Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 26 de junho de 2011.
Nenhum escritor moderno foi mais glosado do que Franz Kafka (1883-1924), talvez o centro da modernidade ficcional do século 20. Muitos livros fazem referência direta a ele, mas a velada é ainda maior. Praga e Kafka se confundem de tal forma que viajar para Praga é viajar para Kafka. Numa era de facilidades de locomoção, o escritor hermético se torna um artigo barato de consumo.
Resultado de um programa em que um escritor passa um mês em uma cidade para escrever uma história de amor, o volume O Livro de Praga: narrativas de amor e arte, de Sérgio Sant’Anna não poderia fugir ao grande emblema local. A abertura do livro trata da estandardização da cidade moderna: “Não importa a cidade em que você esteja, Andy Warhol sempre estará lá” (p.9). O guru da pop art é assim símbolo do contemporâneo. As suas séries, a utilização de material jornalístico, a reprodução de imagens e os recursos técnicos para a criação artística apontam para o consumo de massa, não apenas de arte.
O narrador de Sant’Anna, Antônio Fernandes, tentará descobrir o que ele chama de uma cidade profunda, subterrânea, num contraponto a essa banalização da arte, da vida e das tragédias. Fernandes, alter ego do autor, é um escritor mandado a Praga para colher impressões para um romance, e está a serviço de um chefe. Homem informado, com uma concepção vanguardista de arte, ele busca experiências raras. Por isso se encanta com uma pianista que concede concertos performáticos para uma pessoa de cada vez, cobrando um valor de casa cheia. Entra aqui a discussão de um conceito de arte contrário à massificação. Fernandes se candidata a público, tem seu cadastro – artístico e financeiro – aprovado e participa de uma apresentação privada que vai da música mais banal, e arranjada eletronicamente, a uma sessão de sexo. O êxtase artístico dá lugar ao erótico.
O narrador conhecerá outras mulheres: uma suicida, momento em que o amor mais se aproxima da morte; a estátua de uma santa, numa reencenação do mito de Pigmaleão, em que o êxtase religioso se faz totalmente sexual; uma boneca de pano, na qual ele conjuga o amor infantil por uma menina; e uma policial que na rua exibe autoridade, mas na cama gosta de apanhar. Em todas essas aventuras, que envolvem sexo e arte, Fernandes busca a outra Praga, distante da que foi preparada para satisfazer os viajantes. Mas uma delas coloca isso em dúvida.
Transformado em uma personalidade por se envolver com a suicida e ser denunciado pelos hóspedes do hotel sob suspeita de estupro de uma menor, Fernandes se faz um consumidor bizarro, e é procurado por um jovem viciado. Ele oferece a leitura de um texto inédito de Kafka, tatuado com letras fosforescentes no corpo de sua irmã. Juntos, os dois saem para uma área menos movimentada do centro. Enquanto espera num café o jovem que vai comprar drogas, o narrador conhece a dona, uma drag queen, e seu marido, um homem que se fantasia de Fernando Pessoa. Tudo ali seria então mera encenação?
No encontro com a moça tatuada, e não entendendo alemão, Fernandes recebe a tradução em francês de um texto supostamente de Kafka. O fragmento é de uma falsidade gritante, não remetendo ao estilo e ao universo do autor, tal como esses textos que circulam pela internet creditados a grandes escritores. Mesmo assim, o ato amoroso entre o leitor que paga caro pela leitura íntima e a mulher-texto se faz.
Tendendo para o paródico, tanto do ponto de vista da linguagem quanto das temáticas, O Livro de Praga funciona como uma primorosa ironia sobre a arte nos tempos de massificação turística. Não existem mais experiências profundas (à la Kafka ou Fernando Pessoa), a vanguarda ficou reduzida a performances pretensamente exclusivistas, quando não passa de réplicas criadas sob demanda. Sérgio Sant’Anna constrói assim uma narrativa que problematiza o próprio projeto do qual ele fez parte: apreender a cidade estrangeira com o olhar de quem a habita por um único mês. O seu personagem retorna ao Brasil não com um grande amor, ou uma experiência de arte, mas com um souvenir – outra boneca que lembra um espetáculo baseado em Alice, de Lewis Carroll.
Serviço
O Livro de Praga – Narrativas de Amor e Arte, de Sérgio Sant’Anna. Companhia das Letras, 144 págs. R$ 37,50.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
sexta-feira, 24 de junho de 2011
CONHEÇA CURITIBA PELO CAMINHO DAS PEGADAS LITERÁRIAS
Por OSCAR PILAGALLO, Folha de São Paulo, caderno Turismo, 9 de junho de 2011.
Dalton Trevisan é o escritor mais identificado com a cidade e pinta a capital paranaense com cores outonais
Vampiro de Curitiba sempre morou no bairro Alto da Quinze, e tinha o hábito de passear sob as marquises do calçadão
Escritores não costumam ser os melhores guias turísticos das cidades onde vivem.
Dificilmente alguém se sentiria inclinado a visitar Londres, São Petersburgo ou São Paulo a partir dos cenários por onde perambulam os personagens de Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski e Reinaldo Moraes.
A comunidade literária curitibana não foge à regra. Dalton Trevisan, o escritor mais identificado com a cidade, a pinta com cores outonais: "Curitiba é uma boa cidade se você for a pedra solta na rua, o galho seco de árvore, a pena de pardal soprada ao vento".
E, no entanto, os escritores, ao darem identidade aos lugares que frequentam, os tornam alvo do interesse do visitante que quer ir além do ponto turístico mais óbvio.
Assim, como há um Rio de Janeiro de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, há também, guardadas as proporções, a capital paranaense de Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba.
A alcunha tem origem no título de um livro desse autor recluso, que na semana que vem faz 86 anos. Se o apelido colou em sua biografia é porque traduz algo do espírito de sua literatura, marcada por tons macabros.
Mas esse não é um vampiro avesso à luz do dia. Há, no centro da cidade, um itinerário de Dalton Trevisan, que, algum tempo atrás, passava pela tradicional, e hoje extinta, confeitaria Schaffer.
Trevisan sempre morou ali por perto, no bairro Alto da Quinze, e costumava passear pelo calçadão da rua Quinze de Novembro, sob as marquises que protegem o transeunte da chuvinha frequente.
O visitante atrás da cultura local deve apenas seguir os passos de Trevisan. Uma caminhada o levará à livraria do Chain, na rua General Carneiro, ou ao teatro Guaíra, em cujo pórtico há um painel em concreto do artista plástico Poty Lazzarotto (1924-1998), ilustrador de vários livros de seus conterrâneos.
A Curitiba de Trevisan aparece em narrativas de vários contemporâneos, como Cristovão Tezza, o premiado autor de "O Filho Eterno".
Ela está presente sobretudo em "Chá das Cinco com o Vampiro", de Miguel Sanches Neto, um ex-pupilo que sofria com o "efeito paralisante" do mestre, e dele se vingou com esse romance.
Trata-se de um "roman à clef", em que pessoas reais são identificadas por nomes fictícios. Trevisan, por exemplo, se chama Geraldo Trentini, enquanto o jovem Beto, o outro protagonista, é o próprio Sanches.
Eles circulam por uma cidade em que a rua Quinze -o "centro maquiado de Curitiba", nas palavras de Sanches- é o polo irradiador da literatura paranaense. Lá estão também o crítico Wilson Martins (morto em 2010, e que no romance aparece como Valter Marcondes) e o escritor Paulo Leminski, citado pelo nome próprio.
