer de novo o primeiro amor”. Assim como é preciso passar por muitas decepções para entender a natureza arbitrária da vida, e é nesse aspecto que residem as maiores qualidades do livro. Pois quando o cheiro de sangue traz terríveis lembranças (de um acidente de ônibus) e é associado a incapacidade de uma mulher ter filhos, Sanches Neto sabe estabelecer o conflito de maneira singela e certeira. Ou quando um radialista com pretensões literárias encarna um estranho romance com uma jovem antiquada, ou, ainda, quando as falsas memórias e o desejo do escritor veterano pela jovem aluna são borradas, Sanches Neto sempre sabe conduzir e encerrar as questões, herança clara de sua experiência como romancista.
O ofício da escrita é dissecado de maneira bem-humorada no último conto do livro, que começa assim: “Antes eu olhava as orelhas dos livros de autores mais velhos para ver com qual idade haviam escrito suas obras-primas, sofrendo ao saber que muitas surgiram quando eles eram bem mais jovens do que eu. Hoje, às vésperas da velhice, confiro a idade dos jovens autores, que estreiam cada vez mais cedo, e vejo que estamos sendo sucedidos por uma geração afoita. São belos, trazem a juventude na pele sem marcas, nos cabelos bem cuidados, nos músculos expostos e nos lábios sensuais, produzindo uma literatura que, diante desses outros atributos, não conseguimos sequer avaliar. Leio os dados biográficos, estudo as fotos e dou uma folheada nos livros, sem o menor ânimo. Tanta beleza ofusca qualquer qualidade literária. Atordoado por esta exuberância, lembro-me de uma frase de Hemingway: ‘A maioria dos escritores vivos não existe’. Digo isso em voz alta quando estou na frente da estante de lançamentos em alguma livraria, e sempre desperto olhares desconfiados, o que me obriga a deixar o livro na prateleira e ir embora com a sensação de ser observado por todos. Mas ontem, depois de repetir as palavras de Hemingway, despertando em uma jovem ao lado um riso de desprezo, me senti atraído por um livro.”
Além da qualidade da prosa de Sanches Neto, o que me alegra é ver o ressurgimento do conto no cenário nacional (já que o gênero foi praticamente banido na última década), pois importantes escritores brasileiros, de gerações e potências diferentes, estão aderindo ao gênero. Eu mesmo faço votos para que Sanches Neto (que já ganhou o Prêmio Cruz e Sousa na categoria conto) abandone o romance a venha para o conto. Então, você quer ser contista?
“Então você quer ser escritor?” A pergunta nomeia o último livro do escritor Miguel Sanches Neto, recentemente lançado pela editora Record. Sanches Neto é um dos poucos escritores brasileiros que atingiu a maioridade no romance, tem timming, consegue desenvolver uma personagem sem se perder em rodeios fantasmáticos e, principalmente, sabe o poder de uma história bem contada.
A mesma perícia que mostra em seus romances também se repete nesta sua recém-lançada coletânea de contos. E quando afirma que é de equívocos e pequenas covardias que é feita a vida e a literatura, não está brincando. O escritor húngaro Sándor Marái, em sua obra-prima “De Verdade”, diz que “por trás de todo abraço de verdade se encontra a morte, com suas sombras, que não são menos completas que as luzes da felicidade”. Esta frase bem poderia ser a epígrafe do livro, pois a morte assombra muitas das personagens de Sanches Neto; e também a felicidade, já que o medo dela é uma espécie de morte anunciada. “Meus personagens caminham para a morte sem saber lidar com o lugar que eles ocupam. São seres desenraizados. Mas que sonham com raízes”, já afirmou o autor.
A pluralidade de gêneros e técnicas narrativas mostram a versatilidade do autor ao lidar com temas como cultura, dinheiro, morte, solidão, amor, amizade, hipocrisia e preconceitos, sempre com a leveza de um cronista, mas com a profundidade do romancista. Nos seus contos, a morte pode ser como uma noite de tempestade, mas também um lindo sonho. “É preciso passar por muitas decepções para merecer de novo o primeiro amor”. Assim como é preciso passar por muitas decepções para entender a natureza arbitrária da vida, e é nesse aspecto que residem as maiores qualidades do livro. Pois quando o cheiro de sangue traz terríveis lembranças (de um acidente de ônibus) e é associado a incapacidade de uma mulher ter filhos, Sanches Neto sabe estabelecer o conflito de maneira singela e certeira. Ou quando um radialista com pretensões literárias encarna um estranho romance com uma jovem antiquada, ou, ainda, quando as falsas memórias e o desejo do escritor veterano pela jovem aluna são borradas, Sanches Neto sempre sabe conduzir e encerrar as questões, herança clara de sua experiência como romancista.
O ofício da escrita é dissecado de maneira bem-humorada no último conto do livro, que começa assim: “Antes eu olhava as orelhas dos livros de autores mais velhos para ver com qual idade haviam escrito suas obras-primas, sofrendo ao saber que muitas surgiram quando eles eram bem mais jovens do que eu. Hoje, às vésperas da velhice, confiro a idade dos jovens autores, que estreiam cada vez mais cedo, e vejo que estamos sendo sucedidos por uma geração afoita. São belos, trazem a juventude na pele sem marcas, nos cabelos bem cuidados, nos músculos expostos e nos lábios sensuais, produzindo uma literatura que, diante desses outros atributos, não conseguimos sequer avaliar. Leio os dados biográficos, estudo as fotos e dou uma folheada nos livros, sem o menor ânimo. Tanta beleza ofusca qualquer qualidade literária. Atordoado por esta exuberância, lembro-me de uma frase de Hemingway: ‘A maioria dos escritores vivos não existe’. Digo isso em voz alta quando estou na frente da estante de lançamentos em alguma livraria, e sempre desperto olhares desconfiados, o que me obriga a deixar o livro na prateleira e ir embora com a sensação de ser observado por todos. Mas ontem, depois de repetir as palavras de Hemingway, despertando em uma jovem ao lado um riso de desprezo, me senti atraído por um livro.”
Além da qualidade da prosa de Sanches Neto, o que me alegra é ver o ressurgimento do conto no cenário nacional (já que o gênero foi praticamente banido na última década), pois importantes escritores brasileiros, de gerações e potências diferentes, estão aderindo ao gênero. Eu mesmo faço votos para que Sanches Neto (que já ganhou o Prêmio Cruz e Sousa na categoria conto) abandone o romance a venha para o conto. Então, você quer ser contista?
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O PROJETO DA CASA
Tentamos fazer da casa um lar,
ponto de encontro, entendimento,
energia que ao ser somada
força na direção de um centro.
A partir desta noite, e talvez
para todo o longo sempre,
cada um seguirá, errante,
o caminho que lhe convém.
A mulher trabalha até tarde
em seu escritório modesto.
A filha assiste tevê na sala
e o filho dorme em seu berço,
enquanto faço destas palavras
uma casa, um lar, um centro.
ponto de encontro, entendimento,
energia que ao ser somada
força na direção de um centro.
A partir desta noite, e talvez
para todo o longo sempre,
cada um seguirá, errante,
o caminho que lhe convém.
A mulher trabalha até tarde
em seu escritório modesto.
A filha assiste tevê na sala
e o filho dorme em seu berço,
enquanto faço destas palavras
uma casa, um lar, um centro.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
O FOTÓGRAFO
Nesta foto, tirada pelo Cristovão Tezza, autor do romance O Fotógrafo, Antoninho está em meu colo em São Luis do Purunã.