Sanches, nascido no interior do Estado, lança sobre Curitiba um olhar estrangeiro. O que primeiro lhe chamou a atenção foi o sotaque. "Quando [uma loira] falou com o motorista, marcando bem os "es" e "os" no final das palavras, percebi que era de Curitiba."
A integração de Sanches passou pela adoção da indumentária local. "No primeiro mês, comprei uma capa de náilon e um guarda-chuva. Já podia me considerar um legítimo curitibano."
O turista que pegar chuva deve aproveitar. Melhor do que flanar pelas artérias de Curitiba é fazê-lo a caráter.
OSCAR PILAGALLO, jornalista, é autor de, entre outros livros, "Folha Explica Roberto Carlos" (Publifolha)
Dalton Trevisan é o escritor mais identificado com a cidade e pinta a capital paranaense com cores outonais
Vampiro de Curitiba sempre morou no bairro Alto da Quinze, e tinha o hábito de passear sob as marquises do calçadão
Escritores não costumam ser os melhores guias turísticos das cidades onde vivem.
Dificilmente alguém se sentiria inclinado a visitar Londres, São Petersburgo ou São Paulo a partir dos cenários por onde perambulam os personagens de Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski e Reinaldo Moraes.
A comunidade literária curitibana não foge à regra. Dalton Trevisan, o escritor mais identificado com a cidade, a pinta com cores outonais: "Curitiba é uma boa cidade se você for a pedra solta na rua, o galho seco de árvore, a pena de pardal soprada ao vento".
E, no entanto, os escritores, ao darem identidade aos lugares que frequentam, os tornam alvo do interesse do visitante que quer ir além do ponto turístico mais óbvio.
Assim, como há um Rio de Janeiro de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, há também, guardadas as proporções, a capital paranaense de Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba.
A alcunha tem origem no título de um livro desse autor recluso, que na semana que vem faz 86 anos. Se o apelido colou em sua biografia é porque traduz algo do espírito de sua literatura, marcada por tons macabros.
Mas esse não é um vampiro avesso à luz do dia. Há, no centro da cidade, um itinerário de Dalton Trevisan, que, algum tempo atrás, passava pela tradicional, e hoje extinta, confeitaria Schaffer.
Trevisan sempre morou ali por perto, no bairro Alto da Quinze, e costumava passear pelo calçadão da rua Quinze de Novembro, sob as marquises que protegem o transeunte da chuvinha frequente.
O visitante atrás da cultura local deve apenas seguir os passos de Trevisan. Uma caminhada o levará à livraria do Chain, na rua General Carneiro, ou ao teatro Guaíra, em cujo pórtico há um painel em concreto do artista plástico Poty Lazzarotto (1924-1998), ilustrador de vários livros de seus conterrâneos.
A Curitiba de Trevisan aparece em narrativas de vários contemporâneos, como Cristovão Tezza, o premiado autor de "O Filho Eterno".
Ela está presente sobretudo em "Chá das Cinco com o Vampiro", de Miguel Sanches Neto, um ex-pupilo que sofria com o "efeito paralisante" do mestre, e dele se vingou com esse romance.
Trata-se de um "roman à clef", em que pessoas reais são identificadas por nomes fictícios. Trevisan, por exemplo, se chama Geraldo Trentini, enquanto o jovem Beto, o outro protagonista, é o próprio Sanches.
Eles circulam por uma cidade em que a rua Quinze -o "centro maquiado de Curitiba", nas palavras de Sanches- é o polo irradiador da literatura paranaense. Lá estão também o crítico Wilson Martins (morto em 2010, e que no romance aparece como Valter Marcondes) e o escritor Paulo Leminski, citado pelo nome próprio.
Sanches, nascido no interior do Estado, lança sobre Curitiba um olhar estrangeiro. O que primeiro lhe chamou a atenção foi o sotaque. "Quando [uma loira] falou com o motorista, marcando bem os "es" e "os" no final das palavras, percebi que era de Curitiba."
A integração de Sanches passou pela adoção da indumentária local. "No primeiro mês, comprei uma capa de náilon e um guarda-chuva. Já podia me considerar um legítimo curitibano."
O turista que pegar chuva deve aproveitar. Melhor do que flanar pelas artérias de Curitiba é fazê-lo a caráter.
OSCAR PILAGALLO, jornalista, é autor de, entre outros livros, "Folha Explica Roberto Carlos" (Publifolha)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
CINZA
Os pardais vergam
os ramos da romãzeira
ressecada pelo inverno.
os ramos da romãzeira
ressecada pelo inverno.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
UMA GALERIA DE PERSONAGENS COM VIDAS SIMPLES E CONFLITOS COMPLEXOS
Patrícia Moreira, Caderno2Mais, A Tarde (Salvador), 11 de junho de 2011.
A leitura começa com uma provocação: Então você quer ser escritor? Diante do livro, a indagação da capa fica ali, instigando o tempo todo, à medida que as páginas vão passando. Dos 16 contos da obra de Miguel Sanches Neto, o que carrega do título do livro é o último. Entre as primeiras e as últimas páginas, desfila uma galeria de personagens, cada um mais tocante do que o outro, até mesmo quando mergulhamos num mutismo e estranhamento diante do mundo. Mas o chamado da capa vai alinhavando a leitura e a cada conto se vai buscando a resposta: o livro prende do início ao fim.
Então você quer ser escritor? é o mais recente trabalho de Miguel Sanches Neto que acaba de ser lançado pela Record. Autor de obras como Chove Sobre Minha Infância (seu livro de estréia, de 2000), Um Amor Anarquista e ainda do polêmico Chá Das Cinco Com o Vampiro (Objetiva), Sanches Neto tem especial apreço pelo conto, gênero presente em outras coletâneas, a exemplo de Hóspede Secreto, que deu a ele o Prêmio Nacional Cruz e Sousa, em 2002.
Um dos melhores escritores de sua geração, o escritor paranaense de 45 anos, nascido na cidade de Bela Vista do Paraíso, ganhou as páginas da imprensa cultural no passado ao se envolver em uma polêmica, tendo como personagem central o escritor Dalton Trevisan.
A desavença girou em torno do livro Chá das Cinco com o Vampiro, seu quarto romance, no qual o protagonista, que quer ser ficcionista, aproxima-se de um mestre, retratado em detalhes e situações nada lisonjeiras. Trevisan reagiu com ataques ao jovem escritor, que tratou de se defender, criando um blog e justificando que sua obra precisava ser lida por uma outra ótica, e não como um romance construído a partir de uma história real.
A imprensa está repleta de personagens que ganham projeção ao se envolver em polêmicas. Mas, no caso dele, o entrevero com Trevisan foi apenas uma tempestade que passou. Sanches Neto, com pleno domínio da palavra e da forma, aos se expressar em narrativas tocantes, permanece.
MAESTRIA
Nos 16 contos da coletânea, o autor mostra que a convivência com Trevisan, um dos maiores contistas brasileiros, foi muito profícua. Com maestria, ele nos toma pela mão e nos insere no universo dos seus personagens, tornando-nos cúmplices deles desde o primeiro contato.
E aceitamos o pacto ao nos reconhecer nas situações ali descritas, coisas de gente simples, com vida simples e sentimentos conturbados, complexos, tais quais os que vamos experimentar ao longo da vida.
“O tamanho do mundo”, história do menino que vivencia, incrédulo, a experiência da morte do pai, é um drama doloroso. Em “Animal nojento”, o autor nos brinda com um conto de terror, reproduzindo uma tensão de tirar o fôlego, para em seguida nos surpreender com um final inusitado.