FIGURINHA
Já escrevi muito sobre o senhor Antônio, mas não publiquei imagens dele. Nesta foto, tirada pela irmã, a senhorita Camila, ele aparece atacando o meu chimarrão. Gosta também de café, com e sem açúcar. Figurinha tímida e conquistadora, dócil e autoritária, está sempre, com suas opiniões, desorganizando aquilo que penso. O Suplemento Literário de Minas Gerais vai publicar o longo poema que escrevi quando do nascimento dele: "Aquele que veio depois".
quarta-feira, 18 de maio de 2011
ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR
Por Isabel Furini, em www.bonde.com.br
Li há pouco tempo no Digestivo Cultural, (Os contistas puros-sangues estão em extinção, de Luiz Rebinski Junior, 04/05/11), que nesta época não há contistas "puros-sangues", ou seja, dedicados realmente ao conto e com capacidade para criar tramas e personagens de impacto – capazes de fazer vibrar o leitor – pois a maioria edita um livro de contos para estrear no mundo literário, porém de olho no próximo romance. Isso é verdade. Contudo como toda regra tem exceções, hoje quero falar um pouco de um "puro-sangue" da literatura, de um contista que conhece profundamente a técnica ficcional, falaremos de Miguel Sanches Neto.
Seu novo livro de contos: Então você quer ser escritor? É tudo o que um escritor sonha em conseguir escrever. É excelente. É tão bom que pode até despertar a raiva de qualquer autor. Porque se pensarmos que o título é um desafio do tipo: se você quer ser escritor, escreva um livro como o meu, percebemos que haverá poucos, pouquíssimos, que aceitem esse desafio. O conhecimento de narratalogia, as construções de personagens, de espaços e de conflitos fazem de Então você quer ser escritor? (Record, 2011, 222 páginas) um livro invencível.
Na realidade, quando chegamos ao último conto, que tem esse mesmo título, descobrimos que não é um desafio, é simplesmente uma história que fala de uma oficina literária, da lembrança de uma moça sensual e do choque com a realidade. Não é a lembrança de um grande amor, mas de uma paixão. Miguel Sanches Neto não escreve contos cor-de-rosa, ele dá a cada história uma cor especial. Uma gama riquíssima e com estrutura coesa.
Atrevo-me a dizer que alguns contos do livro, entre eles Árvores submersas, podem ser confrontados com os grandes contos da literatura mundial. Miguel Sanches Neto tem um ofício um pouco esquecido nesta época em que qualquer pessoa pode ir até uma editora por demanda e publicar um livro. O ofício de Miguel Sanches Neto é o de ser escritor.
Agora, se você for escritor será difícil não murmurar frases com raiva. Frases do estilo: Como esse maldito conseguiu escrever um livro tão bom?
Falando sério, se você quiser ler um livro de contos viscerais, escritos com a tensão que só grandes escritores conseguem, aconselho a leitura de Então você quer ser escritor? Sentirá a força arrasadora de um "puro sangue", a força das histórias escritas com técnica e paixão.
Li há pouco tempo no Digestivo Cultural, (Os contistas puros-sangues estão em extinção, de Luiz Rebinski Junior, 04/05/11), que nesta época não há contistas "puros-sangues", ou seja, dedicados realmente ao conto e com capacidade para criar tramas e personagens de impacto – capazes de fazer vibrar o leitor – pois a maioria edita um livro de contos para estrear no mundo literário, porém de olho no próximo romance. Isso é verdade. Contudo como toda regra tem exceções, hoje quero falar um pouco de um "puro-sangue" da literatura, de um contista que conhece profundamente a técnica ficcional, falaremos de Miguel Sanches Neto.
Seu novo livro de contos: Então você quer ser escritor? É tudo o que um escritor sonha em conseguir escrever. É excelente. É tão bom que pode até despertar a raiva de qualquer autor. Porque se pensarmos que o título é um desafio do tipo: se você quer ser escritor, escreva um livro como o meu, percebemos que haverá poucos, pouquíssimos, que aceitem esse desafio. O conhecimento de narratalogia, as construções de personagens, de espaços e de conflitos fazem de Então você quer ser escritor? (Record, 2011, 222 páginas) um livro invencível.
Na realidade, quando chegamos ao último conto, que tem esse mesmo título, descobrimos que não é um desafio, é simplesmente uma história que fala de uma oficina literária, da lembrança de uma moça sensual e do choque com a realidade. Não é a lembrança de um grande amor, mas de uma paixão. Miguel Sanches Neto não escreve contos cor-de-rosa, ele dá a cada história uma cor especial. Uma gama riquíssima e com estrutura coesa.
Atrevo-me a dizer que alguns contos do livro, entre eles Árvores submersas, podem ser confrontados com os grandes contos da literatura mundial. Miguel Sanches Neto tem um ofício um pouco esquecido nesta época em que qualquer pessoa pode ir até uma editora por demanda e publicar um livro. O ofício de Miguel Sanches Neto é o de ser escritor.
Agora, se você for escritor será difícil não murmurar frases com raiva. Frases do estilo: Como esse maldito conseguiu escrever um livro tão bom?
Falando sério, se você quiser ler um livro de contos viscerais, escritos com a tensão que só grandes escritores conseguem, aconselho a leitura de Então você quer ser escritor? Sentirá a força arrasadora de um "puro sangue", a força das histórias escritas com técnica e paixão.
ENTRE OITO E OITENTA
Por Marcos Pasche, in Rascunho, maio de 2011.
A crítica literária, quando realizada com seriedade, é uma tarefa bastante árdua, como o são todos os ofícios desempenhados com afinco e sinceridade. Mas, por paradoxal que pareça, estando o crítico diante de extremos — o livro grandioso ou o péssimo, que ele sequer considera literário —, sua tarefa analítica (se não podemos empregar aqui o termo “facilidade”, para que não façamos uma pecaminosa contradição) ganha certo conforto, pois em geral são numerosos os motivos que provocam em nós a sensação do endosso ou da repulsa.
No primeiro caso, o estudioso inevitavelmente contamina seu juízo pela paixão (sem a qual não há crítica apaixonante), no entender dele regalada pela obra de excelência, e a partir disso elabora um discurso em comunhão com o que foi lido; no segundo, rechaça-se tudo o que se lhe apresenta em desacordo com as verdades que carrega dentro de si, e nesse caso a paixão assume uma tonalidade diversa, e, grávida de gravidade, grava-se nas páginas com as tintas negras da reprovação. Tudo muito subjetivo, é verdade, mas a objetividade — que (acertadamente) se cobra da crítica literária, porém em muitos momentos solicitando (equivocadamente) a expulsão da pessoalidade — a objetividade, dizia eu, e seus mecanismos de legitimação nascem sempre em algum espaço particular, pois nada do que pertence ao conhecimento humano brota em árvores ou é extraído de alguma pedra.
Mas os livros medianos parecem mais desconfortáveis para a crítica precisamente por se situarem numa terceira via, a qual, neste contexto, não costuma ser muito fértil, visto não ser tão curta a ponto de inviabilizar o trânsito, nem tão longa a desafiar o horizonte e nos impulsionar ao deslocamento. Fique claro que aqui não se defendem nocivas dicotomias, pois seria absolutamente danoso caso a crítica se limitasse à etiquetação do que é bom e do que é ruim, de maneira direta e simples, mas a vida por vezes coloca-nos diante de situações que nos inspiram um inevitável “ou oito ou oitenta”.
Esta é a impressão que nos causam os mais recentes livros de Miguel Sanches Neto: Então você quer ser escritor? (de contos) e Alugo palavras (de poemas).
Em ambos os casos, o autor nunca escreve de forma rasteira; não cede aos azulejos frios da abstração nem se embala pela chapa quente dos tiroteios neonaturalistas; também não decai na gozação banalizada que se acredita transgressora nem se confina na seriedade experimental refratária a qualquer espontaneidade. Tanto na prosa quanto no verso, o paranaense não se submete aos receituários da época, revelando um trabalho elaborado com idoneidade e autonomia. No entanto, mesmo a evitação dos vícios somada a essas virtudes não conferem às peças em questão maior expressividade.