As experiências e memórias da infância, a solidão, as buscas e conflitos interiores, um mal-estar diante do mundo ou das pessoas fazem parte do leque de situações a que nos expõe Miguel Sanches Neto à medida que avançamos na leitura.
Os personagens de Sanches Neto são seres expatriados que se sentem desconfortáveis na própria pele ou diante do mundo. Mas estão longe de despertar pena ou algum sentimento do gênero. Em algum momento encontram a redenção, ou apenas seguem adiante mergulhados em suas dúvidas ou em busca de si próprios.
Eles estão sempre partindo, fugindo, ou voltando, como acontece em “Não comerás carne”, no qual dois irmãos se reencontram; ou em “Árvores submersas”, que relata o encontro inusitado entre um homem e uma mulher e a sua fuga de uma vida sem sentido. A partida e o encontro também se faz presente em “Vestindo meu avô”. Em “Então você quer ser escritor?” o autor nos confronta com as frustrações, os desejo reprimidos.
Em todos os contos nos reconhecemos. Somos cúmplices de histórias que bem poderiam ser nossas. Ao final de cada relato, ficamos comovidos.
A leitura começa com uma provocação: Então você quer ser escritor? Diante do livro, a indagação da capa fica ali, instigando o tempo todo, à medida que as páginas vão passando. Dos 16 contos da obra de Miguel Sanches Neto, o que carrega do título do livro é o último. Entre as primeiras e as últimas páginas, desfila uma galeria de personagens, cada um mais tocante do que o outro, até mesmo quando mergulhamos num mutismo e estranhamento diante do mundo. Mas o chamado da capa vai alinhavando a leitura e a cada conto se vai buscando a resposta: o livro prende do início ao fim.
Então você quer ser escritor? é o mais recente trabalho de Miguel Sanches Neto que acaba de ser lançado pela Record. Autor de obras como Chove Sobre Minha Infância (seu livro de estréia, de 2000), Um Amor Anarquista e ainda do polêmico Chá Das Cinco Com o Vampiro (Objetiva), Sanches Neto tem especial apreço pelo conto, gênero presente em outras coletâneas, a exemplo de Hóspede Secreto, que deu a ele o Prêmio Nacional Cruz e Sousa, em 2002.
Um dos melhores escritores de sua geração, o escritor paranaense de 45 anos, nascido na cidade de Bela Vista do Paraíso, ganhou as páginas da imprensa cultural no passado ao se envolver em uma polêmica, tendo como personagem central o escritor Dalton Trevisan.
A desavença girou em torno do livro Chá das Cinco com o Vampiro, seu quarto romance, no qual o protagonista, que quer ser ficcionista, aproxima-se de um mestre, retratado em detalhes e situações nada lisonjeiras. Trevisan reagiu com ataques ao jovem escritor, que tratou de se defender, criando um blog e justificando que sua obra precisava ser lida por uma outra ótica, e não como um romance construído a partir de uma história real.
A imprensa está repleta de personagens que ganham projeção ao se envolver em polêmicas. Mas, no caso dele, o entrevero com Trevisan foi apenas uma tempestade que passou. Sanches Neto, com pleno domínio da palavra e da forma, aos se expressar em narrativas tocantes, permanece.
MAESTRIA
Nos 16 contos da coletânea, o autor mostra que a convivência com Trevisan, um dos maiores contistas brasileiros, foi muito profícua. Com maestria, ele nos toma pela mão e nos insere no universo dos seus personagens, tornando-nos cúmplices deles desde o primeiro contato.
E aceitamos o pacto ao nos reconhecer nas situações ali descritas, coisas de gente simples, com vida simples e sentimentos conturbados, complexos, tais quais os que vamos experimentar ao longo da vida.
“O tamanho do mundo”, história do menino que vivencia, incrédulo, a experiência da morte do pai, é um drama doloroso. Em “Animal nojento”, o autor nos brinda com um conto de terror, reproduzindo uma tensão de tirar o fôlego, para em seguida nos surpreender com um final inusitado.
As experiências e memórias da infância, a solidão, as buscas e conflitos interiores, um mal-estar diante do mundo ou das pessoas fazem parte do leque de situações a que nos expõe Miguel Sanches Neto à medida que avançamos na leitura.
Os personagens de Sanches Neto são seres expatriados que se sentem desconfortáveis na própria pele ou diante do mundo. Mas estão longe de despertar pena ou algum sentimento do gênero. Em algum momento encontram a redenção, ou apenas seguem adiante mergulhados em suas dúvidas ou em busca de si próprios.
Eles estão sempre partindo, fugindo, ou voltando, como acontece em “Não comerás carne”, no qual dois irmãos se reencontram; ou em “Árvores submersas”, que relata o encontro inusitado entre um homem e uma mulher e a sua fuga de uma vida sem sentido. A partida e o encontro também se faz presente em “Vestindo meu avô”. Em “Então você quer ser escritor?” o autor nos confronta com as frustrações, os desejo reprimidos.
Em todos os contos nos reconhecemos. Somos cúmplices de histórias que bem poderiam ser nossas. Ao final de cada relato, ficamos comovidos.
O QUE FAZER COM A ETERNIDADE
Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo (Curitiba), em 19 de junho de 2011.
Adotar uma língua transforma você em outra pessoa – diz a filha chinesa, radicada nos Estados Unidos, ao pai que a visita, no conto que dá título à primorosa coletânea Tempo de Boas Preces, de Yuyin Li, uma das melhores escritoras da atualidade. Este relato, parábola sobre a língua e os sentimentos, amarra todo o volume.
A filha se casa, muda-se para os Estados Unidos e, depois de 7 anos, se separa. O pai, velho e desamparado, revolve ajudá-la a reconstruir a vida. Cientista de foguetes aposentado e mal pago, ele passa a amar o novo país, onde as pessoas ganham bons salários. Mas não consegue compreender a filha, pois ela se isolou em sua nova identidade. No passado, era ele o foco de silêncio da casa, pretensamente para proteger os segredos de sua profissão. Agora, é a filha quem se cala para se preservar.
Nesses dias no estrangeiro, e com um inglês infantil, o velho faz amizade com uma senhora iraniana, com idênticas dificuldades com o idioma. Assim, cada um conversa sozinho, na sua língua materna, e os dois se entendem maravilhosamente bem. Não dominar um código comum é uma oportunidade de confessar em voz alta todos os segredos.
O pai quer levar a filha a um tipo de sacrifício que não faz mais sentido para quem está desenraizado. O silêncio entre os dois ganha ares sufocantes, enquanto ele continua seu monólogo com a velha senhora. Isso dura até ele ver a filha ao telefone com um homem, descobrindo que ela é outra pessoa: alegre, imodesta e oferecida. Eles estão separados para sempre, pois aquela em quem ela se transformou só existe neste idioma que o pai ignora. Num único momento de diálogo, ela revela que sabia da mentira da vida profissional do pai – que não chegara a ser um cientista. Não diz mais nada, não dá oportunidade para ele explicar o passado. O silêncio agora era definitivo entre os dois.
O velho resolve então voltar à China, mas antes procura a mulher iraniana, e narra o sacrifício que fizera, renunciando à sua carreira para preservar a esposa e a filha. Ele diz: “O que dá significado à vida é aquilo que nós sacrificamos” (p.216). Não importa que não o entendam, e sim que pôde verbalizar sua história, a longa e solitária busca pela felicidade: “É preciso três mil anos de prece para deitar a cabeça no travesseiro ao lado de quem se ama” (p.205). Há um descompasso entre o imediatismo da alegria do mundo adotado pela filha e o sem-tempo da cultura profunda dos povos antigos, que pode ser a China ou o Irã – por isso ele e a velha senhora se entendem.
Deixando as narrativas em aberto, ambientando suas histórias no vácuo de dois idiomas, duas culturas e dois modelos sociais, Yuyin Li, nascida em Pequim e naturalizada norte-americana, escreve em inglês as narrativas desse conflito. O idioma usado por ela não é o do esquecimento do outro, mas o da universalização redentora de tempos e lugares errados. Afirma um de seus personagens: “As verdadeiras artes têm a ver com o ato de lembrar” (p.92). Eles estão sempre a caminho dos Estados Unidos, fugindo da padronização comunista, que os reduziu a meras forças produtivas, mas funcionam também para preservar as grandezas de uma outra China.
Há sangue, sonhos, dignidade, promessas quase impossíveis, espírito de renúncia, sofrimento e poesia nas trajetórias desses seres. Sufocados por um regime autoritário, eles só conseguem existir em outro idioma que, por mais diferente ou precário que seja, funciona como pátria ancestral de homens e mulheres desterritorializados e, assim, duplamente excluídos.
Serviço:
Tempo de Boas Preces, de Yuyin Li. Tradução de Fernanda Abreu. Nova Fronteira, 240 pág,. Contos.
Adotar uma língua transforma você em outra pessoa – diz a filha chinesa, radicada nos Estados Unidos, ao pai que a visita, no conto que dá título à primorosa coletânea Tempo de Boas Preces, de Yuyin Li, uma das melhores escritoras da atualidade. Este relato, parábola sobre a língua e os sentimentos, amarra todo o volume.
A filha se casa, muda-se para os Estados Unidos e, depois de 7 anos, se separa. O pai, velho e desamparado, revolve ajudá-la a reconstruir a vida. Cientista de foguetes aposentado e mal pago, ele passa a amar o novo país, onde as pessoas ganham bons salários. Mas não consegue compreender a filha, pois ela se isolou em sua nova identidade. No passado, era ele o foco de silêncio da casa, pretensamente para proteger os segredos de sua profissão. Agora, é a filha quem se cala para se preservar.
Nesses dias no estrangeiro, e com um inglês infantil, o velho faz amizade com uma senhora iraniana, com idênticas dificuldades com o idioma. Assim, cada um conversa sozinho, na sua língua materna, e os dois se entendem maravilhosamente bem. Não dominar um código comum é uma oportunidade de confessar em voz alta todos os segredos.
O pai quer levar a filha a um tipo de sacrifício que não faz mais sentido para quem está desenraizado. O silêncio entre os dois ganha ares sufocantes, enquanto ele continua seu monólogo com a velha senhora. Isso dura até ele ver a filha ao telefone com um homem, descobrindo que ela é outra pessoa: alegre, imodesta e oferecida. Eles estão separados para sempre, pois aquela em quem ela se transformou só existe neste idioma que o pai ignora. Num único momento de diálogo, ela revela que sabia da mentira da vida profissional do pai – que não chegara a ser um cientista. Não diz mais nada, não dá oportunidade para ele explicar o passado. O silêncio agora era definitivo entre os dois.
O velho resolve então voltar à China, mas antes procura a mulher iraniana, e narra o sacrifício que fizera, renunciando à sua carreira para preservar a esposa e a filha. Ele diz: “O que dá significado à vida é aquilo que nós sacrificamos” (p.216). Não importa que não o entendam, e sim que pôde verbalizar sua história, a longa e solitária busca pela felicidade: “É preciso três mil anos de prece para deitar a cabeça no travesseiro ao lado de quem se ama” (p.205). Há um descompasso entre o imediatismo da alegria do mundo adotado pela filha e o sem-tempo da cultura profunda dos povos antigos, que pode ser a China ou o Irã – por isso ele e a velha senhora se entendem.
Deixando as narrativas em aberto, ambientando suas histórias no vácuo de dois idiomas, duas culturas e dois modelos sociais, Yuyin Li, nascida em Pequim e naturalizada norte-americana, escreve em inglês as narrativas desse conflito. O idioma usado por ela não é o do esquecimento do outro, mas o da universalização redentora de tempos e lugares errados. Afirma um de seus personagens: “As verdadeiras artes têm a ver com o ato de lembrar” (p.92). Eles estão sempre a caminho dos Estados Unidos, fugindo da padronização comunista, que os reduziu a meras forças produtivas, mas funcionam também para preservar as grandezas de uma outra China.
Há sangue, sonhos, dignidade, promessas quase impossíveis, espírito de renúncia, sofrimento e poesia nas trajetórias desses seres. Sufocados por um regime autoritário, eles só conseguem existir em outro idioma que, por mais diferente ou precário que seja, funciona como pátria ancestral de homens e mulheres desterritorializados e, assim, duplamente excluídos.
Serviço:
Tempo de Boas Preces, de Yuyin Li. Tradução de Fernanda Abreu. Nova Fronteira, 240 pág,. Contos.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
UMA TEORIA DA CIDADE
Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo, em 12 de junho de 2011.
Ao final da leitura de um livro de ficção, sempre nos perguntamos quais as intenções do autor e da obra? Quanto mais inusitados os episódios e a linguagem, mais nos questionamos sobre os sentidos de uma narrativa. Esse é o caso do romance O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa, que, a começar pelo título enigmático, desloca o leitor.
Recriando o Rio de Janeiro de 1913, Mussa inventa um ambiente em que as novas tecnologias e os comportamentos sexuais inovadores ganhavam espaço – é o alvorecer do mundo moderno nos trópicos. Há um médico polonês contemporâneo de Freud que estuda a sexualidade, e também técnicas recentes de investigação policial, como a análise das digitais. Com a ajuda da ciência, os policiais tentam resolver um crime: a morte de um político durante uma aventura amorosa.
Mussa simboliza todo este avanço na Casa das Trocas. Na antiga residência da Marquesa de Santos, cheia de mistérios e com um passado devasso, pois a dona fora amante de dom Pedro I, o médico Miroslav Zmuda mantém um consultório que esconde uma casa de encontros destinada à elite carioca. Enquanto mulheres e homens progressistas experimentam suas fantasias, o médico toma nota para desenvolver suas teorias sexuais.
Esse Brasil em modernização convive, no entanto, com um passado profundo, que vem das práticas mágicas do período pré-descoberta, reforçadas pela presença africana. É um mundo ambíguo. E essa ambiguidade (moderno/primitivo) está representada no personagem que faz as vezes de detetive no enredo policial: o perito Sebastião Baeta. Fruto de um caso entre um engenheiro de família tradicional de Minas e uma lavadeira negra, ele se torna funcionário da polícia, com especialização na Europa. Casado com uma mulher avançada, Guiomar, Baeta freqüenta a Casa das Trocas com ela, e também coleciona casos amorosos nos morros, pondo-se entre dois mundos sociais.