Narração de estórias
O volume de contos dá exemplo mais preciso do que estamos a apontar. Então você quer ser escritor? é composto por 16 narrativas, as quais desautorizam nossas expectativas de que por detrás do rótulo de “prosa de ficção” esconder-se-ia um tratado narcisista de concepções artísticas em nome da emancipação da literatura contemporânea (as expectativas ficam mais plausíveis porque Miguel Sanches é professor universitário de Literatura Brasileira). Em decorrência dessa atitude voluntária do autor de esquivar sua prosa do exagero metadiscursivo, percebe-se um livro pautado pelo princípio básico, mas não primário, da narração de estórias de caráter cotidiano com algum fator distintivo. E nisso o volume dota-se de frescor, pois ainda vemos que a prosa de ficção pode continuar a falar do que não necessariamente nos pertence, mas está bem a nosso lado, como o menino que custa a perceber a morte do pai, o jovem que desaparece de sua cidade após uma desilusão amorosa e os moleques que se aventuram para formar um time de futebol.
Mas os temas e a figuração (em sentido contrário à abstração) não bastam para fazer com que um texto possa ser considerado artístico. E aí se vê que se o autor acertou ao proibir a presença homogênea de ruminações teóricas, ele errou ao não alicerçar sua forma narrativa sobre técnicas de composição que garantiriam ao conjunto maior densidade estética. Aqui se buscou negar o caminho da literatura dissociada da vida, mas se falou da vida sem a dicção mais típica da literatura, e por isso não parece que se tenha alcançado nem uma nem outra esfera.
O texto que abre o livro — Sangue — aponta para uma grave doença da época presente: a indiferença diante das tragédias que enchem a pauta de programas televisivos e os olhos de seus espectadores que, indecisos entre a comiseração e o fascínio, aguardam sequiosos pelo momento de levarem suas vantagens. No curto relato, narra-se um grave acidente rodoviário envolvendo um carro com quatro jovens e um caminhão transportador de repolhos. O acidente é presenciado por idosos que viajam num ônibus rumo a Aparecida do Norte, no interior de São Paulo, os quais descem para assistir de perto e atuarem como coadjuvantes no bárbaro espetáculo:
Então percebi que as pessoas guardavam repolhos no compartimento das malas. Iriam até Aparecida do Norte e só voltariam para casa dois dias depois, mas saqueavam a carga do caminhão. Meu vizinho, um senhor de rosto obscenamente bronzeado, ainda me olhava, esperando que eu agradecesse.
Algumas das incursões feitas por Miguel Sanches na seara da crônica dão ao livro firme poder de observação do tempo em que se insere, conforme demonstra o conto citado. Porém a contemplação mais ampla, alvejando o homem e alguns de seus dilemas, independentes do tempo, mostra-se escassa justamente por ser desprovida da penetração aguçada no interior dos personagens, os quais vivenciam situações de grande tensão emotiva, as quais são relatadas com escassa tensão narrativa.
Mesmo em seus melhores lances, como em Redentor, protagonizado por um homem típico das convenções mas algo atormentado por seus desejos homossexuais, a construção do personagem e a análise de seus pensamentos e ações não exploram as procelas sentimentais que se poderiam esperar de alguém com tal perfil. Numa noite na Zona Sul do Rio, Pedro, homem casado e que veio à cidade para um congresso de seu trabalho, leva um travesti para seu quarto, mas interrompe subitamente o ato sexual a que havia dado início. A cena inspira forte dramaticidade, mas é amenamente descrita pelo narrador:
Pedro foi ao banheiro, tirou o preservativo com papel higiênico e tomou um banho rápido. Ela entrou no banheiro só de saia e sandália, para arrumar a peruca no espelho. Então ele viu a imagem de Cristo tatuada na barriga, um Cristo meio selvagem. Pedro teve vontade de chorar.
Noutro conto, Para o seu bem, cuja atmosfera agônica tem o sangue social, a ausência de desdobramento narrativo (o qual nos aproxima da complexidade anímica do personagem, levando-nos a conhecer e desconhecer o homem) deixa artificial a “conversão” do pacato menino Fábio Júnior ao crime, visto que tudo se processa de modo imediato e, por isso, inverossímil demais: o rapaz fala uma vez com um traficante; o traficante vai a casa dele, e então ele fuma maconha pela primeira vez; bem adiante, Fábio Júnior já consome drogas mais pesadas, e num trajeto percorrido por velocista olímpico, torna-se, a um só tempo, traficante e ladrão (que se dá ao luxo de ir a um culto evangélico desacompanhado sem temer qualquer perseguição): “Estou com dinheiro, compro e vendo droga agora. Tive que matar o [traficante] Pânico porque ele estava dormindo com minha menina, e fiquei com os clientes dele. Todos têm medo do menino Júnior, o vulgo pegou mesmo”.
Esta é a tônica geral do livro, a comprovar um surpreendente antagonismo: a literatura de vocação mimética, cujo pressuposto centra-se na representação da realidade, é justamente a que costuma se afastar do real que pretende abraçar com seus laços pragmáticos. E no caso específico de nossos convivas de tempo e de país, muito do que se publica forma uma literatura sem interesse ou capacidade de edificar-se pelo acúmulo do que nossa ainda jovem mas vigorosa tradição legou como valiosos ensinamentos.
Poesia
Fato semelhante ocorre em Alugo palavras, sexto livro de poemas do autor de Então você quer ser escritor?. A considerável produção de Miguel Sanches Neto na escrita em verso não nos permite supor que o novo volume seja mero desenfado ou passeio intelectual do prosador em seus momentos de folga; mas, por outro lado, vê-se de fato que a prática ainda não é sinônimo de primor.
Apesar de dividido em quatro partes, há no livro um fio coesivo manifestado pela confissão e pela memória, num lirismo ao qual se associam passagens metalingüísticas. Aqui, mais uma vez, a despeito de não nadar nas ondas de seus confrades hodiernos, a escrita de Miguel Sanches situa-se num patamar além dos que nada têm a dizer e aquém dos que dizem muito e dizem bem: “Maria da Glória/ por que foste embora?// Maria das Dores/ que tal se te fores? // Maria dos Anjos,/ escute o meu pranto.// Maria das Neves, por que não te atreves?// Maria da Penha, largue tudo e venha” (Todas as Marias).
Mas no gênero lírico o autor paranaense realiza com alguma freqüência feitos de alcance mais considerável, especialmente quando o discurso poupa-se das palavras para aprofundar-se na reflexão e na densidade imagética: “Acolhes tudo que brilha./ O espelho dos olhos/ é tua única mobília” (Adendo quase romântico).
E o grande salto desta poética ocorre quando se mesclam os recursos pelos quais o texto tem acesso à morada da poesia, ou dela é proveniente. Ao formar um amálgama de engenho discursivo, densidade reflexiva e carga emotiva, cujo somatório tem o poder de inaugurar novos sentidos, o autor põe no livro e no mundo a pincelada forte de suas impressões digitais, as quais colocam a esmo tudo o que se enquadrava no meio e no mesmo:
FAMÍLIA
Uma toalha por dia
pra toda a família.
Primeiro, seca-se o pai,
é quem trabalha mais.
A mãe sempre o secunda,
e a toalha já se inunda.
A irmã vem logo depois,
limpo e vívido é seu corpo.
Aos moleques imundos,
resta o tecido todo úmido.
Em outra toalha, pequena,
secam o rosto e a cabeça.
E neste ritual de higiene
há algo de Santa Ceia.
É sempre mais difícil o trabalho de autores lançados à narrativa e à poesia simultaneamente. O caso de Miguel Sanches Neto nos faz supor que o vigor dessas duas estradas pode se dar a partir da unificação dos caminhos, em contínua alteração das alteridades.
A crítica literária, quando realizada com seriedade, é uma tarefa bastante árdua, como o são todos os ofícios desempenhados com afinco e sinceridade. Mas, por paradoxal que pareça, estando o crítico diante de extremos — o livro grandioso ou o péssimo, que ele sequer considera literário —, sua tarefa analítica (se não podemos empregar aqui o termo “facilidade”, para que não façamos uma pecaminosa contradição) ganha certo conforto, pois em geral são numerosos os motivos que provocam em nós a sensação do endosso ou da repulsa.