Durante suas investigações, ele começa a sentir a pressão desse pertencimento à cultura local. Duas figuras o levam de volta às suas origens: o mulato Aniceto e o macumbeiro Rufino. No contato com o universo esquerdo desses personagens, Baeta sofre uma contracolonização, rumo aos trópicos, às forças míticas. E o que era apenas um trabalho (descobrir o criminoso) se torna uma questão pessoal. Baeta e Aniceto entram em uma concorrência erótica para ser o maior conquistador da cidade. Nesta disputa, Aniceto leva vantagem porque tem um conhecimento a mais. Descobrir esse seu poder será resolver o crime. Aqui, o relato deixa de ser uma sequência lógica para entrar no domínio do místico.
Valendo-se da gramática do romance policial e do romance histórico, Alberto Mussa constrói uma narrativa sobre o mito. Enquanto narra peripécias detetivescas ou amorosas, pois se trata também de um romance erótico, ele insere verbetes sobre o Rio de Janeiro. Esses pequenos ensaios funcionam para suspender a narrativa, criando uma tensão erótica: o leitor tem de esperar pelo próximo episódio enquanto recebe informações sobre a cidade do Rio de Janeiro.
Escrito com uma minúcia matemática e uma abertura para as simbolizações, num diálogo entre o presente e o passado, O Senhor do Lado Esquerdo é uma síntese do Rio de Janeiro, espaço urbano e selvagem ao mesmo tempo, em que o sexo, a magia e o crime são manifestações de uma identidade que se soma ao progresso para modificá-lo.
Com este livro, Alberto Mussa atinge a estatura de um Mário de Andrade de Macunaíma.
Serviço
O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Record, 288 páginas,
Ao final da leitura de um livro de ficção, sempre nos perguntamos quais as intenções do autor e da obra? Quanto mais inusitados os episódios e a linguagem, mais nos questionamos sobre os sentidos de uma narrativa. Esse é o caso do romance O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa, que, a começar pelo título enigmático, desloca o leitor.
Recriando o Rio de Janeiro de 1913, Mussa inventa um ambiente em que as novas tecnologias e os comportamentos sexuais inovadores ganhavam espaço – é o alvorecer do mundo moderno nos trópicos. Há um médico polonês contemporâneo de Freud que estuda a sexualidade, e também técnicas recentes de investigação policial, como a análise das digitais. Com a ajuda da ciência, os policiais tentam resolver um crime: a morte de um político durante uma aventura amorosa.
Mussa simboliza todo este avanço na Casa das Trocas. Na antiga residência da Marquesa de Santos, cheia de mistérios e com um passado devasso, pois a dona fora amante de dom Pedro I, o médico Miroslav Zmuda mantém um consultório que esconde uma casa de encontros destinada à elite carioca. Enquanto mulheres e homens progressistas experimentam suas fantasias, o médico toma nota para desenvolver suas teorias sexuais.
Esse Brasil em modernização convive, no entanto, com um passado profundo, que vem das práticas mágicas do período pré-descoberta, reforçadas pela presença africana. É um mundo ambíguo. E essa ambiguidade (moderno/primitivo) está representada no personagem que faz as vezes de detetive no enredo policial: o perito Sebastião Baeta. Fruto de um caso entre um engenheiro de família tradicional de Minas e uma lavadeira negra, ele se torna funcionário da polícia, com especialização na Europa. Casado com uma mulher avançada, Guiomar, Baeta freqüenta a Casa das Trocas com ela, e também coleciona casos amorosos nos morros, pondo-se entre dois mundos sociais.
Durante suas investigações, ele começa a sentir a pressão desse pertencimento à cultura local. Duas figuras o levam de volta às suas origens: o mulato Aniceto e o macumbeiro Rufino. No contato com o universo esquerdo desses personagens, Baeta sofre uma contracolonização, rumo aos trópicos, às forças míticas. E o que era apenas um trabalho (descobrir o criminoso) se torna uma questão pessoal. Baeta e Aniceto entram em uma concorrência erótica para ser o maior conquistador da cidade. Nesta disputa, Aniceto leva vantagem porque tem um conhecimento a mais. Descobrir esse seu poder será resolver o crime. Aqui, o relato deixa de ser uma sequência lógica para entrar no domínio do místico.
Valendo-se da gramática do romance policial e do romance histórico, Alberto Mussa constrói uma narrativa sobre o mito. Enquanto narra peripécias detetivescas ou amorosas, pois se trata também de um romance erótico, ele insere verbetes sobre o Rio de Janeiro. Esses pequenos ensaios funcionam para suspender a narrativa, criando uma tensão erótica: o leitor tem de esperar pelo próximo episódio enquanto recebe informações sobre a cidade do Rio de Janeiro.
Escrito com uma minúcia matemática e uma abertura para as simbolizações, num diálogo entre o presente e o passado, O Senhor do Lado Esquerdo é uma síntese do Rio de Janeiro, espaço urbano e selvagem ao mesmo tempo, em que o sexo, a magia e o crime são manifestações de uma identidade que se soma ao progresso para modificá-lo.
Com este livro, Alberto Mussa atinge a estatura de um Mário de Andrade de Macunaíma.
Serviço
O Senhor do Lado Esquerdo, de Alberto Mussa. Record, 288 páginas,
quarta-feira, 8 de junho de 2011
UMA CASA CEGA
Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo (Curitiba), em 05 de junho de 2011.
Mesmo na literatura há famílias, numa relação de parentesco muitas vezes involuntária. Assim, poderíamos dizer que o norte-americano Sam Savage (nascido em 1940), autor de Cartas de um escritor solitário, é descendente direto de John Fante (1909-1983), principalmente pelo tom humorístico de seus textos, mas também por tratar das fixações ególatras de um escritor e por fazer uma reflexão desencantada, e ao mesmo tempo terna, sobre o ser humano.
O principal traço da vida do obscuro e provinciano escritor Andrew Whittaker, narrador do livro, é a mania de confundir o que a sua mente pensa com a realidade. Ele é muito mais ficcionista nos momentos em que se relaciona com as pessoas do que ao tentar a ficção. Herdeiro de imóveis arruinados, Whittaker dirige sozinho uma revista literária irrelevante (chamada Sabonete), foi abandonado pela mulher, odeia a irmã e ignora a mãe doente. Mesquinharia e presunção se alternam nesta figura que se imagina um grande artista perseguido pelo mundo. Esta é uma história tão comum no meio literário que nos identificamos imediatamente com o intelectual falido que vê todos triunfarem enquanto ele segue, num ritmo acelerado, para a obscuridade.
Trata-se de um ressentido, que odeia o mundo porque o mundo não o cultua. Distribui farpas a velhos amigos e a colaboradores de sua revista, colocando-se sempre acima de todos.
Estruturado principalmente a partir de cartas sem datas, o romance de Savage se apresenta como a recolha das correspondências dos últimos quatro meses de vida desse quase romancista – são cartas agressivas, delirantes e inteligentes, que formam uma espécie de espólio literário de um escritor que poderia ter sido e não foi. O centro simbólico do romance é o elogio que ele faz do bicho preguiça, no qual se reconhece física (cabeça pequena num corpo desajeitado) e psicologicamente – pois passa o tempo todo em casa, encenando o papel do misantropo: “então agradeço a deus pelas cortinas” (p.153). Até se especializa em imitar o que seria o grito de dor do bicho preguiça – em inglês, o livro se chama The cry of the sloth. Savage está, assim, descrevendo um velho animal da floresta literária: o grande escritor sem livro.
Preso aos negócios paternos e à revista que é quase uma piada, mal vestido, faminto, Whittaker é um perigo. Como não sabe lidar com o mundo, cobra os seus inquilinos por meio de cartas ou bilhetes acusatórios. É esta obsessão pela escrita que o torna tão interessante: se não produz ficção, dedica-se integralmente às cartas, a anúncios e a listas de compras, criando um deslocamento de tom. Ele é emotivo e delirante ao explicar para o funcionário do banco as razões de atrasos de pagamento. É inconveniente ao solicitar favores a escritores importantes, como se tivesse concedendo um privilégio. A sua escrita está sempre fora do lugar, negando convenções.
O humor nasce desse método confessional ou desvairado de escrever cartas formais e também de sua capacidade de mentir para as pessoas (e para si mesmo), assumindo identidades conflitantes. Enquanto bombardeia o mundo, começa a empacotar os seus pertences, para se desfazer deles e de si mesmo. Este processo de isolamento total, a inatividade e a ficcionalização conspiratória dão a um personagem altamente negativo um profundo sentido humano. Entre os livros que ele pretende produzir, está o Dicionário Internacional da Dor. Mas só consegue escrever um verbete, o do próprio sofrimento, o de “um homem cego em uma casa cega” (p. 205), tal como ele se define. Suas cartas, mesmo as mais engraçadas, são gritos de dor silenciados.
Cartas de um escritor solitário, de Sam Savage. Trad. de Luis Reys Gil, Planeta, 224 págs. Romance.
Mesmo na literatura há famílias, numa relação de parentesco muitas vezes involuntária. Assim, poderíamos dizer que o norte-americano Sam Savage (nascido em 1940), autor de Cartas de um escritor solitário, é descendente direto de John Fante (1909-1983), principalmente pelo tom humorístico de seus textos, mas também por tratar das fixações ególatras de um escritor e por fazer uma reflexão desencantada, e ao mesmo tempo terna, sobre o ser humano.
O principal traço da vida do obscuro e provinciano escritor Andrew Whittaker, narrador do livro, é a mania de confundir o que a sua mente pensa com a realidade. Ele é muito mais ficcionista nos momentos em que se relaciona com as pessoas do que ao tentar a ficção. Herdeiro de imóveis arruinados, Whittaker dirige sozinho uma revista literária irrelevante (chamada Sabonete), foi abandonado pela mulher, odeia a irmã e ignora a mãe doente. Mesquinharia e presunção se alternam nesta figura que se imagina um grande artista perseguido pelo mundo. Esta é uma história tão comum no meio literário que nos identificamos imediatamente com o intelectual falido que vê todos triunfarem enquanto ele segue, num ritmo acelerado, para a obscuridade.
Trata-se de um ressentido, que odeia o mundo porque o mundo não o cultua. Distribui farpas a velhos amigos e a colaboradores de sua revista, colocando-se sempre acima de todos.
Estruturado principalmente a partir de cartas sem datas, o romance de Savage se apresenta como a recolha das correspondências dos últimos quatro meses de vida desse quase romancista – são cartas agressivas, delirantes e inteligentes, que formam uma espécie de espólio literário de um escritor que poderia ter sido e não foi. O centro simbólico do romance é o elogio que ele faz do bicho preguiça, no qual se reconhece física (cabeça pequena num corpo desajeitado) e psicologicamente – pois passa o tempo todo em casa, encenando o papel do misantropo: “então agradeço a deus pelas cortinas” (p.153). Até se especializa em imitar o que seria o grito de dor do bicho preguiça – em inglês, o livro se chama The cry of the sloth. Savage está, assim, descrevendo um velho animal da floresta literária: o grande escritor sem livro.
Preso aos negócios paternos e à revista que é quase uma piada, mal vestido, faminto, Whittaker é um perigo. Como não sabe lidar com o mundo, cobra os seus inquilinos por meio de cartas ou bilhetes acusatórios. É esta obsessão pela escrita que o torna tão interessante: se não produz ficção, dedica-se integralmente às cartas, a anúncios e a listas de compras, criando um deslocamento de tom. Ele é emotivo e delirante ao explicar para o funcionário do banco as razões de atrasos de pagamento. É inconveniente ao solicitar favores a escritores importantes, como se tivesse concedendo um privilégio. A sua escrita está sempre fora do lugar, negando convenções.
O humor nasce desse método confessional ou desvairado de escrever cartas formais e também de sua capacidade de mentir para as pessoas (e para si mesmo), assumindo identidades conflitantes. Enquanto bombardeia o mundo, começa a empacotar os seus pertences, para se desfazer deles e de si mesmo. Este processo de isolamento total, a inatividade e a ficcionalização conspiratória dão a um personagem altamente negativo um profundo sentido humano. Entre os livros que ele pretende produzir, está o Dicionário Internacional da Dor. Mas só consegue escrever um verbete, o do próprio sofrimento, o de “um homem cego em uma casa cega” (p. 205), tal como ele se define. Suas cartas, mesmo as mais engraçadas, são gritos de dor silenciados.
Cartas de um escritor solitário, de Sam Savage. Trad. de Luis Reys Gil, Planeta, 224 págs. Romance.
sábado, 4 de junho de 2011
DONOS DAS PALAVRAS
Publicado na Revista D'Pontaponta, maio de 2011.
Palavras circulam pela língua ao longo de gerações até que algum escritor se aproprie delas. A partir daquele momento, embora todos possam continuar usando-a (a lei de direitos autorais ainda não prevê essas sutilezas), ela pertence a um determinado escritor. Por exemplo, a palavra catatau pertence definitivamente ao Paulo Leminski, que a fixou no idioma por meio do título de um de seus livros.
Palavras que existiam apenas oralmente acabam ganhando status literário por meio deste processo. Foi o que fez Fernando Pessoa, sob a máscara de Álvaro de Campos, no “Poema em linha reta”, com a palavra porrada: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Por causa deste poema, dei o nome de Porrada a um personagem de meu romance A primeira mulher. Ele abre o seu programa policial (é um radialista) citando Álvaro de Campos, para evitar acusações de plágio.
Pois eu acreditava que a primeira entrada literária deste termo tivesse se dado neste poema que deve ser do fim da década de 1910 ou do começo da de 1920 – está no final da coletânea que reúne os textos de Álvaro de Campos de 1914-1922. Mas encontrei a palavra em Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Este livro de estréia de Lima Barreto, escrito em 1905, e só publicado em 1909, é um marco na mudança do uso da língua portuguesa no Brasil, que se manifesta ali em toda a sua espontaneidade, na riqueza da fala cotidiana. No Capítulo IX, em que o narrador revela as práticas jornalísticas, ele diz: “e se não saíra a ‘porrada’...”. Tratada como gíria, ela aparece ainda entre aspas, isolada do resto do idioma. É, portanto, Fernando Pessoa quem demarca literariamente esta palavra, descoberta para a literatura por Lima Barreto.
O processo acontece de forma idêntica com uma das palavras mais emblemáticas de Guimarães Rosa: nonada. É com ela que se inicia o único romance do autor. Uma palavra forte, que eu, ingenuamente, acreditava tratar-se de mera invenção. Para mim, ela significava uma junção da frase: não-foi-nada. “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” É uma abertura muito forte. A palavra inusitada com gosto de nonsense, o ponto final e a sintaxe torta da frase seguinte. O leitor sofre um estranhamento neste contato brusco com um termo para ele impenetrável.
Mas o termo não é novo. Rosa apenas o tirou da escuridão literária.
Nos últimos meses, trombei com duas manifestações desta palavra em leituras bem diversas. Em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862-1863), de Joaquim Manuel de Macedo, no primeiro parágrafo de “A capela e o recolhimento de Nossa Senhora do Parto”, ela faz uma aparição: “Ou César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que com esta injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome de João Fernandes um sinônimo de nonada”. Ou seja, de coisa sem crédito, sem valor.