No primeiro caso, o estudioso inevitavelmente contamina seu juízo pela paixão (sem a qual não há crítica apaixonante), no entender dele regalada pela obra de excelência, e a partir disso elabora um discurso em comunhão com o que foi lido; no segundo, rechaça-se tudo o que se lhe apresenta em desacordo com as verdades que carrega dentro de si, e nesse caso a paixão assume uma tonalidade diversa, e, grávida de gravidade, grava-se nas páginas com as tintas negras da reprovação. Tudo muito subjetivo, é verdade, mas a objetividade — que (acertadamente) se cobra da crítica literária, porém em muitos momentos solicitando (equivocadamente) a expulsão da pessoalidade — a objetividade, dizia eu, e seus mecanismos de legitimação nascem sempre em algum espaço particular, pois nada do que pertence ao conhecimento humano brota em árvores ou é extraído de alguma pedra.
Mas os livros medianos parecem mais desconfortáveis para a crítica precisamente por se situarem numa terceira via, a qual, neste contexto, não costuma ser muito fértil, visto não ser tão curta a ponto de inviabilizar o trânsito, nem tão longa a desafiar o horizonte e nos impulsionar ao deslocamento. Fique claro que aqui não se defendem nocivas dicotomias, pois seria absolutamente danoso caso a crítica se limitasse à etiquetação do que é bom e do que é ruim, de maneira direta e simples, mas a vida por vezes coloca-nos diante de situações que nos inspiram um inevitável “ou oito ou oitenta”.
Esta é a impressão que nos causam os mais recentes livros de Miguel Sanches Neto: Então você quer ser escritor? (de contos) e Alugo palavras (de poemas).
Em ambos os casos, o autor nunca escreve de forma rasteira; não cede aos azulejos frios da abstração nem se embala pela chapa quente dos tiroteios neonaturalistas; também não decai na gozação banalizada que se acredita transgressora nem se confina na seriedade experimental refratária a qualquer espontaneidade. Tanto na prosa quanto no verso, o paranaense não se submete aos receituários da época, revelando um trabalho elaborado com idoneidade e autonomia. No entanto, mesmo a evitação dos vícios somada a essas virtudes não conferem às peças em questão maior expressividade.
Narração de estórias
O volume de contos dá exemplo mais preciso do que estamos a apontar. Então você quer ser escritor? é composto por 16 narrativas, as quais desautorizam nossas expectativas de que por detrás do rótulo de “prosa de ficção” esconder-se-ia um tratado narcisista de concepções artísticas em nome da emancipação da literatura contemporânea (as expectativas ficam mais plausíveis porque Miguel Sanches é professor universitário de Literatura Brasileira). Em decorrência dessa atitude voluntária do autor de esquivar sua prosa do exagero metadiscursivo, percebe-se um livro pautado pelo princípio básico, mas não primário, da narração de estórias de caráter cotidiano com algum fator distintivo. E nisso o volume dota-se de frescor, pois ainda vemos que a prosa de ficção pode continuar a falar do que não necessariamente nos pertence, mas está bem a nosso lado, como o menino que custa a perceber a morte do pai, o jovem que desaparece de sua cidade após uma desilusão amorosa e os moleques que se aventuram para formar um time de futebol.
Mas os temas e a figuração (em sentido contrário à abstração) não bastam para fazer com que um texto possa ser considerado artístico. E aí se vê que se o autor acertou ao proibir a presença homogênea de ruminações teóricas, ele errou ao não alicerçar sua forma narrativa sobre técnicas de composição que garantiriam ao conjunto maior densidade estética. Aqui se buscou negar o caminho da literatura dissociada da vida, mas se falou da vida sem a dicção mais típica da literatura, e por isso não parece que se tenha alcançado nem uma nem outra esfera.
O texto que abre o livro — Sangue — aponta para uma grave doença da época presente: a indiferença diante das tragédias que enchem a pauta de programas televisivos e os olhos de seus espectadores que, indecisos entre a comiseração e o fascínio, aguardam sequiosos pelo momento de levarem suas vantagens. No curto relato, narra-se um grave acidente rodoviário envolvendo um carro com quatro jovens e um caminhão transportador de repolhos. O acidente é presenciado por idosos que viajam num ônibus rumo a Aparecida do Norte, no interior de São Paulo, os quais descem para assistir de perto e atuarem como coadjuvantes no bárbaro espetáculo:
Então percebi que as pessoas guardavam repolhos no compartimento das malas. Iriam até Aparecida do Norte e só voltariam para casa dois dias depois, mas saqueavam a carga do caminhão. Meu vizinho, um senhor de rosto obscenamente bronzeado, ainda me olhava, esperando que eu agradecesse.
Algumas das incursões feitas por Miguel Sanches na seara da crônica dão ao livro firme poder de observação do tempo em que se insere, conforme demonstra o conto citado. Porém a contemplação mais ampla, alvejando o homem e alguns de seus dilemas, independentes do tempo, mostra-se escassa justamente por ser desprovida da penetração aguçada no interior dos personagens, os quais vivenciam situações de grande tensão emotiva, as quais são relatadas com escassa tensão narrativa.
Mesmo em seus melhores lances, como em Redentor, protagonizado por um homem típico das convenções mas algo atormentado por seus desejos homossexuais, a construção do personagem e a análise de seus pensamentos e ações não exploram as procelas sentimentais que se poderiam esperar de alguém com tal perfil. Numa noite na Zona Sul do Rio, Pedro, homem casado e que veio à cidade para um congresso de seu trabalho, leva um travesti para seu quarto, mas interrompe subitamente o ato sexual a que havia dado início. A cena inspira forte dramaticidade, mas é amenamente descrita pelo narrador:
Pedro foi ao banheiro, tirou o preservativo com papel higiênico e tomou um banho rápido. Ela entrou no banheiro só de saia e sandália, para arrumar a peruca no espelho. Então ele viu a imagem de Cristo tatuada na barriga, um Cristo meio selvagem. Pedro teve vontade de chorar.
Noutro conto, Para o seu bem, cuja atmosfera agônica tem o sangue social, a ausência de desdobramento narrativo (o qual nos aproxima da complexidade anímica do personagem, levando-nos a conhecer e desconhecer o homem) deixa artificial a “conversão” do pacato menino Fábio Júnior ao crime, visto que tudo se processa de modo imediato e, por isso, inverossímil demais: o rapaz fala uma vez com um traficante; o traficante vai a casa dele, e então ele fuma maconha pela primeira vez; bem adiante, Fábio Júnior já consome drogas mais pesadas, e num trajeto percorrido por velocista olímpico, torna-se, a um só tempo, traficante e ladrão (que se dá ao luxo de ir a um culto evangélico desacompanhado sem temer qualquer perseguição): “Estou com dinheiro, compro e vendo droga agora. Tive que matar o [traficante] Pânico porque ele estava dormindo com minha menina, e fiquei com os clientes dele. Todos têm medo do menino Júnior, o vulgo pegou mesmo”.
Esta é a tônica geral do livro, a comprovar um surpreendente antagonismo: a literatura de vocação mimética, cujo pressuposto centra-se na representação da realidade, é justamente a que costuma se afastar do real que pretende abraçar com seus laços pragmáticos. E no caso específico de nossos convivas de tempo e de país, muito do que se publica forma uma literatura sem interesse ou capacidade de edificar-se pelo acúmulo do que nossa ainda jovem mas vigorosa tradição legou como valiosos ensinamentos.
Poesia
Fato semelhante ocorre em Alugo palavras, sexto livro de poemas do autor de Então você quer ser escritor?. A considerável produção de Miguel Sanches Neto na escrita em verso não nos permite supor que o novo volume seja mero desenfado ou passeio intelectual do prosador em seus momentos de folga; mas, por outro lado, vê-se de fato que a prática ainda não é sinônimo de primor.