A mesma palavra aparece no plural já no primeiro capítulo de O drama da Fazenda Fortaleza (1941), do historiador paranaense Davi Carneiro, um livro que retrata os Campos Gerais de Curitiba na década de 1820: “...só ninharias atrapalhavam o fio do raciocínio mais alto, como se por nonadas somente, a imaginação devesse deixar a atenção desviar-se”.
Sim, a palavra já estava fertilizando nossa literatura, ligada ao povo, quando Guimarães Rosa se apossou dela. Hoje, não há como usá-la sem pagar tributo ao autor. Será sempre uma citação, uma referência explícita a Grande sertão: veredas.
É pelas grandes obras que as palavras ganham sobrenome.
Palavras circulam pela língua ao longo de gerações até que algum escritor se aproprie delas. A partir daquele momento, embora todos possam continuar usando-a (a lei de direitos autorais ainda não prevê essas sutilezas), ela pertence a um determinado escritor. Por exemplo, a palavra catatau pertence definitivamente ao Paulo Leminski, que a fixou no idioma por meio do título de um de seus livros.
Palavras que existiam apenas oralmente acabam ganhando status literário por meio deste processo. Foi o que fez Fernando Pessoa, sob a máscara de Álvaro de Campos, no “Poema em linha reta”, com a palavra porrada: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Por causa deste poema, dei o nome de Porrada a um personagem de meu romance A primeira mulher. Ele abre o seu programa policial (é um radialista) citando Álvaro de Campos, para evitar acusações de plágio.
Pois eu acreditava que a primeira entrada literária deste termo tivesse se dado neste poema que deve ser do fim da década de 1910 ou do começo da de 1920 – está no final da coletânea que reúne os textos de Álvaro de Campos de 1914-1922. Mas encontrei a palavra em Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Este livro de estréia de Lima Barreto, escrito em 1905, e só publicado em 1909, é um marco na mudança do uso da língua portuguesa no Brasil, que se manifesta ali em toda a sua espontaneidade, na riqueza da fala cotidiana. No Capítulo IX, em que o narrador revela as práticas jornalísticas, ele diz: “e se não saíra a ‘porrada’...”. Tratada como gíria, ela aparece ainda entre aspas, isolada do resto do idioma. É, portanto, Fernando Pessoa quem demarca literariamente esta palavra, descoberta para a literatura por Lima Barreto.
O processo acontece de forma idêntica com uma das palavras mais emblemáticas de Guimarães Rosa: nonada. É com ela que se inicia o único romance do autor. Uma palavra forte, que eu, ingenuamente, acreditava tratar-se de mera invenção. Para mim, ela significava uma junção da frase: não-foi-nada. “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” É uma abertura muito forte. A palavra inusitada com gosto de nonsense, o ponto final e a sintaxe torta da frase seguinte. O leitor sofre um estranhamento neste contato brusco com um termo para ele impenetrável.
Mas o termo não é novo. Rosa apenas o tirou da escuridão literária.
Nos últimos meses, trombei com duas manifestações desta palavra em leituras bem diversas. Em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862-1863), de Joaquim Manuel de Macedo, no primeiro parágrafo de “A capela e o recolhimento de Nossa Senhora do Parto”, ela faz uma aparição: “Ou César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que com esta injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome de João Fernandes um sinônimo de nonada”. Ou seja, de coisa sem crédito, sem valor.
A mesma palavra aparece no plural já no primeiro capítulo de O drama da Fazenda Fortaleza (1941), do historiador paranaense Davi Carneiro, um livro que retrata os Campos Gerais de Curitiba na década de 1820: “...só ninharias atrapalhavam o fio do raciocínio mais alto, como se por nonadas somente, a imaginação devesse deixar a atenção desviar-se”.
Sim, a palavra já estava fertilizando nossa literatura, ligada ao povo, quando Guimarães Rosa se apossou dela. Hoje, não há como usá-la sem pagar tributo ao autor. Será sempre uma citação, uma referência explícita a Grande sertão: veredas.
É pelas grandes obras que as palavras ganham sobrenome.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
COMEÇA A TEMPORADA DE PRÊMIOS
Miguel Sanches Neto concorre aos prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom, que também tem entre seus selecionados Cristovão Tezza, Dalton Trevisan e José Castello
Por Yuri Al’Hanati, Gazeta do Povo 31/05/2011
Duas das principais premiações de literatura em língua portuguesa divulgaram nos últimos dias suas seleções prévias: o Prêmio São Paulo de Literatura, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo; e o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Portuguesa, da empresa de telecomunicações de mesmo nome – este último, uma das mais importantes láureas para autores lusófonos. As duas listas somam 70 títulos, sendo alguns repetidos.
De fato, à exceção de Ronaldo Wrobel, com Traduzindo Hannah, e Sérgio Mudado, com Os Negócios Extraordinários de um Certo Juca Peralta, todos os outros oito nomes indicados para o prêmio paulista na categoria Livro do Ano constam também da seleção de pré-finalistas do Portugal Telecom.
Entre eles, o do parananese Miguel Sanches Neto, que concorre nos dois com o polêmico romance Chá das Cinco com o Vampiro, inspirado por sua relação com o escritor Dalton Trevisan.
Dalton, por sua vez, concorre ao Portugal Telecom com seu último livro, Desgracida, uma coletânea de microcontos e cartas que foi recebido elogiosamente pela crítica como um ápice do estilo minimalista que fez do escritor uma personalidade literária.
Outros dois escritores que, embora não sejam paranaenses de nascimento, são radicados em Curitiba, também disputam o Portugal Telecom. Um deles é o carioca José Castello, com Ribamar, um romance de fundo autobiográfico sobre a sua relação com seu pai, José Ribamar, e que mistura ao enredo um certo fundo de crítica literária sobre o escritor checo Franz Kafka.
Já o catarinense Cristóvão Tezza entrou na lista com Um Erro Emocional, um romance delicado sobre a relação de um escritor com uma editora literária.
Tezza ganhou os dois prêmios em 2008 com seu romance O Filho Eterno, em que transformou a si próprio em personagem para narrar em terceira pessoa sua relação com seu filho, portador da síndrome de Down.
Os vencedores das duas categorias – Livro do Ano e Autor Estreante – do Prêmio São Paulo de Literatura serão conhecidos em agosto, durante a cerimônia no Museu de Língua Portuguesa. Cada um receberá R$ 200 mil. O resultado do Portugal Telecom, por sua vez, será divulgado em novembro, após a lista ser reduzida para dez finalistas dois meses antes, e os três primeiros colocados receberão R$ 100 mil, R$ 35 mil e R$ 15 mil, respectivamente.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
TEORIAS DO EU
Publicado no Caderno G, da Gazeta do Povo (Curitiba), 29 de maio de 2011.
A persona do artista é o principal mecanismo de formação de leitores. Segundo A. Alvarez (A Voz do Escritor, Civilização Brasileira: 2006), isso acontece porque, nas escolas e nas universidades, não se ensina mais a ler literatura, cabendo à mídia forjar ícones a partir de excentricidades. O autor se torna um marqueteiro de seu produto, como forma de sobrevivência num meio de festas literárias, entrevistas, oficinas e participação em programas de televisão, canais que drenam leitores para os títulos que de outra maneira passariam despercebidos. Com a consequência, segundo Alvarez, de que hoje “o artista não é mais alguém que use as suas habilidades e sua percepção para criar uma obra de arte com vida própria; não, ele é um showman, uma personalidade pública, cuja principal obra de arte é ele mesmo.” (p.133). No caso do Brasil, isto é mais intenso dada a nossa tendência para a autobustificação (o termo é de Ivan Lessa) que a crônica permite. Neste gênero, o eu é a peça-chave, o que faz da crônica o lugar literário da construção de nossa personalidade pública.
E a grande personalidade pública da crônica brasileira contemporânea é o poeta Fabrício Carpinejar. Borralheiro: Minha Viagem pela Casa traz crônicas rápidas e românticas, que giram em torno do papel do homem na relação, um homem agora alegremente do lar. Da comida à arrumação, do problema da diarista à recepção da mulher que chega do trabalho, do cardápio às táticas amorosas, da compra de roupas à ida aos salões para pintar as unhas, Carpinejar trata de questões antes tidas como femininas, sem deixar de falar de bebida, futebol, ereção, enfim, essas coisas de homem. No centro dessa aventura estão o autor e sua mulher, um casal moderno e divertido, que torna a vida conjugal de todos um tanto apagada. Por isso se tornam heróis domésticos.
Como construção, as crônicas de Capinejar têm grande agilidade. Usando as malícias do poeta, ele inverte pontos de vista, cria metáforas cotidianas, surpreende estabelecendo paralelos inusitados, sempre em frases afiadas. A sua crônica, na grande maioria das vezes, não é narrativa, mas dissertativa. O cronista se faz o filósofo da vida banal, e tira dela pequenas iluminações, como: “Amadurecer é não estar preparado” (p.239). Há uma recorrência dessas frases fortes, sobrepondo os fragmentos ao todo da crônica. É a identidade do poeta habituado ao twitter que se manifesta nos melhores momentos que cada uma de suas crônicas tem.
Algumas, no entanto, funcionam como conjunto e não apenas nas frases brilhantes; nestas crônicas, o autor se revela em todo o seu potencial criador, como em “Greve”, em que ele fala da necessidade de o poeta ter uma modelo nua para poder escrever; ou em “Cuidado com o Que Ela Sonha”, uma história borgeana do perigo que representa a maneira como a amada nos vê nos sonhos; ou ainda na memorialística “Casinha de Salva-vidas”, sobre um amor de verão que nunca termina.
Os textos do livro trazem sempre a mesma estrutura narrativa: uma sucessão de frases organizadas em torno de um tema, que o expandem de maneira acelerada. Uma frase puxa a outra que puxa a outra, criando um som monocórdio, em que as palavras não dançam, antes marcham. Há também uma obsessão pelo verbo ser, próprio para definir as coisas, uma vez que o cronista é essencialmente um divertido definidor. A repetição da primeira pessoal verbal é outra marca do texto, que vai assim construindo não apenas uma imagem do autor, mas um discurso amoroso sobre ele próprio, dentro da lógica de valorização da marca: “Acreditei em mim porque ninguém iria acreditar em meu lugar” (p.238); “Não é fugindo que me tornarei importante na minha vida. / É amando o que me faltava amar: eu” (p.238). Com este amor ao próprio eu, teorizado em cada uma das crônicas, e um visual performático para aparecer em público, Carpinejar fez a fusão de literatura e showbiz.
Serviço: Borralheiro: Minha Viagem pela Casa , de Fabrício Capinejar. Bertrand Brasil, 256 págs.,
A persona do artista é o principal mecanismo de formação de leitores. Segundo A. Alvarez (A Voz do Escritor, Civilização Brasileira: 2006), isso acontece porque, nas escolas e nas universidades, não se ensina mais a ler literatura, cabendo à mídia forjar ícones a partir de excentricidades. O autor se torna um marqueteiro de seu produto, como forma de sobrevivência num meio de festas literárias, entrevistas, oficinas e participação em programas de televisão, canais que drenam leitores para os títulos que de outra maneira passariam despercebidos. Com a consequência, segundo Alvarez, de que hoje “o artista não é mais alguém que use as suas habilidades e sua percepção para criar uma obra de arte com vida própria; não, ele é um showman, uma personalidade pública, cuja principal obra de arte é ele mesmo.” (p.133). No caso do Brasil, isto é mais intenso dada a nossa tendência para a autobustificação (o termo é de Ivan Lessa) que a crônica permite. Neste gênero, o eu é a peça-chave, o que faz da crônica o lugar literário da construção de nossa personalidade pública.
E a grande personalidade pública da crônica brasileira contemporânea é o poeta Fabrício Carpinejar. Borralheiro: Minha Viagem pela Casa traz crônicas rápidas e românticas, que giram em torno do papel do homem na relação, um homem agora alegremente do lar. Da comida à arrumação, do problema da diarista à recepção da mulher que chega do trabalho, do cardápio às táticas amorosas, da compra de roupas à ida aos salões para pintar as unhas, Carpinejar trata de questões antes tidas como femininas, sem deixar de falar de bebida, futebol, ereção, enfim, essas coisas de homem. No centro dessa aventura estão o autor e sua mulher, um casal moderno e divertido, que torna a vida conjugal de todos um tanto apagada. Por isso se tornam heróis domésticos.
Como construção, as crônicas de Capinejar têm grande agilidade. Usando as malícias do poeta, ele inverte pontos de vista, cria metáforas cotidianas, surpreende estabelecendo paralelos inusitados, sempre em frases afiadas. A sua crônica, na grande maioria das vezes, não é narrativa, mas dissertativa. O cronista se faz o filósofo da vida banal, e tira dela pequenas iluminações, como: “Amadurecer é não estar preparado” (p.239). Há uma recorrência dessas frases fortes, sobrepondo os fragmentos ao todo da crônica. É a identidade do poeta habituado ao twitter que se manifesta nos melhores momentos que cada uma de suas crônicas tem.
Algumas, no entanto, funcionam como conjunto e não apenas nas frases brilhantes; nestas crônicas, o autor se revela em todo o seu potencial criador, como em “Greve”, em que ele fala da necessidade de o poeta ter uma modelo nua para poder escrever; ou em “Cuidado com o Que Ela Sonha”, uma história borgeana do perigo que representa a maneira como a amada nos vê nos sonhos; ou ainda na memorialística “Casinha de Salva-vidas”, sobre um amor de verão que nunca termina.
Os textos do livro trazem sempre a mesma estrutura narrativa: uma sucessão de frases organizadas em torno de um tema, que o expandem de maneira acelerada. Uma frase puxa a outra que puxa a outra, criando um som monocórdio, em que as palavras não dançam, antes marcham. Há também uma obsessão pelo verbo ser, próprio para definir as coisas, uma vez que o cronista é essencialmente um divertido definidor. A repetição da primeira pessoal verbal é outra marca do texto, que vai assim construindo não apenas uma imagem do autor, mas um discurso amoroso sobre ele próprio, dentro da lógica de valorização da marca: “Acreditei em mim porque ninguém iria acreditar em meu lugar” (p.238); “Não é fugindo que me tornarei importante na minha vida. / É amando o que me faltava amar: eu” (p.238). Com este amor ao próprio eu, teorizado em cada uma das crônicas, e um visual performático para aparecer em público, Carpinejar fez a fusão de literatura e showbiz.
Serviço: Borralheiro: Minha Viagem pela Casa , de Fabrício Capinejar. Bertrand Brasil, 256 págs.,
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