Apesar de dividido em quatro partes, há no livro um fio coesivo manifestado pela confissão e pela memória, num lirismo ao qual se associam passagens metalingüísticas. Aqui, mais uma vez, a despeito de não nadar nas ondas de seus confrades hodiernos, a escrita de Miguel Sanches situa-se num patamar além dos que nada têm a dizer e aquém dos que dizem muito e dizem bem: “Maria da Glória/ por que foste embora?// Maria das Dores/ que tal se te fores? // Maria dos Anjos,/ escute o meu pranto.// Maria das Neves, por que não te atreves?// Maria da Penha, largue tudo e venha” (Todas as Marias).
Mas no gênero lírico o autor paranaense realiza com alguma freqüência feitos de alcance mais considerável, especialmente quando o discurso poupa-se das palavras para aprofundar-se na reflexão e na densidade imagética: “Acolhes tudo que brilha./ O espelho dos olhos/ é tua única mobília” (Adendo quase romântico).
E o grande salto desta poética ocorre quando se mesclam os recursos pelos quais o texto tem acesso à morada da poesia, ou dela é proveniente. Ao formar um amálgama de engenho discursivo, densidade reflexiva e carga emotiva, cujo somatório tem o poder de inaugurar novos sentidos, o autor põe no livro e no mundo a pincelada forte de suas impressões digitais, as quais colocam a esmo tudo o que se enquadrava no meio e no mesmo:
FAMÍLIA
Uma toalha por dia
pra toda a família.
Primeiro, seca-se o pai,
é quem trabalha mais.
A mãe sempre o secunda,
e a toalha já se inunda.
A irmã vem logo depois,
limpo e vívido é seu corpo.
Aos moleques imundos,
resta o tecido todo úmido.
Em outra toalha, pequena,
secam o rosto e a cabeça.
E neste ritual de higiene
há algo de Santa Ceia.
É sempre mais difícil o trabalho de autores lançados à narrativa e à poesia simultaneamente. O caso de Miguel Sanches Neto nos faz supor que o vigor dessas duas estradas pode se dar a partir da unificação dos caminhos, em contínua alteração das alteridades.
terça-feira, 17 de maio de 2011
POEMINHA À MODA DO LEMINSKI
o miguelsanchesneto
é apenas um guapeca
que deve ser morto
a pau e pedra
senão é bem capaz
o fio-duma-égua
queira defecar
na nossa festa.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
UM NOVO GÊNERO
Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo (Curitiba), em 15 de maio de 2011.
Em um conjunto de três ensaios (O Que É um Autor?), Michel Foucault localiza a entrada de pessoas comuns no mundo da escrita, dando-lhes uma cidadania cultural. Para ele, existe uma literatura com um “funcionamento em verdade”; isto é, colada à existência de quem escreve. O filósofo estava mais preocupado com os marginalizados que, em situação de perigo diante da lei, se valem da palavra como forma de sobrevivência. É justamente em nome de quem não usou a linguagem, no entanto, mas com o mesmo caráter de verdade, que o criminalista alemão Ferdinand Von Schirach relata, em Crimes, os casos mais chocantes que ele defendeu.
Tanto no título do livro quanto no dos textos que o compõem, há uma preferência pelo substantivo, alguns sem nem mesmo o artigo. Esse estilo seco, preciso, sem concessão ao sentimental ou ao adorno, caracteriza todos os relatos do volume. Como não quer fazer pose literária, Von Schirach escreve com uma grande economia de meios, colocando-se dentro das histórias.
Por sua capacidade de argumentar e de compreender as fraquezas humanas, ele é um narrador amoral, num reflexo de sua profissão. O advogado faz o seu trabalho, defendendo os clientes, mesmo quando sabe, ou intui, estar diante de um culpado: “O fato de o advogado acreditar que o seu cliente é inocente não faz a menor diferença. Sua missão é defendê-lo” (p.91). Ele volta a essa idéia em “Verde”: “Às vezes, ser advogado de defesa é mais fácil do que ser promotor. Minha tarefa era ser parcial e interceder em favor do meu cliente” (p.128). Com este senso de missão empresarial, ele constrói uma voz narrativa moderna, interressada mais em compreender o funcionamento da sociedade do que em achar culpados ou dar lições.
Os crimes formariam uma história do mundo contemporâneo nas suas misérias e grandezas. Porque também se cometem atos cruéis por motivações nobres, como em “Fänher”, em que um médico suporta os desmandos da mulher, que ele tanto amava e que jurara sempre proteger, até a velhice, quando a mata com machadadas e depois a esquarteja. Ou no caso da moça rica que afoga o irmão reduzido a uma vida vegetativa para não vê-lo sofrer. Ou ainda, no mais assustador dos textos, na história de um jovem que amava tanto a namorada que decide literalmente devorá-la, em “Amor”. O conjunto de relatos de Von Schirach retira dos crimes todo o sensacionalismo próprio das notícias, mostrando que não são apenas os monstros morais que os cometem, mas também pessoas pacatas, algumas até bondosas.
A pergunta que fica, após a leitura, é: até que ponto tudo isso é verdade? A epígrafe do livro, tirada de Werner K. Heisenberg, pode ser uma resposta: “A realidade da qual podemos falar nunca é a realidade”. Ou seja, todo texto é sempre ficção, porque reconstrução parcial da realidade. Uma outra questão é sobre a falta de ética ao revelar os casos em que ele trabalhou. O narrador afirma ao seu cliente canibal, para fazê-lo confessar as razões de ter atacado a namorada: “Advogados estão sujeitos ao sigilo profissional. Tudo que você me disser permanecerá entre nós” (p.152). Mas ele já tem a má intenção de narrar isso.
Se Crimes são relatos em “funcionamento de verdade”, como literatura, sem outra função além da estética, eles não ficam circunscritos a nenhuma código profissional. Traindo ou não a confiança de seus clientes, ou inventando pretensas histórias reais, o fato é que, pela alta qualidade literária de seus relatos, Von Schirach reinventa a narrativa policial, agora construída a partir das experiências de um herói criminalista.
Serviço
Crimes, de Ferdinand Von Schirach. Tradução de Roberto Rodrigues. Record, 176 págs. R$ 29,90.
Em um conjunto de três ensaios (O Que É um Autor?), Michel Foucault localiza a entrada de pessoas comuns no mundo da escrita, dando-lhes uma cidadania cultural. Para ele, existe uma literatura com um “funcionamento em verdade”; isto é, colada à existência de quem escreve. O filósofo estava mais preocupado com os marginalizados que, em situação de perigo diante da lei, se valem da palavra como forma de sobrevivência. É justamente em nome de quem não usou a linguagem, no entanto, mas com o mesmo caráter de verdade, que o criminalista alemão Ferdinand Von Schirach relata, em Crimes, os casos mais chocantes que ele defendeu.
Tanto no título do livro quanto no dos textos que o compõem, há uma preferência pelo substantivo, alguns sem nem mesmo o artigo. Esse estilo seco, preciso, sem concessão ao sentimental ou ao adorno, caracteriza todos os relatos do volume. Como não quer fazer pose literária, Von Schirach escreve com uma grande economia de meios, colocando-se dentro das histórias.
Por sua capacidade de argumentar e de compreender as fraquezas humanas, ele é um narrador amoral, num reflexo de sua profissão. O advogado faz o seu trabalho, defendendo os clientes, mesmo quando sabe, ou intui, estar diante de um culpado: “O fato de o advogado acreditar que o seu cliente é inocente não faz a menor diferença. Sua missão é defendê-lo” (p.91). Ele volta a essa idéia em “Verde”: “Às vezes, ser advogado de defesa é mais fácil do que ser promotor. Minha tarefa era ser parcial e interceder em favor do meu cliente” (p.128). Com este senso de missão empresarial, ele constrói uma voz narrativa moderna, interressada mais em compreender o funcionamento da sociedade do que em achar culpados ou dar lições.
Os crimes formariam uma história do mundo contemporâneo nas suas misérias e grandezas. Porque também se cometem atos cruéis por motivações nobres, como em “Fänher”, em que um médico suporta os desmandos da mulher, que ele tanto amava e que jurara sempre proteger, até a velhice, quando a mata com machadadas e depois a esquarteja. Ou no caso da moça rica que afoga o irmão reduzido a uma vida vegetativa para não vê-lo sofrer. Ou ainda, no mais assustador dos textos, na história de um jovem que amava tanto a namorada que decide literalmente devorá-la, em “Amor”. O conjunto de relatos de Von Schirach retira dos crimes todo o sensacionalismo próprio das notícias, mostrando que não são apenas os monstros morais que os cometem, mas também pessoas pacatas, algumas até bondosas.
A pergunta que fica, após a leitura, é: até que ponto tudo isso é verdade? A epígrafe do livro, tirada de Werner K. Heisenberg, pode ser uma resposta: “A realidade da qual podemos falar nunca é a realidade”. Ou seja, todo texto é sempre ficção, porque reconstrução parcial da realidade. Uma outra questão é sobre a falta de ética ao revelar os casos em que ele trabalhou. O narrador afirma ao seu cliente canibal, para fazê-lo confessar as razões de ter atacado a namorada: “Advogados estão sujeitos ao sigilo profissional. Tudo que você me disser permanecerá entre nós” (p.152). Mas ele já tem a má intenção de narrar isso.
Se Crimes são relatos em “funcionamento de verdade”, como literatura, sem outra função além da estética, eles não ficam circunscritos a nenhuma código profissional. Traindo ou não a confiança de seus clientes, ou inventando pretensas histórias reais, o fato é que, pela alta qualidade literária de seus relatos, Von Schirach reinventa a narrativa policial, agora construída a partir das experiências de um herói criminalista.
Serviço
Crimes, de Ferdinand Von Schirach. Tradução de Roberto Rodrigues. Record, 176 págs. R$ 29,90.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
CRÍTICA VIVA
Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 8 de maio de 2011.
Um livro pode interessar como fato jornalístico, político ou literário, ganhando (ou perdendo), em função disso, espaço na mídia. Não havendo mais crítica literária sistemática nos meios de comunicação, a principal face de um lançamento é a jornalística. Escreve-se (ou não) sobre uma determinada obra não porque ela tenha valor como literatura, mas por se tratar de um acontecimento. Um músico famoso, por exemplo, produz um romance e não é possível, do ponto de vista da comunicação, deixar de divulgar este seu novo trabalho. Assim, a força como notícia de um livro é que determina sua centralidade cultural. Tal potencial pode vir do renome do autor, mas também de determinadas temáticas, que funcionam como ganchos: tragédias pessoais, referências a famosos, posturas pretensamente revolucionárias, invenção de linguagem, críticas a isto ou a aquilo etc. – enfim, as periferias da arte.
Igualmente não-literária é a motivação política, de pertencimento ou de excomunhão. Escreve-se sobre um livro porque ele reafirma uma visão do mundo hegemônica. Ou se exclui o livro, quando falta coragem para destruí-lo, porque ele nega as certezas do momento. Nesta mesma esteira, há ainda a crítica dos compadres, que poderíamos chamar de ecológica, em que os membros de um clã literário distribuem elogios de autoproteção. É principalmente contra esta cordialidade calculada que o poeta e crítico Felipe Fortuna se opõe em um volume de pequenos ensaios muito originais: Esta Poesia e Mais Outra. Indo da linguagem aforística à teatral, do artigo de opinião ao ensaio, de autores canônicos a jovens poetas, Felipe mapeia o campo minado da cultura brasileira. Um de seus aforismos resume a atual tendência para a mediocridade: “O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos” (p.223). O crescimento da oferta de livros fez com que se criassem microcampos de poder literário altamente excludentes, em que aparecem apenas os afiliados de uma linguagem, de uma ideologia ou de um credo artístico. Eis o principal problema sofrido hoje pelo autor avesso à vida gregária.
Com uma coragem rara, Felipe Fortuna aponta equívocos de nomeada, analisa acertos, mas principalmente desmonta os mecanismos grupais de consagração. E esse é um exercício intelectual em seu nível mais elevado, pois não existe crítica sem julgamento, sem hierarquização literária, sem valoração da amplitude de uma obra contra a sua leitura sectária. Felipe Fortuna insiste, ao longo de todo o livro, nessa postura judicativa. Mesmo quando admira um autor, e isso fica evidente em seu texto, ele não foge aos problemas da obra, não para negá-la, mas para chegar a uma melhor compreensão dela. São ensaios acima do elogio fácil, portanto.
Sua escrita cheia de energia cria uma crença na crítica de jornal, implícita em cada linha acalorada de seus artigos e escancarada em alguns deles: “O trabalho da resenha e da crítica, em que pese o eventual menosprezo de quem o contrapõe ao trabalho da criação, tem a mesma importância da recensão entre acadêmicos (peer review), ou da orientação de tese ou do parecer editorial” (p.175). Se a importância é a mesma, cada um desses gêneros cumpre funções distintas num sistema de complementaridade. A crítica de jornal se destaca por seu poder de fazer da literatura algo culturalmente vivo e estimulante. Felipe lista suas qualidades vitais: “o primado da opinião, a ênfase analítica e a tendência ao debate” (p.182), componentes que distinguem Esta poesia e mais outra, onde a literatura se manifesta acima do jornalístico e do político.
Serviço: Esta Poesia e Mais Outra, de Felipe Fortuna. Topbooks, 232 págs.
Um livro pode interessar como fato jornalístico, político ou literário, ganhando (ou perdendo), em função disso, espaço na mídia. Não havendo mais crítica literária sistemática nos meios de comunicação, a principal face de um lançamento é a jornalística. Escreve-se (ou não) sobre uma determinada obra não porque ela tenha valor como literatura, mas por se tratar de um acontecimento. Um músico famoso, por exemplo, produz um romance e não é possível, do ponto de vista da comunicação, deixar de divulgar este seu novo trabalho. Assim, a força como notícia de um livro é que determina sua centralidade cultural. Tal potencial pode vir do renome do autor, mas também de determinadas temáticas, que funcionam como ganchos: tragédias pessoais, referências a famosos, posturas pretensamente revolucionárias, invenção de linguagem, críticas a isto ou a aquilo etc. – enfim, as periferias da arte.
Igualmente não-literária é a motivação política, de pertencimento ou de excomunhão. Escreve-se sobre um livro porque ele reafirma uma visão do mundo hegemônica. Ou se exclui o livro, quando falta coragem para destruí-lo, porque ele nega as certezas do momento. Nesta mesma esteira, há ainda a crítica dos compadres, que poderíamos chamar de ecológica, em que os membros de um clã literário distribuem elogios de autoproteção. É principalmente contra esta cordialidade calculada que o poeta e crítico Felipe Fortuna se opõe em um volume de pequenos ensaios muito originais: Esta Poesia e Mais Outra. Indo da linguagem aforística à teatral, do artigo de opinião ao ensaio, de autores canônicos a jovens poetas, Felipe mapeia o campo minado da cultura brasileira. Um de seus aforismos resume a atual tendência para a mediocridade: “O poeta mais ou menos mostra seu poema a outros poetas mais ou menos. Juntos, decidem publicar uma revista e tudo termina sem mais nem menos” (p.223). O crescimento da oferta de livros fez com que se criassem microcampos de poder literário altamente excludentes, em que aparecem apenas os afiliados de uma linguagem, de uma ideologia ou de um credo artístico. Eis o principal problema sofrido hoje pelo autor avesso à vida gregária.
Com uma coragem rara, Felipe Fortuna aponta equívocos de nomeada, analisa acertos, mas principalmente desmonta os mecanismos grupais de consagração. E esse é um exercício intelectual em seu nível mais elevado, pois não existe crítica sem julgamento, sem hierarquização literária, sem valoração da amplitude de uma obra contra a sua leitura sectária. Felipe Fortuna insiste, ao longo de todo o livro, nessa postura judicativa. Mesmo quando admira um autor, e isso fica evidente em seu texto, ele não foge aos problemas da obra, não para negá-la, mas para chegar a uma melhor compreensão dela. São ensaios acima do elogio fácil, portanto.
Sua escrita cheia de energia cria uma crença na crítica de jornal, implícita em cada linha acalorada de seus artigos e escancarada em alguns deles: “O trabalho da resenha e da crítica, em que pese o eventual menosprezo de quem o contrapõe ao trabalho da criação, tem a mesma importância da recensão entre acadêmicos (peer review), ou da orientação de tese ou do parecer editorial” (p.175). Se a importância é a mesma, cada um desses gêneros cumpre funções distintas num sistema de complementaridade. A crítica de jornal se destaca por seu poder de fazer da literatura algo culturalmente vivo e estimulante. Felipe lista suas qualidades vitais: “o primado da opinião, a ênfase analítica e a tendência ao debate” (p.182), componentes que distinguem Esta poesia e mais outra, onde a literatura se manifesta acima do jornalístico e do político.
Serviço: Esta Poesia e Mais Outra, de Felipe Fortuna. Topbooks, 232 págs.
domingo, 8 de maio de 2011
ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?
por Taize Odelli, in http://www.amalgama.blog.br/05/2011/entao-voce-quer-ser-escritor/
Então você decide ser escritor e resolve escrever contos. Mas antes de tudo, você precisa mesmo é ler contos. Contos como os que Miguel Sanches Neto escreveu para alguns cadernos, livros e outras publicações e estão reunidos em Então você quer ser escritor?. Histórias que trazem o homem, mulher e criança contemporâneas lidando com dilemas e questões da vida que, em uma hora ou outra, todos terão que enfrentar. Vidas inteiras são resumidas em histórias curtas, mas que preservam a profundidade que há em cada personagem.
Miguel Sanches Neto tem um pé em cada gênero da literatura, seja o thriller, o erótico, o drama e até uma ponta de fantástico aparecem em seus textos. Como em “Árvores submersas”, em que o protagonista Marlus embarca em uma viagem a uma cidade do interior do Paraná atrás de um poeta para organizar uma edição com seus melhores trabalhos. O autor passa ao leitor toda a sensação que envolve o recluso poeta, a escuridão na casa que habita, o ambiente de sua biblioteca e a atração que sente pela sua jovem mulher. Outros contos como esse parecem abandonar o enredo principal, mas para Sanches Neto o que interessa é a evolução da personagem, não o desfecho de alguma história.
Também há um pouco de terror psicológico em “Animal nojento”, que se passa durante o preparo da habitual lasanha de domingo. Lembranças da protagonista dos seus primeiros meses de casada se misturam a angústia e raiva que crescem aos poucos a cada vez que seu filho chora, tomando também o leitor, que espera por um final trágico à medida que o choro da criança penetra mais ainda na mente da mãe e de sua própria. De uma depressão pós-parto, o autor parte para a ingenuidade infantil ao lidar com a morte em “O tamanho do mundo”. Pelos olhos de um garoto tirado da aula pelo seu tio, o leitor acompanha todo o velório de seu pai que ele e sua irmã acreditam ser uma festa. Sem entender exatamente o que é a morte, ambos crêem que logo o pai retornará, tudo contado com a mesma simplicidade do protagonista.
Em poucas páginas, Miguel Sanches Neto consegue narrar vidas inteiras, como em “Seios de menino”, em que o protagonista nos mostra seus dias de universitário e a relação com seu professor, indo até suas lembranças de infância com o retorno à cidadezinha onde vivia. Reencontros ilustram vários dos contos, expondo histórias que até então ficavam escondidas pelo tempo. Em “Não comerás carne”, dois irmãos se reencontram depois de anos de separação e voltam a lembrar do pai opressor e da mãe que sofria. E um livro de contos eróticos faz um escritor que ministrava oficinas literárias lembrar de alunos com talentos duvidosos em “Então você quer ser escritor?”. O encontro de um homem com o antigo diário de um voluntário na Guerra do Paraguai revela o desejo não conquistado de ser heroi em “Duas palavras”. Todos os contos revelam algum detalhe a mais sobre as personagens e a condição humana, principalmente de expectativas não alcançadas na vida.
Então você quer ser escritor? proporciona uma leitura que vai além do prazer da boa escrita, fruto da escolha de palavras certeiras que juntas vão além de seus simples significados. Miguel Sanches Neto revela temas que vão do usual ao confronto com o desconhecido que revelam muito mais sobre suas personagens do que romances com mais páginas conseguiriam fazer.
Então você decide ser escritor e resolve escrever contos. Mas antes de tudo, você precisa mesmo é ler contos. Contos como os que Miguel Sanches Neto escreveu para alguns cadernos, livros e outras publicações e estão reunidos em Então você quer ser escritor?. Histórias que trazem o homem, mulher e criança contemporâneas lidando com dilemas e questões da vida que, em uma hora ou outra, todos terão que enfrentar. Vidas inteiras são resumidas em histórias curtas, mas que preservam a profundidade que há em cada personagem.
Miguel Sanches Neto tem um pé em cada gênero da literatura, seja o thriller, o erótico, o drama e até uma ponta de fantástico aparecem em seus textos. Como em “Árvores submersas”, em que o protagonista Marlus embarca em uma viagem a uma cidade do interior do Paraná atrás de um poeta para organizar uma edição com seus melhores trabalhos. O autor passa ao leitor toda a sensação que envolve o recluso poeta, a escuridão na casa que habita, o ambiente de sua biblioteca e a atração que sente pela sua jovem mulher. Outros contos como esse parecem abandonar o enredo principal, mas para Sanches Neto o que interessa é a evolução da personagem, não o desfecho de alguma história.
Também há um pouco de terror psicológico em “Animal nojento”, que se passa durante o preparo da habitual lasanha de domingo. Lembranças da protagonista dos seus primeiros meses de casada se misturam a angústia e raiva que crescem aos poucos a cada vez que seu filho chora, tomando também o leitor, que espera por um final trágico à medida que o choro da criança penetra mais ainda na mente da mãe e de sua própria. De uma depressão pós-parto, o autor parte para a ingenuidade infantil ao lidar com a morte em “O tamanho do mundo”. Pelos olhos de um garoto tirado da aula pelo seu tio, o leitor acompanha todo o velório de seu pai que ele e sua irmã acreditam ser uma festa. Sem entender exatamente o que é a morte, ambos crêem que logo o pai retornará, tudo contado com a mesma simplicidade do protagonista.
Em poucas páginas, Miguel Sanches Neto consegue narrar vidas inteiras, como em “Seios de menino”, em que o protagonista nos mostra seus dias de universitário e a relação com seu professor, indo até suas lembranças de infância com o retorno à cidadezinha onde vivia. Reencontros ilustram vários dos contos, expondo histórias que até então ficavam escondidas pelo tempo. Em “Não comerás carne”, dois irmãos se reencontram depois de anos de separação e voltam a lembrar do pai opressor e da mãe que sofria. E um livro de contos eróticos faz um escritor que ministrava oficinas literárias lembrar de alunos com talentos duvidosos em “Então você quer ser escritor?”. O encontro de um homem com o antigo diário de um voluntário na Guerra do Paraguai revela o desejo não conquistado de ser heroi em “Duas palavras”. Todos os contos revelam algum detalhe a mais sobre as personagens e a condição humana, principalmente de expectativas não alcançadas na vida.
Então você quer ser escritor? proporciona uma leitura que vai além do prazer da boa escrita, fruto da escolha de palavras certeiras que juntas vão além de seus simples significados. Miguel Sanches Neto revela temas que vão do usual ao confronto com o desconhecido que revelam muito mais sobre suas personagens do que romances com mais páginas conseguiriam fazer.
domingo, 1 de maio de 2011
ANTÍDOTO CONTRA A LOUCURA
Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo de 1 de maio de 2011.
Em um mundo ensandecido, a razão soa como uma forma extrema de loucura. Esta constatação talvez possa resumir um dos melhores livros do inglês Ian McEwan – Amor sem Fim – e, consequentemente, um dos melhores romances contemporâneos. Publicado originalmente em 1991, num período de euforia mística, própria da mudança de milênio, o livro contrapõe duas posturas, a da ciência e a da mitificação.
Casado com a professora de literatura Clarissa, Joe Rose é um ex-cientista que se tornou um bem sucedido divulgador de ciência. Clarissa estuda a obra e a vida do poeta romântico John Keats, cuja biografia é pouco conhecida. Ela tenta encontrar algumas cartas inéditas do poeta, e está voltando de uma viagem de trabalho. O amor é o tema de Keats, e ela avalia a sua própria vida conjugal pela medida dos versos dele. Frustrada com as aulas na universidade, projeta neste seu estudo todas as possibilidades de realização profissional, e também pessoal. Joe sente que está competindo com um grande adversário, e faz de tudo para manter a bela esposa ao seu lado.
Ao recepcioná-la com um piquenique no campo, ocorre um acidente que os afetará. O avô, que levara o neto para um passeio de balão, perde o controle do balão, que cai e logo é arremessado de volta só com o menino. Os que estão em terra tentam segurar o balão, mas há um momento que quase todos largam as cordas e ele volta a subir, movido por uma rajada de vento. Somente um médico atlético persiste, sendo levado junto para depois despencar das alturas e morrer.
Esta tragédia gera uma crise. Joe se culpa por ter largado a corda. Clarisse se lembra que não pode ter filhos. E um jovem, Jed, pensa que o incidente é uma mensagem divina, e se apaixona perdidamente por Joe Rose. O acaso trágico cria um vínculo entre esses seres. Joe, em meio ao transe da morte, mantém o seu espírito prático e racional e isso é tido como um sintoma de delírio.
Um delírio pelo qual ele será acusado quando tenta explicar à mulher e à polícia que está sendo perseguido e constrangido por um homem que fica plantado na frente de sua casa o tempo todo. O romance assume um ritmo tenso ao narrar a devoção mística de Jed por Joe.
Ninguém acredita em Joe Rose, por mais que ele busque provar que algo muito perigoso está acontecendo com a vida dele. O próprio leitor passa a desconfiar da sanidade do narrador. Tudo seria uma reação paranóica à tensão deste contato violento com a morte, e também uma manifestação de sua frustração de não ser um cientista.
O romance ganha ares de policial, e o narrador tem que resolver o enigma sozinho. Mais do que nunca, este autor de artigos e livros sobre os mais variados assuntos, de dinossauros a Darwin, de física quântica ao telescópio Huble, deve usar a sua capacidade intelectual.
Estudando o comportamento do homem que o persegue, ele identifica nele uma obsessão sexual com conotações religiosas, uma síndrome que faz com que a pessoa pense que tudo que o outro diga ou execute seja tomado como mensagens amorosas. É a racionalidade de Joe, o seu poder de compreensão e de estudo e a sua seriedade que o salvam, restabelecendo a verdade.
Num enredo angustiante, McEwan capta o clima do fim do milênio, reafirmando o valor da razão, do afeto e da ética. Outro movimento contra a loucura que Joe empreende é se aproximar da viúva do médico e de seus filhos, enfrentando o sofrimento desta família depois da perda.
O romance acaba com uma conversa técnica e poética ao mesmo tempo. Em um piquenique, Joe explica ao casal de órfãos a formação do rio e seu movimento, uma parábola da passagem do tempo. Sem poder ter filhos, eles adotam simbolicamente essas duas crianças. A temática da infância é muito presente em McEwan, como em O Jardim de Cimento (1978) e A Criança no Tempo (1987). Pois é a responsabilidade com o outro que produz o antídoto contra a loucura.
Serviço: Amor sem Fim, de Ian McEwan. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras,294 páginas, R$ 46. Romance.
Em um mundo ensandecido, a razão soa como uma forma extrema de loucura. Esta constatação talvez possa resumir um dos melhores livros do inglês Ian McEwan – Amor sem Fim – e, consequentemente, um dos melhores romances contemporâneos. Publicado originalmente em 1991, num período de euforia mística, própria da mudança de milênio, o livro contrapõe duas posturas, a da ciência e a da mitificação.
Casado com a professora de literatura Clarissa, Joe Rose é um ex-cientista que se tornou um bem sucedido divulgador de ciência. Clarissa estuda a obra e a vida do poeta romântico John Keats, cuja biografia é pouco conhecida. Ela tenta encontrar algumas cartas inéditas do poeta, e está voltando de uma viagem de trabalho. O amor é o tema de Keats, e ela avalia a sua própria vida conjugal pela medida dos versos dele. Frustrada com as aulas na universidade, projeta neste seu estudo todas as possibilidades de realização profissional, e também pessoal. Joe sente que está competindo com um grande adversário, e faz de tudo para manter a bela esposa ao seu lado.
Ao recepcioná-la com um piquenique no campo, ocorre um acidente que os afetará. O avô, que levara o neto para um passeio de balão, perde o controle do balão, que cai e logo é arremessado de volta só com o menino. Os que estão em terra tentam segurar o balão, mas há um momento que quase todos largam as cordas e ele volta a subir, movido por uma rajada de vento. Somente um médico atlético persiste, sendo levado junto para depois despencar das alturas e morrer.
Esta tragédia gera uma crise. Joe se culpa por ter largado a corda. Clarisse se lembra que não pode ter filhos. E um jovem, Jed, pensa que o incidente é uma mensagem divina, e se apaixona perdidamente por Joe Rose. O acaso trágico cria um vínculo entre esses seres. Joe, em meio ao transe da morte, mantém o seu espírito prático e racional e isso é tido como um sintoma de delírio.
Um delírio pelo qual ele será acusado quando tenta explicar à mulher e à polícia que está sendo perseguido e constrangido por um homem que fica plantado na frente de sua casa o tempo todo. O romance assume um ritmo tenso ao narrar a devoção mística de Jed por Joe.
Ninguém acredita em Joe Rose, por mais que ele busque provar que algo muito perigoso está acontecendo com a vida dele. O próprio leitor passa a desconfiar da sanidade do narrador. Tudo seria uma reação paranóica à tensão deste contato violento com a morte, e também uma manifestação de sua frustração de não ser um cientista.
O romance ganha ares de policial, e o narrador tem que resolver o enigma sozinho. Mais do que nunca, este autor de artigos e livros sobre os mais variados assuntos, de dinossauros a Darwin, de física quântica ao telescópio Huble, deve usar a sua capacidade intelectual.
Estudando o comportamento do homem que o persegue, ele identifica nele uma obsessão sexual com conotações religiosas, uma síndrome que faz com que a pessoa pense que tudo que o outro diga ou execute seja tomado como mensagens amorosas. É a racionalidade de Joe, o seu poder de compreensão e de estudo e a sua seriedade que o salvam, restabelecendo a verdade.
Num enredo angustiante, McEwan capta o clima do fim do milênio, reafirmando o valor da razão, do afeto e da ética. Outro movimento contra a loucura que Joe empreende é se aproximar da viúva do médico e de seus filhos, enfrentando o sofrimento desta família depois da perda.
O romance acaba com uma conversa técnica e poética ao mesmo tempo. Em um piquenique, Joe explica ao casal de órfãos a formação do rio e seu movimento, uma parábola da passagem do tempo. Sem poder ter filhos, eles adotam simbolicamente essas duas crianças. A temática da infância é muito presente em McEwan, como em O Jardim de Cimento (1978) e A Criança no Tempo (1987). Pois é a responsabilidade com o outro que produz o antídoto contra a loucura.
Serviço: Amor sem Fim, de Ian McEwan. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras,294 páginas, R$ 46. Romance.
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